Fall

23 Vigésimo Terceiro Capítulo


Já se fazia uma hora e meia desde que Harry e Tom haviam saído de casa e Danny ainda estava no quarto. Eu estava na sala com o meu notebook tentando fazer o tempo passar. Conversava com algumas garotas da minha sala sobre o nosso trabalho de história da arte pelo Facebook. Então ouvi uma porta no andar de cima ser aberta num estalo quase tão alto como o que foi fechada.

Danny desceu a escada de dois em dois degraus – Eu me curvei para olhar. Ele não parecia mais tão bravo. Ele passou por mim contornando o sofá e então parou na minha frente.

-Já que vamos ficar só nós dois até amanhã em casa... – Ele começou até que um pouco sem graça – Eu acho justo a gente fazer alguma coisa, ou ir até algum lugar – Deu um sorriso. Um sorriso bem bonito, por sinal.

-Bom – Eu respondi depois de um ou dois segundos pensando – Já que o Tom e o Harry não estão... Você me levar pra beber alguma coisa – Tentei imitar o sorriso, mas provavelmente tenha ficado parecido com um macaco ou algo do tipo.

-Tipo num Bar? – Ele continuou sorrindo, mas agora com os olhos também.

-Eu tinha pensado num bar mesmo.

-Que horas são?

-Vinte para as cinco. – Eu olhei no computador em meu colo.

-Então vai trocar de roupa, porque os Pubs abrem às cinco. – Ele respondeu rindo, eu ri também e já fui me levantando.

Pegamos um ônibus circular para sair do campus, caminhamos por alguns minutos e entramos num pub que Danny apontou com o dedo quando dobramos uma esquina.

Normalmente o segurança teria pedido minha identidade para confirmar minha idade, mas pelo visto Danny frequentava aquele pub mais do que a própria faculdade. Ele cumprimentou o nome pelo nome. Então entramos.

Era bem como eu pensei que fosse. Um pouco escuro, com mesas de sinuca e dardos. Chopp para todo lado mesmo que não tivesse anoitecido ainda. Um balcão bem grande com muitas bebidas por trás dele. Só não imaginava que os garçons seriam universitários. Provavelmente da mesma universidade que eu e Danny.

Pra falar verdade, essas são umas das ultimas coisas que me lembro do Pub. Me lembro de ter sentado no balcão com Danny e ter tomado duas ou três canecas de Chopp. Me lembro de que depois disso começamos com destilados. Algumas doses de Vodca, uma ou duas de tequila com sal e limão... E depois disso, me lembro de estar no sofá de casa.

Acordei assustado num pulo. Danny estava sentado ao meu lado. Minha cabeça latejava de uma maneira agressiva. Olhei no relógio e vi que já passavam das onze. Eu ainda estava um pouco tonto.

-Era sua primeira vez, né? – Danny perguntou comicamente.

-Era – Respondi depois de um tempo.

-Você não se lembra de nada, né? – Ele perguntou.

-Não... Pra falar a verdade não sei nem como viemos parar em casa.

-Até que você não deu tanto trabalho. Você nem vomitou... Só dormiu... Por umas três horas.

-Que bom. Mas sério... Como nós viemos parar em casa?

-Eu pedi um taxi, achei que você fosse passar mal no ônibus.

-Obrigado... Eu até lembro de algumas coisas – Disse com a mão na cabeça, estava doendo mesmo – Lembro de ter jogado sinuca com você...

-E não ter encaçapado nem uma bola – Ele me interrompeu rindo. Eu gargalhei.

-Enfim... –Disse quando parei de rir – Me lembro de ter virado tequila com sal e limão... Lembro de ter derrubado Chopp na mesa – As coisas vinham aos poucos, parecia que a minha cabeça doía mais a cada coisa que eu lembrava – E também me lembro de... – Eu olhei para Danny com os olhos arregalados, e pelo visto ele sabia o que eu ia falar – Ter beijado você! Meu Deus!

-A gente se beijou... Eu sei – Ele assentiu com a cabeça – Acho que foi meio que minha culpa.

-Alguém viu?

-Acho que não, foi meio rápido.

Eu ainda estava um pouco pasmo com aquilo. Mas não era como se eu tivesse traído Harry – Não era como se ele precisasse saber daquilo. Além do mais ele já tinha feito parecido naquela festa... Eu não queria pensar a respeito de nada disso.

-Danny, — Ele olhou para mim – Eu sempre achei que você não gostasse de mim, pelo menos não gostasse muito...

-Eu gosto – Ele começou a falar – É sério, gosto mesmo. É que quando você chegou, você já ficou com o Tom, e eu gostava dele. E depois disso eu estava como o Tom e você com o Harry, não tinha muito como conversámos, eu acho.

Eu fiz um bico, e fiquei sem respostas. Então, sem motivos, eu o abracei.

-Você ainda está bêbado? – Ele perguntou.

-Acho que sim, um pouco. – Eu respondi ainda o abraçando.

-Dougie. – Eu olhei para ele – Acho que eu já vou dormir. Melhor você fazer o mesmo. – Disse um pouco seco.

Me senti estranho, mas me levantei e subi para o meu quarto – Danny me acompanhou para garantir que eu chegaria até lá. Na porta ele me segurou pelos ombros e disse:

-Acho que é aqui que nos despedimos. Qualquer coisa pode me chamar. Ou se não estiver se sentindo bem, dorme no meu quarto.

-Obrigado. Obrigado mesmo Danny. Estou em débito com você depois de hoje.

-Não tem problema, Dougie. Um dia você me recompensa por isso de algum modo...

Eu dei um beijo em seu rosto e entrei no quarto.

Acho que foi a cena mais tosca da minha vida, quando – com Danny ainda entre os batentes da porta – eu fui tirar minha calça e caí de cara no chão. Ele correu até mim com um “deixa eu te ajudar com isso”. Ele me levantou do chão e, de joelhos, terminou de tirar minha calça, tirando o tênis primeiro, porque foi onde eu errei. Ele se levantou e – dessa vez, de certa forma, “mais próximo” – começou a tirar minha jaqueta. Nós dois sabíamos que eu estava em condições de abrir um zíper sozinho, mas ele parecia estar gostando daquilo. Eu apenas me deixava levar por ele, enquanto ele tirava minha camiseta. Nós tínhamos contato visual constantemente ele parecia se aproximar. Eu ouvia sua respiração ofegante e eu sabia que seu sangue corria tão rápido quando o meu.

Eu estava apenas de cueca quando ele me deixou em minha cama e saiu do quarto. Eu fiquei sentado na mesma posição por um tempo. Pensei em riscos, em consequências... Mas preferi ignorar por hora. Me levantei e, ainda apenas em roupa de baixo, caminhei pelo pequeno quarto de Danny e, talvez por sorte, o encontrei nas mesmas condições que eu.

Eu simplesmente andei até ele e já foi o bastante para ter suas mãos em minha cintura.

-Eu não quero dormir sozinho. – Eu sussurrei. Ele entendeu que eu não referia a um quarto vazio, e sim a uma cama vazia.

Me conduziu até a cama arrumada do quarto – Provavelmente a outra era onde ele dormia com Tom – eu me sentei fui me arrastando até me encostar na parede. Ele se posicionou ao meu lado. Segurou minha mão. Então nos beijamos, como se fosse nosso primeiro, afinal eu não me lembrava direito do outro.

Seus lábios macios iam pelos meus e nossas línguas se acariciavam lentamente. Eu me perguntava por que eu estava fazendo aquilo. Eu não achava motivos para fazer, e por mais que eu encontrasse motivo para não fazer, eu não parei.

A luz estava apagada, então eu mal podia ver as sardas pelo corpo seminu de Danny. Nós nos deitamos e nos cobrimos. Eu estava desconfortável sem saber como ficar na cama com ele. Ele percebeu que eu estava mais tímido. Me virei trocando de posição algumas vezes, estava com vergonha. Então ele me colocou em seu peito e afagou meu cabelo suavemente. Me deu um pouco de amor que já tinha destinatário: Tom. Eu me aconcheguei onde estava e ele beijou no topo da cabeça.

Eu não sabia como tinha ido parar lá, mas era óbvio que aquilo estava acontecendo. Eu corria por um corredor sujo e escuro sem fim, como se algo corresse atrás de mim. Até chegar numa porta. Eu a abri com força. Havia sangue no chão. Eu já havia estado lá – Era o mesmo prédio, mas dessa vez estava diferente. Tudo estava podre e havia muito sangue mesmo no chão. Eu andava por aquele lugar sem sentido ou direção, olhei pela segunda vez para a sacada mais longe de mim, e desta vez havia um homem lá. Estava de costas para mim, mas se virou enquanto eu o assistia. Eu já sabia quem era, não pelo rosto e sim pelos olhos – Harry.

Parado ao parapeito com um buraco no peito que ainda sangrava por cima de sua camisa xadrez. O sol se punha por trás dele. Seu rosto estava sujo e inchado.

Então eu ouvi aquela porta ser aberta outra vez, me virei de relance e vi alguém parado na sombra. Talvez fosse o motivo de minha pressa pelo corredor. O vulto elevou um braço à altura dos olhos e eu pude ver o revolver em sua mão. Eu estava entre ele e Harry quando ele puxou o gatilho. A bala passou por mim antes de um grito sair da minha boca, um grito que nunca saiu. O projetil me atravessou direto, sem dor, como se eu não estivesse lá – Foi direto para o homem no parapeito. Harry foi atingido em cheio, no meio da ferida em seu peito e fui atirado para trás. Eu pude ver a luz deixar seus olhos. Eu não tive reação alguma, caí ao chão e foi quando vi em minha mão o mesmo revolver de instantes atrás. O vulto saía da sombra para a luz quando eu enxerguei meu próprio rosto nele.

Antes que a primeira lágrima caísse de meus olhos, ergui a arma à altura da minha cabeça – Era tudo minha culpa, eu havia matado Harry – Apertei o gatilho.

Acordei ofegante ainda no peito de Danny, ele ainda dormia. Era só um sonho... Eu molhei o peito de Danny com lágrimas amargas antes de voltar a dormir.

Culpa.

Notas finais
Eu nunca gosto dos POVs do Dougie :/