Fall

25 Vigésimo Quinto Capítulo (season finale)


Notas iniciais
POV - Danny

Nenhuma cama de casal foi montada naquela tarde. Eu dormi sozinho em meu quarto como nos velhos tempos, e não, isso não era uma coisa boa.

Tom não olhava diretamente para mim e eu podia ver em seu rosto que ele também havia chorado muito durante a noite longa. Eu não sabia o que fazer ou falar – Minha cabeça latejava muito mesmo depois de três aspirinas. Não era problema de fígado, eu não tinha bebido tanto assim no escuro.

Eu não tinha sido bom com Tom desde o começo. Eu percebi isso quando, por uma noite, o perdi. Naquela festa com meus amigos da faculdade onde eu o deixei de lado por vergonha de quem eu sou e com quem eu estava. Em todas as brigas porque eu tentava me esconder. E agora isso com Dougie.

Tudo aquilo já não fazia mais sentido.

A dor de cabeça começava a passar, mas eu percebia que meu peito doía o dobro. Eu não tinha pra onde correr, nem onde me esconder. Eu não tinha mais lágrimas para chorar. Como eu odeio segundas feiras.

Harry e Dougie estavam na aula, normalmente seria a hora em que eu me deitaria no colo de Tom e assistiríamos TV juntos, mas obviamente isso não aconteceria. Tom havia ido para a biblioteca além de tudo.

Faltava menos de um dia para o festival de Cinema da faculdade. Eu e meu grupo já tínhamos o projeto pronto para apresentar e meus pais prometeram que viriam esse ano, como no último também vieram. Mesmo assim eu não queria ir – Não sem Tom comigo.

Então eu bolei um plano. Saí mais cedo para a aula e fiquei parado em frente ao prédio do Marketing.

Harry apareceu entre a multidão com o celular em mãos. Ele não mudou nem um décimo de sua expressão facial ao me ver, como se tivesse olhado através de mim. Eu o segurei pelo braço quando ele tentou passar direto por mim.

-Eu sei que o que eu fiz foi errado, e eu sei que você está puto comigo. Mas você pode pelo menos me ouvir?

Com a mesma expressão de desgosto e deboche ele me mandou o seguir, fomos para a sala de aula dele, que agora estava vazia. Então ele grunhiu algo falando para eu prosseguir.

-A culpa foi toda minha, eu sei... Eu não devia ter dado bebida para ele, eu não devia ter me aproximado e não devia ter dormido com ele, não daquele jeito pelo menos. – Ele ergueu uma sobrancelha – Então... Por favor, Harry – Eu puis as duas mãos em seus ombros – Me perdoa por isso... – Eu afundei meu rosto em seu peito – Eu te amo Harry, te amo pra caramba... Você é o melhor amigo que eu tenho.

Seus braços me envolveram. Então eu levantei meu rosto e repousei em seu ombro. Nos abraçamos por alguns segundos sem nada ser proferido. Então ele me afastou dele com as mãos.

-Você precisa parar de beber, Danny... – Disse levantando a cabeça abrindo um sorriso. Aquele par de olhos da cor do dia mais ensolarado de verão.

Ele passou a mão para minha nuca, pondo os dedos entre o meu cabelo me abraçando outra vez.

-Eu também te amo Dan... Mas não quero mais te ver de gracinha com o meu... Namorado – Ele disse me mostrando o anel prateado em seu dedo e mordeu o lábio inferior.

Rimos juntos. E logo ele foi ao encontro de Dougie e eu de volta para minha vidinha de universitário.

Meu grupo e eu decidimos os pontos finais do festival. Eles estavam notavelmente mais animados do que eu, mas se me perguntasse uma semana atrás eu seria o estranho do grupo por estar nítida e excessivamente mais excitado com o projeto.

Horas se tornaram minutos e logo eu dormi mais uma noite sozinho em meu quarto. Diferente daquela noite, o quarto não parecia tão vazio. Estava cheio de fantasmas ao meu redor, lembranças e remorsos. Eu preferia o vazio, mas era algo que eu sabia que teria que passar.

Mesmo com tudo aquilo, nenhuma lágrima saiu dos meus olhos. Fiquei encarando o teto até dormir em sonhos ridículos e sem nexo a minha realidade. Eu me sentia patético.

Acordei com a voz de Harry repetindo meu nome freneticamente pela manhã.

-Danny – E mais outras dezessete vezes... – Seus pais vão vir mesmo para o festival?

Minha cabeça ainda não estava funcionando da melhor maneira, não que costume funcionar em hora alguma do dia, mas pela manhã era algo impossível de acontecer.

-O que? – Eu disse apertando minhas têmporas.

-Dan... Seus pais... Eles vão vir para o festival hoje à noite?

-Pra falar a verdade Harry, eles já devem ter saído de casa – Eu disse ao olhar no relógio e ver que já passavam das onze – Eles queriam almoçar comigo.

-Danny, eles não podem vir! – Ele disse com dor no olhar.

-Como assim eles não podem vir Harry?! – Eu retruquei.

-Danny... – Ele disse levando a mão ao rosto – Porra, isso vai ser difícil de explicar – Ele começava a me assustar – Lembra da Megan?

-Aquela vadia ruiva? – Eu perguntei.

-É... Ela descobriu que eu estou com o Dougie, se revoltou e disse que iria postar no blog dela isso, junto com uma foto que ela mesma tirou nossa...

-E o que isso tem a ver com o festival? – Retruquei outra vez.

-Quando ela fez isso, o Dougie pediu pra irmã dele tirar o blog da Megan do ar... Além disso, ela sabe de você e do Tom e...

Eu começava a entender o que ele queria dizer, porque eu sabia que Megan estava agora saindo com um cara da minha sala, por incrível que pareça minha cabeça estava agindo bem rápido.

-Harry... Você acha que...

-Ela conseguiu até uma foto de você beijando o Dougie no bar – Ele dizia desesperado, e eu começava a sentir meu peito bater mais rápido do que um 808 – E ela vai mostrar isso hoje no festival de cinema da faculdade...

-Espera Harry! – Eu gritei – Como você sabe disso? E há quanto tempo isso acontece? E o Tom tá sabendo disso? E por que vocês não me contaram?!

-A parte do festival, ela acabou de me mandar uma mensagem dizendo. Tá acontecendo há pouco mais de uma semana. O Tom sabe disso desde o começo, escolhemos não te falar pra você não ficar uma pilha de nervos. Fomos prepotentes e achamos que poderíamos resolver sem ter que te abalar. Não te contamos pra te proteger.

Eu não disse nada. Peguei minha bolsa, joguei ela por cima do ombro e fui almoçar com meus pais.

Eu me perdi no caminho, perdi dentro de mim mesmo em desespero. Seria o fim se meus pais soubessem. Eles com certeza eram contra qualquer manifestação não heterossexual no mundo, seria um choque para eles tudo aquilo: Eu ser um viado para eles, eu morar com mais três viados, e ainda por cima namorar com um deles, e ser exposto beijando outro. Eu não conseguia me acalmar.

Entretanto, eu não os via há dois meses, então foi bom matar a saudade, mas era como se fosse pela ultima vez, eu comi em silêncio e eles me perguntaram exatas nove vezes o que eu tinha por estar tão quieto. Eu menti dez vezes para eles.

Logo fomos todos para o anfiteatro. Harry me mandou uma mensagem de texto dizendo que ele, Tom e Dougie estariam sentados na ultima fileira. Deixei meus pais na segunda e fui para trás do palco com o resto do meu grupo.

Meu sangue fervia nas veias, minha cabeça girava lentamente e eu estava completamente tomado pelo torpor sem fim. Me acusaram de estar com febre, mas eu sabia que não estava. Por mais que estivesse realmente muito frio naquele dia dois de outubro.

Eu pensei em mil formas de tentar detê-la enquanto eu e meu grupo nos levantávamos para ir para o palco, até quando Harry entrou na sala e começou a falar comigo numa velocidade mais rápido do que eu achei possível dissolver.

-Eu sei como pará-la Danny. Eu posso pegar o notebook dela, está tudo lá, eu sei que está. Ela guardava tudo lá. Ela guarda tudo no notebook Danny. Eu vou fazer isso. E vou fazer isso agora. Ela disse que vai passar um clipe dela falando de nós depois do filme do seu grupo, Danny.

Eu tive menos de um segundo para raciocinar, menos de uma fração de segundo para tomar minha decisão e um décimo de segundo para impedir Harry pelo braço e segurá-lo em minha frente.

-Deixa Harry. Eu cansei de tentar fugir disso. Eu não vou mais esconder. Eu vou matar o que me separa do Tom. Vocês só estão fazendo isso por mim, não é?

-É Danny, mas você pode fazer isso quando seus pais não estiverem aqui. Outro dia.

-Não. Eu vou fazer isso agora.

Seu olhar perdido não sabia o que fazer. Então eu o mandei voltar para assistir o curta metragem do meu grupo e contar para Tom o que eu estava prestes a fazer. Ele foi sem muito mais delongas.

Subi a pequena escada até o palco quando anunciaram nosso grupo no microfone. Mickey, o mais velho do grupo apresentou o projeto por ele mesmo e nós três restantes só dissemos nossos nomes em voz alta.

O filme rolou inteiro enquanto meu sangue pulsava a mais de mil quilômetros por hora em minhas artérias e veias. Eu olhei para meus pais, e eles assistiam felizes. De fato o curta estava muito bom, sobre aquecimento global e sustentabilidade. Me doía saber que aquele ia ser o ultimo olhar de aprovação deles sobre algo meu.

Os créditos subiram e logo os aplausos. Então outra coisa começou a passar na parede branca. Era Megan usando óculos grandes e quadrados de leitura num vídeo nitidamente filmado com uma webcam.

-Boa tarde, estudantes da Uni London, vocês devem estar se perguntando... “Que porra é essa?” ... Bom, para começar eu estou aqui para contar mais uma fofoca pra vocês, eu sei que vocês amam uma boa fofoca, não é atoa que meu blog é tão visitado por vocês. – Ela jurava por Deus que o nome do meio dela era Gossip Girl pelo modo que falava – Vocês conhecem o Harry, o Daniel, o Thomas e o Dougie? – Fotos de nós quatro apareceram na tela – Pois bem... Eles quatro vivem juntos... E vocês sabem por quê? – Fez uma pequena pausa, e foi quando eu olhei para Harry – Porque eles quatro são gays, e se pegam entre eles! Não é engraçado!? – Meus três colegas do projeto se viraram para mim, eu não olhei para eles.

Meus pulmões falharam enquanto eu encarava a multidão na plateia. Olhei para meus pais engolindo o choro. Todos me encaravam de volta com desprezo. Então eu olhei para meus pais que estavam, logicamente, em choque com tudo aquilo. Minha mãe começava a chorar. Megan continuou a falar no vídeo:

-E essas fotos comprovam isso, eu imagino – As fotos apareceram – Quem o Harry queria enganar quando me pegava? – O vídeo foi cortado. Alguém havia desligado a aparelhagem.

Eu não olhei para mais ninguém, só para meus pais enquanto meu pai tinha raiva no olhar e minha mãe agora chorava sem parar. Andei o mais rápido que pude sem correr pelo corredor lateral, que não estava iluminado de maneira alguma, rezei para não tropeçar. Parecia o final de um filme de tragédia, onde a cortina caía junto com uma máscara.

Eu nunca tinha me sentido tão vulnerável em toda a minha vida. Algo que eu não desejava para mais ninguém, exceto Megan. Eu nunca tinha trocado nada além de “olá” com ela e ela, da pior maneira, me arrancara os pais. Saí ofegante do anfiteatro antes de realmente ouvir as risadas da plateia.

Era mesmo um filme de tragédia, porque chovia naquele momento no estacionamento. Era tudo tão clichê. Eu passava pelos carros encharcados quando ouvi meu nome num timbre que eu conhecia bem, e agradeci aos céus por não ser o de meu pai.

Lindos cabelos loiros ao vento e a chuva gélida daquela tarde de outono. As gotas atingiam sua roupa cinzenta a tornando mais escura e eu assistia aquilo entre minhas lágrimas e o torpor.

-Dan! – Tom disse outra vez quando eu não respondi de primeira – O que você fez?! – Perguntou inconformado. – Por que você fez aquilo?

-Eu precisava Tom – A distância e a chuva nos faziam ter que gritar – Eu não posso mais ficar sem você... Achei que assim você fosse ver que eu estou aqui pra você independente do que acontecer. Porque eu te amo Tom! Sempre amei, você foi o primeiro, e o único que eu amei na vida... E vai ser o último — Nós dois estávamos chorando agora. Ele veio em minha direção – Mesmo que você não me queira mais.

Ele chegou até mim. Seu rosto estava coberto de gotas de chuva gelada e lágrimas quentes.

-Nada mais vai me separar de você Danny, nunca mais.

Ele me beijou e eu retribui na hora. Deixei completamente que ele me conduzisse e puis meus braços ao seu redor enquanto ele passava os seus por trás de minha nuca.

-Estar com você de novo já me faz parecer que os problemas não existem – Ele disse em meu ouvido.

-Tom... Olhar pra você já faz com que eles não existam mais para mim. Já faz toda a merda que eu passei na minha vida antes de te conhecer ter valido a pena.

Ele sorriu e então meus problemas já tinham ido, de fato embora. Eu sabia que algo ainda ia dar com meus pais, e provavelmente dentro de alguns minutos. Mas eu não desperdiçaria nenhum momento com Tom a partir daquela tarde. Ele era meu porto seguro, meu único motivo de lutar até a morte. E não haveria preconceito dos meus pais ou de qualquer estudante de merda daquele campus que me fariam pensar diferente.

Eu estaria lá para Tom vindo o que viesse.

Acontecendo o que acontecesse.

Eu lutaria até o fim.

Notas finais
FIM DA 1ª TEMPORADA. O QUE ACHARAM?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!