Fall
4 Quarto Capítulo
Ter beijado Dougie poderia ter sido algo mais estranho. Estranho foi por ter sido o meu novo colega de quarto, não por ele ser um garoto – Eu não tinha costume de beijar muitas garotas.
Eu o beijei por poucos segundos e me afastei. – Talvez porque eu tivesse acabado de perceber o que eu estava fazendo. Ele abaixou a cabeça e deu um passo para trás e começou a fazer seu caminho de volta para a escada. Não deixei que ele desse mais nenhum passo. O puxei pelo braço e o beijei de volta. Eu tive que me inclinar um pouco para baixo, mas o gosto superava a dificuldade.
Bati a porta com o pé, pequei com o barulho, Harry e Danny ainda dormiam. Conduzi Dougie até o sofá, que não ficava a mais de sete passos da porta. Ele tremia um pouco, não sabia se era de nervoso ou de frio – Ou se por causa dos dois. Eu estava com um pulôver e uma jaqueta por cima, e ele estava apenas de cueca e camiseta. Tirei minha jaqueta e o embrulhei nela. Ele sorriu em agradecimento, e não precisaria de mais que isso. Me sentei ao seu lado e voltei a beijá-lo, ainda que sutil e lentamente. Seus lábios eram doces e seu rosto era macio. Eu me perguntava se aquilo era certo, iria certamente afetar todos da casa.
Todos os pensamentos eram completamente perdidos e eram tão em vão quanto inválidos quando seus lábios se encontravam com os meus e meus dedos corriam por seu corpo.
Logo estávamos deitados de frente no sofá, eu assisti o sono finalmente chegar a seus olhos. Eu deslizava a mão por seu cabelo e ia o deixando mais confortável no sofá enquanto o beijava. Não demorou mais de meia hora até que ele pegasse no sono – Ele era tão parecido com um bebê... Saí do sofá sem fazer movimentos bruscos ou som algum. Peguei o papel com o numero do meu telefone no chão. Complementei com um “Qualquer hora” e deixei dobrado em sua mão.
Saí pela porta e tranquei com minha própria chave, o que me lembrou de que Dougie ainda não tinha uma chave da casa. Depois eu pensaria nisso, naquele momento eu tinha que arranjar uma desculpa para não ter aparecido na primeira aula.
-o-
Tinha sido tudo tão rápido. Eu acabara de beijá-lo e já o tinha dormindo em minha frente. E isso não me segurou em casa. Já estava na porta da minha sala quando pensei em ligar para ele, mas talvez ele ainda dormisse. Preferi não ligar. Guardei meu celular no bolso e entrei para a aula.
Eu não tinha a menor intenção de contar o que ocorrera na sala da minha casa ainda há pouco para ninguém, não me envolvia apenas, envolvia um garoto que eu conhecia há pouco mais de vinte quatro horas, um garoto doce com algum problema muito grava que ele escondia bem... Porque eu realmente não tinha acreditado que ele estava tão triste por uma amiga estar internada. Eu certamente descobriria a verdade, mas não me ocorria a vontade de vasculhar.
Eu não conversei muito com Ellie naquela manhã acinzentada. Ellie era uma garota um tanto complicada, ela era simpática e comunicativa quando queria ser, mas sabia ser também insensível e persuasiva em certas horas . Perceptivelmente de descendência japonesa. Usava um corte de cabelo curto, estilo channel. Era de uma beleza ímpar, mas não se envolvia com muitos garotos. Tinha disciplina e visava seu futuro profissional antes de se envolver em um relacionamento amoroso. – Era também, a única garota que eu conversava dentre todos os alunos de Jornalismo.
Quando fazia meu caminho de volta para casa meu celular começou a tocar com o ringtone do Danny. Atendi.
-Alo? – Não era algo tão comum o Danny me ligar.
-Tom... O garoto novo se mandou. – Ele disse quase que naturalmente. Eu senti um calafrio tomar conta da minha coluna vertebral. Subindo por ela como uma lâmina gélida.
-O Quê?! – Eu parei de andar e perguntei gritando – E o que vocês fizeram a respeito disso?!
-Eu acordei, vi a cama feita e que a maioria das coisas dele tinha sumido. Acordei o Harry e ele disse pra te ligar.
-Pega o carro e vêm me buscar... Estou saindo da aula agora. Rápido, Danny!
-Ok! – Eu desliguei antes que ele falasse mais alguma coisa.
Comecei a me perguntar o que levara o garoto a sair de nossa casa. Coloquei a mão na testa e apertei minhas têmporas. Desci minha mão pesada pelo rosto. Comecei a lembrar que nós não tínhamos nem pedido o numero do celular dele. O vento gelado batia em meu corpo reforçando meus calafrios.
Em questão de dois ou três minutos, Danny e Harry estavam lá com o nosso carro obsoleto. Eu entrei correndo e apenas mandei que Harry dirigisse – e rápido. Dougie não poderia ter ido longe.
-Há quanto tempo vocês perceberam que ele saiu?
-Uns vinte minutos. – Harry respondeu tirando o olho da rua e olhando no relógio.
-Vamos procurar, eu faço ele voltar pra casa.
-O que aconteceu Tom, você tá escondendo algo da gente. – Danny falou.
-Depois eu explico. Agora só vamos, por favor. – Disse sério, ainda que suplicando.
Passamos pelo parque, ele não estava lá. Passamos por todas as ruas perto do campus e nem sinal dele. Nós três já estávamos completamente preocupado, e Danny começava a nos mandar desistir. Mas aparentemente Harry tinha a mesma pretensão de achar Dougie quanto eu. Sua educação com Danny diminuía cada vez que Danny nos desmotivava.
Então estávamos desesperançados, mas ainda motivados. Andávamos com o carro por uma avenida cumprida, que daria no centro de Londres. Havia muitas folhas amarronzadas pela calçada. Eu olhava em cada vitrine.
Foi então que do meu lado esquerdo passou um ônibus não muito mais rápido que nosso carro. Bati o olho nas janelas, de relance pensei ter visto o rosto do pequeno em uma delas. No susto voltei meus olhos para ela – Era mesmo ele.
-É ele! No ônibus! – Apontei para o garoto, ele quase dormia encostado na janela com fones de ouvido.
-Harry acelerou e entrou na frente do ônibus com o carro numa manobra arriscada entre dois carros, então começou a diminuir a velocidade para que nós e o ônibus parássemos no próximo semáforo. A luz vermelha se acendeu e eu abria porta do carro. Corri a até o ônibus.
Soquei a porta pedindo que o motorista abrisse a porta. O homem olhou para mim com desprezo, mas abriu-a. Entrei no veículo indo direto pra onde pensei ter visto o garoto.
Lá estava ele, tomou um susto quando me viu chegando como se tivesse visto um fantasma. Tentou esconder o rosto por um segundo. Eu me aproximei e vi que o banco ao seu lado estava ocupado por sua mala quase de seu tamanho. A retirei do banco cautelosamente e a coloquei no banco da frente. Me sentei ao lado dele. Ele olhou para baixo, levei minha mão ao seu queixo e o puxei para mim. Ele olhava embaraçosamente pra mim.
-Por que você partiu? – Perguntei enquanto levava minha mão para sua nuca.
-Porque eu não podia ficar lá... Eu estreguei tudo quando beijei você. Mais cedo ou mais tarde isso vai acabar. E eu vou embora. Prefiro ir antes de começar a gostar de você, e me apegar a vocês três. Vocês são ótimos, me acolheram tão bem, e eu fui mal agradecido indo embora sem me explicar, sem me despedir... – Ele falava rápido e seus olhos transbordavam. Outra vez no mesmo dia – Eu simplesmente não posso ter mais perdas. – Eu segurei sua cabeça e a repousei em meu ombro e o abracei com força.
Em seguida o beijei. Sua pele estava quente, ele tremia. Dessa vez eu sabia que era de medo – Ele usava uma jaqueta grande o bastante para uma viagem ao Alaska. Percebi que o ônibus começou a andar. Olhei pela janela do lado direito e sorri para Harry e Danny e mostrei que estava tudo bem com a mão.
-Vai ficar tudo bem Dougie. Mesmo que não duremos pra sempre, ou um mês. Eu não vou te deixar pra baixo, não vou te magoar... Nunca. Eu prometo.
-Eu não sei se posso voltar...
-Pode sim. Vem cá... – O puxei e coloquei meu braço sobre seus ombros – Está tudo bem... – Ele se ajeitou em meus braços.
Permanecemos em silêncio no caminho de volta para casa. Ficamos no mesmo ônibus até que ele fizesse todo o percurso e voltasse para o campus. Quando chegamos, eu peguei a mala dele em uma mão, e com a outra entrelacei meus dedos aos dele. Eu olhei para ele sorrindo, e ele sorriu também, mas mesmo assim ele estava distante.
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