Fall
14 Décimo Quarto Capítulo
Eu rolei pela cama e percebi que já estava bem claro lá fora, provavelmente já se passavam das onze da manhã. Então eu percebi que eu estava sozinho na cama. Me levantei da cama, vesti minha calça jeans que estava no chão ao lado da cama.
Desci as escadas procurando por Dougie, mas ele não estava em parte alguma da casa. Imediatamente voltei ao andar de cima e olhei nos dois quartos se as coisas dele ainda estavam lá – nunca se sabe... – E estavam, todas... Menos sua mochila da faculdade. Ele não devia ter ido longe então.
Danny ainda estava dormindo, mas mesmo se estivesse acordado não saberia me dizer nada, então mandei um sms para Tom:
-Você sabe do Dougie?
-Não está do outro lado da sua cama? – Ele respondeu depois de um minuto.
-Não, ele não está em casa. Mas as coisas dele estão aqui pelo menos.
-Liga pra ele. – respondeu super rápido.
-Ok. Valeu.
Procurei seu nome na agenda de contatos do celular, e liguei. Tocou... Tocou... Tocou... E nada. Caixa postal antes de ter algum sucesso. Liguei mais duas vezes, e nada. Comecei a me preocupar.
Bati o olho sobre a mesa do computador, havia um papel lá. Cheguei mais perto, e vi que era um desenho de uma garota. E como Dougie desenhava bem. Era um rabisco apenas, mas ele tinha até colorido com lápis de cor. Observei com mais atenção o que havia no desenho. A garota estava com um vestido branco em frente a uma parede de tijolos, onde, em branco estava escrito o numero “130”. Um pouco mais ao fundo, havia uma placa de metal, onde estava escrito “Bilerica Road”. Eu não entendi muito, mas eu pude ver que haviam gotas d’água derramadas no desenho. Mandei outra mensagem para Tom:
-Achei um desenho meio macabro dele de uma garota de branco. E acho que ele chorou enquanto fazia.
-Como é a garota? – Ele respondeu depois de três minutos. Tempo que eu simplesmente fiquei encarando o desenho.
-Morena, com uma franja grande e olhos bem escuros. Deve ter a idade dele.
Em seguida, Tom me ligou.
-O que foi? – Eu perguntei sem demora.
-Saí da sala pra te ligar... Então... O Dougie me falou de uma amiga dele, e me mostrou a foto no Facebook dele... Era uma tal de Anne, ela era uma amiga de infância. Mas daí ela ficou doente e ele me falou que eles não se viram mais. Parece que ela tá internada ou algo do tipo...
-Ela está num lugar estranho no desenho, com uns endereços e uma parede de tijolinhos.
-Eu estou indo pra casa, daí eu vejo o desenho.
Tom chegou em menos de dez minutos e foi direto até o meu quarto. Ele pegou o desenho e disse:
-É ela Harry – Pegou o celular e me mostrou uma foto no Facebook de Dougie da garota – Eu tenho certeza.
-É... É ela... Você acha que esse lugar, é onde ela está internada? Será que ele foi fazer uma visita?
-Deve ser... E provavelmente foi.
-Onde que fica essa estrada Bilerica? Eu já ouvi esse nome...
-O Dougie também é de Chelmsford, então deve ser um hospital que você já foi... Não sei.
-E o que eu faço?
-Sei lá, vai atrás dele. Você meio que deve isso a ele... Só dizendo. – Ele levantou uma sobrancelha pra mim, e eu senti a indireta.
-Mas eu nem sei se ele está nessa Estrada Bilerica. – Respondi um pouco mais alto.
-E se estiver... Você ligou pra ele?
-Ele não me atende, liguei umas três ou quatro vezes e nada. – Só três mesmo, mas eu queria parecer mais empenhado.
-E se tiver acontecido alguma coisa?
-Tá bom... Dá a chave do carro. – Respondi de cara emburrada.
-Eu posso ir com você, eu estou com a tarde livre.
-É... Eu não estou e vou. E, por favor, não quero ir sozinho. – Eu tinha aula a tarde, e ia faltar de novo. Eu com certeza repetiria se continuasse nesse ritmo.
Tom foi até o outro quarto, eu o segui, ele se sentou ao lado de Danny – que por um acaso, estava hibernando na cama.
-Dan... Danny... – Ele cutucava o garoto, que só resmungava algo muito parecido com “me deixa” – Amor... Acorda! – Chacoalhou Danny na cama e o garoto deu um pulo e se sentou.
Eu me perguntei por alguns segundos se eu tinha ouvido direito. Tom acabara de chamar o Danny de “amor”. Eu ri.
-O que foi?! – Perguntou de olhos arregalados olhando de um lado pro outro.
-Eu vou dar uma saída com o Harry, volto antes de anoitecer.
-Aonde vocês vão? – Perguntou passando a mão para a coxa de Tom.
-Buscar uma coisinha em Chelmsford, não vai demorar.
-Então tá... – Respondeu desolado.
-Eu trago uma coisa pra nós dois pra quando você voltar da faculdade.
-Ok. – Ele puxou Tom para ele e beijou seu rosto, completando com um abraço forte e um beijo em seus lábios.
Eu fui até Danny quando Tom se levantou e dei um beijo rápido em seu rosto e disse “Eu trago ele de volta”, passando a mão por seu cabelo.
Saímos com o carro da garagem e logo estávamos fora do campus. Pegamos a estrada, rumo ao nordeste, uma estrada atrás da outra, com o radio ligado em alguma estação relativamente calma. Eu que estava dirigindo.
Tom não puxou quase nenhum assunto, ele estava foleando um caderno de anotações de Dougie que encontrou e eu tinha minha cabeça longe dali.
-Ele escreveu “internada” errado... Escreveu com “e”. Que burro.
-Pelo menos ele desenha bem... – Respondi sem tirar os olhos da estrada.
-E como... Tem uns aqui que eu não acredito que foi ele que fez.
-Ele escreveu, “enternada na Estrada Bilerica” num desenho dela, mas dessa vez ele desenhou essa Anne numa cama de hospital, de olhos fechados. E essa letra é meio medieval.
-Que sinistro, eu não imaginava esse lado dele. – Chegamos a Chelmsford.
-Nem eu, pensei que ele desenhasse uns ursinhos e uns unicórnios. – Continuou foleando.
Acabei tendo que perguntar pra algumas pessoas sobre como chegar a essa tal estrada, eu já estava ficando cansado de dirigir, já fazia mais de uma hora que tínhamos saído de casa. Eu estava realmente preocupado com Dougie, mas eu realmente não tinha a pretensão de publicar isso.
Chegamos a essa tal estrada. Eu não tinha percebido ainda como o tempo tinha fechado. Uma tempestade parecia se formar no céu. Olhei para os lados, de um lado havia um muro alto, do outro havia uma grade com alguma planta por todo seu comprimento que eu pensava ser um Sansão do campo. Por trás da grade, eu só consegui perceber que havia um grande campo verde, algumas colinas.
Avançamos um pouco mais na estrada, e eu percebi que havia um enorme portão na mesma grade do campo verde. Eu brequei o carro com tudo ao ponto do Tom quase bater o rosto no para-brisa.
-Tom, lê o que está escrito no portão! – Eu disse em voz alta enquanto meu peito disparava com meu coração dentro dele.
Ele se recompôs, e começou a ler em voz alta:
-Cemitério e crematório judaico de Chelmsford – Ele disse com pausas grandes entre as palavras, e pelo visto, ficou tão impressionado quanto eu.
-Acho que não foi ele que escreveu “Internada” errado Tom, acho que você que leu “enterrada” errado. – Eu disse ainda pasmo.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, talvez minutos.
-Talvez não seja aqui.
Eu peguei o desenho no banco de trás, olhando para fora, para a guarita de tijolos ao lado do portão. Olhei para o desenho e o levantei na altura da janela. Tom olhava curioso, e então eu abaixei. Era o mesmo lugar, a mesma parede de tijolos com a inscrição “130” em branco. Tom se calou.
-A amiga dele morreu. Por isso que ele não tinha pra onde ir no campus.
-Por isso que ele chorava tanto quando chegou. – Ele respondeu de imediato.
-Ele chorava? – Perguntei desentendido.
-Sim... Eu não imaginava que era tão sério... Meu Deus!
-Vamos entrar? Ele deve estar aí.
-Já viemos até aqui. – Ele respondeu boquiaberto com os olhos imóveis.
Entramos no cemitério e memórias terríveis me acertaram como um déjà vu. Um dia cinzento e triste seis anos atrás, no outono mesmo.
-Eu me lembrei de como eu conhecia o endereço, Tom...
— E como era?
-Meu avô está aqui. Fizeram seis anos semana passada.
Ele me abraçou e continuamos andando, um vento gelado nos cercava. Andamos pela via principal olhando tudo que podíamos. Até onde a vista alcançava, e andamos por uma hora por todo o lugar. Minhas esperanças fraquejavam, e o desespero e arrependimento estavam me deixando maluco. Eu já tinha pego as chaves no bolso para voltar para o carro quando Tom puxou meu braço. Ele não disse nada, só apontou para o topo de uma colina laranja cheia de folhas de figueira secas pelo chão. Havia uma pessoa sentada junto a uma cripta. Um garoto loiro de blusa lã e calça xadrez. Um garoto que eu passara as últimas noites abraçado. O motivo de eu estar lá. Minha esperança de volta.
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