Falcão
19 CAPÍTULO 19: Missões & Precipícios
Notas iniciais
FALCÃO
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 19: Missões & Precipícios
Já fazia dois anos que Sakura se mudara definitivamente para sua casa. As caixas que ela trouxera jaziam há muito desfeitas, as roupas agora estavam espalhadas pelo guarda roupas, os livros entulhados sobre os seus, havia mais vasos de flores espalhados pela casa do que seria recomendável e Naruto sempre reclava que aquela casa agora cheirava a lavanda quando na verdade ele preferia o jasmim da sua Hina-chan.
Sakura estava sentada no chão, na mesa de centro uma infinidade de livros médicos espalhados. Canetas de todas as cores, grifando e escrevendo embora tivesse certeza que ela sabia mais do que todos aqueles autores juntos.
Ainda sim ela sempre repetia: “Na medicina temos que nos atualizar constantemente, nunca aprendemos o suficiente”.
Ele estava sentado no sofá, um livro de mistério o intertinha após ter afiado e polido religiosamente sua katana.
Alguns minutos se passaram antes de uma cabeça cor de rosa entrar na frente do seu livro.
— Sobre o que é?
Ela moveu a mão até a capa virando-a para ler o título e interrompendo sua leitura.
— Mistério sanguento.
A médica repetiu o título.
— Parece... Sangrento demais, por que não tenta um livro de poesias? Tenho um ótimo por ali.
Ela apontou para a estante que cobria uma parede. Havia tantos livros entulhados que dava a ideia que todos cairiam apenas ao se respirar ali perto.
— Gosto desse.
Foi tudo que se dispôs a responder. Não que não gostasse de poesias, gostava de vários tipos de livros diferentes, mas os de mistério sempre foram os seus favoritos (embora ele já solucionasse o mistério nas primeiras páginas).
Ela deu os ombros, abrindo novamente o livro na página em que ele havia parado.
Não voltou a ler. A kunoichi continuava ao seu lado no sofá, olhando-o fixamente como uma criança querendo atenção.
— O que foi?
Perguntou revirando os olhos e fechando definitivamente o livro.
— É que às vezes me parece surreal.
Olhou-a em dúvida, levantou-se procurando na estante um lugar para colocar o livro e não encontrando. Deixou-o então na mesa de centro junto com os materiais dela. Sentou-se novamente no sofá.
— Nós, juntos... Nessa casa... Você sabe...
Pensou ter visto as bochechas corarem antes da médica desviar o olhar.
Sim eu sei.
Entendo completamente.
Às vezes ele tinha medo de acordar sozinho, com um clã dizimado, perdido, o ódio o consumindo.
Era um alívio passar aquela monotonia ao lado dela. Aquela paz.
Tudo bem... Talvez monotonia não fosse a palavra correta, Sakura com certeza não era nem um pouco monótona.
Viver ao lado dela era uma surpresa. Por que ela não era previsível. Ela nunca dizia o que ele pensava que ela fosse dizer, respondia do modo que ele esperava que fizesse. Ainda sim ele entendia essa inconstância com os olhos.
Facilmente.
Isso dela o entretinha. O divertia. O deixava encantado. Os dias nunca pareciam os mesmos, sempre havia algo novo, diferente.
E ele não escolheria nenhuma outra pessoa para passar a vida ao lado.
Somente ela.
Somente nela ele encontrava aquela paz misturada com a surpresa. Ele suportava de bom grado a inconstância, a imprevisibilidade. Nada daquilo o irritava ou fazia que ele gostasse menos dela. Fossem os ataques que ela tinha quando estava no seu período mais frágil. Os choros no travesseiro quando ela perdia um paciente no hospital...
Ele somente procurava confortá-la (mas não era exatamente bom nisso) com um abraço desajeitado e umas batidinhas nas costas pequenas.
É claro que às vezes eles discordavam, elevando as vozes um com o outro, discutindo por motivos inúteis e que em breve seriam esquecidos.
Ele não mudaria nada. Não era o tipo de coisa que ele pensava que poderia ter começado antes, ou depois, algo que deveria ser diferente.
Tudo estava bom daquele jeito.
Eles ficaram juntos no exato tempo que deveria ser.
No exato modo que deveria ser.
Enfrentaram as dificuldades que tinham de enfrentar.
Talvez fosse por isso que agora eles apreciavam tanto a calmaria e a companhia um do outro.
E ele, mesmo se pudesse, não mudaria nada.
♦ ♦ ♦
Kakashi os chamou para o escritório em um fim de tarde.
Era quinta-feira e garoava.
Estavam presentes Naruto, Ino e Shikamaru.
— Bom, tenho essa missão para vocês. Não é nada muito sério, apenas alguns mercenários que estão dando trabalho na fronteira. Baseei o time conforme as habilidades que recebi deles. Vocês vão finalizá-la logo.
O Hokage deu alguns papéis para Sakura, sabendo que ela era a que melhor lidava com aquilo.
— Naruto, essa é sua última missão.
— Como?
— Depois você se tornará Hokage e isso é uma missão constante. Por tanto, aproveite.
— Eu vou chutar a bunda desses desgraçados para comemorar!
Eles reviraram os olhos.
— Minha última missão e o teme e a Sakura-chan estarão presentes! Não é maravilhoso? Vai ser como a primeira!
— Pelo menos agora vocês não tem que perseguir um gato...
O Hokage comentou, Sakura riu e Naruto cruzou os braços emburrado.
— Agora vão, tenho muitas coisas para fazer.
— ‘Se perder nos caminhos da vida ou ler Icha-Icha? — A médica sussurrou com um sorriso no rosto.
O mais velho não respondeu, apenas acenou com a mão para eles saírem.
— Só não te dou a resposta que merece porque foi minha aluna.
Ele comentou quando estavam perto da porta, Ino e Shikamaru já lá fora.
— Errado, Kakashi-sensei. O senhor não me dá a resposta que mereço porque sabe que tenho razão.
Ela piscou sacana e depois passou pela porta com eles, rindo.
Lá fora combinaram de irem a suas casas pegar mantimentos e avisar as pessoas queridas (Naruto a sua Hina-chan, Shikamaru e moça da areia e Ino o pintor). E se encontrarem na saída da vila em uma hora.
Não deram uma única palavra ao chegar a casa. Suas bocas colaram uma na outra, suas línguas dançaram.
Ele fechou a porta desajeitadamente, uma mão voando para a cintura fina da médica. Eles cambalearam desajeitados até o sofá. No pequeno trajeto sua camiseta ficou perdida no chão da sala, e a blusa dela (hoje de botões) já estava com quase todos abertos.
Ela se jogou no sofá de qualquer jeito, ele pairou sobre ela, o sofá pequeno demais para ele próprio, menor ainda para os dois. Não se importou.
Acabou de abrir os malditos botões, o sutiã ficando exposto. Ele contornou a peça com o dedo e foi ela própria quem a abriu jogando sobre os ombros. Apressada.
Estimulou-a nos seios, depois desceu a carícia pela barriga e enfiou as mãos dentro da calça, ainda sim a estimulou por cima da calcinha, sem se livrar de nenhuma das peças.
— Oh, por favor...
Ela disse, revirando os olhos.
Soltou uma risada pelo nariz, tirando a própria calça junto com a cueca e em seguida puxando a dela rapidamente. Ela o ajudou a tirar a calcinha, e afastou as pernas dando espaço para que ele se ajeitasse em meio delas.
Encaixaram-se.
Poucas vezes tinham feito sexo sem camisinha, e a sensação era ainda melhor. Sentir a carne sem nenhum impedimento.
Maravilhoso.
Incrível.
O calor, o contato.
Ele se moveu rápido e contínuo, o suor tomando conta dos dois corpos.
Aquilo era uma mania deles, embora soubessem que provavelmente muitos ninjas faziam isso. Sexo antes de missões.
Na vida shinobi nunca sabiam quando seria a última vez. Então eles sempre se amavam antes de saírem em uma.
Ou, talvez fosse apenas uma boa desculpa para transarem.
♦ ♦ ♦
Partiram em seguida. Naruto gritando maravilhado em excitação pela missão. Pelo entusiasmo do loiro não era difícil entender que ele havia feito o mesmo que ele e Sakura com a garota Hyuuga.
Os demais permaneceram em silêncio. Ino e Sakura iam mais atrás, vez ou outra comentando algo entre elas. Não prestava atenção.
A fronteira não era muito longe, mas uma viagem razoável. Três dias correndo, quatro se fizessem muitas paradas. Pretendiam viajar de manhã e a tarde e descansar somente à noite quando o cansaço os abatesse. Ninguém reclamou.
Quando pararam na primeira noite, esquentando seus corpos em volta de uma fogueira, Sakura distribuiu os papéis sobre a missão para cada um deles. Eles leram um pouco, guardando em suas mentes a aparência e habilidade de cada inimigo, depois montaram os turnos e foram dormir.
As três noites se passaram assim, sem grandes acontecimentos. No terceiro dia à tarde encontraram-se com mercenários e tiveram que parar para uma luta não planejada. Fora alguns arranhões e cortes ninguém se machucou gravemente, e após as duas médicas ninjas curarem os machucados do time eles já estavam correndo novamente.
Não atacaram imediatamente. Observaram a pequena vila fronteira, um lugar pequeno e fúnebre. Os moradores estavam sendo escravizados pelos mercenários. Crianças segurando machados pesados para cortar lenha, adultos obrigados a trabalhar sem descanso.
Montaram um plano de ataque, algo para chamar a atenção para outro lugar para que não destruíssem a vila, nem machucassem civis na luta.
Foram até um campo afastado. Era um campo liso de gramíneas verdes, poucas árvores e se estendia por longos quilômetros. No fim havia apenas uma depressão profunda, mas bem longe de onde estavam.
O plano era chamar a atenção, e assim que eles viessem separá-los para assim, enfraquecê-los. Não foi difícil, bastou Sakura derrubar uma árvore e socar o chão de leve, para verem de longe a movimentação da pequena vila parar.
Como o esperado os escravistas vieram ver o que causara o tremor (e a árvore em pedaços). Ino partiu imediatamente, ela iria para a vila, ver se algum deles havia ficado para trás, e soltar as correntes dos civis.
Shikamaru foi lhe dar cobertura, e no fim sobraram Naruto, Sakura e ele.
— Time sete em formação original...
Naruto cantarolou, quando já podiam sentir os chakras (cerca de sete) se aproximando. Soltaram seus chakras contidos, sentindo os demais vibrarem ao perceberem.
O loiro foi o primeiro a sair correndo, despistando. Dois dos homens o seguiram.
Sentiu um olhar sobre si, quando eles se aproximaram cada vez mais.
Virou o rosto e encontrou os enormes olhos verdes o olhando. A médica sorriu e sussurrou um “cuide-se” antes de se mover em direção oposta ao loiro.
Dois ninjas passaram apressados por ele, seguindo-a.
Ele ainda podia sentir o chakra límpido e leve de Sakura (algo adquirido após as horas que ela costumava passar meditando) por algum tempo. Depois ele se afastou muito e ele perdeu o contato.
Os outros três chegaram perguntando quem eram eles e o que estavam fazendo ali. Não respondeu, partiu para o ataque.
Não foi nada muito complexo, como já sabia as habilidades deles não teve nenhuma surpresa. Um foi morto facilmente, o segundo conseguiu arranhá-lo e em seguida cortar seu abdômen (nada sério). Shikamaru chegou em seguida, após libertar os civis. Ele o ajudou a matar esse segundo, e o terceiro deixou por sua conta.
— Vou procurar os outros.
O Nara comentou já se afastando, enquanto ele lutava.
Não respondeu.
Embora quisesse falar “procure por Sakura”. Não porque não acreditava nela e em seu potencial, mas mesmo depois de todos esses anos era impossível não se preocupar, assim como sabia que ela se preocupava com ele.
Ninjas não devem ter sentimentos.
Dizia o manual ninja.
Mas, após todos esses anos tentando seguir essa regra a risca, Sakura e Naruto o ensinaram que era impossível (e errado) conter os sentimentos.
Eram os sentimentos que construíam um shinobi.
♦ ♦ ♦
Não soube dizer se havia se afastado demais enquanto lutava, ou se foram eles. Demorou um tempo para que pudesse encontrar os demais. O primeiro chakra que sentiu foi o de Naruto, talvez pela ligação de outras vidas entre eles.
O chakra do loiro estava estranho, e isso o fez imaginar que estava ferido. Apressou o passo. Mas quando se aproximava sentiu o chakra de Ino e Shikamaru e soube que se o loiro estivesse ferido já deveria estar sendo curado pela Yamanaka.
Imaginou estarem esperando ele e Sakura, então resolveu se aproximar para falar que iria em busca dela para que pudessem voltar para Konoha o mais breve possível.
Ao chegar ao fim da campina, viu Ino ajoelhada no chão. Shikamaru a abraçava, sustentando o corpo da ex-companheira de time gennin. Aproximou-se o suficiente para ver o rosto da loira banhado em lágrimas.
O Nara não tinha uma expressão muito melhor, e isso fez seu coração disparar.
Naruto estava na beira da depressão. De costas. Seus ombros se moviam como quando ele ria muito de alguma coisa. Depois de longos minutos foi que os três perceberam que ele estava ali, parado, as mãos jogadas ao lado do corpo.
Ino foi a primeira a olhar para ele.
— Sasuke...
Ela sussurrou mais lágrimas pingando, a culpa a consumindo.
E foi naquele momento que ele percebeu que havia algo muito errado ali.
— Onde está Sakura?
Foi tudo que conseguiu perguntar.
Naruto virou-se para ele. Ao contrário do que pensara o loiro não estava rindo, e sim chorando.
— Você está brincando com a gente não está Ino?
O loiro perguntou, a voz saindo entrecortada.
— Nós não o vimos. Eu... Assim que deixei os civis em segurança... Voltei para ajudar vocês, Sakura estava aqui, acabando com um deles... Estávamos queimando os corpos quando outros dois apareceram... Eu lutei com um deles, enquanto ela lutava com outro...
A voz saiu mais gaguejada e mais desesperada do que seria recomendável.
Muito errado.
Muito errado.
Seu coração dizia, martelando no peito.
— O Byakugou... Ele recupera o corpo...
O Uzumaki sussurrou. E foi ali que teve a certeza (embora não quisesse acreditar) que esse “muito errado” envolvia Sakura.
A loira soluçou alto.
— Somente enquanto o coração ainda bate...
O loiro saiu da beirada. O olhar cheio de ódio e inconformismo.
— Onde está a Sakura?
Perguntou novamente. Sua voz já quebrantada. O loiro tremeu e saiu correndo pela linha da fronteira, como se procurasse um lugar para descer e chegar a baixo da depressão.
Foi ai que entendeu.
Andou apressado até a beirada.
Ao contrário do que pensou não era apenas uma depressão severa. Era um precipício. Tão alto que nem ao menos podia enxergar o fim. Não havia rio, nem mar ali em baixo. Somente o chão de terra batida.
Uma bola formou-se em sua garganta no momento em que Ino confirmou sua suspeita.
— Ela caiu... — Ela parecia inconformada — Eu não pude fazer nada, quando vi, já era tarde demais... Foi um acidente, ou não... Não sei se ele a jogou, se ela perdeu o equilíbrio e caiu... Eu... — Outros soluços vieram — Eu vi minha melhor amiga cair e não pude fazer nada...
Não se virou para ver Shikamaru consolando a amiga, nem para ver se Naruto havia conseguido achar uma descida segura para chegar lá em baixo.
Sabia que qualquer corpo caído em uma altura daquela estaria estraçalhado.
Corpo.
Corpo.
Seus joelhos se dobraram, e ele caiu no chão, ajoelhado na beirada do precipício. O coração estava disparado, mas havia tanta dor que parecia poder parar de bater a qualquer momento.
Sakura não.
Sakura não.
Aquela bola de angustia se formou em sua garganta, e parecia ser impossível respirar. Sabia que estava hiperventilando.
O ar parecia não chegar aos pulmões, nenhum ar que respirasse parecia ser o suficiente.
Não.
Não.
Não.
Ele podia ouvir o riso dela, o gemido contido entre as cobertas, o toque.
E tudo isso o dava mais desespero.
Mais dor. Mais angústia.
Não pode ser verdade.
Sakura não.
Qualquer um.
Mas Sakura não.
Fale com o autor