Falando de Flores
8 Capítulo 7
Notas iniciais
“Está tudo sobre o controle, pensei.
Meu coração apenas riu.”
(Bruna Vieira)
Entrei em casa e joguei meus patins no canto na área de serviço. Tirei a blusa de manga comprida e suada, ficando de top. Dane-se, estava realmente muito calor. Prendi meu cabelo, larguei minha mochila no quarto e fui em direção ao banheiro do corredor, já que o do meu quarto estava passando por uma reforma, por mais que eu dissesse que era desnecessária.
– Onde você esteve, mocinha? – perguntou o novo namorado a minha mãe. – Polly esteve preocupada com você.
Me virei revirando os olhos. Como se ele tivesse algo haver com a minha vida. Ok, talvez eu tivesse exagerado ao dizer que aquele fumador asqueroso tinha a idade da minha irmã mais velha, mas ele era altamente mais novo que minha mãe. Não que eu tenha algo contra mulheres na casa dos quarenta terem um relacionamento com um recém formado advogado, até apóio, desde que essa mulher não seja a minha mãe e esse cara ser um encosto que vive sustentado pelos pais até hoje.
Vicente tinha em uma das mãos uma lata de cerveja, usava uma calça jeans folgada, folgada até demais para seu corpo estreito e alto. A barba por fazer propositalmente o dava um ar mais maduro que enganaria qualquer um. A blusa preta e justa de sempre, será que esse cara nunca lavava roupa? O cabelo escuro rente a cabeça, sim, ele era bem bonito, mas era só chegar perto que sentia uma onda de cheiro de cigarro.
– Legal. – falei simplesmente.
– Sua mãe ligou pra sua tia, pra sua prima, pra todo mundo te procurando e tudo o que você diz é isso? – ele perguntou se aproximando. – Ela está lá no escritório, seria bom você ir se explicar.
– Seria bom você parar de bancar o paizinho, não devo satisfação a você. – respondi grossa, levando minha mão a maçaneta.
– Olha aqui, menininha. Se você fosse minha filha eu já...
– Acontece que não sou sua filha. – Abri a porta com força. Estava queimando de ódio por dentro por causa daquela voz embargada.
– Cuidado com esse tom de voz. – ele se aproximou ainda mais e fechou a porta. – Não sou seu pai, mas sou mais velho e você saiu sem avisar deixando todos preocupados.
Senti o odor da cerveja em seu respiração quando ele se inclinou com os lábios próximos de meu pescoço, lembrei-me que estava somente de top e tentei me afastar. Sabia que minha mãe não bebia, as cervejas na geladeira eram todas daquele traste. Lembrei-me de uma vez que quase – salva pela avó, sempre – levei um tapa na cara por chamá-lo de gogoboy. Tudo o que eu queria era entrar naquele banheiro e respirar com o nariz enfiado no sabonete só para esquecer do cheiro do novo namoradinho da minha mãe.
– Quer saber? Estive me prostituindo com meu vizinho gato, ele me levou em um lugar bem escuro, abandonado, acho que é normal ter aqueles drogados por lá... Talvez você conheça o lugar, tem cara de que passa horas escondido da luz do sol em meio a fumaça, mesmo – o empurrei no momento que minha mãe aparecia no corredor. – E se gosta tanto assim de ser cachorrinho de madame, vai buscar.
Joguei sua garrafa longe, que se estilhaçou-se no chão, derramando todo o conteúdo no carpete. Senti os olhos da minha mãe mudando de preocupação para perplexidade.
– Como o prometido, voltei antes do pôr-do-sol e estou viva. Não estava no combinado que eu diria onde estive, mas não seja por isso. Almocei no único cara descente que passou por aqui. Eu devia é agradecer por ele ter se livrado de você, não ter ficado triste. Zip mandou lembranças.
Sem dar tempo de ninguém responder, entrei no banheiro. Despi-me e corri para debaixo d’água. A sensação do contato da água gelada em minha pele quente era uma coisa indescritível. Repassei os acontecimentos do dia em minha mente e meu coração acelerou. Não sabia ao certo se era a raiva de quando minha mãe me culpou sem razão, se era por ter quase sido atropelada, pela raiva do encosto ou se era tudo a reação que aqueles olhos azuis causavam sobre mim.
Ele é da Liv, ele é da Liv, ele é da Liv, repeti diversas vezes em minha mente. Sabia que minha prima não gostaria muito de saber que passei o dia todo com o garoto que ela gosta, muito menos da proximidade se certos momentos. Decidi que era melhor ignorar, eu havia conhecido o garoto noite passada e a segunda vez que eu o veria seria no dia seguinte, o primeiro dia de aula.
Se bem que, eu posso ficar perto dele e usar isso a favor da minha prima, certo? Fiquei pensando em planos mirabolantes de como unir os dois – mesmo achando que não tinham assuntos parecido – enquanto me enfiava dentro do roupão e envolvia meu cabelo molhado em uma toalha. Segui em direção a cozinha para pegar um copo de água, passando pela sala onde minha mãe e seu namorado estavam sentados assistindo a qualquer coisa. Ela me observou atentamente quando voltei com a água, um xarope para tosse e uma caixa de band-aid para o meu joelho que já estava bem melhor.
– Você se machucou? – ela perguntou preocupada.
Não respondi, apenas parei no caminho para o meu quarto e a encarei.
– Não vai me dizer nada? – falou novamente.
– Eu estou bem. – disse por fim.
– Para o que esse curativo?
– Vai me dizer que não sabe pra que serve um curativo? – perguntei fazendo cara de tédio e logo me repreendi ao ver os olhos cansados e dóceis de minha mãe.
– Ana, eu já disse que não devia ter falado daquela maneira com você mais cedo, me senti muito mal na hora. Quando cheguei em casa vi que o som estava vindo do aparelho do seu irmão.
– Pena que você percebeu tarde demais. – dei um sorriso falso.
– Eu fiquei esperando você voltar, queria conversar...
– Não precisamos conversar – interrompi. – Eu estou bem, só machuquei o joelho. Caí na rua, meu MP3 rachou, mas eu estou inteira. Vou ficar no quarto o resto da noite. Amanhã você não trabalha, certo? Vou pra aula andando. Já separei o material da escola, a Olívia me passou as matérias. – voltei a caminhar para meu quarto deixando ela falando algo sobre eu poder pegar o iPod velho do Guilherme e minha turma nova ou qualquer coisa assim.
Logo que fechei raivosamente a porta do quarto, notei uma figura pequena e branquela á sombra sentada na minha mesa. De principio me assustei, mas logo que recobrei o raciocínio, percebi que era só um Lucas concentrado em algum livro.
– Você chegou! – ele gritou, sorridente e veio ao meu encontro.
– Ei, chico. O que está fazendo aqui? – perguntei o pegando no colo.
– Eu tava te esperando, ué, você prometeu que ia brincar comigo hoje. – ele falou e bati minha mão livre em minha testa. Como pude esquecer?
– Meu anjo, desculpe sua irmã desmiolada! Eu sai pra comprar ração pro passarinho e acabei almoçando no seu pai. A propósito, ele disse que amanhã vem pegar você, ok? – acrescentei rapidamente e seu sorriso fez eu me sentir mais quente.
– Ana, mas a gente ainda vai passar o resto do dia juntos, né? – ele pediu.
Balancei a cabeça em afirmação e disse que só iria botar um pijama. Selecionamos diversos filmes que queríamos ver e fizemos um cronograma, toda noite iríamos assistir um diferente. Vimos Iron man 1 e dois 2, esparramados nos puffs do meu quarto. Era meu super herói preferido e Lucas ficava me dizendo que o Capitão America era muito mais divertido. Ele me corrigia quando eu dizia o nome de um personagem errado. Quando os filmes acabaram, notei que ele lutava contra o sono, pediu para eu ler algo para ele.
A maior parte dos meus livros estavam em espanhol. Mandei ele escolher qual e ele pegou um com um tigre branco na capa. Me sentei na mesa sob a janela e pus ele deitado na cama. Lia na outra língua e ele pedia para eu parar em certas partes para traduzir algo. Desde que meu irmão nascera, tentava ensiná-lo a falar espanhol, mesmo minha mãe achando totalmente desnecessário e dizendo que isso só o confundiria. Mas eu gostava de trocar certas palavras em espanhol com ele, na verdade eu gostava de qualquer coisa que me permitisse falar essa língua. Mesmo sendo uma garota do interior, fui alfabetizada na Argentina, todas as viagens do meu pai para os países sul americanos ele me levava. Eu adorava viajar e adorava estar perto dele, mesmo que isso se resumisse a passar a noite no mesmo hotel.
Não notei que meu irmão já tinha dormido até uma pedra bater em minha janela.
“Como tá sua perna?” dizia o caderno que meu vizinho sem camisa segurava.
Bamba, mole como gelatina, pensei ao vê-lo daquela maneira. Procurei por um papel e um lápis e escrevi rapidamente. “Ótima. Te devo uma.”
Ele sorriu, deixando um covinha visível na bochecha esquerda.
“E a sua irmã?” perguntei, sem querer perder sua atenção.
“Me ignorando totalmente.”
Nesse momento a porta do meu quarto foi aberta bruscamente. Dei um pulo e vi um Guilherme sério entrando no meu quarto.
– Está na hora da pirralhada dormir. – disse simplesmente. – Não pode se atrasar para o primeiro dia de aula.
– Eu estou lendo. – respondi grossa quando ele pegou o Lucas no colo e apagou a luz.
– Lendo bilhetinhos da vizinhança.
– Você não pareceu ter problemas com a família ao lado quando enfiou sua língua na boca daquela menina. – falei cruzando os braços sobre o peito.
Ele me olhou nos olhos e percebeu que eu estava falando serio, se deu por vencido e saiu do quarto. Assim que fechei a porta corri para janela e vi que o garoto continuava lá, secando os cabelos enrolados.
“Nos vemos amanhã?”
“A escola é pequena, a gente esbarraria mesmo que eu não quisesse.”
Sorri e me sentei na cadeira e voltei a ler, na realidade tentei, pois era impossível não ver sua sombra andando pelo quarto em frente. Eu poderia ter fechado a cortina, mas não tinha tal coragem. Corri meus olhos por diversas linhas, nervosa, sem absorver nenhuma palavra. Comecei a roer a unha do meu mindinho e joguei o livro para o lado.
Sem levantar o olhar para a janela, atravessei o quarto e joguei minhas partituras sobre a cama. Puxei a cadeira da mesa e a botei do lado do guarda roupa, subi com cuidado e tateei até encontrar o que procurava.
Espalhei minha partituras pela cama, á procura de uma música que cheguei a tentar tocar por causa dos pedidos do Matt, mas não era um estilo que eu gostava, logo estava no fundo da pasta. Sorri satisfeita quando encontrei a canção do Foreigner, a banda preferida do meu amigo. Sentei em frente ao piano, de costas para janela. Quando fui pegar um prendedor de cabelo sobre a mesa, derrubei o abajur propositalmente e soltando um suspiro, fazendo barulho e movimento o suficiente para chamar a atenção do garoto de olhos cinzas.
Comecei a tocar, ou tentar. Minha porta estava fechada e a janela quase arreganhada, deixando o som sair. Em casa estavam todos acordados, minha mãe sabia que eu tinha que treinar todos os dias, e, mesmo que a incomodasse, ela não iria lá reclamar, não depois daquele dia.
“Just one guitar, swung way down low
Was a one way ticket, only one way to go
So he started rocking, ain't never gonna stop
Gotta keep on rocking, someday gonna make it to the top”
Eu sussurrava a letra enquanto tocava, torcendo para ele estar vendo e reconhecer a música. Me senti sendo observada atentamente e, graças aos céus estava de costas, ou ele iria ver o pimentão que minha bochecha se transformara.
Ao me levantar, a primeira coisa que eu fiz foi fechar a cortina. Deitei na cama, apaguei a luz e escutei a mesma música repetidamente até dormir.
– Acorda, Maria bonita. Levanta e vem fazer o café. O dia já está raiando e a polícia já está de pé.
– Vai se foder, Olívia. – resmunguei com sono. – Ta de madrugada, por que me ligou?
Após muito custo, consegui dormir, leve. Em tempos não dormia tão bem, mas pareceu ter passado apenas dez minutos quando meu celular tocou e a voz toda animada da minha prima soou pela linha.
– Já é seis e meia, dorminhoca. – ela falou e me sentei de uma vez, causando tontura.
– SEIS E MEIA? – Perguntei desesperada, pulando a cama e correndo para cozinha.
– Sim, seis e meia. Chego aí em dez minutos.
– Eu... eu vou me arrumar.
– Vá logo, temos que chegar mais cedo, temos que passar na secretaria. Vamos andando, já que é duas quadras da sua casa.
Desliguei entrando na calça preta folgada do uniforme, procurando meus all star rosa em algum lugar. Me arrumei correndo, vesti um casaco e fui para cozinha onde família feliz estava tomando café. Quinze para sete, olhei no relógio. A aula começa em meia hora, dá tempo. Deixei meus olhos com maquiagem bem preta, afim de realçar o verde musgo, diferente da minha prima, que já acordava com meio quilo de maquiagem na cara.
– Você disse que ia me acordar. – disse, penteando os cabelos.
– Eu mandei o Guilherme te chamar. – minha mãe informou, levantando os olhos do jornal.
– Opa, acho que esqueci. – ele falou na voz mais fingida do mundo.
– Ótimo, agora estou atrasa.
Me sentei para calçar os tênis quando Guilherme botou o pequeno Lucas no ombro e passou pela porta.
– Vazei, vê se não chega tarde no seu primeiro dia.
– Vou tentar, seu palerma – rugi.
– Seja mais educada com seu irmão, Ana! – minha mãe repreendeu.
– Mais educada? A senhora não vê que ele faz isso de propósito? Ele só...
– Bom dia, flor do dia. – Olívia entrou na cozinha cantarolando e me interrompeu. – Oi, tia Polly, o Guilherme disse que vocês estavam aqui, vou levar a Aninha pra escola.
– Bom dia, querida. Sabe que é sempre bem-vinda aqui, ela está quase pronta.
– Não precisam falar de mim na terceira pessoa, ainda estou aqui. – Me levantei da cadeira e peguei uma maçã. – Vamos, Liv.
– Não querem comer nada? – mamãe ofereceu.
– Eu estou bem, tia, além do mais, estamos atrasadas. – Olívia passou o baço pelo meu. – Vejo a senhora amanhã, e obrigada por ter deixado a Aninha ficar na minha sala.
O rosto da minha mãe ficou sério de repente e depois confuso, ela largou o jornal. Vicente entrou na cozinha de samba canção e sem blusa. Bocejou e deu um beijo estalado em minha mãe. Eu poderia passar meu dia sem ver isso.
– Eu não disse a vocês? – minha mãe perguntou quando seu namorado se afastou para abrir a geladeira.
– Disse o que? – perguntei.
– Garotas, eu realmente tinha botado vocês na mesma sala, mas eu e o Vicente conversamos esses dias e percebi que a Ana sempre tem problema em se adaptar quando se muda.
– Você nunca ligou pra isso, não se importou em eu estudar em 8 escolas diferentes nos últimos 10 anos, vai dizer que agora liga pra isso?
– Valentina, entenda o que sua mãe está falando. – o capaço do Vicente se meteu. – Acontece que você tem que aprender a se virar sozinha, e vocês ainda vão ter todos os intervalos e horários fora de classe juntas. Mas até o final do ano vocês estão em salas separadas.
– EM SALAS O QUÊ? – eu e minha primas gritamos em uníssono.
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