Notas iniciais
Por onde começar? Eu sei que nem se eu detalhar para vocês tudo o que passei nesses dois meses vocês vão entender então nem vou fazer isso. Não vou prender mais ainda vocês. Eu peço desculpas do fundo do meu coração. Não me dei conta da quantidade de tempo que fiquei fora, eu realmente não tinha força, tempo nem vontade de escrever. Demorei três semanas nesse capítulo, viajei, me mudei e meu computador estragou no caminho então me desculpem, realmente não achei ele muito bom mas reescrevi trocentas vezes. É isso. Espero que gostem flores! ps.: não é uma desculpa, mas acho legal dizer. Acabei de perceber que esse é o maior capítulo da história por questão de quase mil palavras.

“Você não pode sentir, mas eu estou morrendo de medo.”

Peter (White Collar)

– Vamos, Júlia! Vai ser legal! – Exclamei vestindo uma saia de couro minúscula.

– Não sei não, Tina. Seu pai sabe disso? – A garota de cabelos encaracolados perguntou desconfiada enquanto foliava uma revista deitada em sua cama.

– Claro que não. – Exclamei passando mais uma camada de rímel. – Você sabe que ele não gosta do Jake, ele acha que vou dormir aqui.

– Eu também achava que você ia fazer isso.

Suspirei e me sentei na cama para calçar as botas altas e pretas. Olhei para minha amiga com cara de pedinte e ela desviou o olhar. Eu sabia que seria difícil convencê-la, até porque ela mesma não gostava do Jake, mas eu conseguiria.

– Qual é, Jú, dá uma chance para ele. O Jake está tentando ser legal, disse que vai ser divertido. Quer mesmo passar seu aniversário trancada aqui só porque não quer falar com seus parente por telefone?

– Não... – Ela gemeu escondendo o rosto no travesseiro. – Mas também não quero ir para uma festa cheia de gente estranha que provavelmente vai resultar em merda. Além do mais, meus pais nunca vão me deixar ir á uma festa sem supervisão de adultos.

– Os amigos de Jake vão estar lá, a maioria tem mais de 18 anos. – Informei, voltando a me maquiar.

– Não esse tipo de adulto. – Ela retrucou. – Sabia que as vezes, quando você veste essas roupas eu mal te reconheço?

– Deixa de drama, o Jake gosta dessas roupas...

– E você tem que usá-las só porque ele gosta? – A morena se levantou da cama e se aproximou de mim.

– Claro que não – bufei –, eu gosto de me vestir assim, tá? E não quero brigar com você hoje, é seu aniversário.

Me olhei no espelhou, meu rosto coberto por maquiagem preta, a blusa folgada e a saia curta, até eu não me reconhecia as vezes. Mas estava feliz, me divertindo, cansada de seguir aquela linha monótona de sempre. Peguei minha bolsa e abri a janela do quarto, passei uma perna para fora da casa e resolvi fazer uma última tentativa.

– Eu vou de qualquer jeito, só pensei que seria legal se fosse junto.

Assisti minha amiga revirar os olhos, ligar a televisão e trancar a porta.

– Não vou deixar você ir pra lá sozinha, não quero ter que falar com a polícia pelo telefone fingindo ser sua mãe de novo.

Sorri vitoriosa me preparei para pular da janela. Já havia feito aquilo várias vezes, sabia onde pisar e onde segurar.

Plac.

Algo quebrou e meu pé escorregou, esperei sentir um baque do meu corpo contra o chão, entretanto nada veio. Olhei para baixo e não vi nada, só escuridão. Era como um buraco negro, eu caia, caia e caia. Voltei meus olhos para a janela na esperança de pedir ajuda e a vi sendo engolida pela escuridão, o rosto de Júlia se desmanchando lentamente e sua mão esticada tentando me segurar. Comecei a gritar e sentir meu corpo caindo cada vez com mais velocidade. Agitei meus braços e pernas tentando agarrar qualquer coisa inutilmente, os gritos vieram quando minhas costas bateram em algo frio e minha visão ficou embaçada.

Água. Eu caíra na água e estava me afogando. De novo. De novo e de novo.

Acordei gritando e chorando naquela noite. Eram umas quatro da manhã, o céu ainda estava escuro e as ruas vazias. Só parei de gritar quando senti os braços da minha mãe me embalando e sussurrando repetidas vezes que estava tudo bem. Eu estava suada, a o cabelo grudado na testa, os dentes batendo e ofegante, me sentia tonta e o quarto parecia rodar e rodar. Meus gritos foram substituídos por lágrimas e não tenho ideia de quanto tempo fiquei chorando no ombro da minha mãe. O que pareceram eternidades depois ela saiu do quarto e voltou com um copo d’água e um remédio.

– Tome, vai te ajudar a relaxar. – Ela disse com uma expressão abatida, pela primeira vez pensei em como ela deve ter se assustado ao me ouvir gritando.

Engoli o comprimido sem protestar e lhe entreguei o copo já vazio, ela o colocou no criado, se sentou ao meu lado e me cobriu, como não fazia há muito tempo.

– O que houve, Ana? O que te deixou assim? Você disse que os pesadelos tinham acabado.

– Eles nunca acabam, mãe. – Encostei minha no peito dela e enxuguei minhas lágrimas.

– Oh, filha, achei que já tinha superado. – Falou afagando meus cabelos.

– Eu também... – Funguei. E era verdade, já era para eu ter superado, sempre que tudo parecia ir bem as dores e lembranças voltavam. – Dói tanto... Tem noites que não consigo dormir, não consigo esquecer. Ainda escuto tudo. Lembro me de tudo. As vozes, a agitação, os gritos. É como se eu estivesse lá outra vez.

Me encolhi nos braços de minha mãe. Não me recordava da última vez que tinha dormido perto dela, eu devia ter por volta de cinco anos no máximo.

– “Tale as old as time. True as it can be…” – A última coisa que me lembro antes de cair no sono, desta vez sem pesadelos, foi a voz doce e suave de minha mãe cantarolando baixinho Celine Dion.

Duas semanas. Duas semanas haviam se passado desde que tive aquele pesadelo. Duas semanas com pesadelos todas as vezes que eu fechava os olhos e me entregava ao cansaço. Duas semanas mal dormidas. Duas semanas de notas fodidamente erradas no piano. Duas semanas de esforço e máximo de concentração nos estudos. Duas semanas e eu ainda não tinha uma droga de tema para a droga da peça de teatro. Duas semanas desde que fui ao refúgio pela última vez. Refúgio. Fora assim que o Daniel se referira á floricultura quando pediu para que o encontrasse lá de noite assim que entrei na sala de aula naquela manhã.

Duas semanas essas que passaram voando. Estava me acostumando com a rotina. Levantar da cama, me arrumar, acordar meus irmãos, ir para a escola com eles ou esperar Daniel na porta de sua casa para irmos juntos. Chegar na sala, sentar no pior lugar possível, entre os dois caras que sempre dominavam meus pensamentos, voltar para casa com Daniel e sua irmã, fingir que almocei, ir para o jazz e me trancar no quarto o resto da noite.

Por mais que soe clichê, sabia aquele dia seria diferente. Não sei se ficava preocupada ou feliz pela quebra de rotina. Para começar, meu babyliss não estava no banheiro, não estava em lugar nenhum. Por implicância de Guilherme dizendo que eu estava atrasando todos, resolvi deixar o cabelo liso. Ao chegar na cozinha, percebi que Vicente engolia como troglodita o resto do meu estoque de cereal, o que desencadeou uma discussão totalmente estressante. Conversar com aquele cara é como conversar com alguém de doze anos, discutir com ele é como falar pra uma menininha que não pode vestir a boneca com tal roupa. Por tais razões, quando cheguei na escola estava no pior humor possível, além de estar atrasada para a aula de minha própria mãe.

Ah, e sobre ter minha mãe como professora? Estava realmente menos mal do que pensei. Houve uma ou duas vezes em que ela cometeu o deslize de me chamar de ‘filha’, mas a maioria das pessoas nem havia notado ou não acharam que era o sentido literal da palavra mesmo. De qualquer modo, eu tinha deixado bem claro á ela que me sentiria mais confortável se dentro da escola fossemos somente professora e aluna. Claro, haviam aqueles que sempre souberam, como minha prima, a Fernanda, o Dan e o Felipe, mas aparentemente ambos entenderam que eu não queria que passasse disso.

O único ponto bom de além de professora ela ser minha mãe é que nunca me mandaria para a diretoria por um atraso, bem, era isso que eu pensava antes de pedir licença para entrar na classe e Polliana falar que eu precisava de uma autorização da diretora para tal. Naquele mesmo momento meu queixo caiu e meus olhos aumentaram de tamanho. Ela sabia que eu estava atrasada, me deixou em casa ao invés de me dar carona sabendo que chegaria mais tarde por isso, ao perceber minha reação minha mãe simplesmente deu de ombros de fez uma careta que dizia “Sinto muito, você que pediu para eu ser a professora e não a mãe”. Revirei meus olhos e voltei a andar nos corredores desertos. Ainda não tinha ido na sala da diretoria, que por acaso era uma freira – eu e freiras temos pensamentos tão iguais que sempre vamos ao salão juntas –, quase três semanas em uma escola sem visitar a diretora. Esse definitivamente era um recorde, um que eu queria tentar aumentar mais.

Não foi difícil achar o escritório da Irmã Lúcia. A porta era de madeira clara, diferente das demais salas de aulas, no alto da mesma havia uma placa de metal com o nome da mulher escrito em letra cursiva. Bati nela uma vez e dois segundos depois um sorriso com os dentes mais brancos que já havia visto.

– Bom dia. – Disse uma mulher na casa dos trinta, toda sorridente, sorridente demais para aquela hora da manhã. – Acho que ainda não conheço você.

– Ahn, oi. – Resmunguei entrando na sala de espera. – Sou aluna nova, cheguei atrasada e minha mãe disse que precisava da autorização a Irmã para entrar na sala.

– Sua mãe? – A mulher perguntou franzido as sobrancelhas. – Ah, claro, a filha da Polliana.

Forcei um sorriso e me sentei na cadeira que a mulher indicou. Ela disse que se chamava Karina e que a diretora estava ocupada com um grupo de alunos que arrumaram confusão logo no primeiro período, mas que era para eu esperar alguns minutinhos que logo ela me atenderia.

Karina até que parecia ser gente boa, conversamos um bocado, ela não parecia muito interessada no seja lá o que secretarias de escolas fazem. Ela tinha 27 anos, se formara em administração por vontade dos pais e agora trabalhava na escola por meio período e estudava arquitetura de noite. Namorava com o mesmo cara há três anos e estava crente que até o final do ano estaria noiva. Já sabia até a quantidade de filhos que queria ter e que nome daria para cada. Certo, ela não era tão legal assim, mas meu dia já estava um desastre de qualquer maneira, além disso eu não podia simplesmente mandar a mulher calar a boca.

– A diretora está demorando, esses meninos devem ter arrumado uma confusão e tanto. – Falei, tentando sair do assunto sobre como ela conheceu o Calos. Caio. Carrick. Whatever.

– Ah, sim – Karina disse animadamente enquanto procurava uma lixa de unha na gaveta –, você nem imagina. Os pobrezinhos só estavam fazendo um protesto. Aparentemente o professor de educação física do terceiro ano está proibindo alguns garotos de entrarem do vestuário porque eles são... gays. – Ela sussurrou a ultima palavra como se fosse Você Sabe Quem. – Acredita que hoje em dia ainda existe homofobia? Nunca gostei daquele homem mesmo. Não é porque os meninos gostam de outra fruta que vão ter que ficar fedendo o resto da aula depois do futebol.

Concordei com a cabeça e fiz cara de quem entendia o que ela dizia. Por dentro, estava em uma guerra tentando decidir se ria do modo em que a mulher dizia as coisas ou procurava o tal professor para arrancar a ‘fruta’ dele sem dó.

– Então quem devia se encrencar é o cara, não?

– Acho a mesma coisa, pequena. Porém aqui continua sendo uma igreja católica com todas suas normas chatas e quadradas. Lúcia quase teve um ataque do coração quando passou pelos corredores e viu todos aqueles meninos sem camisa com o corpo pintado segurando placas de protesto. Bem, eu também quase tive um ataque, mas por motivos diferentes, se você me entende... – Karina deu um sorrisinho um tanto quanto pedófilo que resolvi ignorar. – Lúcia é uma senhora muito doce e tal, porém ainda não aceitou a teoria de um Adão gay ou uma Eva sapatão. Mas fazer o que? A coitada nasceu num convento, que sobreviveria a isso com sanidade?

Pisquei algumas vezes tentando processar o que a secretaria dizia na velocidade de 300 palavras por segundo. Quando finalmente meu processador entendeu tudo não tive tempo de perguntar nada.

– Uma vez tentei conversar com ela sobre isso, já até emprestei um livro de um autor lá que só escreve livro assim, David Levan? Whatever, tentei fazê-la assistir uns filmes sobre diversidade e tal, quer dizer, já tivemos muita reclamações de pais sobre como seus filhos diferentes estavam sendo tratados. Mas a mulher é tão ligada ao século passado que achei que me demitiria.

– Tentou fazer ela assistir romances gays? – Perguntei horrorizada. Quer dizer, a Irmã Lúcia era um Irmã, claro que ela sempre estaria um passo atrás com tudo isso, ou com tudo atrás mesmo, mas as ideias de Karina de fazer a chefe entender os tempos modernos não era uma das melhores.

– Claro, ué. Amo filmes de amor proibido, acho tão lindo. Sabe, quando os pais proíbem o casal de se ver ou eles se sentem reprimidos pela sociedade e, no final, o amor deles acaba superando todas as barreiras. – Karina suspirou olhando pro além. – Afinal de contas, é a mesma coisa de você assistir algo tipo... sei lá, Romeu e Julieta!

Naquele momento algo em mim despertou. Meus olhos arregalaram e por alguns segundos considerei a possibilidade de me levantas e abraçar Karina. Pulei da cadeira e me dirigi a porta quase que voando. Me senti a criatura mais idiota do universo e quando Karina perguntou o que eu iria fazer disse apenas que me lembrei que tinha algo importante demais e que não precisava mais da autorização da Irma.

Passei pelo corredor correndo, fazendo como que todas as pessoas das salas por onde passava olhassem para mim, mas estava pouco me importando com isso. Me sentia como quem acabara de descobrir que a Terra não e quadrada. Me sentia como quem acabara de encontrar um tesouro.

Empurrei as portas pesadas do antigo teatro arfando e encontrei Greta sentada sobre um tapete de yoga com os olhos frechados e em uma posição bastante estranha. Eu sabia que ela não deva aulas nos primeiros horários e que sempre estava na escola neles fazendo sabe-se lá o que. Tentei me lembrar de como se respirava e em um folego só disse:

– Já tenho minha peça.

– Romance gay? – Maria Bárbara gritou horrorizada. – Você vai transformar a minha peça em uma novela da Globo???

A Barbie Diabólica, Felipe, Fernanda, Henrique, Olivia, Daniel e eu estávamos sentados nos mesmos lugares que sentamos nessas duas semanas, na mesma mesa que usamos nessas duas semanas, pedindo as mesmas comidas que pedíamos nessas duas semanas. Bem, menos Daniel e eu, mas esse era um caso separado de uma aposta sobre experimentar todos os pretos. A única diferença e que Bárbara, que eu sempre soube que na cabeça dela pulava em cima de mim e arrancava cada um dos meus órgãos vitais, hoje estava levantada em posição de ataque pronta para fazer o que tanto se segurara.

Era uma segunda feira, naquele dia teríamos aula na parte da tarde, mas ainda faltavam dois dias para aula de teatro, quando a professora anunciaria para todos o que ela chamou de brilhante tema. Confesso que na hora em que a contei o que planejava fazer com a peça de outubro tive medo de sua reação, acontece que ela havia me pedido uma historia de amor proibido e, caso tudo ocorresse como eu havia planejado, era isso que ela teria. Passei o resto do primeiro período bolando os detalhes com Greta, ao voltar para sala cruzei com minha mãe e a ignorei completamente. Sabia que ao chegar em casa levaria um sermão de fazer os ouvidos sangrarem, mas no momento estava tão empolgada que nada afetaria, nem mesmo os chiliques de Maria Bárbara ao saber que não tinha a menor chance de interpretar um dos protagonistas da historia, já que Greta optara que os mesmos fossem homens. Eu estava tão envolvida com a novidade e as ideias que tinha resolvido contar para meus amigos – meus amigos e Bárbara – assim que nossas comidas chegaram.

Talvez eu tivesse pensado positivo demais ao achar que minha ideia seria recebida com palmas, elogios e um Oscar, mas a quantidade de bocas abertas e o “Você o que?” em uníssono me fez repensar na qualidade do meu plano.

– Eu... Greta queria algo inspirado em Romeu e Julieta, mas nada clichê. Ela queria uma coisa moderna, um assunto atual. Jordana Trevisan vai estar na apresentação e ela tem pavor de temas rept...

– JORDANA TREVISAN VAI ASSISTIR A APRESENTAÇÃO? – Bárbara me interrompeu aos berros. – Jordana Trevisan vai assistir a peça e eu não vou ser a protagonista? Como você... como você pode fazer isso comigo, anã oxigenada?!

Antes que meu queixo pudesse chegar ao chão, Bárbara se levantou com fumaça saindo pelo ouvido e saiu pisando forte em direção á porta do estabelecimento.

Com os olhos esbugalhados, indaguei Felipe com o olhar que só deu de ombros e saiu atrás da ratazana, digo, namorada. Eu sabia que Bárbara teria uma reação negativa, mas não estava contando que ela sairia me xingando de todos os nomes possíveis.

– Ela acha que não sou loira de verdade? – Foi tudo que eu consegui falar.

– Você faz essa sacanagem com a gente e tudo que se preocupa é do que a Maria Bárbara acha ou deixa de achar do seu cabelo? – Olívia indagou com uma expressão que eu nunca tinha visto em seu rosto. – O teatro era tudo para ela. E pra mim! – Minha prima balançava a cabeça freneticamente e por alguns segundos tive medo de que a veria chorar. – Aí você chega, decide mudar as coisas, nos tira a única coisa naquela escola que gostamos e não gosta da maneira que a menina se referiu ao seu cabelo?

– Olívia, sabe que não foi isso que a Tina fez. Você não foi cortada da peça, só não será a protagonista como sempre é. – Um leve sentimento amistoso passou por mim ao ouvir Daniel me defendendo. O quase isso.

Humpt, mas claro que você defenderia ela. – Minha prima rebateu com cara de desgosto.

– Do que você está falando? – Perguntei sem entender a acusação.

– Do que eu estou falando? Por favor, Ana Valentina, não se faça de boba. Você sempre foi a menina de ouro, a coitadinha com dos pais divorciados, e menininha revoltada, mas talentosa e brilhante. Sempre foi assim. Onde você chega todos te adoram e querem ficar perto de você. Você é minha prima e eu a amo, ou tento. Eu só canso de ser jogada para segundo plano quando você está perto. – Ela virou para Daniel. – Quer saber, me desculpe, a culpa é mim de achar que você também não cairia no canto da sereia. – Dito tudo isso. Minha prima que estava mais vermelha do que nunca, puxou sua mochila violentamente e fez o mesmo caminho de Maria Bárbara.

Acompanhei minha prima com os olhos e quando ameacei segui-la senti a mão delicada de Isabella segurar meus pulsos.

– O quê? Vai dizer quão errado foi eu pensar estar fazendo algo certo? – Soltei e me achei grosseira assim que vi os olhos assustados da garota. – Me desculpe, não quis dizer isso.

– Tudo- tudo bem, Ana. – Isabella falou baixinho, talvez assustada. – Eu só ia lhe dizer para deixar Olívia sozinha um pouco. Se a conheço bem, você é a última pessoa que ela quer ver agora.

Balancei o rosto compreendendo o que a menina estava dizendo. Quando olhei para frente novamente vi Daniel em pé olhando para mim e para a porta com uma expressão angustiada. Quando meus olhos encontraram com os deles tive vontade de fazer diversas coisas, como perguntar o que minha prima quis dizer, abraça-lo e outras coisas egoístas. Contudo, encostei de leve em seus dedos e indiquei a saída com a cabeça.

– Tem certeza? – Ele quase sussurrou. Assenti com a cabeça suavemente, eu não tinha certeza, mas era o certo.

– Vai lá.

– Você está bem?

Aquela pergunta só não me pegou mais de surpresa do que o que veio depois que assenti novamente. Não me lembrava de quando tínhamos estabelecido aquele nível de intimidade, mas realmente não tinha nada contra. Depois de pegar sua mochila para ir atrás de Olívia, Daniel segurou meu rosto de depositou um beijo em minha testa. Antes que eu pudesse raciocinar e dizer algo o garoto já estava quase na porta.

Me sentei novamente e me afundei na cadeira tampando o rosto para que o resto dos meus colegas não me vissem vermelha. Tudo o que ouvi depois disso parecia distante e sem importância, tudo o que eu fazia era repassar o que minha prima havia falado e tentar entender onde errei.

“Deixe elas, elas só estão assustadas. Estavam acostumadas em serem as estrelas sempre.”, “’É, com o tempo elas entendem.”, “Eu realmente achei a ideia brilhante, Aninha, já estava na hora de alguém se manifestar nesse meio lá na escola.”, “Se precisar de ajuda no trama a gente tá aqui.” ou “Já consigo pensar e meia dúzia de músicas que ficariam perfeitas na trilha sonora. Você disse que queria algo moderno, né? E se a gente fizesse...”

– Quer saber? – Falei me levantando novamente, dessa vez com cansaço no lugar do susto. – Muito obrigada, galera, mas perdi a fome. Digam que passei mal e fui pra casa, ok?

Sem esperar para ouvir o que diriam, agarrei minhas coisas e saí quase correndo pelas ruas. Se tinha um lugar que eu queria ficar agora não era em casa.

– A Isa ficou preocupada. – Ouvi sua voz junto com o barulho forte da porta velha e presada se arrastando. – Disse que você falou que ia para casa mas quando ligou pra lá você não atendeu.

– Não acredito que ela ligou para lá, minha mãe deve estar furiosa. – Resmunguei sem sair do lugar.

Estava na floricultura desde que saí do restaurante. Estava confusa demais para fazer qualquer coisa e não estava afim de conversar com ninguém e sabia que ali ninguém iria me encontrar, claro, fora ele. Passei quatro horas lá dentro andando de um lado para o outro, achei uma vassoura dentro de um armário e me ocupei em tirar as teias de aranha daquele lugar, jogar todo o lixo e resto de lona no lixo do vizinho e aguar o resto das flores que ainda existiam ali.

– Quer ligar para ela e falar que tá tudo bem? – Ele perguntou com certa ingenuidade na voz que me fez ter vontade de gargalhar, ao invés disso só tirei meu braço de meus olhos e, ainda deitada na mesa, virei meu rosto ara ele com cara de ‘fala sério’. – Ok, eu só queria ser legal.

Dessa vez soltei um riso baixo.

– Você está bem? – Daniel perguntou se sentando na mesa e botando meus pés descalços em seu colo.

– Não acho que meu humor mudou muito desde que perguntou pela última vez.

– Qual o seu problema? Não gosta da minha versão gentil?

– Acho que me acostumei demais com o Daniel galinha e caladão.

– Por que você tem uma visão tão ruim de mim? – O garoto questionou tirando alguma coisa da mochila e jogando na minha direção. Me sentei para abrir a garrafa de chá gelado. Assim que dei um gole ele tomou da minha mão e deu um também, em seguida fez um careta.

– Você odeia chá. – Comentei.

– Mas você adora. – Ele rebateu abrindo sua própria garrafa de refrigerante.

Virei meu rosto e fingi estar interessada em alguma flor do outro lado para esconder meu rosto vermelho.

– A Liv está com muita raiva?

Daniel deu outro gole antes de responder.

– Acho que ela esta com mais raiva de mim do que de você.

– Por que?

– Bem, você literalmente acabou com a meta de sua prima de ser a protagonista em todas as pecas do ano. Sabia que ela acabaria ficando chateada conti...

– Não – interrompi –, eu quis dizer sobre ela estar brava com você. Por que?

Quanto mais ele falava mais eu ficava confusa. Daniel começou a andar em círculos e a chutar as predas no chão. O vi abrir e fechar a boca ao menos três vezes, ele parecia estar considerando o que falar ou se iria mesmo falar. Minha curiosidade falava muito alto para deixar meu cérebro raciocinar e capitar os pequenos detalhes. Quando finalmente minha ficha começou a cair não pude me aguentar.

– Você disse não para a Liv porque queria levar outra menina, não é? – Falei pausadamente me levantando e me aproximando dele.

Daniel continuou calado por alguns instantes sem ao menos olhar na minha direção.

– Realmente não entendo como nem você nem a Liv me contaram isso. A Liv eu entendo, ela foi praticamente rejeitada e humilhada, mas por que não me contou que estava gostando de alguém? – Então, mais animada perguntei: – Eu a conheço? Ela estuda com a gente? Você já contou para ela que gosta dela?

– Tina. – Ele me cortou.

– O que?

– Calma. – Daniel começou. – A Olívia não te contou porque eu pedi, mas não achei que ela fosse mesmo fazer isso.

– Por que você pediria algo assim?

– Porque eu queria te contar.

– E por que não contou? Achei que estávamos naquela coisa de “contar tudo um para o outro, ajudar o outro e continuar no mesmo barco”.

– Qual é, Valentina? – Daniel olhou para o teto e soltou um riso que me deixou bastante desconfortável. – Não é como se você me contasse tudo também.

– Do que você está falando? – Perguntei temerosa. Não podia ser, além do mais, nem Olivia sabia.

– Você ia me falar algum dia sobre você e o Felipe? – Ele questionou com um leve aborrecimento na voz.

Demorei alguns segundos para compreender o que ele queria dizer com aquilo. Meus olhos aumentaram e ri. Comecei a rir de alívio, sem acreditar no exagero da cena. Comecei a rir porque não sabia mais o que fazer.

– Eu e o Felipe? – Repeti.

– Por que está rindo? – Daniel quis saber. – Me desculpe se parece engraçado que eu tenha sido o último a saber. – Ele falou se virando e agarrando sua mochila, quando me dei conta que ele estava saindo parei de rir e o segurei pelo braço.

– Ei, calma. Eu não estou rindo de você, é que eu não estou entendendo a gravidade disso. – Vendo sua testa franzida do jeito que ele fazia quando não entendia ou não gostava de uma situação, continuei: – Você realmente não sabia que eu e o Felipe... ahn, que a gente...

– Não, Tina, eu não sabia que vocês tinham sido namorados. Não sabia que vocês se conheciam antes. – Disse ele soltando a mochila no chão com um certo pesar. – E pelo visto eu era o único também.

– De verdade, Dan, me desculpe por não ter te contado. É que eu realmente achei que você soubesse. Não gosto de ficar falando disso, eu conheço o Lip desde sempre, hoje ele tem a Bárbara e não acho legal ficar comentando coisas assim. As pessoas simplesmente sabiam, eu não contei para ninguém. Acredite em mim.

– Eu acredito em você, de verdade. Sei que é besteira, mas me senti enganado por saber disso pela Olívia, não por você ou por ele. E depois eu fiquei pensando e não consegui processar uma coisa...

– Pode perguntar, Dan.

– O Felipe é o cara que você disse que se apaixonou antes de tudo dar errado? – Ele perguntou e logo comprimiu os lábios como se temesse a resposta. Eu o olhei nos olhos e tentei procurar algo que me explicasse o que estava acontecendo.

– Eu não me apaixonei por ele, Daniel. Eu nunca me apaixonei. – Falei a verdade. – O Felipe não foi meu único namorado e nem de longe o que interferiu mesmo na minha vida. A gente ficou junto por que era o esperado, porque não tinha razão para não ficarmos.

– Desculpe, Tina, mas não acho que ele tenha terminado com a Bárbara porque era algo tão simples assim.

– Ele terminou com ela? – Perguntei chocada por um instante e me repreendi assim que vi os olhos de Daniel ameaçarem revirar. – Foi mal. – Suspirei. – É que eu ainda não estou entendendo o motivo disso tudo. Por que a Olívia foi te contar isso agora.

– Ela disse que eu devia pensar melhor antes de tomar alguma decisão.

– Uma decisão? Sobre o que?

– Sobre o baile. Sobre tudo. – Ele soltou. – Quando saí atrás dela ela disse que eu estava me enganando, me iludindo. Eu não acreditei nela então ela me contou sobre você e ele. Que ele nunca parou de falar de você e que você também só perguntava dele quando chegou.

– O que? Por que ela te contaria isso? Isso nem é verdade. – Me afastei franzindo a testa. De onde diabos a Olívia tirou isso?

– Valentina, não precisa fazer isso. Não diga que não é verdade e que o que vocês tiveram não foi nada. Se não tivesse sido importante você não teria me contado abalada naquele dia. Eu não devia ter me metido.

– O que isso quer dizer?

– Quer dizer que eu sei que não posso competir com uma história de anos.

E saiu.

E ele simplesmente saiu e me deixou no meio das flores sem ter nem porquê.

E ali, no meio das camélias me dei conta. Isso nunca se tratou de uma terceira garota.

– Ah, sobre a festa. Parece que ela ficou mesmo magoada.

– Que festa?

– A festa pós peça. – Daniel completou, vendo que minha cara de confusão continuava. – Depois das estreias das peças a escola dá uma festa para a turma responsável. No salão da escola, claro, com supervisão dos professores e das freiras, mas tem música boa e sempre rola uma bebida batizada. Geralmente é legal e temática. Olívia organizou a próxima para que seja com máscaras...

– Pode pular para a parte que você irritou ela? – O cortei novamente e dei mais um gole em minha bebida.

– Ela não te contou?

– Contou o que?

Agora quem tinha um ponto de interrogação estampado na cara era Daniel.

– Ela não lhe contou que me pediu para ir com ela na festa?

Cuspi meu chá na chão espantada. Claro, eu havia, diversas vezes, encorajado Liv a dizer para Daniel como se sentia ou chama-lo para sair, mas ela sempre negava e dava uma desculpa.

– Ela te chamou para sair? Não creio! Eu insisti tanto para que ela fizesse isso.

– Você falou para ela me convidar? – Ele perguntou com algo nos olhos que não soube reconhecer.

– Bem, disse para ela lhe convidar para sair. Não entendo porque ela não fez isso antes, ela é doida por você há tanto tempo.

– Ela é doida por mim?

– Dá para parar de repetir tudo o que eu falo?

– Eu só estou tentando entender.

Quem tem que entender algo aqui sou eu. Ela finalmente te chamou para sair, mas por que isso deixou ela com raiva?

Daniel continuava confuso, como se não entendesse porque eu não sabia disso. Eu também não entendia porque minha prima não tinha me contando, de repente os olhos de Daniel aumentaram levemente de tamanho e quase pude ver as engrenagens funcionando em sua cabeça.

– Puta merda, como eu sou idiota. – Daniel botou o rosto entre as mãos. – Como eu não percebi que Olivia gostava de mim?

– Me pergunto isso todos os dias no ultimo mês.

– Você não entende, Tina. Olivia é minha melhor amiga, eu nunca, jamais, seria capaz de vê-la de outra forma. Por isso quando ela me convidou para festa achei que era como amigos e recusei.

– VOCE RECUSOU?

– Quem repete as coisas aqui?

– Daniel Germano, a garota gosta mesmo de você e você diz não para ela? Por isso ela esta com raiva de você!

– Disso eu sei. – Ele respondeu saltando da mesa.

– Mas por que raios você disse não?

Notas finais
Gostaram? Acharam erros? Na correção encontrei milhares mas sempre posso ter deixado algo passar. Comentem, sério, amo quando fazem isso xoxo arabella
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.