Falando de Amor
1 Capítulo 1
Notas iniciais
1º de Maio 2015, Dia do Trabalho.
Ele ajeitou a gola da camiseta pela sexta vez. Estava nervoso e suava frio, ansioso para o que aconteceria hoje. Iria fazer um discurso falando sobre o seu trabalho, para o Dia das Profissões do colégio de seu filho. Sim, ele, Milo Séferis, pegador nato, agora era um pai de família. Casou-se com o francês Bernard Camus Verseau, um economista certinho, viciado em trabalho, com mania de limpeza e organizado por natureza, totalmente seu oposto. Isso não impediu que o destino os juntasse, o amor foi mais forte, embora os dois brigassem várias vezes ao dia, por coisas sérias ou bobagens. Normalmente era para descobrir qual programa de televisão assistir, uma vez que Milo era amante de esportes e Camus odiava qualquer coisa que envolvesse exercícios físicos. Mas após o nascimento de Eros, há sete anos, as brigas sempre terminavam em abraços e beijos carinhosos e um pedido de desculpas por ambas as partes, tanto para que a criança não vivesse em um ambiente hostil, tanto por se amarem bastante para permanecerem brigados.
Eros, filho do casal, havia sido bastante planejado desde o início do relacionamento. Camus, apesar de toda a aparência fria e distante, sempre quis ser pai. Já Milo não pensava nisso, mas fora convencido pelo marido de que uma criança só melhoraria a relação dos dois. No fundo o loiro também morria de vontade de ver um moleque correndo pela casa. Quando o menino nasceu, pequeno e gordinho, foi uma alegria só. A família toda fez uma festa para comemorar, a qual Eros passou de colo em colo, quase sem chorar. Era um garoto adorável desde bebê e seus pais não podiam ser mais babões. Milo se gabava porque Eros se parecia muito com ele, com seus cachos longos e dourados caindo até os ombros e os olhos azuis-claros expressivos, com cílios grandes e sobrancelhas grossas. Mas Camus fazia questão de exaltar a semelhança de seu sorriso e o do filho, as ruguinhas de expressão ao redor dos lábios e a curvatura da boca eram, de fato, iguais. Tudo isso porque Eros era realmente fruto de ambos DNA’s. E não, não era um milagre, e sim bondade e boa vontade da parte da irmã-gêmea de Camus, Natássia, que gerou o filho dos dois, a pedido do cunhado.
–Vamos, papai, está na hora! – a voz infantil e estridente de seu filho soou em seus ouvidos, tirando-o de seus pensamentos. Viu pelo espelho a cabecinha loira de Eros, que observava-lhe se arrumar, com o corpo para fora do quarto.
–Já estou indo, garotão. – respondeu e voltou ao que fazia, dando agora atenção ao cabelo. Eros bufou, entrando no quarto.
–Você já está se arrumando há um tempão. – bronqueou e cruzou os bracinhos, franzindo o rosto em uma careta irritada. Milo fazia uma careta idêntica, chateado por não conseguir arrumar o cabelo do jeito que queria. Os cachos dourados eram rebeldes e nunca ficavam bem em um penteado mais formal. Deveria se conformar.
–É que eu quero ficar bonito para a sua festinha, meu filho.
–Você já é bonito, papai. Não precisa ficar pendurado aí nessa coisa. – apontou com seus dedinhos pequenos para o espelho. – E você está se arrumando demais, parece até que vai receber o Oscar.
Milo, sem conseguir se conter, riu da frase do menino, que ficou mais irritado, convicto de que o pai não o levava a sério. Na verdade, o mais velho ria da situação. Camus quem costumava falar isso, citando eventos artísticos, os quais Eros mal sabia existir. Se lhe perguntassem o que significava Oscar, o garoto não saberia, mas o pequeno tinha a mania de copiar seus pais no que quer que fosse, coisa muito comum entre as crianças amadas pela família. Seus pais eram seus ídolos.
–Tudo bem rapazinho, você venceu. Vamos. – o mais velho rendeu-se e saiu de casa, com Eros reclamando que iriam se atrasar.
Milo dirigia pelas ruas do Rio de Janeiro, reclamando pelo trânsito caótico logo pela manhã. Essa era uma das coisas que mais odiava no Brasil, principalmente nas grandes metrópoles. Em sua infância, em que passou em seu país natal, Grécia, não tinha engarrafamento. Morava em uma vila pequena e afastada do centro, onde pudera brincar sem muita interferência da urbanização. Não tinha nenhuma ideia de que um dia moraria na cidade grande, em um país bem longe do seu, em outro continente.
Tudo aconteceu quando empresário renomado gostou da postura de Milo e convidou-o para trabalhar em sua agência de modelos, no Brasil. O grego, que apesar de ser um rapaz interiorano, não era nem um pouco tímido, logo aceitou, deixando seus pais na Grécia, com quem já não tinha um bom relacionamento. Após alguns anos, cansado da vida de modelo, Milo largou aquele trabalho para se dedicar ao curso de enfermagem, seu sonho. Começou a também a trabalhar como salva-vidas em um clube perto de sua casa, para pagar o curso. Foi quando conheceu Camus. Milo lembrava-se muito bem: Em um canto do clube, em meio a vários corpos bronzeados, lá estava ele: ruivo, pálido e bastante envergonhado por mostrar o corpo. Um peixe fora d’água. Não parecia se divertir. Na verdade, parecia aflito, como se quisesse fugir dali. Contou a Milo, naquele dia mesmo, que odiava lugares movimentados, como aquele clube. Só estava ali para levar seu meio-irmão, Alexei Hyoga, que morava longe e havia vindo passa as férias com ele, para se divertir. Mal sabia que era um golpe do destino para que ele encontrasse seu amor.
Após algumas horas parados em um engarrafamento, finalmente conseguiram chegar. Milo deu graças a Deus por não estar atrasado, senão Eros o mataria. Quando caminharam para o colégio, o loiro não escondeu a admiração, demorando-se em analisar a fachada do mesmo e abrindo levemente a boca, surpreso ao notar o quanto aquele prédio era grande. O Instituto de Ensino Golden Saint, que antes se chamava Centro Educacional Masami Kurumada, em homenagem ao avô da dona, Saori Kido, era bastante pomposo. Seu foco era nos filhos de estrangeiros, por isso o nome em inglês, que tinha como significado “Santo Dourado”, querendo, na verdade, alegar prosperidade. A frente era feita de tijolinhos aparentes azuis-claros e a lateral era branca. Tinha três andares: o primeiro era para a creche, o jardim de infância e outras salas como auditório e sala dos professores; o segundo era para o primeiro grau; e o último era para os alunos do ensino médio. O pátio era extenso, com o chão de concreto e enfeitado por algumas árvores grandes, de flores, muito bem podadas, deixando ao menos um pouco a lembrança natural do local, antes de ser reformado.
Pai e filho entraram na sala do terceiro ano. Já havia alguns pais sentados ali, esperando pelo começo da reunião. Não eram muitos, pouco mais de meia dúzia, mas ainda assim Milo se sentiu nervoso. Era um homem extrovertido e já tinha desfilado para um monte de gente, porém, sua experiência em discursos não era boa. Falaria sobre seu emprego como paramédico, no mesmo clube em que um dia trabalhara como salva-vidas.
As horas iam passando e cada vez mais gente ia chegando. Eram pessoas diferentes fisicamente, mas semelhantes em alguns aspectos, o principal era o financeiro. Com seus ternos caros e cabelos recheados de gel, os frequentadores do Golden Saint eram exatamente o esperado de um colégio da zona sul do Rio de Janeiro: ricos, vaidosos e arrogantes. Mal olhavam na cara do pobre grego, que se sentia deslocado, no meio de tanta gente elegante. Deveria ter vindo de terno, pensou. Mas optara por uma camiseta, pois se sentia mais confortável e gostava de ser um cara informal, ao contrário de seu marido, que com certeza viria de terno. E pensando nele, notou que Camus ainda não havia chegado.
Milo esperou, esperou, mas o francês não chegou. Certamente ficou preso no trabalho, o que irritava demais o loiro, que não entendia a necessidade de Camus em ficar trancado em seu escritório, fazendo e refazendo a contabilidade da empresa para qual trabalhava. Tão workaholic que esquecera do mais importante: sua família. Aquela reunião era muito importante para Eros, que não conseguia esconder a decepção ao notar que seu outro pai não estava lá. Se Camus perdesse o encontro, Milo e ele teriam uma “conversinha”, o que era uma sentença de morte para o ruivo. E quando o grego explodia, nada mais o segurava.
Deu-se início a apresentação. Um homem de terno cinza, cabelos castanhos aparados à máquina e dentes assimétricos, começou a discursar, tendo um garotinho ao seu lado, segurando sua mão. Era a cópia exata do pai, mas seus cabelos eram mais claros, certamente puxando a mãe. Ouvia atentamente ao pai, que falava sobre como era trabalhar em uma multinacional.
Após vários pais, homens e mulheres, falarem sobre suas vidas bem sucedidas, sobre o poder que exerciam sobre assalariados e como eram astuciosos em suas tarefas, Milo viu-se quase dormindo. Foi como no dia em que Camus o obrigou a acompanhá-lo em um concerto musical da Orquestra Sinfônica Brasileira. O ruivo precisou, de ora em ora, ficar cutucando o grego, para que este não dormisse. Tinha certeza de que aquele foi o evento mais chato da vida do loiro, mas essa reunião estava quase tomando o posto.
De repente, contrariando a ideia de que faltaria à apresentação para ficar trabalhando, Camus chegou. Sentou-se ao lado do filho, deixando-o entre si e o marido. O grego, que ainda não havia percebido a presença de seu esposo, quase pulou de susto quando Camus cumprimentou-o, ao passo em que Eros quase morreu de alegria. Seu pai veio. Ele não o abandonaria. E isso lhe deixava radiante.
–Está atrasado. – o loiro disse chateado. Camus suspirou resignado, sabendo que tinha culpa.
–Desculpe, mas houve uma emergência no escritório e...
–Não precisa se justificar, eu já sei que seu trabalho vem em primeiro lugar sempre. – cortou-o secamente. Camus engoliu em seco, prevendo uma briga, mas Milo o surpreendeu quando sorriu complacente para ele. – Não vamos discutir aqui, sim? É o dia do Eros.
–Fiquei com saudades. – o francês disse, com um sorriso de canto. Milo se derreteu.
–Eu também. – respondeu, sorrindo largamente. Eros observava discretamente os seus pais.
Milo se inclinou para beijar os lábios do ruivo. Camus recuou, virando no último segundo o seu rosto, fazendo com que o loiro acabasse beijando sua bochecha. Um clima tenso se instalou entre os conjugues. Milo lançou um olhar tão magoado para o francês, que o fez se encolher ao seu lado. O peito de Camus doeu ao ver a decepção estampada nos olhos do outro. Sabia que Milo tentava entender seu jeito reservado de ser, sempre sendo um companheiro amoroso e compreensivo. Contudo, algumas atitudes repreensivas de Camus, como a demonstração de desconforto perante gestos de carinho em público, fazia com que Milo se sentisse diminuído, como se fosse tão desprezível que arruinasse a reputação do francês. Por mais que tentasse aceitar, não conseguia entender como poderia ser tão horrível para alguns ver uma demonstração de afeto de duas pessoas que se amam. Não era nada escandaloso e nem devasso, era somente um selinho, como casais héteros costumam fazer por aí. Ainda assim, algumas pessoas julgavam ser algo pecaminoso, quando na verdade era somente transmissões de amor. Não fazia mal a ninguém.
Sem nada falar, Milo virou-se para frente e fingiu prestar atenção na palestra de um senhor que alegava ser avô e tutor de uma aluna cujo os pais haviam morrido em um acidente de carro. Camus mordeu o lábio inferior, apreensivo, sabendo que tinha vacilado com seu marido. Não fez por mal, não tinha vergonha de Milo, era somente um cara tímido, odiava chamar atenção. Sabia que se deixasse o beijo acontecer, várias pessoas iriam observar, talvez começassem a comentar também. E ele odiava que falassem dele, bem ou mal. Foi por isso que havia escolhido uma carreira em exatas: não tinha necessidade de lidar com pessoas, somente com números e fatos.
O grego ignorou Camus até o momento em que foi chamado para discursar. Nervoso, levantou, sentindo as pernas tremerem e caminhou até o palquinho de mármore que existia no meio do auditório. Recebeu um microfone e ajeitou-o no suporte. Ajeitou novamente a gola de sua camisa, o que fazia quando ficava nervoso, e preparou-se para discursar. Mas aí cometeu o erro de olhar para a plateia. Ao ver aquelas pessoas lhe encarando, sentiu uma pontada no estômago e uma súbita vontade de sumir. Sabia que aquilo não era uma boa. Não queria fraquejar, seu filho estava assistindo a tudo, esperando um discurso entusiasta. Por isso, ignorou sua ansiedade e começou a falar.
–B-boa tarde. Eu sou Mi-milo e v-vim falar sob-re a enfe-fermagem. – começou, sem conseguir esconder sua tensão e acabando por gaguejar a cada palavra dita. Virou o rosto, tentando não olhar para o público. Escola trazia-lhe más recordações e, tentando evitá-las, não entrou em um colégio desde quando concluiu o segundo grau. Mas agora estava ali a pedido de seu filho, e tinha a esperança de que tivesse superado, mas sua mente começou a produzir lembranças de sua adolescência, na formatura do último ano do ensino médio, quando ainda morava na Grécia. Ele havia ficado com o posto de orador da turma e tudo estava indo muito bem, mas quando começou a falar em nome de sua classe, houve um boicote da parte de alguns colegas, que o humilharam com frases do tipo: “Bichinha louca!” “Desce daí e vai dar!” “Para de posar de machão, seu viado! Tá envergonhando a gente.“ “ Tira o pau da boca pra falar, otário” “Aposto que se eu te comer na porrada, você vai gostar!”. E as frases se repetiam em sua mente, como um turbilhão de palavras.
Ele não aguentou. Saiu correndo do palco, sentindo as lágrimas escorrerem de seus olhos. Eros ficou confuso, sem entender o que fez Milo ir embora. Camus penalizou-se. Sabia muito bem o que estava acontecendo, pois Milo já tinha tocado no assunto com ele. Era algo que o abalava muito, principalmente porque seus próprios pais não o apoiaram desde que assumiu sua sexualidade. E como era triste ver quem amamos mais nessa vida virando as costas para nós.
Sem pensar duas vezes, o francês andou até o palco e puxou o microfone da mão do organizador, que já iria chamar outro pai. Então, engolindo sua timidez, fez o que nunca pensou que iria fazer um dia: começou um discurso, que na verdade era uma declaração.
–Eu... bom, sou Camus Verseau e estou muito nervoso em estar aqui. – Eros achou engraçado ver o pai, sempre tão reservado, falando para um monte de gente. Achou então que seu outro pai também deveria presenciar aquela situação tão atípica. Então, saiu correndo à procura de Milo, e quando o achou, praticamente arrastou-o de volta para o auditório. Foi a melhor ideia que poderia ter, pois assim que chegou, o grego escutou algo que fez seu coração se encher de alegria: – Sou tímido e odeio falar em público, sempre que preciso dizer algo pra um monte de gente, como agora, eu fujo. Invento desculpa, mas não faço. Mas hoje é diferente. Hoje é um dia especial para o meu filho, Eros, e para o amor da minha vida, Milo Seféris, que acabou de sair dessa sala. Hoje era o dia em que ele mostraria o quanto se sacrificaria por nosso filho. Eros mostraria a sua inteligência, na medida do possível para um garotinho de sete anos, é claro, e Milo mostraria que as pessoas maldosas, que disseram que ele nada seria na vida, estavam erradas. – nesse momento, avistou Milo em meio às pessoas, sorrindo para ele. – As pessoas que o julgaram, por ser pobre e por ser homossexual, simplesmente porque não conseguem entender as diferenças. Por considerarem sempre que sua própria cultura é melhor e não demonstrar o mínimo interesse em conhecer a cultura alheia, a qual julga e condena. Por não entenderem que não há nada demais em um casal gay querer ter uma família, que não vão depravar – fez aspas em “depravar” – criança nenhuma, pois possuem consciência e integridade. Há, é claro, exceções. Sempre haverá o mal, alguma maçã podre em meio a uma macieira carregada. Mas isso não pode ser definido apenas pela opção sexual, e sim pelo caráter. Seu caráter é independente de suas preferências, na maioria dos casos. E o amor é lindo, lindo demais. Quem não gosta de ser amado? Eu adoro! Adoro acordar ao lado dos homens da minha vida e ouvir um “eu te amo, papai” e um “eu te amo, querido”. – sorriu ternamente com a lembrança. Milo já se debulhava em lágrimas e Eros sorria amplamente. – Adoro saber que posso confiar a minha vida a eles, e vice-versa. Saber que alguém me ama a ponto de cruzar todas as linhas possíveis, sem se importar com as consequências. É tão importante, eu acho que esse é o sentido da vida: amar e ser amado. Não importa a quem você ame, desde que seja verdadeiro e te faça bem. E eu amo meu marido, não tenho mais vergonha de dizer isso em alto e bom som. Nem se eu quisesse eu poderia. Porque ele já faz parte de mim, e eu não posso ter vergonha de quem eu sou. Em amo você, Milo Séferis. Não importa o que os outros digam, eu sempre vou te amar. Não se sinta diminuído por ser diferente da maioria das pessoas, isso só acontece porque você é especial. Principalmente para mim. Você é perfeito do jeito que é.
Ao finalizar, desceu do palco e abriu o sorriso mais feliz que pôde, fazendo Milo sorrir também. E, surpreendendo-o, abraçou-o pela cintura e roubou-lhe um beijo apaixonado. Milo comemorou internamente. Não era o dia mais chato ou trágico de sua vida, era justamente o contrário. Camus não sentia vergonha dele. Camus o amava. Camus demonstrara sua paixão falando de amor para ele. Camus era seu.
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