Fala comigo...
1 Único
Notas iniciais
O Natal sempre chegava com um silêncio diferente.
Não era a ausência de ruídos ou do calor que o mês trazia, não. As ruas estavam bem iluminadas, aquecidas por vozes e risos que atravessavam as paredes — como um mundo alternativo. Dentro de casa existia um silêncio ininterrupto, espesso, que se acomodava pelos cômodos até se acumular em fios invisíveis no peito de Neji, uma pressão constante de estar sozinho. Ainda que tivesse aprendido a ignorar, era a presença constante da vida que o fazia lembrar de que ele faltava.
Oito anos.
Fazia oito anos desde que Itachi partira.
Uma partida tão inesperada que às vezes ele acreditava não ser verdade. Que um dia o moreno entraria por aquela porta e diria com a expressão mais tranquila do mundo: “estou de volta, Neji.” E ele aceitaria o marido de volta independente do tempo que estivesse distante.
Mas enquanto se iludia nessa esperança fugaz, o tempo também o ensinou a funcionar no dia a dia, sussurrando um fato inegável — o enterro do homem que amava. Era cruel guardar essa lembrança, exceto que isso funcionava como um apoio para aprender a caminhar sobre uma fratura mal curada: cada passo possível, mas nunca indolor. Ele cumpria seus dias como uma máquina, evitando olhar longamente para aquilo que ainda sangrava por dentro.
Não era uma atitude madura para um viúvo, apenas servia como alívio para aqueles que se preocupam com sua saúde — um teatro mal feito de bem-estar.
E nesse pensamento de tentar parecer feliz, Neji montava a árvore de Natal. Seus movimentos automáticos ao pendurar os enfeites com cuidado excessivo, como se a delicadeza fosse uma forma de manter o controle do momento que deveria ser cheio de risadas e brincadeiras, mas que era tão oco quanto as bolinhas coloridas.
— Acho que está… aceitável — sussurrou, se afastando para observar. — Se Hinata reclamar, ela pode arrumar de novo. — Convencer a si mesmo era rotina, como se fosse outra voz dizendo isso a ele.
Um sorriso miúdo se formou em seus lábios e ele se abaixou para ligar as luzes com certa expectativa de sentir algo além de indiferença. Porém, o fio escapou de sua mão antes que pudesse chegar perto da tomada e junto com ele, algo dentro de si pareceu rachar.
Uma lembrança veio sem aviso.
Itachi estava ali.
Não como uma imagem nítida, mas como uma pintura borrada. O ambiente se reconstruiu inteiro: o cheiro do chá, a neve se derramando pela janela, a penumbra confortável, a ironia suave escondida em um comentário trivial. Neji sabia exatamente o que fora dito, cada palavra estava intacta, clara, quase dolorosamente viva em sua mente.
̶“̶V̶o̶c̶ê̶ ̶d̶e̶v̶e̶r̶i̶a̶ ̶c̶o̶l̶o̶c̶a̶r̶ ̶m̶a̶i̶s̶ ̶b̶o̶n̶e̶q̶u̶i̶n̶h̶o̶s̶ ̶d̶e̶ ̶n̶e̶v̶e̶ ̶n̶a̶ ̶á̶r̶v̶o̶r̶e̶,̶ ̶q̶u̶e̶r̶i̶d̶o̶”̶
Mas a voz…
Era como tentar escutar através de uma parede grossa. Um zumbido contínuo, um zzzzz insistente ocupava o espaço onde deveria estar o som que um dia conheceu melhor do que o próprio nome. Ele compreendia o sentido, lembrava da intenção, do afeto, da entonação usada — mas não conseguia mais ouvir Itachi.
O ar lhe faltou.
Neji se endireitou abruptamente, como se o corpo tivesse entendido antes da mente. O peito apertou de maneira brutal, os pulmões recusando-se a expandir por completo. Ele tentou puxar o ar, mas era como respirar água, afogando-se em uma sensação mista de físico e mental. O mundo ao redor de repente perdeu a nitidez enquanto ele tentava, desesperadamente, forçar a memória.
— N-Não… — sussurrou, a voz quebrando no meio da palavra.
Buscou outras lembranças com violência, seus olhos percorrendo todos os pontos da sala, como se estivesse revirando os destroços após um desabamento. Conversas noturnas, risos baixos, promessas ditas no altar, murmúrios trocados entre beijos. Todas vinham da mesma forma: completas em sentimento, mas cruéis, mutiladas no mesmo ponto.
̶“̶N̶e̶j̶i̶,̶ ̶m̶e̶ ̶d̶e̶i̶x̶e̶ ̶c̶u̶i̶d̶a̶r̶ ̶d̶e̶ ̶v̶o̶c̶ê̶.̶.̶.̶”̶
As palavras estavam lá.
A voz, não.
A constatação o atravessou com uma lâmina fria. O coração disparou para então falhar, errando o ritmo, como se também estivesse em colapso, prestes a parar. E Neji levou a mão ao peito, os dedos cravando no tecido da roupa, tentando segurar algo que escorria por dentro dele.
A perda não era nova. Ele havia lidado com o luto dia após dia, tentando se acostumar com a ausência gélida em um espaço que recebeu tanta vida quando o ele era eles. No entanto, o agora levava um gosto mais amargo, mais devastador.
Itachi não estava apenas morto, estava começando a se apagar.
As pernas cederam e ele se sentou no chão, encostado à árvore inacabada. As luzes ainda apagadas refletiam sua imagem distorcida nos enfeites, enquanto as lágrimas desciam quentes. As mãos trêmulas ao encarar a aliança que nunca tirou, as pérolas tão abertas que se via o reflexo de seus pensamentos — a imagem de Itachi sorrindo, falando algo inaudível.
— Por favor… — murmurou ao vazio, como se implorasse a alguém que jamais responderia.
Era cruel demais amar alguém a ponto de perder até o som que um dia o definia. Cruel perceber que a memória não era um cofre seguro, mas algo frágil, sujeito ao desgaste do tempo. E mesmo quando o primeiro instante do colapso cessou e as luzes foram acesas por seus dedos rígidos, Neji não se moveu do lugar.
Ele permaneceu sentado no chão, o olhar vazio fixo nas fotografias espalhadas nos móveis, percorreu cada uma à procura de um detalhe esquecido. Ele e Itachi. Um passado que ainda existia perpetuamente nos quadros — mas incompleto.
O desespero de pegar uma das fotos com cuidado excessivo, forçando a memória mais uma vez. Forçando sua alma a resgatar um som, qualquer que fosse, desde que pudesse afirmar para si que ainda era capaz de manter uma parte do marido consigo; não só as fotos, não só as roupas, não só as manias. Mas ele inteiro em sua mente.
E quando Itachi se manifestava em sua frente, os lábios se moviam com a mesma tranquilidade de sempre, formando uma frase que Neji sabia reconhecer. Sabia o sentido. Sabia quando fora dita. Sabia até a expressão suave que a acompanhava.
Mas não havia som…
Nenhuma entonação. Nenhum timbre. Nenhuma voz.
Apenas o movimento mudo da boca, como uma lembrança defeituosa, repetindo algo que jamais poderia ser ouvido outra vez.
— Itachi… por favor, querido… me deixe ouvir você, por favor, fale comigo… fale… — Neji apertou a fotografia contra o peito, os dedos trêmulos, insistindo em murmúrios chorosos, cavando a mente com toda força que tinha.
Procurando tudo o que lhe restava.
O pisca-pisca continuou iluminando o rosto distorcido em dor. Lágrimas tão salgadas que pareciam queimar a pele sensível. Ele já não temia só a solidão da vida, mas esquecer como Itachi soava ao dizer que o amava.
— Fale comigo… meu amor — pediu em um sussurro quase inexistente.
Nenhuma resposta veio além dos gritos e soluços que escaparam de sua garganta…
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