—Clak clak clak! (Morgaaaan~ Eeeeiiiii, Morgaaaan~ A mala está pesada, e também está quente demais por causa do sol… Vamos fazer uma pausa, hein, Morgaaaan~?)

—...

—Clak clak clak! (Hein, Morgan~? Minhas pernas também estão cansadas por causa do sol~ E eu também estou com sono porque fiquei treinando minhas poses de herói ontem à noite~~ Vamos descansar só um pouquinho, hein, Morgan~?)

—Pelos Deuses, tem como você ficar mais irritante!? Nós acabamos de fazer uma pausa não faz muito tempo! E além disso, você não sente calor e não fica cansada! Você já está morta! Eu que deveria estar reclamando aqui!!!

Embaixo do sol do meio dia, o par estava caminhando em direção à Cidade Acadêmica.

—Clak clak clak! (Morta não, morta-viva! Só porque eu não fico cansada fisicamente, não significa que eu não me canse mentalmente! Nessa hora do dia, o normal é uma garota estar em casa, trancada no quarto, descansando na cama enquanto toma sorvete, certo???)

—Tem algum horário do dia em que o seu normal não seja fazer isso?

—Clak clak clak! (…)

—…

—Clak clak clak! (De qualquer forma, tudo bem, não acha~? Já que eu não tenho realmente que comer ou qualquer coisa do gênero, também significa que eu não tenho custos, então não preciso trabalhar, nem estudar, nem nada~)

—Se você não trabalhar, não vai ter sorvete, cama, quarto, e muito menos uma casa! Por que você não pode seguir o exemplo sério dos seus pais!?

—Clak clak clak! (Hehehe, eu já tenho tudo planejado, Morgan---!)

—Só avisando que você não vai morar comigo, e muito menos vou te dar qualquer tipo de mesada--- Talvez uma ao pé da letra se a situação pedir.

—Clak clak clak! (O-O que!? Não diga isso, Morgan, não é como se eu fosse causar qualquer tipo de problema! Além disso, você não teria que gastar nenhum dinheiro para cuidar de mim, já que eu sou uma morta-viva! Bom, apenas alguns custos supérfluos, como minha cama, brinquedos, decoração do quarto, algumas comidas que eu queira fingir comer, pagar por danos eventuais que eu possa causar a outros, minha loção esqueletal para eu cuidar da beleza dos meus ossos---)

—Rejeitada.

—Clak clak clak! (P-pera! Então que tal se você me tratasse como sua animal de estimação, hein? Eu li em uma revista que 99% dos entrevistados tinham esse fetiche! Então, além de eu estar realizando um de seus fetiches, você só teria que cobrir com custos como minha cama, brinquedos, decoração do quarto, algumas comidas que eu queira fingir comer, pagar por danos eventuais que eu possa causar a outros, minha loção esqueletal para eu cuidar da beleza dos meus ossos---)

—Eu te disse que era melhor não mexer nas coisas da Chrome... Mas de qualquer jeito, não interessa do que você se autodenominar, se o resultado é o mesmo. Rejeitada.

—Clak clak clak! (Vamos, Morgan, por favorzinho~)

—Rejeitada---! Pensando bem… Acho que podemos chegar em um acordo…

—Clak clak clak! (Não vou mais vender nenhum osso!)

—Tch!

—Clak clak clak! (Se bem que os meus pais já estavam tentando me forçar a trabalhar nos campos também...)

—Você pode trabalhar na plantação com os seus pais, ou virar uma plantação de ossos comigo.

—Clak clak clak! (T-talvez ainda seja muito cedo para começarmos a viver junto, não acha, Morgan? V-vamos adiar essa conversa para daqui a alguns anos, c-certo? [Ou... Talvez se eu disser para os meus pais que estou morando com Morgan e passar o dia no meu quarto, eu consiga dizer para Morgan que estou trabalhando com os meus pais e pedir para morarmos junto... Hue hue hue sou uma gênia!])

—Só para avisar que não interessa quantos anos você espere, você vai ter que escolher entre ou um ou outro. Você não vai falar para os seus pais que está morando comigo só para não ter de trabalhar com eles.

—Clak clak clak! (M-mas como você sabia o que eu---!? Vamos mudar de assunto por enquanto... Ah! É mesmo! E quanto a essa mala, hein, Morgan??? Está pesada... Vou colocar no chão para descansar um pouco---)

Violeta solta a mala no ar.

—Q-que!? Não derruba ela!!

Morgan dá um mortal no ar e segura a mala que estava caindo.

—Tá tentando nos matar!?

—Clak clak clak! (Não. Mas eu não morro de qualquer jeito, já que já sou morta-viva. Além disso, não é culpa minha que está tão pesada. O que é que você enfiou aí dentro afinal de contas?)

—Precisava de tudo isso para mudar de assunto, sua esqueleto louca…? Que seja... Agora que você mencionou, eu ainda não vi o que a minha família colocou na mala antes de eu sair... Eu teria visto ontem no hotel, não fosse alguém incomodando os outros hospedes!

—Clak clak clak! (Se eles não queriam ver alguém gritando frases de efeito para a lua, enquanto fazia poses épicas, não deveriam ter derrubado aquela farofa na minha tíbia durante o jantar)

—Talvez você não devesse colocar os pês em cima da mesa... Ou ir para o restaurante, já que você. não. come.

—Clak clak clak! (Blah blah blah~)

—Hah… Vamos fazer uma pausa.

—Clak clak clak! (Ahh… Finalmente…)

O par se senta à sombra de uma árvore.

...

—Clak clak clak! (Zzzz)

—Já está dormindo…? É o que acontece quando você fica acordada a noite toda conversando... É o que eu gostaria de dizer, mas você não dorme Violeta!

Morgan dá um cascudo no crânio da Violeta.

—Clak clak clak! (Ai! Pra que isso!? Qual é a dessa tara por violência!? Todo mundo sabe que o jeito certo de descansar embaixo de uma arvore é dormindo na sombra!)

—Você que disse que queria saber o que que tinha dentro da minha mala, então não vem me ignorar agora!

—Clak clak clak! (Isso foi antes! Quem é que iria querer ficar vendo o que que tem dentro da sua mala fedorenta ao invés de dormir à sombra da árvore!?)

—F-fedorenta!?

—Clak clak clak! (E se eu realmente consigo dormir ou não, não interessa! Contanto que eu siga o ritual adequado, é a mesma coisa! Então, boa noite!)

—Ao meio dia…?

—Clak clak clak! (Eu. disse. boa. noite.)

—Q-que seja… Deixando de lado essa esqueleto idiota que fica estranhamente séria quando o assunto é vadiar...

Morgan abre a mochila.

—W-wow, eu já não tinha deixado muito espaço, mas realmente encheram até onde dava, hein? Vamos ver...

—Hmmm... A Mu-nee e a mãe azul deram algumas ervas e pomadas medicinais... Nossa! Tem umas bem raras aqui! As que funcionam contra maldições e petrificação devem ter sido bem difíceis de encontrar… Além disso, também tem umas para queimaduras, paralisia, envenenamento… Anti-inflamatórias… E mesmo algumas poções de cura rápida! Valeu mãe azul e Mu-nee!

—Clak clak clak! (Zzzz)

—Continuando... Hm? Um envelope? Ah, da Tsubaki-nee. Típico dela dar dinheiro de presente… Ela diz que é porque é mais fácil. Mas a verdade é que ela costumava dar uns presentes bem... “únicos”, até o dia em que a Chrome começou a reclamar e ela resolveu começar a dar dinheiro... É uma pena para falar a verdade, eu gostava dos presentes antigos, porque era fácil de lembrar dela sempre que olhava para eles, apesar de que--- Caramba! Como foi que ela conseguiu colocar tanta grana nesse envelope pequeno!? Valeu...

—Clak clak clak! (Morgan, por que é que você não me disse que eu estava carregando toda essa grana!? Eu fui rica e não sabia!)

—Agora que você volta a prestar atenção...? E isso nunca foi seu de qualquer jeito... Mas agora eu tenho mais fundos para comida. Seguindo em frente... Esses fios de seda de qualidade… E até mesmo um refil da seiva de alraune amarela! Rach-nee... Só ela poderia não ter colocado um nome nos presentes e escondido em lugares em que eu encontraria naturalmente... Valeu...

—Clak clak clak! (Você nunca achou estranho usar algo que sai da bunda da sua irmã?)

—Violeta, sua ignorante, as teias são produzidas nas fieiras, um órgão completamente separado do, ao que suponho que você esteja se referindo, ânus. A sua comparação é quase tão ridícula quanto comparar pelos com fezes.

—Clak clak clak! (Se você diz...)

—Da mãe rosa… Ovos! Que ótimo, tenho que comer eles logo---!

—Clak clak clak! (Pera aí, a teia eu deixei de lado, mas os ovos, da sua mãe harpia, sério...?)

—O-o que é que você está insinuando, Violeta...? A mãe rosa sempre foi a responsável por comprar ovos para a família...

—Clak clak clak! (Esses ovos, são de galinha?)

—S-são de harpia. Me lembro de ter visto a Happyzinha saindo de um igual... M-mas esses daqui são só os ovos que sempre comemos todas as manhãs. O-ovos deliciosos que eu acredito não terem nenhuma correlação com aonde quer que você esteja querendo levar essa conversa...

—Clak clak clak! (Tá… E essas penas rosas ai do lado não tem nenhuma relevância também, né? Tipo como se a sua mãe tivesse visto o que a Rach-nee estava fazendo e decidiu dar um presente parecido. As teias que você sempre usou nas lutas e os ovos que você sempre comeu no café...?)

—S-só porque essas são as penas dela, não significa que os ovos também sejam! O-ovos iguais aos da Happy... Ovos frescos e deliciosos... Com a casca rosa também... V-vamos para o próximo presente!

—Clak clak clak! (Deixando de lado as questões éticas… Você não acha estranho comer algo que saiu da bunda da sua mãe?)

—... Violeta, por que você não volta a dormir e cala a boca...?

—Clak clak clak! (... Dessa vez você não vai nem se dar ao trabalho de negar…?)

—A mãe vermelha me deu alguns... Livros...? Grandes e pesados... Empilhando eles, chegam quase até o meu joelho… Ah, tem um bilhete: “Não se esqueça de continuar com seus estudos, ok?”... Não sei se é o ideal para se levar em uma viagem, mas a mãe vermelha que sabe das coisas... Espera... Esses daqui são os livros que eu tinha anotado na minha lista de desejos! “Composições químicas”, “Experimentações com materiais de monstas”, “Manufaturas avançada vol. 7”, “Culinária global”, e até alguns mapas e guias atuais! Valeu mãe vermelha!

—Clak clak clak! (…)

—E o que é isso? Um desenho da família, comigo segurando a Happy no meio? //// Q-que fofo!!! Tenhoqueenquadraremostrarparatodomundo!!!!

—Clak clak clak! (Zzzz)

—Em comparação o que é isso que a Chrome escreveu? “Manju, cocada, sherbet, cupcake, macarrone...” por que é que ela escreveu uma lista de souvenires para eu comprar!? Caramba...

Morgan acha outro bilhete na mala.

—Já o meu pai… “Não se esqueça de trazer um montão de mon---“

Morgan amassa os dois bilhetes e joga de volta para dentro.

...

—Que droga vocês dois!!!

...

—Seguindo em frente… O que é isso, algum tipo de colônia? Que bem pensado Lily! Já que estou viajando, não consigo tomar um banho apropriado todos os dias, então pelo menos vou poder usar algo para disfarçar… Ou será que ela só está dizendo que eu sempre cheiro mal…?

—D-de qualquer forma, por último, mas não menos importante, a Lo!

Morgan segura um pequeno frasco com um liquido completamente negro.

—Hã...? ... $#&@+€£¥%#&@$!!! I-impossível---!

—Clak clak clak! (Hah… O que foi dessa vez, Morgan? Juro que se for mais alguma coisa que saiu da bunda de alguém---)

—Violeta, a forma como você está insistindo no assunto... Não vai me dizer que você ficou traumatizada depois de visitar o banheiro público daquela vez? Te falei para não ir, você não entende nada da biologia das criaturas vivas...

—Clak clak clak! (As coisas que eu vi...)

—Se servir de consolo, tenho quase certeza de que as pessoas que você observou ficaram mais traumatizadas, com você olhando para elas por cima da parede do box... Mas de qualquer jeito, nunca estudei psicologia, mas acho que posso ter lido em algum lugar que todos os traumas passam depois de uns anos... Ou eles ficavam piores...? Um dos dois.

—Clak clak clak! (...)

—Mas, voltando ao assunto... Não sei como é que a Lo conseguiu colocar as mãos nisso, mas de fato até a Tsubaki-nee e a mãe vermelha estão atestando a veracidade... Eu só li sobre isso em lendas...

—CLak clak clak! (Um item super raro!? Para a minha mente jovem, esse assunto desperta mais o meu interesse! Deixa eu ver! Calma, esse frasquinho na sua mão? “Veneno da Rosa de Mana Lunar”...? Não parece grande coisa... Ou melhor, rosas tem veneno?)

—É um conto antigo. Minha mãe tentou contar uma vez, e eu fui atrás depois porque tive curiosidade quanto aos detalhes. Apesar de a história ser tratada apneas como uma lenda, existiriam relatos de que a flor mencionada no conto realmente existe. É uma rosa que cresce apenas em lugares com uma concentração enorme de mana, quando exposta a lua em suas quatro fases. Em teoria, a rosa floresceria após muitos e muitos anos, podendo então ser refinada no veneno mais potente, ou na panaceia mais milagrosa...

—Clak clak clak! (Mas se isso existe mesmo, então porque que não tem várias pessoas plantando? Um remédio para qualquer coisa parece conveniente... A gente poderia investir em uma plantação para a sua irmã! Quantos anos leva para essas flores crescerem?)

—De dez a quinze, talvez...

—Clak clak clak! (Só isso!? Não é quase nada para monstas! Aí eu gostei... Delegar as plantações para quem quer cuidar, e só ter de aparecer a cada dez ou quinze anos para vender---)

—Mil anos…

—Clak clak clak! (Hã?)

—Dez a quinze mil anos...

—Clak clak clak! (Como é que é?)

—...

—Clak clak clak! (Hããããããããã??? Milhares de anos!!!??? Você estava falando de milênios??? É tanto tempo assim??? Não tem como eu esperar tudo isso!!!)

...

—Clak clak clak! (E? O que deveríamos fazer com isso? Vende? Ou usar em alguém? Ou talvez... Ei, Morgan, você não acha que deveria tomar um gole para ver se é de verdade mesmo!? Será que não foi por isso que a sua irmã te deu isso!? Não se preocupe, eu cuido dos seus ossos depois se algo acontecer!)

—Acho que você está confundindo a vontade da Lo com a sua… Mas vender está fora de questão. Não só porque é um presente da minha irmãzinha, mas também porque mesmo que tentássemos vender, obviamente ninguém iria acreditar que é de verdade só pela nossa palavra. Teríamos de levar para alguma associação conhecida e fazer testes para comprovar a veracidade; mas se for de verdade mesmo, vai ser considerado uma substância perigosa e provavelmente será confiscada pelo Reino. Alternativamente, não é o tipo de coisa que eu gostaria de vender no mercado negro... Se os registros forem verídicos, é algo poderoso demais para cair nas mãos erradas---

—Clak clak clak! (Mas já está nas suas... Ou melhor, isso realmente é tão forte assim? Quero dizer, quão perigoso esse frasquinho poderia ser? No máximo serviria para matar uma pessoa, mas até aí tem vários outros venenos para fazer a mesma coisa...)

—Estava escrito que uma única gota dissolvida em água poderia matar toda a população de uma cidade humas...

—Clak clak clak! (!)

—Esse frasco deve ter umas quatro ou cinco vezes essa quantidade, então… Deve dar para incapacitar um dragão?

—Clak clak clak! (A-aaahhhh!!! Joga fora!!! Joga isso fora agora mesmo!!!)

—F-ficou louca de vez, Violeta!? Não acabou de ouvir o quão potente isso é? Se eu jogar isso aqui, posso transformar toda a flora em um deserto, para sempre,! Além de toda a fauna que seria massacrada! Se eu jogar no oceano, vai virar um mar de veneno! Mesmo se eu jogasse em um vulcão, poderia evaporar em uma nuvem de gás venenoso, matando tudo no caminho!!!

—Clak clak clak! (S-só da logo para um dragão beber, então!!!)

—Onde é que vamos encontrar um dragão!? Além disso, ele provavelmente cuspiria isso de volta em mim!

—Clak clak clak! (N-nãonãonãonãonão!!! Nós não vamos viajar carregando isso!!! Joga isso em algum lugar, com o pote mesmo!)

—Se você fosse uma criança e encontrasse um frasco com um liquido suspeito, qual a primeira coisa que você faria...?

—Clak clak clak! (...)

No final, o par decidiu guardar o frasco de volta na mala e continuar a viajem fingindo que não tinham visto nada...

...

...

...

—Então… Vocês acham que Morgan gostou do nosso pequeno presente?

Ao mesmo tempo, no telhado da casa dos Accelhearts, Selena estava conversando com a Tsubaki e a Lo.

Mas para entendermos exatamente o que aconteceu, teríamos de voltar no tempo em aproximadamente um mês... Ou melhor, seria necessário voltar ainda mais, para quando a Lo tinha uns oito anos de idade.

A avó da Selena, Carmim, que foi a rainha dos monstas duas gerações antes da atual rainha, faleceu, e sendo sua única herdeira, Selena recebeu os seus bens.

Dentre eles, uma rosa vermelha, que sempre ficou no quarto de Carmim, e que veio junto de um único bilhete: “Seleninha, essa flor tem sido repassada por gerações de nossa família, e supostamente seria um amuleto que nos dá força e sorte. Cuide bem dela. Beijos, vovó. P.S. Se você esquecer ela atrás de uma pilha de livros e ela morrer, eu vou voltar para te assombrar.”

Após receber uma última ameaç--- pedido de sua avó, Selena se esforçou para deixar a flor viva... Mas ela não era muito boa em cuidar de plantas... — Ou animais... E provavelmente crianças também... — A flor começou a murchar.

Então ela decidiu dar a rosa aos cuidados de sua filha, ela que era quem mais gostava de plantas na família, e que tinha começado a cuidar de um jardim no telhado a uns dois anos atrás.

—E-eu também estou passando a planta para alguém da família, que vai cuidar dela melhor do que eu, então não tem problemas, c-certo vovó…?

Ela rezou aos céus. Apenas os Deuses sabem o quanto ela sempre teve medo de fantasmas.

E assim, a Lo acabou recebendo uma linda rosa vermelha, e plantando ela em seu jardim no telhado...

...

Os anos passaram, e um mês antes de Morgan sair em viajem, em uma certa noite, no quarto da Selena…

—M-mãe, mãe! Por favor, acorde! C-começou enquanto eu estava olhando o jardim agora pouco! E-eu não entendo o que está acontecendo!

Lo fez uma visita repentina no meio da noite.

—Hã...? O que foi, Lo...? Está ficando mais difícil para você dormir de noite...? É natural, já que você está entrando na puberdade… Como uma vampira, além de trocar a noite pelo dia, também vai começar a queimar debaixo do sol, não vai mais conseguir comer alimentos sólidos e vai passar a tomar apenas sangue, seus seios vão aumentar, vão crescer pelos em lugares que antes não tinha e o caso que deve estar acontecendo agora é que mensalmente vai sangrar pela sua---

—S-sim! I-isso daí eu já sei, mãe! Mas não foi por isso que eu vim aqui! É-é verdade que recentemente eu não tenho conseguido dormir até bem tarde da noite, então eu tenho relaxado no meu jardim enquanto espero ficar com sono, e quem sabe mais o que vai mudar... M-mas não é esse o problema agora! É a flor que você me deu! Venha ver, por favor!

Selena estava um pouco relutante de sair da cama no meio da noite, mas já que uma criança quieta e comportada como a Lo do nada correu desesperada para acordá-la, devia ser algo realmente importante. Só é uma pena que isso tenha coincidido justamente com o dia em que ela havia decidido ir dormir cedo, ao invés de varar a noite lendo seus livros... O que pode ou não ter se repetido pelos últimos quatro dias...

...

No telhado.

—E-eita! Está brilhando! I-isso é normal!?

No jardim, a rosa estava brilhando como se a lua cheia tivesse sido trazida para a terra.

—N-não, mãe! Claro que isso não é normal! Mas não é o mais importante, olha mais de perto! A rosa está murchando rapidamente, eu não acho que ela vai sobreviver até de manhã nesse ritmo... O-o que devemos fazer!?

Um certo desespero era perceptível na voz da Lo. O que era completamente natural, considerando que era um importante presente que recebeu de sua mãe, e sua flor favorita no jardim...

Ainda assim, não havia muito que a Selena pudesse fazer nessa situação. Magias de cura e ressurreição poderiam curar quase tudo, mas não funcionariam nos casos de mortes naturais... Se a pessoa com mais conhecimentos quanto a plantas na casa não podia fazer nada, então é claro que não havia nada que a Selena pudesse fazer também...

—*Chuiff* O-o que fazer, mãe…?

—Lo, eu sinto muito… *Selena abraça a Lo* Não acho que possamos fazer mais nada agora… Tudo tem o seu próprio tempo, e não podemos fazer nada quando ele chega ao fim…

As alraunes que vivem no jardim também dizem palavras de consolo.

—“Não chore, mestra, não chore!”

Ainda assim, Selena tentou lembrar de tudo o que sabia sobre plantas… Mas além de conversas aleatórias que a Lo trazia sobre o seu jardim, não havia muito mais… Havia apenas aquela velha história, de muito tempo atrás, que sua avó costumava lhe contar na hora de dormir, quando ela era apenas uma criança.

Sobre uma princesa demônio que recebeu uma flor de algum Deus como um teste, no qual ela deveria fazer uma escolha difícil… O produto que poderia ser criado com tal flor seria capaz de salvar sua mãe, que fora ferida gravemente em uma batalha contra um hiro. Ou criar um veneno capaz de assassinar aquele hiro invencível, que ameaçava destruir o seu reino...

—(Era uma história que a vovó gostava... Como era mesmo...? Hmmm...)

Selena não conseguia se lembrar dos detalhes da história. Apenas que no final a princesa acabou fazendo a escolha errada... E enquanto ela implorava ao Deus por uma nova oportunidade, tal Deus, movido por suas lágrimas de arrependimento profundo, decidiu dar mais uma chance... Mas tinha um detalhe... Esse Deus disse que ela deveria moer o que sobrou da flor, e analisar entre o pó que resultou. Entre o pó, ela encontrou algumas sementes. Então esse Deus disse: Uma nova chance será entregue, mas não para você. Plante essas sementes para as gerações futuras.” As plantas que cresceram dessas sementes foram conhecidas posteriormente como Rosas de Mana Lunar...

—As sementes da esperança!

Selena não se deu ao trabalho de ponderar sobre a veracidade da história, pois não haviam mais opções.

—(Se a flor da vovó morrer por causa da história que ela costumava contar, a culpa é dela, então não deve voltar para me assombrar, certo?)

Fortalecendo a sua determinação com um pensamento que não tinha pé nem cabeça, ela decidiu triturar o caule da rosa para procurar por suas sementes. E caso desse sorte, ainda poderia produzir uma medicina milagrosa com a flor.

—Ok... Você vai ter de confiar em mim, Lo...

—V-você sabe o que fazer, mãe!?

*Selena arranca a flor do solo*

—O-o que!? Hy-Hyaaaa!!!! O que você fez!!!???

—E-espera, fica calma, Lo, está tudo bem. Eu sei o que estou fazendo (talvez).

Ao triturar o caule, Selena realmente encontrou algumas sementes, e as entregou à Lo, para tranquilizá-la. A jovem vampira voltou a chorar, mas dessa vez com um alegre sorriso estampado em seu rosto.

Selena então voltou ao seu quarto, para tentar criar o remédio do conto...

—(Acho que deve dar certo se eu simplesmente seguir esse livro com os procedimentos para se criar uma poção de cura.... Certo?)

Mesmo que o remédio não saísse do jeito certo, não havia muito mais a se fazer com os restos da flor, além de jogá-los fora. Então o que poderia dar de errado?

Na manhã seguinte, Selena apareceu no jardim segurando um pequeno frasco, com um liquido puramente negro dentro...

Lo estava se preparando alegremente para plantar as novas sementes que conseguiu noite passada.

—Aqui, isso é seu, Lo.

—Hmmm~ O que foi, mãe~? H-hã? O que é isso? Parece um pouco assustador...

—É um remédio que eu produzi a partir da sua flor. Em teoria, ele é capaz de curar qualquer machucado ou doença. Como a flor era sua, é natural que fique com você. Aqui, pegue, considere o tempo que eu levei para preparar isso como um presente.

—O-ok então... Obrigada mãe! Mas essa cor não é um pouco estranha para ser um remédio...? S-sabe que qualquer remédio pode ser um veneno para o corpo se usado da maneira errada... Nesse caso, me pergunto se o processo de fabricação também não poderia ser um fator de risco...? V-você já confirmou os efeitos...? (Conhecendo a mãe vermelha e suas habilidades de culinária e manufatura, não teria como algo ter dado errado, certo? Como daquela vez em que ela preparou o café da manhã para todo mundo, e ficamos com dor de barriga por toda a semana... Ou quando ela foi consertar o fogão e a cozinha explodiu... Certo...?)

—Não acho que tenha nada de errado. É verdade que eu não tinha todos os ingredientes do livro e tive de usar outros parecidos, além de que também pulei alguns processos complicados... Mas no final ocorreu tudo bem!

—(Uuuu... Eu não quero ferir a autoconfiança da mãe... Mas também não quero que ninguém morra por causa desse negócio...)

Nesse momento, Selena tem uma nova ideia.

—Ah! Já sei, vamos pedir para a Tsubaki dar uma olhada! Tsubaki!

—N-não acho que seja uma boa---

Mas a interjeição de Lo é interrompida pela chegada quase imediata da Tsubaki.

—Fufu, as duas normalmente são tão quietas, mas têm levantado a voz bastante desde ontem à noite... Precisam da minha ajuda, afinal de contas...?

—Aqui, Tsubaki. Pode dar uma olhada para ver se o conteúdo é veneno ou remédio?

A Tsubaki olha para o frasco.

—... Fufu, tudo depende da doença e da quantidade... Mas posso ver o quanto seria necessário para matar alguém…

A Tsubaki pega o frasco e olha mais de perto. Então ela o abre e tenta sentir o odor do líquido.

—Fufu... Interessante... Mesmo olhando de perto, não consigo ver nada. O líquido é completamente negro, como se absorvesse toda a luz... Além de também não ter cheiro algum... Diferentemente da água, não consigo ver nenhuma molécula saindo... O único jeito de saber os efeitos seria provando um pouco... Tudo bem se eu beber? Vai ser menos que uma gota, ainda vai sobrar bastante--- Professora, pela cara que você está fazendo, foi para isso mesmo que você me chamou, não foi...?

—Bom, é mais para desencargo de consciência da Lo mesmo. Mas se isso realmente for uma cura milagrosa, quem sabe---

—E-espera! Eu não acho que isso seja seguro, Tsubaki-nee!

—Fufu, o que você quer dizer com isso, Lo? Você sabe que meu corpo é praticamente indestrutível.

A Tsubaki traz o frasco para mais perto de sua boca.

—Justamente! O que eu quero dizer, é que esse “praticamente” antes do “indestrutível”, é exatamente o problema!

Lo segura o braço da Tsubaki.

—Fufu… Não precisa se preocupar comigo Lo. A minha resistência à doenças e magias é a maior na família...

Tsubaki traz o frasco para mais perto de sua boca.

—M-mas nós não temos nenhum dragão na família!

—E-ei! Você não confia na sua mãe, pelo menos!?

Selena usa seus braços para ajudar a Tsubaki.

—Fu… Fu… Não me subestime, Lo, pode confiar em mim para isso, pelo menos...

Tsubaki começa a usar mais força.

—Isso não tem nada a ver com confiança! E muito menos estou subestimando ninguém! Mas acho que isso está perigoso e que é melhor chamarmos a Rach-nee ou Morgan antes de nos precipitarmos!!!

Os olhos da Lo brilham em um carmesim profundo, enquanto a mana de seu corpo começa a se agitar.

As três exclamam.

—“Ah!”

Na confusão, o frasco acaba por balançar um pouco, e acaba derrubando uma única gota, em direção ao solo.

As alraunes, vendo isso, rapidamente fogem do telhado, por instinto.

Quando a gota toca o chão, imediatamente, toda a terra do jardim se transforma em areia e as flores murcham, secam, morrem e se transformam em pó.

Tsubaki e Selena percebem que a situação azedou, mas não conseguem formular uma sentença para consolar Lo.

—“A-ah...”

—N-nãããããããoooooooooo!!!! Iiiiiyaaaaaaaaa!!!!

Lo cai ao chão, gritando.

—Por queeeee!!!??? *chuiff* *chuiff* Não!!! Não!! Não! Não. Não.. Não... *chuiff* *chuiff*

—(P-professora, pelos deuses, usa a magia de cura nessas plantas! Ressurreição, sei lá, o que precisar!)

—(Você acha que eu já não tentei!? Essas daí morreram mais do que permanentemente!)

Selena então decide tentar repetir a mesma frase que usou no dia anterior.

—L-lo, sentimos muito... Mas tudo tem o seu próprio tempo e---

Porém, ao se aproximar para abraçar a Lo, Selena é encarada por seus brilhantes olhos carmesins, o que faz com que ela engula suas palavres e se afaste instintivamente.

—Desculpa, Lo! Mas não se preocupe, pois eu e a professora vamos financiar todas as flores do seu novo jardim! V-vou até a loja imediatamente para encomendar---

Tsubaki demonstra a intenção de resolver as coisas com dinheiro e ir embora---

—ESPERA!

Mas Lo agarra a sua perna.

—VOCÊ AINDA TEM DE EXPERIMENTAR O FRASCO PARA VER SE NÃO É UM REMÉDIO...

—N-não acho que seja necessário, Lo, você não acabou de ver---

—Ver o que!!!??? Eu só vi que a gota caiu no chão!!! Mas não tem como o jardim que eu venho cultivando por sete anos ter sido envenenado e morrido em um instante!!! Prova pra mim que isso é um remédio, e que se eu piscar os olhos vou ver que tudo não passou de um mal entendido!!!

—E-espera, Lo, em momentos como esse, a primeira coisa que temos de fazer é manter a calma---

—Então toma você, mãe!!! Se você me pediu para confiar no que você disse, que é um remédio, então não tem nenhum problema se você tomar um pouco para mostrar que tudo bem, certo!!!??? E você, Tsubaki, tá com medo do que!!!??? Você não é a mais resistente da família!!!??? Então calem a boca e tomem logo a droga do veneno!!!

Tsubaki e Selena respondem juntas.

—“Mas você acabou de admitir que é veneno!”

Logo em seguida, é a vez das alraunes de se manifestarem.

—“Mestra, estamos com fome…”

...

...

O jardim da Lo foi provisoriamente realocado para os arredores da casa, enquanto as três trabalhavam na reconstrução do telhado…

Agora só faltava discutir o que deveriam fazer com o veneno.

—Então… Já que a flor era sua, o frasco também é seu, Lo…

Selena estava tentando passar a responsabilidade para a sua filha de treze anos.

—S-sem chances! Eu não posso ficar com esse frasco genocida! Olha o que aconteceu com o meu jardim! Mãe, não foi você que fez esse veneno!? Não é você que tem que cuidar dele agora!?

—Hmmm... Se a Lo cuidou da flor e eu fiz o veneno, então agora que você também já é cumplice, sua vez de participar, Tsubaki. Como a mais velha, você tem que ajudar a sua irmãzinha, não é mesmo?

—Fufu, não tenta jogar isso para mim, eu nem sabia o que estava acontecendo até você me chamar. Além disso, se formos começar a falar de idade, então quem tem que cuidar disso é você.

—Que!? Cê tá me chamando de velha!?

—M-mas não foi você que começou com o assunto!?

—C-calma! Sem brigas no jardim! Ou o que sobrou dele…

—… O que fazer então? Eu tenho alguns amigos que poderiam ficar com isso para mim, mas dar uma arma de destruição em massa para eles pode não ser a melhor das ideias… E também não podemos simplesmente descartar isso em qualquer lugar… Acho que temos que deixar a decisão para alguém mais responsável…

—Poderíamos perguntar para a Mu-nee ou a mãe azul, mas acho que elas se enquadram mais em responsabilidade com os afazeres domésticos e assuntos de medicina...

—Fufu... Então isso nos deixa apenas com a Rachel ou Morgan...

—Não sei... Eu tenho a impressão de que se a Rachel ou Morgan descobrirem o que aconteceu aqui... Vão nos matar...

—A Rach-nee realmente fica assustadora quando esta brava...

“Você só diz isso porque nunca viu Morgan com raiva!!!” É o que a Selena e a Tsubaki queriam responder, mas a amada irmã mais nova não conseguiria entender.

—Fufu, mas já que Morgan vai sair em viajem logo mais, acredito que poderíamos esconder o frasco em sua mochila...

—Genial! E se dissermos que é um presente da Lo, tenho certeza de que Morgan vai amar! Dois coelhos com uma cajadada!

—Hã? É-é mesmo?

Tsubaki e Selena respondem juntas.

—“Morgan, deixamos o resto com você!”

Então, sem saberem o que fazer com um veneno capaz de um genocídio em massa, decidiram se livrar do fardo passando ele para Morgan, que não sabia de nada...

...

Agora, de volta ao presente Selena estava conversando com a Tsubaki e a Lo…

—Então… Vocês acham que Morgan gostou do nosso pequeno presente?

—Fufu… Quem sabe. Pode ser que realmente possa servir para algo algum dia desses.

—Só espero que não fique com raiva da gente...

—Fufu, não se preocupe, foi justamente por isso que fizemos com que fosse um presente seu, Lo.

Tsubaki olha para o céu.

—Fufu... Mas estou curiosa em saber como Morgan está...

Selena também olha para o céu.

—É… Também já estou com saudades…

...

—Mas isso não é desculpa para as duas pararem de trabalhar! Ainda temos que terminar de reconstruir o meu jardim! Vamos, Tsubaki, você ainda tem de terminar de remover a terra improdutiva (areia)! E mãe, você tem que me ajudar a colocar a nova terra! Depois ainda temos que mover as alraunes de volta e plantar as sementes da rosa! Vamos! Os novos girassóis e lírios já vão chegar em dois dias, e depois ainda temos que...

Tsubaki e Selena respondem juntas.

—“Tá, tá...”

E assim, a reconstrução do jardim prosseguiu a pequenos passos…

Diário de Monstros, por Morgan Accelheart

Alraunes

São monstas com funções biológicas mais similares às plantas do que aos animas. Comumente, existe uma confusão sobre se seriam plantas que evoluíram para serem capazes de terem pensamentos racionais e a habilidade de se movimentarem; ou se são propriamente monstas. Porém, a capacidade de se reproduzirem com humas ou outros monstas, deixa claro que também são uma subespécie de monstas.

Dentro da subespécie alraune, também existem diversas outras microespécies, como as mandrágoras, as venenosas, as carnívoras, as leguminosas, as frutíferas, etc.

As características em comum entre as microespécies são terem corpos capazes de produzir energia por autotrofia, ao absorver a luz do sol e os nutrientes do solo. Algumas são capazes de produzirem frutas ou legumes, para atrair outros seres, que podem ajudar a espalhar suas sementes para reprodução, ou com os quais podem realizar trocas que auxiliem em sua subsistência. As carnívoras podem complementar sua absorção de nutrientes, capturando desde pequenos insetos, até criaturas maiores – nos tempos de guerra, faziam parte de um grupo de monstas conhecido como devoradores de cadáveres.

A maioria das alraunes preferem não se mover na maior parte do tempo, guardando suas energias. Mas existem casos raros de alraunes que gostam de conversar, ou mesmo aquelas que se divertem ao viajar, ou mesmo trabalhar ou fazer atividades variadas. Alraunes são uma visão comum em diversos assentamentos, e costumam ter uma relação simbiótica com fazendeiros e similares.

Apesar de uma aparente semelhança, não devem ser confundidas com dríades, que são espíritos não mortos-vivos, que nascem em árvores antigas, e que recebem sua nutrição delas. A classificação dos dríades é mais complicada, considerando que são monstas capazes de se esconderem perfeitamente dentro de suas árvores, não sendo possível revelá-los a menos que os próprios queiram. Isso somado ao fato de que dríades procuram evitar qualquer contato com outras criaturas racionais.

Por isso, dríades são considerados apenas como lendas, já que é impossível de se comprovar sua existência sem que eles se revelem por sua própria vontade. Casos em que eles foram documentados são raros, já que falar seriamente sobre ter visto um dríade seria considerado uma história fictícia, uma piada, ou um sinal de que você estaria ficando louco...