Notas iniciais
Uma lagarto no caminho

Na vila Shalltear, uma pessoa lagarto estava parada na frente da casa da família Accelheart...

—Com licença! Morgan, está aí!?

A garota com a voz doce se chama Rafaella, com a mesma idade de Morgan, e que assim como a Violeta, é uma amiga de infância. Seu corpo é coberto por poderosas escamas verdes e apenas suas articulações, face e barriga são cobertas por escamas mais maleáveis e alaranjadas. Sua cauda se estende por detrás de suas costas, auxiliando sua movimentação e equilíbrio. Seu corpo de dois metros de altura e seus músculos que mais parecem ser feitos de algum tipo de metal pesado, fazem dela um caso especial mesmo entre a tribo das pessoas lagartos, que tem uma cultura de combates e caça. Seus cabelos ruivos complementam seus olhos ambares, mas uma máscara negra esconde toda a sua face.

*clak*

Momentos após o chamado, a Rachel aparece para atender a visita.

—Ah! Oi Rafaella, tudo bem com você?

—Bom dia, senhora Rach-nee!

—J-já te pedi para não me chamar de senhora... *Caham* Desculpa, mas Morgan saiu em viagem ontem…

—Mas já!? Eu achei que mesmo chegando hoje ainda iriamos conseguir ter a nossa luta...

—Sei… Como vocês iriam competir dessa vez?

-Eu sugeri uma competição de natação no riacho.

—Mas a distância entre as bordas do riacho não é pequena demais?

—Por isso que sugeri nadarmos até chegarmos ao mar! Morgan disse que ia pensar sobre o assunto da próxima vez que nos encontrássemos!

—... Entendo...

—Mas por que a senhora que veio atender a porta, Rach-nee? Acho que é a primeira vez que eu a vejo fora do teto.

—Senhora… *Os seis olhos que a Rachel deixa fechados piscam por um momento* *Caham* Bom, digamos apenas que nem todo mundo concordava muito em deixar que Morgan partisse em uma viagem sem mais ninguém… Mas foram convencidos… De uma forma não letal… Mas só sobrou eu para atender a porta por um tempo.

—Ohh! Entendo! Sabia que Morgan iria desafiar toda a família para conseguir o direito de sair, do mesmo jeito que eu tive de fazer na minha vila! Mas quem diria que vocês todos seriam derrotados antes que eu conseguisse chegar aqui... Conseguir derrotar toda a família Accelheart não deve ser uma tarefa fácil! Como esperado de Morgan... Por isso que nossa rivalidade continua até hoje!

—Claro…

—Entendo! Morgan, você pode ter conseguido sair na minha frente dessa vez, mas sem dúvidas esse é um outro desafio para mim! Espere por mim, vou te alcançar muito antes do que imagina!

Rafaella diz enquanto olha ao longe.

—Eu tenho que ir então, obrigada senhora Rach-nee!

—V-você realmente não planeja parar de me chamar assim... *Caham* Quero dizer, adeus Rafaella, desejo uma boa viagem para você também.

*A Rafaella sai correndo*

—“Rivalidade”, é...? *riso abafado* Aquela garota não é honesta consigo mesma...

—“Mais do que a amizade, nós somos rivais”~! Você que não entende o romance por trás das histórias de esportes e batalhas, Rach-nee~~~ Apesar de que nessa situação parece mais com um caso de stalking~

—Chrome... Você já está bem?

—Ahahaha~~ Depois de ser alvo de tantos experimentos, o meu corpo acabou criando algumas resistências para a maior parte das substâncias químicas~ Cortesia da cerejinha~ Acho que o mesmo pode ser dito para a garota stalker~

—Só não sei se vocês, que nem queriam deixar Morgan ir embora, tenham a legitimidade de chamar outros de stalkers...

—Quem sabe~ *blorg blorg blorg* Ugh! A-ainda assim... Devo admitir que não estou 100%... Uooh! T-tá voltando! D-droga, tenho que ir!

*Chrome voa de volta para dentro da casa*

—… Se você esta tão acostumada, então não deveria ter comido o jantar… Você também teve de criar uma desculpa para si mesma para não impedir aquela criança de partir? Ah... Espero que você esteja bem, Morgan...

Deixando a Rachel com suas reflexões, voltamos para a história de Morgan!

Na manhã do dia seguinte à chegada de Morgan e Violeta na cidade de Garnis.

Morgan tomou café no hotel, enquanto planejava a próxima parada, e refletia sobre o quanto se arrependia de ter trazido a sua amiga na viagem. Ela que não dorme e ficou a noite inteira enchendo a paciência....

...

Após isso, a dupla se dirigiu à praça central.

—Remédios! Vendo remédios!

Morgan sentou no chão, com um pano estendido à sua frente, mostrando diversos produtos à venda.

—Você, elegante cavalheiro! Que aliança bonita, mas aposto que nem se compara à sua pessoa querida! A quanto tempo você não demonstra a atenção que ela merece? Que tal comprar algumas dessas lindas flores! É importante sempre se lembrar de mostrar apreciação no seu relacionamento!

—Oh! Bela dama, vejo que esses acessórios chamaram a sua atenção! Que tal esse colar? O alaranjado do topázio só fica lindo quando complementa os seus olhos!

—Ei, crianças! Vocês gostam de ninjas??? Que tal essas bombas de fumaça e máscaras!?

—Clak clak clak! (Morgan, desde quando você decidiu virar comerciante ambulante? Não deveríamos estar em uma aventura!?)

—Se eu não garantir uma fonte de renda, eventualmente vamos ficar no vermelho... Então estou usando as coisas que aprendi enquanto trabalhava como escra--- ajudava a Tsubaki na loja, para vender coisas que eu consigo criar facilmente com os materiais que coleto na natureza... O que mais eu poderia fazer? Além disso, vender coisas sem ter que investir nenhum capital é o sonho de qualquer comerciante, não acha?

—Clak clak clak! (Bom… Acho que faz sentido… Mas você não tem que ter algum tipo de documento mostrando que você paga os impostos para poder fazer comercio no reino de Rosewald?)

—Hehe, normalmente sim. Mas tem um regulamento que permite o comércio livre para monstas dentro do território, para encorajar as relações entre humas e monstas---

—Clak clak clak! (Ué? Mas isso não é ruim para os comerciantes humas? Além disso, você também é humas!)

—Como eu estava dizendo… O mesmo se aplica no continente dos monstas para os comerciantes humas… Então no final, em teoria, a balança deveria se equilibrar. Porém... A verdade é que não tem muitos voluntários de qualquer das raças ainda, e dos poucos que existem, quase todos ainda são vítimas usuais de suspeitas e racismo... O que significa que esse é um mercado em aberto para nós!

—Clak clak clak! (Pera, foi por isso que cuspiram em você agora pouco?)

—Provavelmente. Com certeza não tem nada a ver com termos ocupado um espaço teoricamente reservado. Mas o importante é continuarmos persistindo, para ensinar uma lição de cidadania para esse tipo de pessoas!

—Clak clak clak! (Sim, quebrar o maxilar das pessoas é o seu tipo favorito de lição... Pelo menos parece que os clientes aprenderam uma lição sobre o que acontece com quem não compra de você...)

—Violeta, o importante no comércio é aprender a fazer ofertas irrecusáveis.

—Clak clak clak! (Claro... Mas pera, você disse que só monstas podem vender sem permissão. Mas você não é monstas, não poderia estar vendendo aqui---)

—O meu plano era economizar até eu chegar no continente dos monstas, para então vender meus produtos lá… Mas então uma certa alguém veio de penetra na viajem. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir — ou melhor — confirmar que ela não trouxe qualquer dinheiro...

—Clak clak clak! (M-mas não é minha culpa que você come tanto!!! Se pudéssemos economizar nos gastos para comida---)

—N-não é minha culpa que eu tenho fome! E eu trouxe dinheiro o suficiente para isso! Além de que eu já tinha planejado de acampar pelo caminho. Mas quem foi que se recusou a dormir em uma tenda!?

—Clak clak clak! (Se estamos perto de uma cidade, então precisamos de camas macias, não é!? Não é!?)

—Você ficou a noite toda se divertindo com o que tinha no hotel! A cama não fazia diferença! Ou, pelo menos, faça isso com o seu dinheiro! Agora estou aqui tendo que vender produtos enquanto finjo que você é uma mercadora monstas que não consegue falar e precisa de alguém para traduzir... Pelo menos não temos que ir atrás de documentação...

—Clak clak clak! (Então... Todo o dinheiro que você está fazendo agora, na verdade é meu...?)

—...

—...

—Nossa! Você tem certeza!? Atenção! Atenção! A minha cliente está fazendo uma super-promoção!!! Vamos fazer um leilão para vender partes de seu corpo!!! Não percam esses ossos de esqueleto de altíssima qualidade!!! Venham, aproximem-se!

—Clak clak clak! (Calma! B-brincadeirinha! Hehe--- Já falei que era brincadeira, cancela logo isso, realmente tem um monte de gente vindo para cá!!! Morgan! D-desculpinha... Agora, para eles logo! É uma ordem da sua mestra! Ruim, serviçal ruim!)

...

—Agora podemos continuar com nossa viagem! Próxima parada, cidade acadêmica!

—...

—Ah, mas quem diria que conseguiríamos ter tantos lucros já logo de manhã! E tudo isso só vendendo coisas que conseguimos de graça!

—Clak clak clak! (Monstro! Aquilo não eram coisas grátis! Uuuu... Meus dedos e costelas...)

Violeta está sem as suas costelas e a maioria de seus dedos dos pés.

—Ah, você não acha que está exagerando? Sabia que existem alguns lugares em que as pessoas removem cirurgicamente algumas de suas costelas por motivos puramente estéticos? Além disso, a maior parte dos dedos dos nossos pés só tem a função de baterem acidentalmente em algum móvel duro e causar uma dor desnecessária... E acima de tudo, os seus ossos vão acabar crescendo de volta em um mês ou dois.

Morgan faz uma expressão despreocupada enquanto conta o dinheiro.

—Clak clak clak! (Esses meses são justamente o problema! Que você me faria vender o meu corpo… *Chuiff!* Se você não gosta deles, então por que você não vendeu os seus ossos!? Ou melhor, agora que eu tenho o dinheiro, vende eles para mim!!!)

—Ahahaha… B-bom, veja pelo lado positivo! Agora você tem o seu próprio dinheiro, que veio do seu próprio- hã... Trabalho duro! Já podemos seguir viagem!

Morgan dá o dinheiro para a Violeta, enquanto guarda uma pequena quantia como comissão.

—[Clak clak clak! (Melhor você começar a dormir com os olhos abertos, Morgan…)]

—Eu já durmo com os olhos abertos desde aquela vez em que você tentou arrancar os meus dentes de leite enquanto eu dormia. Ou quando você tentou furtar os dentes que eu coloquei debaixo do travesseiro para a fada dos dentes...

—Clak clak clak! (Ah… Você ainda se lembra disso…? Calma! Mais importante, você acabou de ler os meus pensamentos???)

—Não precisei. Tolos tendem a deixar o que pensam aparente em suas caras.

—Clak clak clak! (Só que eu não tenho uma cara! E calma, você me chamou de tola???)

—Eu não te chamei de tola. Só disse que pessoas inteligentes não tendem a ter confrontos físicos contra uma fada cinco vezes menor que elas, e ainda assim acabarem no chão derrotadas e sem dentes...

—Clak clak clak! (Entendo. Bom mesmo!... Não, pera... Você não acabou de se referir especificamente a mim???)

—Não. Eu especifiquei uma situação generalizada. Se você tem ou não os requisitos para ser inclusa nela, não é minha culpa...

Morgan faz um sorriso sarcástico.

—...

—...

—Clak clak clak! (Morgaaan!!!)

Violeta pula para cima.

A luta acabou quando quase perderam o dinheiro, que caiu e se espalhou no chão.

...

—Agora... Vamos continuar--- Hã?

*sniff sniff*

Morgan interrompe o seu andar, porque sentiu um cheiro doce permeando o ambiente.

—Esse cheiro! Está vindo daquela loja!? Mas não estava aqui ontem de tarde… Será que essa loja só abre na hora do almoço? Nossa, está lotada de gente! Deve ser muito boa… *saliva* Vamos dar uma olhada antes de sairmos, Violeta!

Morgan sai correndo antes de ouvir uma resposta.

—Clak clak clak! (Calma, eu não consigo te seguir nessa multidão! E-espera! Morgan!)

...

Violeta é abandonada em frente a multidão.

—Clak clak clak! (Ah, tanto faz, só vou esperar até você terminar... Hã? O que é aquela loja do outro lado? “Cassino”…? Acho que já li sobre essas lojas antes… Um lugar onde você joga vários jogos e ainda fica rica---!!! Que lugar bom! Se eu for lá, nunca mais vou ter que vender os meus ossos de novo! Ah! Ou melhor ainda! Morgan, posso até conseguir os seus ossos, hehe! Ou pelo menos contratar alguém que vá pega-los para mim... Hue hue hue!)

A Violeta também sai correndo.

...

...

...

No caminho para a cidade acadêmica.

A estrada estava estranhamente vazia, tornando o andar confortável. Logo antes, havia um guarda, instruindo as carruagens a desviarem para uma rota diferente, já que havia algo bloqueando essa. O bloqueio não se aplicava a pedestres, que poderiam simplesmente desviar a pé. A ausência do barulho das carruagens, e a movimentação reduzida de pessoas, deixava este caminho silencioso e relaxante...

É o que Morgan estaria pensando, se não fosse por sua companheira.

—Clak clak clak! (Morgan! Ei, Morgan, estou te chamando! Espera um pouco, vai mais devagar! Sua mala é grande e pesada, e uma garota linda e frágil como eu não deveria ter que estar carregando ela por todo o caminho! E você está andando rápido demais--- Tá me ouvindo!? Morgaaan!)

—Dez minutos… Dez drogas de minutos!!! Como que você conseguiu perder todo o seu dinheiro e ainda por cima conseguiu ficar endividada em um cassino!??? Só porque eu te deixei sozinha por dez minutos!!! Agora pelo menos toma vergonha na cara e carrega a minha mala para compensar pelo dinheiro que eu tive que gastar para te deixarem ir---

Violeta levanta uma mão, sem dedos, com a intenção de dizer algo.

—Clak---

—Se você falar que não tem cara, Violeta, eu juro que---

Violeta fecha a boca e abaixa a mão.

—Deuses... Você até perdeu o resto dos seus dedos. Mesmo se esperarmos um mês e vendermos tudo de novo, ainda não vai ser o suficiente para compensar o prejuízo… Talvez eu devesse vender a sua cabeça primeiro, para evitar novos prejuízos!

—Clak clak clak! (Ou você poderia tentar começar a comer menos---)

—Violetaaaaa!

Morgan segura a cabeça da Violeta e começa a analisar se ela consegue ser removida facilmente.

—Clak clak clak! (Ai, tá bom tá bom! Eu carrego a sua mala idiota!)

—A minha mala que é idio---!?

—Ei, você do cabelo vermelho aí!

—“Hã?” “Clak clak clak! (Hã?)”

Lá na frente, uma garota lagarto desconhecida, com uma baixa altura para a média, e com um cabelo castanho curto, estava parada em uma pose intimidadora.

—“(Ela não está bloqueando o tráfico, parada ai no meio da estrada?)” “[Clak clak clak (Ela não está bloqueando o tráfico, parada ai no meio da estrada?)]”

Morgan e Violeta pensam ao avistá-la.

—Cabelo vermelho…

A garota lagarto repete, como se afirmando para si mesma…

—E com um esqueleto do lado… O seu nome é Morgan Accelheart?

...

—(Está parecendo com problema…)

—Quem, eu? Desculpa, mas você está falando com a pessoa errada. Eu sou, hã... Robin Slowpancreas.

Morgan responde.

—Ah, eu me enganei...?

—Clak clak clak! (Morgan, você tem o mau hábito de mentir 90% do tempo...)

—*(Silêncio, Violeta! Não dá para perceber que uma monstas desconhecida que sabe o meu nome e puxa conversa no meio de uma estrada deserta só pode ser coisa ruim!? Além disso, se ela é uma pessoa lagarto, só pode ter alguma coisa a ver com a Rafaella! Não estou nem um pouco a fim de saber o que está rolando. Vamos embora!)*

—Ei, vocês não sabem que é rude cochichar na frente dos outros? Hah... Mas de qualquer jeito, desculpa por incomodar, é só que você estava encaixando perfeitamente na descrição que me deram... Acho que vou ter de continuar esperando...

—Clak clak clak! (Ah! Olha só como ela ficou triste! Você não tem pena da pobre garota!? Quem sabe a quanto tempo ela já não está aqui! E se ela estiver com algum problema sério!?)

—*(Mas eu nem conheço ela! O que que isso tem a ver comigo???)*

Morgan olha para a garota lagarto, que está com uma cara abatida, enquanto olha para o chão, antes de voltar a falar.

—*(Acho que dá para pelo menos ouvir o que ela tem para dizer…)* E... Faz tempo que você está esperando por mi--- essa pessoa chamada Morgan?

—Ah hã… Já faz uns dois dias… Eu tive de aguentar o sol escaldante, as noites gélidas, a chuva e alguns bandidos aleatórios que aparecem de vez em quando…

—Q-que? Dois dias? Aqui fora, no meio da estrada? E como é que você conseguiu passar por tudo isso em só dois dias? Sem contar o sol e o frio, quando foi que choveu nessa última semana!?

—Clak clak clak! (E bandidos? Aqui do lado da cidade?)

—*(E atacando uma pessoa lagarto? São loucos suicidas?)*

—Clak clak clak! (Que coincidência, acho que a sorte dela deve ser uma grande droga, que nem a sua, Morgan)

—*(Sorte é um conceito completamente relativo, Violeta. Além de que só um pouco de azar não explicaria tudo pelo que ela passou…)*

—Clak clak clak! (O fato de você tratar esses fenômenos climáticos inexplicáveis, além dos ataques aleatórios contra a vida dela, como “só um pouco de azar”, prova o meu ponto mais do que eu jamais poderia...)

Morgan ignora o comentário de Violeta.

—*(Mas esse negócio de “bandidos” atacando logo aqui do lado da cidade sem ninguém fazer nada está estimulando a minha curiosidade... Hah... Ok, vamos ver onde que isso vai dar)*

Morgan volta a dirigir a palavra para a garota lagarto.

—E esses bandidos… Você pode descrever o que aconteceu?

—Ah hã. Eu estava começando a ficar entediada aqui sozinha, então acho que jogar um pouco de conversa fora não vai fazer mal... Vejamos... No primeiro dia em que cheguei aqui, esse pessoal de armadura e com lanças veio me dizer para eu ir embora. A primeira vista, já pude perceber que eles estavam tentando esvaziar o local para que pudessem cometer as vigarices que quisessem. Sabe, essa daqui era uma estrada bem movimentada, cheia de carruagens e pessoas, por isso eles deviam estar mirando nela. Mas eles não esperavam que eu fosse uma orgulhosa guerreira da Vila Lzaad! Então eu sentei a porrada neles!

—Clak clak clak! (E-ei, Morgan, é impressão minha…?)

—Mesmo quando eles voltaram com reforços, é claro que eu os derrotei facilmente mais uma vez!

—Clak clak clak! (Não pode ser, certo...?)

—Só após a terceira vez que eles desistiram! Eu posso parabenizar a coragem que demonstraram, pelo menos! Ah hã!

...

—Por algum acaso as armaduras deles não teriam mantas amarelas em seus ombros, e exibindo um símbolo de asas em seus peitos, certo?

—Eles mesmos! Mas como você sabe?

—...

—Clak clak clak! (Porque eles eram a droga da guarda civil!!! Eles devem ter vindo para te pedir para sair daqui, já que você estava no meio da estrada parando o tráfico! E você acabou batendo em um pessoal inocente da classe trabalhadora! Tenha bom senso seu lagarto de tamanho desproporcional!)

—*(Será que o calor, a chuva e o frio, não foram feitos com magia, em uma tentativa der forçar ela a sair por vontade própria...?)* *Caham* É que eles são um grupo famoso por aqui, então todo mundo conhece...

—É mesmo? Que bom então que eu os enfrentei!

—...Tá... Mas precisava mesmo ficar ai parada esperando justo nesse lugar?

—Sim.

—Por que...?

—Porque sim.

—*(Desisto de conversar. Vamos embora.)*

—Clak clak clak! (Você ainda nem ouviu o porquê que ela estava te esperando!)

—Mas ainda assim, não vou perdoar o par que me fez perder tanto tempo... De acordo com o que a senhorita Rafaella relatou quando disse que ia sair da vila, o par deveria ter passado por aqui ontem ou antes... Acho que vou ter que esperar ainda mais... O meu erro foi sobrestimar a capacidade desse par, como se também fossem pessoas lagartos. Eu mesma devo ter batido algum recorde de velocidade para chegar até aqui! Mas de que adianta, se a senhorita Rafaella não estava aqui para competir comigo...? Mas enfim, talvez eu deva esperar alguns meses aqui...?

—Clak clak clak! (Me pergunto da onde esses lagartos tiram tanta confiança...)

-*(Não que você seja alguém para dizer... Mas se ela realmente esperar meses por aqui, o pessoal da cidade vai ter de dar um jeito de convencer essa cabeça dura, ou abrir uma nova estrada... Sinceramente, acho que a segunda opção é a mais fácil...)*

—Clak clak clak! (Você quase fala como se isso não fosse problema seu! Mas quem é que ela está esperando mesmo!?)

—*(Como é que isso daqui pode ser culpa minha!? Eu nem conheço ela!)* *Caham* E se você não se importar de dizer, o que seria tão importante para que você espere tanto tempo por mi--- Morgan?

—Ah hã... Claro que é para que eu possa sentar Morgan de porrada também! Quanto mais eu espero, mais a minha convicção cresce!!!

...

—Entendo… *(Não deve ser tão difícil de se construir uma nova estrada, boa sorte pessoal!)* Boa sorte com isso, vou continuar o meu caminho, então.

—Ah hã. Adeus, Slowpancreas.

A garota lagarto acena com sua cabeça.

—Quem é Slow---? Ah, é mesmo. Desejo sorte para que você (não) encontre quem você procura...

—Clak clak clak! (Não, pera aí! Você não pode sair daqui fácil assim, Morgan! Morgan está aqui! Aqui, ó! Pode sentar a porrada, e depois me deixa catar os ossos!!!)

—Que companheira peculiar que você tem... Fazendo barulhos e apontando para você desse jeito...

—Ahaha… É… Nem todos os monstas tem um intelecto superior como o das pessoas lagarto... Esse é o jeito estranho dos esqueletos de dizerem adeus *(a qualquer resquício de vida que ainda tenham)*, ahaha... Mas claro que você já sabia disso...

—Ah hã… Óbvio. Pessoas lagarto sabem de tudo. Eu mesma sou um caso especial, com o mais brilhante intelecto da vila!

Morgan e Violeta pensaram por um momento que o futuro da tribo de pessoas lagartos parecia meio preocupante.

—Clak clak clak! (Eu já sou morta-viva de qualquer jeito! Nãooo!!! Sua lagarto estupida!!! Não acredite no que essa pessoa diz, são mentiras compulsivas! E você, Morgan!? Vai deixar ela parada no meio da estrada, interrompendo o fluxo!? Tenha algum senso de responsabilidade e se sacrifique pelo bem maior!!!)

Violeta começa a tentar escrever no chão.

*Morgan sorrateiramente dá um soco no plexo solar da Violeta e a arrasta para longe*

—Estamos indo então… *(Se você continuar se contorcendo, juro que se eu sair daqui com vida, vou começar a vender cada parte do seu corpo separadamente... Esse seria um bom sacrifício seu para o bem maior, não acha? As pessoas vão começar a trocar as peças do seu corpo como colecionáveis. “Olha! Eu tenho uma das costelas da Violeta!” “Heh, isso não é nada! Eu tenho o fêmur dela!” “Crianças… Não percebem que eu estou segurando o crânio dela!?”)* *A Violeta finalmente para de tentar escrever no chão com sua perna*

—Ah hã, adeus.

Morgan e Violeta se afastam.

Mesmo após chegar à Garnis em uma velocidade impressionante, Rafaella optou por não parar para descansar, e continuar seguindo a trilha de Morgan.

Porém, no meio do caminho para a cidade acadêmica, ela encontrou uma amiga no meio da estrada.

—Roberta?

—Senhorita Rafaella!!! Você já está aqui? E quanto ao resto do pessoal da vila?

—Mesmo me apressando, ainda estou atrasada… Mas o que você está fazendo aqui? Achei estranho que eu não tive de brigar com você... Mas não me lembro de ter te visto lutando contra todos da vila para sair também.

—Quando você disse que ia desafiar essa pessoa chamada Morgan de novo, senhorita Rafaella, e que talvez tivesse de sair em viagem, eu decidi vir aqui para derrotar Morgan antes, e conquistar o seu amor! E quanto a eu sair da vila... Se você fizer um requerimento burocraticamente, acaba que você não precisa lutar contra todo mundo. É só especificar mais ou menos para onde você está indo e prometer mandar uma carta de tempos em tempos, para mostrar que está bem, e você pode sair... Mas de qualquer jeito, qual não foi a minha falta de surpresa quando o par que você descreveu nem passou por aqui?! Não sei por que você acha que qualquer humas mereceria um mínimo de reconhecimento!

A Rafaella remove a sua máscara em um momento raro, revelando sua linda face.

—Hmmm… Você tem certeza de que Morgan não passou por aqui?

—!!! H-hã n-não passou ninguém com aquela descrição que se chamasse Morgan. Humas são criaturas inferiores! Não tem porque você se preocupar tanto com uma pessoa assim, senhorita Rafaella! Ainda mais com alguém que demora tanto tempo e acaba nem conseguindo viajar uma distância tão curta! Não perca seu tempo com fracotes! Fique comigo ao invés---

—Chega!

Rafaella coloca sua máscara mais uma vez.

—Hik!

—Não tolerarei mais insultos! Salve eles para o caso de você conseguir derrotar Morgan em combate! Além disso, tem certeza de que Morgan não passou por aqui? Eu senti o seu cheiro, bem como o daquela esqueleto de estimação.

—O-O que!? Impossível! Não deixei ninguém escapar de minha percepção!

—Sinto claramente a fragrância agridoce de uma pessoa com grande treinamento na arte das batalhas, e o odor pútrido de uma morta-viva.

—Hmmm passou um par com essas características, mas tinham outro nome. Será que não é esse o cheiro que você está sentindo?

—São Morgan e a esqueleto. Não tenho dúvidas, eu reconheceria esses odores mesmo com o meu nariz tampado!

—Mas não tem como terem passado por mim… Ou melhor, você realmente é incrível, senhora Rafaella! Você consegue distinguir cheiros mesmo sem usar o seu nariz!

—Claro! Esse é o mínimo necessário para ser a pessoa lagarto mais forte de nossa tribo! Depender do seu nariz é apenas para aqueles sem o treinamento necessário!

—Por favor, me ensine!

—O truque é não usar o seu sistema olfatório para cheirar. Mas sim começar a sentir o cheiro com o seu corpo todo!

—Mas então por que você removeu a sua máscara?

—Para aumentar a área exposta do meu corpo!

—Impressionante! Vou começar a praticar essa técnica imediatamente!!!

Morgan e Violeta não estavam lá para fazer comentários… Mas os guardas de vigia acabaram com várias histórias para contar sobre essas garotas lagarto…

...

—Mas como pode ser que conseguiram passar por mim sem que eu percebesse…?

A Roberta parece inconformada consigo mesma.

—Tem um motivo para eu chamar Morgan de rival. Venha comigo! Tenho certeza de que ficará impressionada quando se conhecerem!

—Ghhh… Não consigo aguentar a ideia de que qualquer humas tenha conseguido conquistar o seu respeito de tal maneira… Eu seria uma parceira muito melhor!

—Você conhece os costumes, Roberta.

—Sim… Já que eu não consigo te derrotar diretamente, vou derrotar Morgan, para que você queira ser minha parceira!

—Heh, tente se conseguir!

—Eu vou!

E assim, as garotas lagarto se uniram em uma viagem para procurar Morgan...

Sem saberem da festa que a guarda da cidade fez depois, para comemorar a saída de Roberta.

Dizem que foi erguida uma estátua para a heroína da cidade, Rafaella, na praça da cidade, em apreciação por ter tirado Roberta do meio da estrada... Só que não...

Diário de Monstros, por Morgan Accelheart

Pessoas lagarto

Similares aos dragões em aparência. Bípedes, com uma cauda e escamas cobrindo os seus corpos.

Além disso, também possuem garras afiadas, que provavelmente eram mais usadas nos tempos em que lutavam sem usar armas. Nos tempos atuais, essas garras, em especial as das mãos, se tornam um incomodo ao manipular objetos, por isso as pessoas lagarto teriam desenvolvido o hábito de as aparar.

Vivem em tribos, que se sustentam através da caça e coleta. A liderança da tribo se dá por pessoas com posições de influência, que são decididas ou pela experiência ou pelas capacidades em combate.

As capacidades físicas das pessoas lagarto estão em uma posição elevada dentre os outros montas que habitam a terra. Também possuem escamas resistentes, que fornecem uma defesa maior do que a maioria das armaduras existentes no mercado, apesar de que não pode ser comparada com a pelagem das raposas e muito menos com as escamas de dragões, a despeito de sua semelhança em aparência.

As tribos de pessoas lagartos não costumam ser receptivas a estrangeiros, a menos que eles tenham sido trazidos por algum membro da tribo como um “parceiro”, ou seja, um pretendente amoroso, com o qual vai passar o resto da vida. Tais parceiros costumam ser decididos conforme suas habilidades em combate ou algum outro aspecto que a pessoa considere como importante, variando para cada indivíduo.

Estritamente em termos biológicos, as pessoas lagarto são hermafroditas sequenciais, que nascem com órgãos sexuais femininos, mas que podem mudar de sexo substituindo os seus órgãos sexuais por masculinos, após se tornarem adultos. Isso acontece após encontrarem um parceiro, e estabelecerem uma ordem de dominância. A parte dominante permanecerá com os seus órgãos sexuais femininos, enquanto que a parte submissa desenvolverá órgãos sexuais masculinos.

Como suas tribos tendem a se fechar para pessoas de fora, ainda tenho muito a pesquisar e descobrir sobre suas fisiologias e cultura. Além disso, tenho medo de que se eu não tomar cuidado ao pesquisar, a Rafaella pode acabar conseguindo me raptar...