Notas iniciais
Já xinguei o RM demais pelo modo como Finchel ficou. Mas depois vi que eu não tinha razão. Ninguém esperava o que aconteceria ao Cory, não é?Resolvi escrever a fic porque ainda estava assistindo à 3ª temporada quando tudo aconteceu (é, sou uma Gleek há pouco tempo). Depois de muita resistência, assisti à 4ª. E várias vezes imaginei como as coisas poderiam ter sido diferentes... Espero que gostem. Boa leitura! :)

Rachel saiu do consultório da médica, caminhando lentamente. Viu Santana na sala de espera, sentada no sofá, lendo uma revista, pés inquietos. Ela se levantou imediatamente ao ver a amiga parada na porta.

– Eu estou grávida, Santana. – disse Rachel, em estado de torpor.

– O Brody... – começou Santana, sendo imediatamente interrompida por Rachel:

– ...não tem nada a ver com isso. – completou. Santana lhe lançou um olhar questionador. Rachel suspirou e explicou: – Há muito tempo não rolava nada entre o Brody e eu. Estou grávida do Finn.

~ * ~

Rachel se deitou na cama, sentindo-se tonta. A cada dia que se passava, os enjoos matinais pioravam.

Desde que confirmara a gravidez, há umas duas semanas, e terminara com Brody, não tinha mais ido à NYADA. Não sabia se aguentaria as aulas. Não sabia se faria o teste para Funny Girl. Mas de uma coisa tinha certeza: não podia contar nada a Finn, perturbá-lo dizendo que estava grávida, quando ele, finalmente, descobrira a vocação que tinha para professor e começara a faculdade.

E, além do mais, Rachel se sentia a única responsável pela gravidez. Sempre fora cuidadosa com Brody. Jamais esquecia as pílulas, mesmo nos últimos dois meses, quando estavam bastante afastados. Mas nos dias que passara em Lima, para o casamento de Will e Emma, tinha se esquecido de tudo. Assim que viu Finn, nada mais tinha importância. E só se deu conta disso quando estranhou o atraso da menstruação.

Perdida em pensamentos, Rachel prendeu o cabelo em um nó no alto da cabeça e se deitou novamente.

Ela e Santana não haviam contado nada a Kurt. Para ele, Rachel estava com virose.

~ * ~

Dois meses se passaram. Rachel voltara à NYADA. Estava trabalhando com Santana e Kurt em uma lanchonete. Kurt iria se casar com Blaine. Shelby tinha apoiado Rachel no teste para Funny Girl, em que ela cantara “Don’t stop believin’” depois de conversar com Finn.

Tudo estaria perfeitamente normal. Exceto pelo fato de Rachel estar grávida.

– Você e a Quinn são mesmo muito diferentes. – dizia Santana, colocando macarrão em uma panela. Era uma sexta-feira. Kurt estava em Ohio. – Sinceramente, eu não te entendo, hobbit.

– É melhor assim, Santana. O Finn não precisa que eu estrague a vida dele. – respondeu Rachel, sentada à mesa, cortando tomates.

– Quem disse que ter um filho é estragar a vida de alguém? E, além do mais, você não fez o bebê sozinha, e a orca é tão responsável por isso quanto você. – retrucou, pegando o prato em que a amiga cortara os tomates. – E ele te ama, Berry. Apesar de tudo, o Finn ainda te ama. Que homem viria de Lima para Nova York só para defender a sua honra com prostituto, que nem ele fez? Além disso, ele seria um paizão, você sabe. A Quinn bem que tentou fazer ele assumir o filhote de Puckerman, lembra? E daqui a pouco, você estará a cara da Free Willy, então você não pode esconder a gravidez por muito mais tempo...

Rachel estava pensativa. Por alguma razão, o que Santana falava fazia todo o sentido. Não adiantava mais ignorar o que estava acontecendo. Fingir que as coisas continuavam do mesmo jeito. Afinal, ela estava esperando um bebê. De Finn Hudson. O único cara que ele amava desde os dezesseis anos.

“Porque eu sei que, no final, de um jeito ou de outro, nós ficaremos juntos”. Não fora isso que Finn lhe dissera no dia do casamento de Will e Emma? Não fora ela, Rachel, quem conseguira pegar o buquê sem fazer nenhum esforço? Então por que não dizer a Finn logo que estava grávida? Burrice, só pode.

Rachel sabia o que fazer.

Mais tarde, Santana foi tomar banho. Rachel escreveu um bilhete de “volto logo” e pregou na porta da geladeira. Pegou a primeira mala que achou na frente, enfiou algumas roupas nela, de qualquer jeito, e saiu do prédio onde morava.

Na porta, esbarrou com Kurt, que acabava de sair de um táxi.

– Rachel...

– Não posso falar com você agora, Kurt, eu tô com pressa. É importante. – interrompeu, beijando a bochecha do amigo. Entrou no táxi de que ele tinha acabado de sair. – Para o aeroporto, por favor.

Se ela tivesse prestado mais atenção, talvez tivesse percebido que Kurt estava claramente abatido.

~ * ~

Depois de horas dentro do avião, Rachel não hesitou em correr até a casa dos Hudson-Hummel, em Lima. Tocou a campainha, impaciente. Segundos depois, Carole abriu a porta, com a mesma expressão abatida de Kurt.

– Rachel? – disse, surpresa. – O Kurt não...

– Sra. Hudson... Sra. Hummel, por favor, eu preciso falar com o Finn. É urgente. Já liguei para o celular dele trezentas vezes, mas chama até cair na caixa postal e ele não atende, será que a senhora...

– Rachel – interrompeu Carole, empalidecendo lentamente. Rachel discou o número dele novamente. – O Finn não está aqui.

– Onde ele está, Sra. Hummel? – perguntou Rachel, levando o celular ao ouvido. Havia alguma coisa errada ali. Muito errada. Os olhos de Carole se encheram de lágrimas. – Finn! – chamou a moça, empurrando a porta. Ela entrou na casa e subiu as escadas correndo. – Finn! – ela abriu a porta do quarto dele. Finn não estava lá. Havia uma foto dele com Rachel no dia em que se casariam, no cartório, em cima do criado-mudo. Ao lado do porta-retratos, o celular de Finn vibrava. Rachel hesitou por um momento e encerrou a chamada. – FINN! – chamou, voltando-se para a porta do banheiro. Estava vazio. Rachel começou a entrar em pânico.

– O que está acontecendo aqui? – era Burt, aparecendo na porta do quarto. Carole apareceu logo atrás, após subir as escadas, o rosto coberto de lágrimas.

– Sr. Hummel... por favor... você pode me dizer cadê o Finn? – quis saber Rachel, torcendo as mãos, nervosa.

– O Kurt não conversou com você, Rachel? – questionou Burt, uma expressão pesarosa no rosto.

– Eu não... eu não deixei ele falar nada... eu... o que aconteceu com o Finn? – emendou Rachel, desesperada, vendo Carole soluçar.

– Rachel, querida... o Finn, ele... – a voz de Burt estava pesada. Como quem contém o choro. – O Finn faleceu, ontem.

Tudo o que Rachel viu em seguida foi escuridão.

~ * ~

Rachel abriu os olhos e piscou lentamente. Sentia as pálpebras pesadas. Estava deitada em um lugar que não conhecia. Era tudo branco.

– Rachel? Graças a Deus! – ela reconheceu a voz de Leroy, andando até a porta. – Hiram! Shelby! Ela acordou! Avisem os outros!

Não demorou dois segundos e Hiram e Leroy estavam em volta da moça. Shelby conversava com alguém e entrava no quarto, encostando a porta ao passar.

– Cadê o Finn? – quis saber Rachel, sentando-se na cama com alguma dificuldade. Havia um vidro de soro ligado em seu braço. A cabeça dela doía. Desejava que o que Burt dissera sobre Finn fosse apenas um pesadelo.

– Rachel, você tem que descansar, meu anjo. – disse Hiram, tentando fazer a filha se deitar novamente, mas ela resistiu.

– Eu preciso falar com o Finn. – falou Rachel, ignorando o que o pai dissera. Leroy, Hiram e Shelby trocaram um olhar tenso. – Por favor – implorou Rachel, as lágrimas enchendo-lhe os olhos. – Me digam que não é verdade. Me digam que o Finn não me abandonou. Ele disse que, no fim, a gente ia ficar junto. – agora ela tinha sucumbido às lágrimas e chorava com desespero. – O Finn não pode ter mentido para mim. Ele nunca mentiu para mim.

– Rach... eu sinto muito. – disse Leroy, baixinho, abraçando a filha.

– Nós estamos com você, amor. – falou Hiram, fazendo cafuné no topo da cabeça de Rachel. – Nós vamos te ajudar com o bebê.

– E a Broadway Care estará às ordens. – acrescentou Shelby.

Mas Rachel não escutava mais nada. Sentia uma dor inexplicável tomar conta de seu peito. De sua alma. De cada celulazinha que havia em seu corpo.

– Shhh... vai ficar tudo bem, Rach. – dizia Leroy, como se a acalentasse.

Mas como tudo ficaria bem? Rachel não mais poderia dizer a Finn que iam ter um bebê. A criança nunca conheceria o pai maravilhoso que, com certeza, Finn seria. Rachel nunca mais poderia abraçá-lo. Vê-lo sorrir, tortamente, para ela. Sentir o calor de Finn.

Ao anoitecer daquele dia, Rachel viu Finn pela última vez. Logo antes de fecharem o caixão.

~ * ~

De última hora, Rachel resolveu que iria à homenagem que o Glee Club faria a Finn.

Ela não queria que ninguém a olhasse com pena. E foi por isso que se forçou a cantar Make you feel my love até o fim, mesmo lutando com a sensação de ter um nó na garganta. Deixou apenas que algumas lágrimas teimosas escorressem pelo rosto.

Quando se juntou aos demais, fitando a placa que fora feita em homenagem a Finn, estava, inconscientemente, segurando o pingente de colar com o nome dele.

~ * ~

Rachel terminou o primeiro ano letivo em NYADA em julho, já com cinco meses de gravidez, ainda pouco visível. Resolveu trancar a faculdade e retornar somente em setembro do ano seguinte, quando o bebê estivesse com cerca dez meses. Enquanto isso, voltaria a morar em Lima, onde Hiram, Leroy e Carole estavam sempre dispostos a ajudá-la com o que fosse necessário. Carole, inclusive, havia dado a Rachel o porta-retratos que ela vira na mesinha de cabeceira de Finn e várias das blusas enormes dele do time de futebol, que ela agora usava para dormir.

Para Rachel, não importava se o bebê seria um menino ou uma menina – a única coisa que importava, de verdade, era que a criança seria uma parte dela e de Finn. A única parte de Finn que lhe restara e, justamente por isso, ela se empenhava ao máximo possível para ter um bebê saudável: ia a todas as consultas com o obstetra, fazia todos os exames que ele pedia, seguia as dietas que lhe recomendava, tomava os suplementos vitamínicos e as vacinas necessárias... o bebê era a única razão de Rachel se forçar, todos os dias, a se levantar. A fazer as três refeições. A continuar vivendo. Ela ainda não podia abandonar este mundo para se juntar a Finn no outro, onde ele estava agora – pelo menos por enquanto. Ela precisava viver. Pelo bebê que Finn lhe deixara. Precisava cuidar dele até que estivesse grandinho o suficiente para entender que Rachel amava Finn e, um dia, voltaria para junto dele – conforme ele mesmo prometera.

~ * ~

Agosto trouxe uma surpresa para Rachel: Kurt e Santana reuniram Mercedes, Tina, Brittany e Quinn no porão da casa dos Berry e fizeram um chá de bico para o bebê.

Rachel quase se sentiu de volta às reuniões femininas que faziam quando estavam no McKinley, no Glee Club. Até cantou com os amigos. Sorriu. Brindaram ao bebê com limonada – nada de álcool para grávidas, como Kurt não se cansava de lembrá-las.

Ao fim do chá, Rachel se sentou a uma mesa, rodeada pelos amigos, para abrir os presentes. Cada um levara um presente e um pacote de fraldas, que Leroy logo tratou de estocar junto das que ele e Hiram já haviam comprado.

Santana levara um par de sapatinhos de tricô brancos – como Rachel não quisera saber o sexo do bebê, nada de roupinhas rosa ou azuis. Kurt levara um macacãozinho verde com os dizeres Mommy’s baby. Tina, um par de pequenas luvas amarelas. Mercedes levara uma conjunto de três mamadeiras – pequena, média e grande. Brittany, um macacãozinho que mais parecia uma miniatura do blusão de Finn do McKinley Titans. Rachel teve que se esforçar para segurar o choro quando abraçou a loira para agradecê-la.

– Como vocês tem tanta certeza de que o bebê é do Finn? – perguntou Quinn, docemente. Todos se viraram para encará-la, furiosos. Com exceção de Rachel, que tinha a expressão igual a de quem acabara de levar um tapa no rosto. – Quero dizer, pode ser do Brody. Já fizeram o teste de DNA?

– Acho que você está confundindo as coisas, Fabray. – interveio Santana, com um olhar ameaçador. – Essa é você, não a Rachel. – comentou, fazendo alusão ao fato de a loira ter ficado grávida de Puck e ter dito a todos que o filho era de Finn.

– Ninguém nunca amou o Finn tanto quanto a Rachel. – reforçou Mercedes, em apoio à amiga.

Quinn ergueu as mãos em sinal de rendição.

– Não precisam ficar bravos comigo. Só estou dizendo o que várias pessoas, inclusive eu, pensam. – disse, sem se afetar. – Sabia que quase toda a cidade está falando isso pelas suas costas, Rachel?

Rachel nada disse. Estava em choque. Kurt, sentado ao lado dela, saiu em defesa da amiga:

– A Rachel não se importa com o que dizem, contanto que ela saiba a verdade.

– E todos aqui têm certeza que o filho é do Finn. – afirmou Tina, sorrindo maldosamente para Quinn.

– Só estou dizendo isso porque sou amiga da Rachel e acho justo que ela saiba o que estão falando dela. – comentou Quinn.

– A Rachel não precisa de amigos como você. – falou Santana, em tom ameaçador, levantando-se lentamente da cadeira em que se sentava, como quem parte para a briga.

– Não precisa se exaltar, Santana, eu vou embora. Não gosto de ficar onde não sou bem-vinda. – disse Quinn, levantando-se também e pegando a bolsa. Antes de sair, tirou um pacotinho retangular da bolsa e o jogou na mesa, na direção de Rachel. – Aqui está o presente que eu trouxe para você e o seu filho. Te vejo por aí. – ela sorriu e subiu as escadas, para sair do porão.

Santana foi atrás, confirmar se Quinn tinha mesmo ido embora.

Rachel não se moveu para abrir o presente. Segurava o pingente com o nome de Finn entre os dedos. Quinn podia pensar o que quisesse. O filho de Finn, que ela tanto quisera ter, era de Rachel. E Rachel sabia disso. Carole, Leroy, Hiram, Burt, Kurt, Santana e todos os outros do Glee Club, que não Quinn, também sabiam. Por ora, era o suficiente.

~ * ~

No início do mês de novembro, a pequena Sophie Berry-Hudson nasceu, surpreendendo todos aqueles que achavam que ela seria Barbra, Patti ou Angela.

Foi o dia do ano mais feliz para Rachel, que nunca pensou que voltaria a amar alguém tão profunda e verdadeiramente.

~ * ~

Em setembro, Rachel voltou a Nova York. Ia à NYADA e deixava Sophie na Broadway Care, aos cuidados de Shelby. Carole, Leroy, Hiram e Burt sempre as visitavam todo mês.

Rachel logo começou, também, a fazer peças no circuito off-Broadway. Sempre levava Sophie com ela aos ensaios e, sempre que possível, Shelby as acompanhava, com Beth.

Sophie conseguia encantar a todos com seu jeitinho meigo, e nenhum produtor nunca se importou que ela estivesse nos estúdios. A garotinha não atrapalhava – em vez disso, prestava atenção em tudo e em todos. Como a mãe, parecia ter nascido para o estrelato. Antes mesmo de falar, Sophie já cantava.

~ * ~

À medida que os anos passavam, vagarosamente, Sophie ficava mais e mais parecida com Finn – o mesmo cabelo escuro liso, o mesmo nariz, os mesmos olhos, o mesmo sorriso torto, as mesmas covinhas... ninguém diria que ela era filha de Rachel se não fosse pela pequena estatura e pela voz poderosa.

Com apenas seis anos, Sophie decidira que queria ser atriz da Broadway, como a mãe recentemente conseguira. E, sempre que tinha oportunidade, perguntava pelo pai. Amava ouvir as histórias que Rachel e Carole lhe contavam sobre Finn.

Mesmo sem nunca tê-lo conhecido, Sophie era apaixonada pelo pai. Não raras vezes, Rachel a surpreendeu com o porta-retratos da foto do casamento entre as mãos.

Certo dia, a pequena disse à avó Carole que nunca tinha visto nenhum pai das coleguinhas de creche que fosse tão bonito quanto o dela.

~ * ~

Quando Sophie estava prestes a completar sete anos, Rachel se mudou para Lima de novo. Matriculou a filha em uma escola de lá e comprou uma pequena casa ao lado da dos pais. Conseguiria sobreviver, disso tinha certeza. Tinha uns dez apartamentos em Manhattan, que comprara com o dinheiro que ganhara trabalhando na Broadway, e todos estavam alugados. Agora, faria apenas peças que ficassem em cartaz somente em temporada de férias escolares.

~ * ~

Naquele ano, Rachel e Sophie passaram o Natal com Carole, Burt, Kurt, Blaine, Leroy e Hiram na casa dos Hummel.

Rachel ignorou Kurt completamente quando este lhe sugeriu que arrumasse um namorado e se divertisse um pouco, porque Finn não gostaria de vê-la tão sozinha.

Ela sabia que, por melhores que fossem as intenções de Kurt, se fizesse aquilo, seria o mesmo que trair Finn. Ela, Rachel, pertencia somente a ele, Finn. Ela vivia apenas por Sophie, que era parte dele. E que Rachel também amava mais do que imaginava ser possível.

E Finn... era o grande amor da vida dela.

~ * ~

Naquela noite de réveillon, Rachel não estava conseguindo dormir. Tinha recusado todos os convites que recebera dos amigos, dos pais, e de Carole. Queria ficar quietinha em casa. Sophie também não quis ir com os avós e ficou com ela.

Para Rachel, o Ano-Novo e o Natal sempre eram as piores datas. O Natal, por ser o feriado que Finn mais gostava. Ela sempre o enfrentava com um sorriso no rosto por Sophie, que era igualmente encantada pela data. Mas o Ano-Novo, cheio de esperanças e promessas de um ano melhor e mais feliz, doía-lhe ainda mais. Porque ela sabia que, não importava que os anos viessem e se fossem – Finn simplesmente não voltaria à Terra.

Sem mais conseguir ficar deitada, Rachel vestiu um robe e desceu as escadas, indo para a sala. Em cima da mesinha de centro, estava uma caixa de papelão cheia de coisas dela que Leroy achara no porão e tinha deixado lá mais cedo. Ele estava refazendo a adega de vinhos, e precisava de mais espaço.

Com a sala iluminada apenas pelos pisca-piscas da árvore de Natal e das luzinhas da janela, Rachel começou a dar uma olhada no que estava ali.

O que lhe chamou a atenção foi o presente que Quinn lhe levara no chá de bico de Sophie e que ela nunca abrira. Perguntou-se o que seria. Nunca mais vira Quinn, embora soubesse que ela tinha se tornado uma advogada e se casado com um cara rico que morava em Beverly Hills.

Sem pestanejar, Rachel abriu o embrulho. Era um DVD, com o título “Journey to Regionals”. O que seria? Quinn dissera que era um presente para ela e para o bebê. Como um DVD seria um presente para um bebê? Antes, porém, que pudesse colocá-lo no aparelho, Sophie apareceu dizendo que também não estava conseguindo dormir. Rachel, então, foi para a cozinha e fez duas grandes canecas de chocolate quente.

Ao voltar para a sala, viu Sophie com o DVD nas mãos.

– O que é isso, mamãe? – perguntou, colocando-o de volta na mesinha, enquanto pegava a caneca que a mãe lhe entregava.

– Não sei, filha. Vamos assistir? – sugeriu Rachel, tirando a caixa de cima da mesinha. Sophie assentiu e se sentou no sofá, com a caneca de chocolate entre as mãos. Rachel colocou o DVD no aparelho e se sentou ao lado da filha.

A tela ficou escura. Segundos depois, apareceu a imagem da parte de trás de um auditório lotado. Os primeiros acordes da música começaram a tocar. Finn apareceu, empurrando a cortina vermelha para um lado, cantando:

Correndo na estrada

Para o sol da meia-noite

Rodas giram e giram

Você está na minha mente

– É o papai! – disse Sophie, animada, enquanto Rachel sentia o coração disparar no peito. Era a primeira apresentação dos New Directions no campeonato regional. Foi ali, atrás daquelas cortinas, que ela e Finn decidiram, pela primeira vez, que seriam namorados. Logo depois, Rachel viu a si mesma aparecer no corredor ao lado:

Corações inquietos

Dormem sozinhos à noite

Enviando todo o meu amor

Através do telefone

– E você, mamãe! Você e papai juntos! Como vocês são lindos! – exclamou Sophie, sem conseguir esconder o entusiasmo. Rachel sorriu, tristemente, vendo ela e Finn cantarem juntos:

Dizem que a estrada

Não é lugar para se começar uma família

Em todos os sentidos

Tem sido eu e você

Amor a um músico

Não é tudo que deveria ser

E então Rachel se viu cantar, sozinha:

Oh, garoto, fique comigo

Eu sempre serei sua

E, para finalizar, ela e Finn:

Fielmente

Enquanto Sophie se deliciava vendo os pais cantarem, junto dos colegas de escola, um mash-up de Any way you want it/Lovin’ Touchin’ Squeezin’ e, em seguida, Don’t stop believin’, Rachel foi para a cozinha. Jogou fora o chocolate quente que beberia. Pensou em Finn e em como as palavras que tinham cantado um para o outro nas Regionais caíam como uma luva para eles dois, como um casal.

Ela sentia a falta dele. Todos os dias. Era exatamente como Carole dissera certa vez: “você acorda e, por um momento, você se esquece. Mas aí você se lembra de que ele se foi e não vai mais voltar. E é mais um dia difícil”.

Rachel deixou que as lágrimas escapassem de seus olhos. Ela se lembrava de tudo: do primeiro beijo, da primeira briga, da primeira reconciliação, da primeira vez. E também do último beijo, da última briga, da última reconciliação (se é que se podia chamar de reconciliação a noite que dividiram no casamento de Will e Emma), da última noite. Da primeira música. E da última, também. “Você é quem eu quero”. “Nós temos hoje à noite”. E, por mais que soubesse que Finn se fora, mas lhe deixara Sophie, pensar nele e sentir falta dele não se tornava menos dolorido. Ou menos difícil. Era um dia sem Finn, da mesma forma. Era um dia um pouco mais vazio.

Instintivamente, Rachel se lembrou da música que Finn escrevera para o primeiro campeonato nacional que disputaram: Algum dia nós teremos um final feliz? Ou ficaremos para sempre apenas fingindo?

Ela tinha fingido. Ela escondera Sophie de Finn. Ela o deixara partir sem que ele soubesse que um pedacinho dele ficava. Ela nunca tinha tido coragem o suficiente para visitá-lo no cemitério, embora sempre ajudasse Carole e Burt com as despesas de manutenção e jardinagem. Ela nunca levara a filha para ver onde o corpo do pai estava.

– Mamãe, você e o papai eram ótimos cantando juntos. – disse Sophie, adentrando a cozinha e assustando Rachel, que limpou as lágrimas com as costas das mãos, antes de se voltar para a menina:

– Sophie, você quer dar uma saída com a mamãe? – perguntou, abaixando-se.

– Onde a gente vai, mamãe?

– Você já vai ver. – assegurou Rachel, segurando a mão da menina e a levando para cima.

Rachel agasalhou Sophie e a si mesma, por cima dos pijamas, pegou as flores que estavam em um vaso na sala, e entrou no carro com a menina.

– Mamãe, onde a gente tá indo? – perguntou Sophie, segurando as flores, assim que Rachel deu partida no carro.

– Ao cemitério. – respondeu, concentrando-se na estrada. – Você se lembra do que a vovó Carole te disse sobre o papai?

– Lembro. A alma dele foi para o céu e ele se tornou um anjo. E as estrelas que a gente vê à noite são os anjos que cuidam da gente. – disse Sophie, imediatamente. – O papai cuida de mim, de você e da vovó Carole. Porque ele amava a gente muito. Mas para ele se tornar um anjo, a vovó e você esconderam o corpo dele, não é? E o cemitério é esse lugar triste onde todo mundo coloca as pessoas que o Papai do Céu leva para o céu para Ele cuidar.

– Isso mesmo, Sophie. – comentou Rachel, orgulhosa, segurando-se para não chorar.

– As flores são para o papai, mamãe? – questionou a menina.

– São, Sophie. Cuida delas direitinho, tá?

– Mamãe, por que a gente nunca foi ver o papai antes?

Rachel embatucou, pensando em uma resposta.

– Sabe, Sophie... a mamãe nunca teve coragem de voltar lá. – respondeu, por fim, sinceramente. – Mas hoje, eu vi o seu pai cantando naquele DVD e achei que já tinha passado da hora de a gente ir lá. De ele te ver mais de perto.

Sophie ficou em silêncio. Rachel não tinha bem certeza se ela entendera ou não, mas o importante é que não tinha feito mais perguntas.

Minutos depois, Rachel estacionou na entrada do cemitério e saiu do carro, com Sophie do lado dela. Ela se lembrava perfeitamente de onde era o túmulo de Finn. Ao chegar lá, ajoelhou-se no chão e tirou a neve da lápide onde se lia “Finn Hudson: 1994 – 2013”, logo embaixo de uma foto dele. Sophie se ajoelhou ao lado da mãe e colocou as flores em cima da lápide.

– Eu amo você, papai.

Fogos de artificio começaram a espocar no céu, acima delas.

– Já é Ano-Novo, mamãe! – Sophie apontou para o céu, onde milhares de fogos de todas as cores brilhavam. – A gente não ia deixar o papai sozinho no Ano-Novo, não é?

– Claro que não, meu anjo. – respondeu Rachel, os olhos lacrimejando.

Sophie ainda olhava para o céu. Minutos depois, os fogos pararam.

– Olha, mamãe! Uma estrela brilhando! Será que não é o papai olhando por nós?

Rachel olhou para onde Sophie apontava. Era, realmente, uma estrela brilhando muito mais que as outras.

– Quem sabe, não é, meu amor? – disse Rachel, sentindo, pela primeira vez em um Ano Novo, o coração se encher de esperança.

~ * ~

Rachel ainda viveu por Sophie por vinte e cinco anos. Quando partiu, Sophie tinha trinta e dois anos, um marido carinhoso, Nicholas, um filho de quatro anos, Finn, e uma garotinha ainda bebê, Nicole.

~ * ~

Rachel não sabia onde estava. Era um lugar muito limpo e branco, mas não era um hospital. Era tudo muito bonito. E emanava uma sensação reconfortante, de paz.

Oh, vida de circo

Embaixo do grande mundo

Todos precisamos dos palhaços para nos fazer sorrir

Ela sentiu o coração disparar. Era a voz de Finn, cantando Faithfully, ela tinha certeza. Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Ao se virar, deparou-se com ele, exatamente da maneira como era aos dezenove anos. Finn sorria, tortamente. Continuou cantando, enquanto se aproximava de Rachel, a passos lentos:

Através do tempo e do espaço

É sempre outro show

Me pergunto onde estou

Perdido sem você

– Finn! – ela não aguentou mais e correu para os braços dele, abraçando-o com força. – Senti tanto a sua falta. – desabafou, ainda agarrada a ele.

– Eu sei, Rach. Me perdoe por isso, eu... – ele começou, sentindo a voz morrer na garganta. Tinha esperado tanto por ela. Sabia que era até egoísta por ter passado tantos anos desejando que ela se juntasse a ele, quando havia Sophie. Que ele também queria muito conhecer. Queria que ela e Rachel se juntassem a ele.

Rachel o beijou com carinho e sorriu, antes de se afastar e perguntar:

– Onde estamos, Finn?

– No Céu, Rach. – ele disse, simplesmente.

– Isso quer dizer que... – ela começou, lentamente. – ...que eu morri?

– Isso mesmo. – confirmou Finn.

– E a Sophie...

– Está na Terra, vivendo a vida dela. Terminando a missão que Deus confiou a ela. – Rachel estava confusa. – É, Rach, eu nunca acreditei muito em Deus. Mas Ele existe. E está te esperando. Ele quer que você fique no Céu conosco. Quer te perguntar se você aceita morar aqui.

– Não precisa perguntar, é claro que eu aceito! – Rachel disse imediatamente, mas logo acrescentou, preocupada: – E a Sophie? Ela vai ficar bem?

– Vai, sim. Assim que você disser ao Senhor que aceita ficar aqui, conseguirá olhar pela Sophie e nos ajudar a cuidar dela e do Finn e da Nicole. – explicou Finn. Rachel o encarava com um olhar de indagação, velho conhecido de Finn. – É, assim que eu cheguei aqui, fiquei sabendo de tudo. Você e a Sophie foram os motivos por eu ter escolhido ficar aqui.

– Finn, me desculpe por nunca ter te dito nada sobre a Sophie. – murmurou Rachel.

– Não precisa se desculpar, anjo. Está tudo bem. – assegurou Finn, acariciando o rosto dela com carinho. – Você cuidou dela muito bem, e a deixou com um rapaz maravilhoso. Não que eu tenha aceitado o Nicholas tão facilmente – Rachel sorriu – mas ele é o melhor cara que poderia ter se casado com ela. Você não sabe como eu tive vontade de levá-la ao altar, quando a vi vestida de branco, com Leroy e Hiram.

– Pais... sempre iguais. – sorriu Rachel, divertida.

– Tem sido terrível ficar aqui, Rach. Sem você, sem a Sophie, sem a minha mãe. Só me dei conta da burrada que fiz quando cheguei aqui e descobri que você estava grávida. – murmurou Finn, seriamente. – E depois, eu passei dias desejando que você e a Sophie viessem para cá. E eu aprendi, com o tempo, que não podia ser tão egoísta. O Senhor me fez ver que, quando amamos muito uma pessoa, temos que deixá-la viver a vida dela. E que se for para ficarmos junto dela, ficaremos de qualquer jeito. Mesmo em outro plano.

Rachel sorriu. Ela entendia bem o que Finn dizia. Também se sentira estúpida quando se deu conta de que poderia tê-lo contado sobre Sophie a tempo. Mas, no fim, as coisas voltavam a se encaixar.

E estar separado não é fácil nesse caso de amor – cantou Rachel segurando a mão de Finn. Ele passou a cantar junto dela, guiando-a pelo Céu:

Dois estranhos aprendem a se apaixonar de novo

Eu tenho a alegria de redescobrir você

Finn sorriu, cantando sozinho com todo o amor que sentia:

– Oh, garota, fique comigo

E Rachel cantou com ele, como se respondesse:

Eu serei sempre seu

Fielmente

E, daquela vez, realmente era para sempre. Fielmente.

Notas finais
Lembrem-se de comentar, favoritar, recomendar... não gasta os dedos! E você ainda faz uma autora feliz. ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!