Fairy Tales
1 Aqueles Olhos Vermelhos
Notas iniciais
A estória a seguir tem base nos contos do Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve
I
“Príncipe encantado será que ele existe? Talvez sim, ou não. Mas é o que sempre buscamos. Buscamos sapos para beijar, feras para nos apaixonar sempre na espera que, ao final, vire um príncipe e tenhamos um “felizes para sempre”, contudo nem sempre é assim, muitas vezes aqueles que julgamos como nosso encantado, nos desencanta.”
A cabeça de Samuel, curiosa não? Cheia de buscas, mas por que buscar, mesmo sabendo que nada encontrarás além de sofrimento e dor? Corações partidos evoluem, mudam, se metamorfoseiam, transcendem o mundo medíocre.
Isso implica em mudanças radicais, radicais até de mais para o gosto dele, como sair da cidade grande, se não o compreendiam muito bem lá, imagine numa cidade de interior? É o fim da vida, um resquício de civilização. É nessa situação em que se encontra nosso Chapeuzinho Vermelho, vindo da cidade grande para a cidade pequena. Apesar de ser uma mudança das mais drásticas, fazia-se necessária, era bom mudar de ares, talvez só assim consiga esquecer o lobo-mal de sua vida, aquele que um dia julgava ser seu príncipe, mas nem todo conto de fadas tem um final feliz, principalmente quando você pega o príncipe encantado na cama com a fada madrinha.
As folhas caíam secas das árvores, era outono e, da janela de seu quarto, o sótão da casa que a mãe havia comprado na nova cidade, observava cada uma dançar suavemente sua dança de despedida no ar, até que chegava a seu destino final, o chão. E assim, a cada folha que caía, as árvores do quintal pareciam mais mortas a cada dia, geladas por antecipação. O inverno já pairava em seu coração. Aquelas que desciam lenta ou rapidamente, geladamente tinham cor de gelo, não mais de folhas secas, não mais de vidas secas, pois nem secas elas eram.
Deprimente, a primeira expressão que vem a cabeça, mas o menino na janela achava belo, tão belo como uma maçã vermelha, tão belo como sapatinhos de cristal, mas não da para ficar nessas divagações, pois o galo já cantava – ele ainda não havia dormido, apenas tomado um banho na madrugada e trocado de roupa, quase sempre as mesmas, mas isso não importava desde que estivesse com seu casaco vermelho – era seu primeiro dia de aulas e como moravam longe da cidade, dentro de um bosque, se ele não saísse agora, chegaria atrasado, aliás, mais que atrasado.
No meio do bosque havia um lago, um lago negro, morto sem vida, dentro desse lago havia algo branco, branco coma neve, mas seus olhos, seus olhos eram diferentes, mas iguais dos outros seresque, assim como ele, andavam com suas patas envoltas em névoa sobre o lago. A água nem congelada estava, mas mesmo assim eles andavam sobre ela, e, ao sentir os primeiros raios de sol passar por entre as nuvens, um deles, provavelmente o mais jovem, disparou por entre o bosque pulando pelas veias de madeira que levavam a vida para todas as árvores, para dos os seres vivos que ali estavam inclusive àqueles que andavam sobre a água.
Era um mata fechada, densa, mas mesmo assim o sol iluminava as vielas das árvores, contudo isso não fazia diferença alguma para ele, pois seus olhos vermelhos o permitiam ver melhor no escuro do que no claro.
A brisa era leve suave e fazia seus cabelos na altura do pescoço bailar suavemente. O bosque, em meio ao cheiro de água e terra, o saudava com uma doce canção, mas espere! Havia algo estranho ali, um cheiro novo. Alguma flor de inverno? Não. Frutas? Não. Um humano talvez? Sim, era aquele cheiro adocicado de carne humana viva. Ele vivia entre os humanos, mas aquele cheiro doce em especial ofascinou e seguia bem o caminho do bosque, isso era estranho, pois todos sabiam da história do bosque, justamente por isso evitavam o caminho por lá, mas este parece não conhecer e também um cheiro novo na pequena cidade de Fairy Tail.
Antes de sair de casa, sua mãe sempre lhe dizia “cuidado com o lobo chapeuzinho” referindo-se ao seu casaco vermelho de capuz e a sua estranha fascinação pela estória da Chapeuzinho Vermelho, algo que lhe acompanha desde criança, desde quando a mãe lhe contou pela primeira de muitas vezes na hora de dormir a estória da menininha do capuz vermelho, desde então, ele se transformou no menino do capuz vermelho, desde então, sua mãe sempre diz “cuidado com o lobo Chapeuzinho” e ele disse, desta vez, que prefere um lobo mal do que príncipe encantado.
II
Durante todo o caminho do bosque, e até depois dele teve a sensação estranha de estar sendo observado por algo ou alguém, mas não via nada, e isso o deixava com uma sensação desconforto e realmente é desconfortável ter a sensação de estar sendo observado, mas não conseguir ver ninguém, a não ser que a pessoa seja um ninja, ai é capaz de se esconder nas sombras.
Contudo, ao chegar à escola, a sensação desapareceu, talvez porque o corpo fora tomado por outra coisa, o medo. Tudo era novo, tudo era novo de novo. O lugar, as pessoas, até o enfrentaria, mas pior que o medo era os olhares que se depositaram sobre si, intimidadores, eram pessoas velhas com caras novas e desejo de sangue, mais uma vitima para seres cruéis – neste conto de fadas, nem de bruxas precisa.
Num canto do corredor havia um grupo de seis pessoas, três garotos e três garotas . Eles também observavam o menino de capuz vermelho e apenas cochichavam entre si. Era estranho um novato na escola e, dependendo do novato, é um grande problema para o grupo dos populares, principalmente para Âmbar, a “rainha”, pois não gostava de quem não conhecia adentrando os limites de seu reino. Mas ela já sabia como resolver aquilo, a maçã sempre foi a solução e ninguém estranharia o garoto caindo morto, afinal, em FaryTail tudo é possível.
Ela vestia, assim como as outras meninas, a tradicional roupa das líderes de torcida, a não ser pelo casaco de John, um dos meninos e seu namorado, obviamente, o capitão do time de futebol da escola.
Eles sabiam dos poderes dela, mas isso não quer dizer que necessariamente concordassem com todas suas decisões, então poderiam contestá-la, mas como, se ela tinha o príncipe encantado do reino nas mãos?
Com isso quero dizer que nem todos daquele grupo viam Chapeuzinho Vermelho como um problema, sim como uma possível solução. Alguém para destronar a rainha, mas como dito antes ela tem o reio e o príncipe do reino nas mãos.
Já era a hora de chapeuzinho cair antes mesmo de subir. Na mão de unhas longas e mui bem feitas com a palma diante de sua face ela apenas olhou friamente e franziu o cenho, em sua mão surgiu de uma nuvem de poeira vermelha uma bela, vistosa e brilhante maçã envenenada.
Chapeuzinho estava acuado, com medo daquilo, não gostava de ser notado. Tudo bem duas ou três pessoas notarem a sua presença, mas quase todos no corredor, ai já era de mais. Porém, tudo pode piorar, e piorou para valer. O grupo de seis, os mais populares – presumiu – vinha em sua direção “eu não quero confusão com os populares, não com eles”. Talvez ele não quisesse confusão, mas a rainha queria, mesmo que sua forma de andar e seu sorriso dócil enganem. Na verdade nem cofusão ela queria, ela quer mesmo é ver o Chapeuzinho Vermelho morder aquela maçã e se esturricar no chão como uma barata esmagada.
- Boas vindas ao aluno novo! – disse com a sua face mais dócil – Para provar que és bem-vindo, dou-lhe esta maçã. – e ela esticou a mão que segura a maçã.
Chapeuzinho, com toda sua inocência pegou a maçã e como ela era bonita, bem como gostava, durinha e vermelha, deveria ser muito apetitosa. Pobre Chapeuzinho, nem sabe que caminha para uma morte instantânea e estava com tanta fome, não havia tomado café naquela manhã e uma maçã cairia muito bem.
- Morda – falou a rainha – é uma das mais apetitosas de meu pomar.
- Muito obrigado – disse chapeuzinho.
- Não precisa agradecer. – ela sorriu cinicamente por dentro.
Ele levou a maçã à boca e quando iria dar a primeira mordida, alguém roubou sua maçã e era alguém de trás e Chapeuzinho virou-se, pois queria seu café da manhã de volta.
Então ele se deparou com aqueles olhos vermelhos, o cabelo branco como a neve, a boca carnuda, o corpo magro, longo, esguio e bem formado. Mas o que mais lhe impressionava eram aqueles olhos de pecado, olhos de luxúria.
Ele era simples no vestir, nada de muito complexo, apenas um casaco de couro negro bem surrado, uma camiseta vinho, jeans e tênis. Também ele não precisava de mais nada para se impuser diante dos outros.
- Melhor não comer esta maçã – colocou-se entre o menino e a rainha – parece ser podre como a dona. – o ser de olhos vermelhos jogou a maçã no chão e essa se partiu em duas, um lado branco e um lado, o lado de chapeuzinho comeria era negro de tanto veneno.
A rainha torceu a cara em fúria, entretanto bateu em retirada. Como ela odiava o chapeuzinho vermelho e aquele seu maldito lobo, sim ela já viu como será a história daqueles dois e não é como deveria ser, para seu azar.
III
Sim ele é lobo, mas um lobo diferente dos outros, pois esta estória é diferente das outras.
Depois de a rainha ter saído com o rabo entre as pernas literalmente, o lobo não quis nem saber, pegou chapeuzinho por um dos braços e o puxou ouvindo os mais variados protestos e xingamentos que um chapeuzinho vermelho pode dizer, mas não estava nem ai, sabia que logo mesmo o garoto encontraria a sala para onde ele o estava levando.
- Onde estamos – perguntou chapeuzinho olhando as inúmeras fileiras de livros grossos e antigos.
- É a sala dos contos de fadas chapeuzinho. – ele pegou um dos inúmeros livros e viu que não estava mais em branco, continha a estória do novo chapeuzinho vermelho. – Você já conhece onde vive, FaryTail?
- Não, mas admito que seja um nome engraçado para uma cidade.
- Então lá vai um resumo geral então. Esta é a cidade de FaryTail, onde os contos de fadas acontecem de verdade, aquela garota é filha da antiga Rainha Má e aquela era uma maçã envenenada, a mesma que ela usou na coitada da Branca de Neve.
- Você só pode estar brincando... – aquilo era impossível.
- Cala boca que ainda tem mais – interrompeu o lobo – Essa é a sala FaryTail, o lar dos livros de contos de fadas, aqui tem a estória de cada personagem – ele folheava a sua estória e do chapeuzinho vermelho e percebeu algo errado – tem algo errado nisso... não pode ser verdade...
- Claro que não, contos de fadas são estórias – falou como é óbvio.
- Se não existem, folhe este livro!
- Ta bom eu folho. – ele pegou o livro fechado pelo lobo e o abriu na primeira página, a ilustração deles dois caminhando lado a lado, de mãos dadas pelo bosque. Não podia ser real, então folhou cada vez mais e reviu toda a estória contada desde o momento em que se mudou para a casa do bosque, a casa do antigo Chapeuzinho Vermelho.
- É ou não é verdade? FaryTail é ou não o lugar onde os contos de fadas moram?
- É verdade – agora tudo fazia sentido, desde o bosque até maçã – espere um pouco, se eu sou o Chapeuzinho Vermelho, você só pode ser o lobo-mal... – ele se preparou para correr, mas não correu havia algo de errado na história. – Tem coisa errada nisso.
- E tem mesmo, o loirão ao lado da rainha, o bonitão lá, foi último príncipe encantado que nasceu no reino e pelo correto ele deveria ser o príncipe da sua estória para te salvar de mim e me matar, mas não é o que o livro diz.
- Você é o lobo-mal e meu príncipe encantado – seus olhos se encheram de lágrimas e seu coração acelerou.
- A rainha má nunca se mete nas estórias que não tem princesa, porque somente as princesas apresentam uma ameaça à ela, mas foi diferente, ela ia se livrar de você como se livrou da Branca de Neve, ou seja, se o nosso conto de fadas mudou, não se sabe mais qual será o final e muitos menos como os outros terminarão.
- E agora o que vai acontecer, se todos os contos mudaram?
- Terão de encontrar outro final feliz, assim como nós teremos que fazer, meu Chapeuzinho Vermelho.
E então o lobo-mal que agora é príncipe encantado beijou o Chapeuzinho Vermelho, mas esta estória ainda não terminou.
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