Ouço ruídos vindo do lado da minha cama, ligo o abajur e dou de cara com Alexander sentado em uma cadeira me observando. O susto me faz rolar para o outro lado da cama.


— O que está fazendo aqui?


— Como ela está? — Ele parece não ter me escutado ou me ignorou completamente.


— Quem?


— Sua mãe.

— Melhor do que nunca e com a mesma aparência de sempre. — Me sento na cama e o encaro.


Ele ri.


— Aquela bruxa. Então quer dizer que ela conseguiu o que queria?


— Do que está falando? — Ele se levanta e anda pelo quarto. Encolho as pernas e ele senta em minha frente.


— Só há duas formas de conseguir a imortalidade e a juventude eterna. A primeira é se tornar um vampiro, morrer com o sangue dele dentro de suas veias. E a segunda — Ele puxa uma mecha do meu cabelo, então volta a olhar em meus olhos. — É se alimentar da juventude de alguém ou até mesmo da vida de alguém. E como você é muito bonita ela deve ter se aproveitado disso, é bem o jeito dela.


— Isso é impossível. — Ele pega minha mão e a beija.


— Não se tratando de sua mãe.


Ele sai do quarto e tranca a porta novamente. Volto a me deitar, minha cabeça estava cheia de duvidas. Todos aqueles anos trancada alimentando um monstro. O mais intrigante era como Alexander conhecia minha mãe.


Gans me acordou para tomar café, me levantei com dificuldade por não ter dormido bem a noite. Assim que me vesti fui até a cozinha e me sentei a mesa. Preparei um pão com tudo que havia ali e um café bem quente e forte. Gans continuava parado ao lado da mesa, mas distante. Ele me encarava como se estivesse esperando que eu fosse pedir por algo. Aquilo me perturbava um pouco, não só a presença dele, mas o silêncio também.


— Alexander não vai tomar café?


Depois que dizer aquilo em voz alta percebi o quanto fui idiota. Alexander não se alimenta das mesmas coisas que pessoas normais se alimentam. Porque querendo ou não ele ainda é uma pessoa, um ser humano. Sem mencionar o fato de estar morto, mas continuar vivo. Bruxas, vampiros, trolls, tudo isso fazia minha cabeça dar voltas. Minha realidade era tão limitada que eu não poderia saber da existência desses seres. Nem Jasper nunca tinha mencionado tal coisa, talvez ele não soubesse também, ou talvez ele não queria me deixar mais curiosa e mais ansiosa para sair de lá.


Ele só queria me proteger.


Termino o café e me retiro da mesa. Passo por Gans que parte em direção a mesa para limpá-la. Me viro em direção a janela por onde passa uma brisa fresca, o cheiro das flores invade a casa, então me dirijo até a porta, mas antes que eu a abra, Gans me interrompe.


— Acho que não vai querer sair. Digo, se fosse não quer ser capturada pelos guardas da rainha, é claro.


Me afasto da porta. Gans estava certo, se eu saísse, eles me pegariam. Mas dessa vez eu não ficaria trancada lá. Dessa vez ela me mataria.

Os soldados voltaram para o castelo mais uma vez sem noticias de Branca de Neve. Cavalgaram por ruas, florestas. Perguntaram para camponeses, para todos que moravam cerca do reino, mas ninguém jamais tinha visto Branca de Neve, ninguém sabia que ela existia. A rainha já estava impaciente, era impossível que tantos soldados não conseguissem achar uma menina que mal conhecia o mundo, que não tinha onde se esconder. Em seu quarto a rainha se colocou em frente ao espelho, ascendeu um vela e encarou o próprio reflexo. Ela achou que ja tinha chegado a hora de usá-lo, mesmo que ele lhe mostrasse a sua real forma.


— Espelho, espelho meu diga onde está o que é meu.


Ao terminar a frase, o espelho se transforma em liquido, antes de tudo, revelando sua real forma. Sua alma, machada pela escuridão, despedaçada pelo ódio. Cheirava a dor, inveja. Sua alma estava podre, seus olhos dois buracos negros, a pior visão de todas. Era essa a consequência por sugar a juventude que não lhe pertencia. Sua aparência permanecia intacta, mas sua alma apodrecia a cada ano. Era essa a consequência do uso da magia negra, a qual não se podia controlar, a qual você perderia sua alma para o ser mais perverso. Impaciente ela ordenou que o espelho mostrasse onde estava Branca de Neve. E assim ele fez, refletindo uma mansão abandonada e lá dentro Branca de Neve em frente ao espelho. Tão linda quanto a rainha temia que ela fosse. Mesmo impendido que Branca de Neve se tornasse a mulher mais linda que os homens já viram, ela conseguia encontrar um jeito de mostrar a sua beleza. A rainha ergueu o queixo e esmagou a vela deixando a cera escorrer por seus dedos. Ela desceu as escadas correndo, ela sentiu que se alguém tentasse a impedir, ela mataria a praga com suas próprias mãos. Ela parou me meio ao salão, os soldados esperavam por ordens, se deveriam parar as buscas ou continuar.


— Atenção! — Ela gritou e todos olharam para ela, a maioria deles com medo. — Daqui a um mês partiremos e continuaremos com as buscas, mas por enquanto quero que continuem com a rotina de sempre!


Os soldados voltaram a fazer o que faziam antes. A rainha voltou ao seu quarto. Se aproximou de uma estatua de pedra. Ela puxou a alavanca e então deu um passo para trás e escada se forma dentro da lareira. Puxando uma lanterna para perto de si ela desceu a escada que levava para um túnel escuro e frio. No final do túnel uma pequena sala com estantes enormes com livros e vidro que continham restos de animais. Um corvo empalhado. Velas foram acesas, ela largou a lanterna em um canto qualquer. De um armário velho e cheio de teias de aranha, ela tirou uma caixa de vidro. Lá havia uma maçã de um vermelho tão vivo, que queimava os olhos. Então ela sorriu, um sorriso tão doentio.


— Branca de Neve, você ainda não conheceu a verdadeira dor. — Ela ergueu a maçã ainda sorrindo.