Fairy Tale
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Lucy Heartfilia acordou com o cheiro delicioso de pão recém-assado invadindo suas narinas. Piscou os olhos uma, duas, três vezes, até que finalmente ergueu o corpo dolorido. As costas se recostaram na cabeceira da cama, e ela encarou o espaço vazio no colhão. Um sentimento de amargura a invadiu, assim como o Déjà vu.
Livrou-se do lençol que cobria seu corpo, exibindo sua nudez para ninguém em especial. Os olhos buscaram vagarosamente a figura de seu amante pelo local.
– Natsu? – chamou o nome dele, mas não havia ninguém no quarto para responder. Entretanto, no criado-mudo ao lado da cama havia um bilhete. Lucy ergueu a mão para alcançá-lo, enquanto bocejava.
“Tome café e desça. Roupas perto da porta.”, estava escrito, com uma caligrafia terrível. Haviam pequenas manchas de tinta pelo papel amassado.
Sentimental até nos bilhetes, pensou ela, com ironia.
Colocou-se de pé aos poucos, ainda entorpecida. Os passos eram leves e lentos, quase numa marcha fúnebre na direção do escritório improvisado. Estava sendo guiada apenas pelo cheiro maravilhoso de comida, que naquele momento era como música para sua barriga.
Em cima da mesa havia uma porção de pães e uma pasta de cor salmão, que não tinha a melhor aparência do mundo, mas serviria. Tratou de engolir o café o mais rápido possível, pois já estava ansiosa. Ou, pelo menos, algo lhe dizia que deveria estar.
Ainda comendo a segunda fatia de pão, foi em direção a pilha de roupas dobradas no criado-mudo próximo da porta, decorado com galhos retorcidos, de onde saiam algumas flores discretas. Verdadeiras sobreviventes, já que Lucy tinha certeza de que Natsu não as regava nunca.
Encontrou um conjunto de roupas que formava uma armadura simples, feito por uma calça e uma blusa branca básica por baixo de acessórios de couro protetores. Também haviam botas, que Lucy quase dispensou. Não gostava de calçar sapatos – herança de seu povo –, mas faria uma exceção.
Assim que se aprontou, tratou de prender os cabelos numa trança simples, dando uma rápida conferida no espelho da cômoda. Ajeitou a franja de um lado para o outro, demorando-se no próprio reflexo.
“Você é idêntica à sua mãe.”, seu pai havia dito certa vez, mais ou menos na época em que atingiu a adolescência. Num dos poucos momentos que tiveram juntos. Foi uma das raras vezes que Lucy viu o Rei dos Elfos tão sensível. Quase podia ver as lágrimas se formando nos olhos úmidos do homem. Toda a armadura e as muralhas interiores dele desabando com a simples menção do nome dela.
Lucy não se lembrava muito da mãe. As poucas lembranças que tinha iam embora com o passar dos anos, e ela não sabia como lidar com isso. As vezes se perguntava se dentro de alguns anos, a figura materna se tornaria apenas uma sombra de seu passado.
Seus olhos se fecharam pesarosamente. Não era hora de chorar.
Deixou a casa na árvore com certa hesitação. Incrivelmente, desde que chegou à Liga, o único lugar que lhe pareceu agradável, foi aquela casa, e agora que a estava deixando, o medo era inevitável. Sabia que as pessoas ali, ao menos a maioria, a odiavam profundamente.
Suspirou cansada. Não era como se ela gostasse deles, de toda forma.
Chegou ao térreo rapidamente. A floresta ao redor da casa estava calma. Audível era apenas o som do farfalhar das folhas, e um ou outro canto de pássaros. Lucy já ia se perguntar o porquê de tanta calmaria – para si mesma, é claro –, quando um barulho alto se fez presente. O som de algo batendo com força contra o ar.
O som de asas.
Seus pelos se arrepiaram, e ela deu vários passos para trás, até encostar o corpo na porta da casa, sem saída. Estava prestes a girar a maçaneta quando a criatura apareceu em meio aos céus. Majestosa, imensa, e bela. As escamas vermelhas cintilando ao refletir os raios de sol.
O enorme dragão não tardou a pousar, estremecendo o chão e o corpo de Lucy. E mesmo que a loira soubesse que era Natsu ali, isso não a deixava nem um pouco menos assustada.
Engoliu em seco.
– Já pode se transformar de volta. – ela comentou, rindo nervosa. Não gostava de parecer medrosa na frente de ninguém, mas tinha de admitir que também não podia ignorar o medo.
O dragão, que antes estava com o pescoço erguido ao máximo, encarou-a de frente. Os olhos vermelho sangue brilhando com uma excitação visível. Parecia querer dizer alguma coisa. E disse, na língua kaniana/xadagana, que, na realidade, era a mesma.
– Dragões não costumam amar pessoas além de sua própria raça.
A voz parecia de uma cobra, num mundo alternativo onde cobras falassem. Foi o único pensamento de Lucy naquela hora. Estava tremendo, e sabia disso, mas não podia evitar. Tentou ao máximo prestar atenção em algo que não fosse os caninos gigantescos, mas falhou miseravelmente.
Incondicionalmente, levou sua mão às costas, e seu coração se apertou ao notar que o arco não estava mais ali para protegê-la. Mas não a entenda mal, caro amigo, não se tratava de desconfiar de Natsu.
Se tratava de desconfiar de um dragão que poderia queimá-la viva.
– Mas quando amamos alguém de verdade, como meu pai amou minha maldita mãe… – algo próximo de um suspiro, que soou mais como um grunhido, saiu da boca de Natsu, acompanhado de fumaça provinda de suas narinas. – Ai nossa tendência é fazer mais do que dizer “Eu te amo”.
Os olhos da Heartfilia piscaram com curiosidade.
– E o que isso quer dizer? – ela o questionou, franzindo as sobrancelhas.
Um longo olhar entre as duas raças foi trocado.
A floresta fez silêncio absoluto.
E Natsu curvou o corpo perante Lucy.
Oferecendo suas costas.
E, acima disso, oferecendo sua liberdade.
– Que você pode montar.
[…]
É difícil dizer quando e onde as coisas começaram a dar errado nessa história. Mas é fácil prever onde os problemas tiveram um ápice. E, perdoe-me mais uma vez. Sempre o interrompo nas melhores partes.
Dragões sempre tiveram uma sensibilidade natural para com essas previsões. Portanto, quando Hibiki Lates chegou ao território da Liga, acompanhado de um certo corvo espião, eu senti cada pelo de meu corpo se arrepiar.
Senti os instintos aflorarem, avisando-me que algo estava por vir. Algo muito ruim e grande. Mas ignorei plenamente, como herança da cultura ancestral humana, que para viver em sociedade, ignorava os sinais que o próprio corpo emitia.
Estava analisando o quinto ou sexto pergaminho de anotações a respeito das expedições no interior, quando bateram à porta três vezes com força. Outro arrepio.
– Já disse que não vou receber ninguém hoje. – disse bem alto, carimbando o pergaminho com puro tédio. Como Chefe da Tribo, podia me dar ao luxo de não lê-lo inteiro. Makarov podia resumir depois, já que era pago para isso.
– Mas, Chefe, o forasteiro diz ser muito importante. – o kaniano-guarda abriu uma fresta da porta, fazendo uma careta que indicava que estava detestando seu trabalho naquele momento.
Ergui uma sobrancelha.
– E com que direito trouxeram um forasteiro para dentro de nosso território, sem me consultar antes?! – minha voz soou mais como uma trovoada.
O guarda estremeceu. Tive certeza de que preferiria ser um agricultor, há quilômetros de mim naquele momento.
– A-A Xamã, senhor. – ele curvou a cabeça com respeito. – Ela liberou a entrada do homem pessoalmente.
– O que aquela velha estava pensando?! – bufei frustrado, levantando-me. As mãos apoiadas na borda da mesa. – Pode trazê-la aqui?!
– Na verdade, senhor, ela já está aqui. Ela e os membros do Conselho.
– Mas que porra –
– Shh! – a dragonesa de cabelos cor de rosa invadiu a sala, chutando a porta que colidiu com a parede num baque alto. – Falando asneiras essa hora da manhã, Igneel?
Minha boca foi ao chão.
– Pode me dizer com que autoridade reuniu o Conselho sem o meu comando? E com que autoridade colocou um maldito forasteiro para dentro da Liga sem me consultar?!
A velha sentou-se ao meu lado na mesa redonda. Onde certamente não era o seu lugar. Dessa forma, quando os outros membros do Conselho juntaram-se a nós, Jura ficou sem lugar.
O que não era a pior parte da situação nem de longe.
– Com a mesma autoridade de alguém que te retirou da barriga da sua mãe, Igneel. E veja se me olha de frente. Empine menos esse nariz protuberante!
Fiquei vermelho de raiva. Quem aquela mulher pensava que era?
– Ora, sua velha caquética! Não sei se já te contaram, mas eu mando em tudo isso aqui, então veja se escolhe melhor as –
Minha atenção foi tomada por um jovem de cabelos ruivos que adentrou a sala, com as roupas em farrapos. Parecia ter corrido por dias sem parar, e caso me contassem, eu não duvidaria nada.
– Tá, tá. – ela rolou os olhos. – Pulemos a introdução. Estamos aqui por um motivo, caros companheiros. Porque notícias importantes acabam de chegar. Eu as senti, e minha neta chegou a ver.
Mas Hibiki Lates é quem tem as respostas.
[…]
Não vai ser fácil descrever os sentimentos de Lucy Heartfilia naquele momento. Mas, se pudesse citar alguns, honestamente “pavor” e “medo” seriam os que mais se encaixariam.
A expressão facial era algo mais fácil. A boca estava escancarada, e os olhos tão arregalados que você se perguntaria como não haviam saltado para fora do corpo.
Ela pensou em protestar, fazer perguntas, e milhões de outras coisas que estragariam completamente o momento. Mas não efetuou nenhuma delas. Apenas respirou fundo, tentando recobrar a consciência, e apoiou as mãos na curvatura entre o pescoço e as costas da criatura.
As escamas lhe causavam formigamento, e Lucy chegou a cogitar a ideia de sair correndo. Tudo aquilo parecia tão importante. No entanto, desde criança havia sido criada para isso. Lidar com grande escolhas, grandes sacrifícios, e, acima de tudo, grandes pressões.
Pensando nisso, ela apenas fez o que tinha de fazer. Deu impulso com uma das pernas, enquanto a outra atravessava o corpo do dragão, pondo-a sentada.
– Você pode me dar alguns segundos? – perguntou, puxando e soltando o ar. Quem olhasse de longe, e até de perto, diria que ela estava tendo uma crise respiratória.
O dragão fez um som próximo de um riso debochado. Ou ao menos foi assim que Lucy interpretou. Porém, antes que pudesse ter certeza, Natsu se moveu.
Seu corpo ergueu-se de novo, e Lucy teve de se agarrar com força para não cair para trás. E, se isso acontecia em terra, ela se perguntou horrorizada como seria no ar.
Antes que pudesse desistir, aconteceu.
Ele abriu as asas ao máximo, e com a descida brutal delas em direção ao chão, uma lufada de ar fez com que a poeira subisse junto a eles.
E estavam no céu.
Lucy agarrava-se com tanto desespero, que seus olhos estavam fechados e ela nem havia notado. Não era para menos. Natsu voava com velocidade, sem dar a mínima para o fato de que era o primeiro voo da namoradinha.
Mais uma vez, não o culpe por isso. Era apenas um teste.
Quando Lucy finalmente abriu os olhos, sentindo o frio congelante na barriga causado pela adrenalina, sua mente não conseguia processar nada. Sabia que estava voando, e bem rápido.
Os pés pareciam doer de tanto nervoso. Pendurados numa queda de sabe-se lá quantos metros, os coitados quiseram de verdade tocar o chão de novo. Mas, contrariando-os, Lucy desejava exatamente o contrário.
A experiência era intensa do inicio ao fim. A injeção de adrenalina, o ar puro, o nervosismo. Ela riu, mas não porque a situação era engraçada. Riu porque estava infinitamente nervosa, e infinitamente feliz com isso.
Não havia rotina. Padrões, regras, liberdade condicionada. Nada. Eram só ela e Natsu. Tão livres quanto o vento, e tão poderosos quanto.
Por um momento – que durou bastante –, ela sentiu como se fossem capazes de vencer qualquer um. Uma nação inteira se fosse necessário. E a sensação era tão incrível, que ela segurou-se com menos força e ergueu o quadril, descolando seu corpo do dragão.
A trança já havia se desfeito com as rajadas de vento, e os cabelos loiros criavam uma tempestade atrás de si. Não que ela ligasse, de toda forma. Só lhe causava mais daquela sensação de selvageria.
Ainda não era suficiente. Seus lábios se curvaram, e ela imaginou como poderia tornar tudo ainda melhor. Como ser ainda mais livre e solta.
Contrariando todos os seus instintos, medos, e principalmente o pobre do juízo, a elfa soltou o dragão, e tombou o corpo para a direita.
Mais parecia uma boneca de pano no ar. Leve feito uma pena, ainda que caindo numa velocidade incrível.
Um grito de pura adrenalina escapou da boca de Lucy, ao mesmo tempo em que seus braços se abriam, cortando o ar. Ela brincou de abrir e fechar os membros, e chegou a dar um giro em pleno vácuo, por pura curiosidade.
Acima dela, um certo dragão arregalava os olhos vermelhos, finalmente sentindo falta do peso em suas costas.
Natsu buscou a elfa com os olhos, e quando a encontrou, ele mergulhou em pleno ar, sobrevoando abaixo dela por precaução. Assistindo a loira fazer acrobacias infantis por pura diversão. Quase riu quando Lucy trombou com um pássaro – que talvez não tenha sido tão sortudo quanto ela –.
Ela havia passado no teste. Compreendido o paradoxo que era o voo de um dragão. A simplicidade do movimento, em conjunto com a complexidade da liberdade.
Deixou o corpo mole até atingir de novo seu lugar nas costas do Dragneel, que parecia bem preparado para seu retorno. Ele a sustentou com facilidade, e curvou mais o corpo, aumentando a velocidade.
Os dois cortaram as nuvens como um raio.
Lucy observou o contorno dos campos e vilarejos menores. Quase podia ver os trabalhadores arando a terra, e as crianças correndo pela grama. Natsu a guiou através da área até outra das tribos, essa com a arquitetura bem mais planejada.
Haviam mais casas de mármore, e menos campos. Um aglomerado de tendas se juntava no centro da tribo, e ela imaginou que fosse o mercado, onde os aldeões trocavam produtos e assuntos.
– Essa é a tribo Lamia Scale. – Natsu murmurou, com a voz de réptil rouca, que Lucy jamais se acostumaria a ouvir. – É famosa por ser o ponto de troca de especiarias, e outras coisas mais. Importamos daqui, mais pelo preço do que pela qualidade.
A elfa assentiu, prestando atenção.
– Só tem kanianos por aqui. Aquelas estruturas enormes são as Igrejas da Luz. É lá que eles realizam seus cultos aos deuses e etc. São muito religiosos nessa área.
As igrejas ficavam ao redor de uma praça redonda, bem lotada por sinal. Haviam tendas mais bem espalhadas, e um aglomerado de pessoas, que, incrivelmente, ergueu a cabeça para olhá-los como se fosse a visão mais anormal do mundo.
Lucy se encolheu.
– Eles não costumam ver dragões? – questionou, sentindo-se envergonhada pela atenção.
Natsu teria dado de ombros.
– Não com um cavaleiro.
A palavra teve seu peso imediato. Lucy arriou os ombros, fitando a paisagem com desinteresse. Então agora, além de princesa, mãe de uma união de raças, ela ainda havia conquistado o título de Cavaleiro de Dragão.
– Minha mãe montava em meu pai, assim como Levy monta em Gajeel. – ele comentou, num tom um pouco menos rouco. Continha bastante emoção na voz. – Mas ninguém nunca viu o príncipe da Liga acompanhado. Sempre fiz jus ao que havia prometido.
Que jamais me curvaria perante ninguém.
[…]
Todos os habitantes de Fairy Tail haviam se reunido no centro, próximos da Sede da Liga. Os boatos haviam corrido feito pragas por becos, e agora o espanto era geral.
Não podia culpar ninguém por estar curioso. Afinal, eu mesmo estava tremendo a perna como se não houvesse amanhã. Os ombros tensos como nunca.
Porlyusica estava ao meu lado, de olhos fechados meditando sobre qualquer coisa que não era do meu interesse. Ainda assim, a paz dela me irritou, e por isso resolvi interromper:
– Se divertindo? – perguntei, cruzando os braços rente ao peito. – Deve adorar que suas previsões acertaram.“Uma Nova Era se aproxima, Igneel. E seu filho terá um grande papel a desempenhar nela.”. Aquela baboseira finalmente convenceu alguém, não é mesmo?
A velha abriu apenas um olho.
– Se tem alguém aqui convencido de alguma coisa, esse alguém é você, Igneel. Nunca disse que minhas previsões se concretizariam. Até mesmo porque, elas não são feitas por mim. Meu papel é –
– “Traduzir o que os espíritos ancestrais querem nos dizer.” – rolei os olhos, imitando a voz irritante dela. – Me conte uma novidade.
– Oh, isso eu posso fazer. – ela sorriu debochada. – Seu filho foi visto pela primeira vez com um cavaleiro, Chefe. Não imagino como deve estar se sentindo.
Na verdade, nem eu imaginava.
[…]
Retornavam à tribo com menos velocidade, e planando mais baixo, próximos o bastante do chão para verem o comércio vazio, e os campos sem ninguém por perto. Natsu foi o primeiro a reparar a mudança. No entanto, já imaginava bem o motivo.
Já Lucy, mais uma vez se sentia completamente fora de contexto. Aquilo era algum tipo de toque de recolher diurno? Ela não saberia dizer. Também não se importava tanto. Só no que conseguia pensar era em como queria fazer aquele tipo de passeio mais vezes.
Abriu os braços em pleno ar, observando cada detalhe desde os campos até a Montanha, a Maior de Todas, e mais sagrada. O silêncio era quebrado apenas pelo som das asas do dragão, que batiam num ritmo frenético.
– Vamos pousar. – ele avisou depois de um tempo, estabilizando as asas, e curvando o pescoço para baixo. – Então é melhor se segurar bem.
Lucy entortou a boca de desgosto, já que honestamente não estava nem um pouco animada para descer. Ainda assim, ela assentiu, agarrando-se às escamas do dragão com firmeza. Dentro de milésimos, haviam mergulhado.
Natsu havia mirado bem sua aterrizagem no gramado da Sede da Liga, onde à sua frente, uma multidão se encontrava aglomerada na praça, todos olhando para cima atônitos. Entretanto, o show não foi dos melhores. Ele esticou bem as pernas para tocar o solo, e assim que o fez, o impacto de seu peso foi maior do que o esperado.
Em circunstâncias normais, eu teria mijado de rir ao assistir meu próprio filho se estrebuchando num emaranhado de mato e terra, ficando completamente imundo. Mas, levando em conta que eu estava perplexo demais para assimilar os acontecimentos, acabei perdendo a oportunidade de me divertir.
A elfa voou feito um saco de farinha. Na verdade, ela se quer tentou se agarrar à Natsu durante a aterrissagem, provavelmente por ter deduzido que seria um fracasso completo. O que foi muito bom para a saúde dela, já que certamente teria sido esmagada pelos espinhos dorsais de meu filho.
– Isso é que é “chegar com estilo”! – murmurou atrás de mim Gajeel Redfox. Teria complementado a piada, mas Gray se adiantou.
– Típico do Natsu. Não sabe aterrissar sem causar um certo tremor.
– Principalmente nas mulheres – acrescentou Gajeel, maneando a cabeça para a kaniana ao seu lado, Levy McGarden, que segurava seu braço com certa apreensão. Assim que notou a indireta, ela fechou a cara, soltando-se do namorado.
– Ora, seu idiota! Eu não estou com medo! Apenas receosa.
– Com relação …? – Gray ergueu as sobrancelhas.
– Lucy. Achei que ela iria se machucar.
Juvia Locker surgiu pedindo licença em meio aos habitantes, pondo-se entre Gray e Gajeel. Ela recostou-se no namorado, e massageou as têmporas.
Olhei por cima do ombro em sua direção.
– O interrogou? – questionei, num tom frio.
Juvia aquiesceu.
– É tudo verdade.
A kaniana sempre fora muito boa na arte de leitura corporal. Sabia dizer bem quem estava ou não mentindo, e aquela habilidade tinha muita utilidade nesses momentos de tensão.
Sorri fraco.
– Obrigado, Juvia.
– Não há de que. E então, o que Juvia perdeu?
– Natsu estragou o jardim que Jet e Droy vem cuidando há tempos. – Gajeel contou com certa diversão, o que não passou despercebido por Levy. Ela o fuzilou com o olhar. – Só estou comentando, porcaria. Não posso mais falar a verdade? De qualquer forma, a elfa saltou igual um carneiro de cima dele, e deixou ele se fodendo sozinho.
– Quase parece que ela não possui peso algum, – comentou Gray, com certo encantamento no tom de voz distraído. Ele ainda observava a loira retirando a poeira das roupas, e ignorava completamente a cara que a namorada lhe fazia. – porque caiu feito uma pluma. E incrivelmente não teve impacto algum no tornozelo.
– Estava olhando as pernas da elfa? – Juvia cruzou os braços rente ao peito.
Gajeel e Levy se entreolharam, sorrindo divertidos.
– Vai ficar bom. – ele sussurrou. Ela concordou com a cabeça.
– O que?! – Gray olhou-a incrédulo. – Céus, não! Só olhei porque, bem, porque eles caíram bem aqui na frente! O que você queria que eu fizesse?!
– Está nervoso – ela afirmou, estudando-o. Devia ser terrível ter uma namorada especialista em mentiras. – Suas pernas estão tremendo, e o tom de voz está alterado. Estava desejando o corpo dela, não estava?
Gajeel e Levy contiveram o riso. Levy exibiu dois dedos para Gajeel, fazendo sua aposta.
– Sem chance – o dragão bufou. – Juvia não vai ceder dessa vez. Aposto dez bronzes.
– Aposto vinte que Gray vai se safar.
Os dois apertaram as mãos.
– Juvia, você ficou louca? – Gray riu seco, erguendo os braços em rendição. – Não é hora para ter uma crise de ciúmes!
– Quando você deseja o corpo de outra mulher, não é hora de crise? – ela trocou o peso de uma perna para a outra, ainda sem descruzar os braços.
– Quantas vezes vou ter que repetir que só estava olhando a droga da aterrissagem?!
– Repetir uma mentira não a torna mais crível.
Gray respirou fundo.
– Certo, eu até olhei a perna dela, mas juro que não hoje, porque ela está de calças.
Podia até não haver mentira alguma naquela frase, mas isso não aliviou nem um pouco a situação tensa. Na verdade, só piorou.
– É bom que você dê um bom motivo para Juvia não surtar agora.
– Vocês dois, já chega. – interrompi a discussão, assumindo meu papel de Chefe, e os sorrisos de Levy e Gajeel sumiram pouco a pouco. – Juvia, é melhor que deixe essa discussão para mais tarde, de preferência não quando eu estiver presente para perder a paciência. Agora calem a boca, porque temos prioridades.
Natsu e Lucy trocaram algumas palavras. Ela parecia aflita, e realmente estava, por isso se manteve bem próxima do dragão, já na forma humana. Amarrado nos antebraços de Natsu estavam os dois chifres, um branco e um preto, dos Dragões Gêmeos, seu troféu pessoal, que desde a conquista não largava em momento algum.
Meu filho olhou em minha direção, e avancei três passos, pondo-me na frente da multidão. Meus braços se cruzaram, e fiz a melhor cara de mau possível.
– “Eu jamais vou me curvar perante ninguém.” – repeti, erguendo uma sobrancelha. – Não soa familiar?
Ele se aproximou, deixando Lucy mais para trás. Por algum motivo, ela não o seguiu. Talvez por respeitar o momento.
Natsu tocou meu ombro, e meu estômago se revirou de um sentimento intenso. Aquilo era novo quando se tratava dele, esse tipo de contato físico. Nem mesmo com os amigos era algo comum.
– Pai, nós precisamos conversar. Eu tenho algo para contar, e não sei nem por onde –
– É, nós temos que conversar, Natsu. – grunhi, mandando a calma para o raio que a partisse. – E acho que você sabe muito bem sobre o que.
No entanto, Natsu não sabia. E eu só cheguei a descobrir isso quando já era tarde.
Ele suspirou.
– Certo. Nós dois na Sede nesse momento, pode ser?
– Não. Nós dois e o Conselho de Fairy Tail na Sede, Natsu.
Seus olhos se arregalaram.
– Nem se quer contei o que –
– Não é necessário. Ele já contou.
Natsu engoliu em seco.
– Ele quem?
– Hibiki Lates.
Trocamos um longo olhar. Natsu parecia surpreso, e dessa vez de verdade. Como se suas desculpas houvessem finalmente acabado, e estivesse pela primeira vez sem reação alguma.
Finalmente compreendeu que haviam novidades para serem reveladas, e por isso sua cara se fechou.
– Eu não vou gostar do que vou ouvir, não é?
– Não.
– É realmente necessário ir?
– É.
Um silêncio ensurdecedor se prosseguiu, e os murmúrios dos habitantes não recomeçaram para nos interromper. Por fim, Natsu se pronunciou.
– Então vamos acabar logo com isso.
[…]
Lucy Heartfilia se sentiu à vontade ao ver Virgo, e o sentimento só se intensificou ao receber um abraço de urso da mesma, daqueles que a fazia repensar seu conceito de família.
– Não a vejo faz tempo. – Virgo comentou, sorrindo doce, do jeito que sempre aquecia a alma de Lucy. – Como tem sido esses dias?
– A Liga é um bom lugar, – disse Lucy, sem muito entusiasmo. – apesar de não me receberem com o maior dos sorrisos. Mas Natsu está tornando esses dias muito bons.
– Talvez os melhores em anos. – a xadagana acrescentou. Lucy aquiesceu. – Eu fico feliz em te ver assim, princesa.
As duas finalmente estavam a sós. A multidão já havia se dispersado, mas Lucy permaneceu no mesmo lugar, fitando a porta de madeira gigantesca da Sede da Liga, e imaginando quando Natsu sairia de lá.
– Porém nós duas sabemos que precisamos conversar.
A elfa desviou o olhar. Não gostava daquele tom de voz de Virgo. A xadagana sempre o usava quando estava prestes a dizer algo duro, mas realista. E Lucy já começava a suspeitar que essas duas coisas andassem de mãos dadas na maior parte do tempo.
– Você vai ter que escolher entre Natsu e o Império, e sabe disso, não sabe? O dragão não vai aceitar morar conosco lá. Aqui é o lar dele.
– Assim como o Império é o meu. – Lucy decretou, erguendo o queixo. Havia orgulho escorrendo por suas veias, e talvez não de uma forma negativa. Era apenas parte da natureza dela. Ter orgulho do que era. – Não vou deixá-lo destruir minha cultura, Virgo. Não deve se preocupar.
– Não é disso que estou falando. Princesa, você sempre soube que esse romance te levaria a uma bifurcação difícil, e aqui está ela. Eu sei que a ideia de ter uma família deve estar sendo maravilhosa nesse momento, mas há famílias no Império sofrendo nas mãos da sua madrasta. Não disse antes, mas suspeito que o Rei esteja tendo problemas com Lady Aquarius dos quais ele se quer suspeita.
– Bruxa Aquarius. – corrigiu Lucy, fazendo a criada rir.
– Seja como for, você deve retornar, e deve fazer isso logo. Há famílias já feitas que precisam de um novo governante. De uma Nova Era. Seu pai está perdendo o controle, e cabe a você decidir, nesse momento, o que será do Império daqui em diante. Bruxa Aquarius deve estar apressando um casamento, tenho quase certeza.
– Achei que a prioridade dela fosse me matar.
– A prioridade dela é acabar com os possíveis rivais. Você, deserdada, e vivendo na Liga, certamente não é uma.
Mas o seu filho é.
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