Fico completamente dormente com as palavras de Igneel e tento me agarrar mais fortemente, temendo que a resistência contrária do ar me faça cair.

Minha magia está por um fio, como se eu fosse desmaiar a qualquer momento.

– Não desfaleça, menina Lucy. – Igneel fala altivamente e eu me forço a deixar os olhos abertos. – Precisas aguentar até o fim.

– Não podemos matar uma pessoa! – Grito por causa do barulho, o que me faz acordar um pouco. À medida que chegamos mais perto, minha aflição aumenta. – Tem de haver outra maneira!

– Não é só você que tem um Destino a cumprir… São múltiplos sacrifícios por um bem maior. Faça o que tem que fazer.

Não consegui respondê-lo, fechando os olhos quando quase colidimos com o solo. Dando um giro ao redor dos destroços do prédio, o objetivo de Igneel era atrair Acnologia, para em seguida capturar Mavis… Porém, isso não saiu como planejado. Zeref lança sua magia sobre nós, fazendo com que Igneel se defenda com um grande escudo de fogo. Não tenho medo das labaredas alaranjadas, que são aconchegantes como as de Natsu. Entretanto, logo que as magias ao se colidirem se dissipam, Acnologia surge em nossa frente. Seu ataque físico faz com que caiamos para o lado e eu grite pelo susto. Igneel cuidou para que sua queda não me machucasse, só que o mesmo não aconteceu com ele.

– IGNEEL, LUCY! – Ouço Natsu nos chamar e avisto sua localização. Ele parece estar imobilizado em frente a Zeref e Mavis, e mesmo que use todas suas forças para sair, não consegue se mexer.

Como isso…

– Não temos mais tempo. – Anuncia Igneel.

O som de milhares de estilhaços de vidro é ouvido abruptamente. Exibindo um sorriso doentio, Zeref acolhe nos braços o corpo de Mavis, que agora brilha de modo cálido. Percebo que não apenas Natsu, mas todos ao redor estão sendo controlados por uma magia paralisante.

– Zeref não quer interrupções humanas. – Explica Igneel ao se erguer, lendo meus pensamentos. – Todavia, os Dragões serão necessários para terminar o que ele começou. Por isso devemos levar Acnologia à Chronos.

– E por que não estou sobre efeito desta magia?

– Paralisar você agora seria como paralisar Chronos. E nem mesmo ele tem esse poder. – Diz-me com palavras não ditas. – Você entende o que quero dizer.

Assenti com a cabeça.

– Temos que fazer algo, por que Mavis não está desperta?

– Por que ela ainda luta. O procedimento só estará completo com sua alma de volta ao corpo, para em seguida ser morta por ele. Apenas desse modo Zeref conseguirá a Magia Plena.

– Então temos que destruí-la, antes que ele consiga… – Balbucio, ao racionar direito.

– Exatamente.

– Mas então, se o fizermos, para onde irá esse grande poder?

– Voltará para sua origem, de onde nunca deveria ter sido coletado e habitado num único corpo.

Sinto um frio na barriga quando Zeref se ergue do chão com Mavis nos braços. As sombras ao seu redor vão ficando cada vez mais espessas à medida que ele anda… Até Natsu.

– A partir de hoje, sua existência não é mais necessária.

– Eu não conheço você. – Responde Natsu, ofegante. Tentar sair dali é inútil e só faz sua magia se esvair, porém ele não deixa de tentar. – O que quer de nós?!

Ao sorrir de canto e acariciar o rosto de Mavis, não são necessárias palavras para responder tal pergunta. Natsu arregala os olhos e mais ferozmente, tenta se mexer.

– Miserável! Solte-a!

– Isso não é bom… – Igneel parece nervoso. – Menina Lucy, mesmo que meu filho faça parte de tudo isso, ele não tem que morrer aqui. Não hoje, não desse jeito. Zeref não pode vencer. E você é a única agora sobre a qual ele não tem poder nenhum.

Respiro fundo e me posiciono mais adequadamente.

– Se já estamos perto do fim, devemos arriscar tudo. Como disse, devo fazer o que tenho que fazer.

Sinto a confiança e a determinação do Dragão pairar ao redor de mim, me dando um tipo de força psicológica. Aquieto meu coração, e agimos logo que Zeref pronuncia suas palavras finais.

– Conheça a verdadeira morte, Natsu.

Utilizando suas últimas forças restantes, Igneel rapidamente se põe entre eles, fazendo com que eu também tenha que agir de modo igualmente rápido. No exato instante em que suas asas ficam em paralela na lateral, estico os braços para pegar Mavis de seus braços. Aperto os olhos quando ele se fecha em sua magia obscura, mas consigo facilmente atravessar sem danos e tomá-la em meus braços. De alguma forma, todos são liberados da magia imobilizadora logo depois disso. Começamos a subir novamente, tomando uma distância considerável para que o ataque seguinte não nos atinja. Acnologia toma a frente do ataque por vir atrás de nós, e é atingido em cheio. Zeref parece derrotado ao cair de joelhos no chão quando Natsu se ergue. E incrivelmente começa a chorar.

Acabou.

Estou caminhando para o fim. Olho para o corpo aparentemente frágil de Mavis e sorrio. Ela também sabia. E essa não será sua verdadeira morte.

Assim como não será a minha.

– Seu corpo está mortal e fragilizado agora. – Diz Igneel, referindo-se a Mavis. – Então antes de ir, farei meu papel e não deixarei um de seus últimos atos ser o de tirar uma vida.

Arregalo os olhos e ouço o rugido potente de Acnologia que ainda continua vindo atrás de nós.

– Mas, Igneel, não…

– Não posso ficar aqui, menina Lucy. – fala com doçura. – Lembre-se: Não é o fim.

Ficamos em silêncio enquanto nos aproximávamos mais de Chronos. Subindo, subindo… cada vez mais. Estou incrivelmente calma, mesmo sabendo o que me acontecerá. Provavelmente, mamãe também sentiu essa mesma paz. De ter o sentimento de dever cumprido e ter salvado seus amigos. Por que nada mais importa.

O raio de Chronos está visivelmente menor, mas ainda assim é grande o suficiente para atravessar dois Dragões. Igneel balança a cabeça para mim e eu assinto.

Com Acnologia a poucos metros de nós, deixo cair o corpo de Mavis em sua direção, delicadamente. Com habilidade, Igneel se vira para ele, de costas para Chronos acima de nós… e dá seu mais potente rugido. Como contra-ataque, Aconologia faz o mesmo, fazendo com que Mavis seja atingida por ambos os lados. Depois do impacto, não foi possível ver a desintegração de seu corpo, já que fomos obrigados a fechar os olhos tamanha à força luminosa que explodiu num raio horizontal, como uma grande onda que se perde de vista, englobando todo espaço terreno.

Ainda ofuscados pelo brilho, ouço Igneel dizer:

– Obrigada por ter amado Natsu.

E então ele sorri, de verdade, um sorriso parecido com o dele… Não faz muito sentido, já que são de espécies diferentes… Mas o coração é o mesmo.

Sorrio de volta.

Quando Acnologia se aproxima, Igneel o agarra firmemente, e eu me solto de seu corpo… Caindo, enquanto ele segue o curto caminho até atravessar Chronos. O Dragão Negro tem seu último rugido ouvido, até que os dois desaparecem de vez no buraco negro.

– LUCY! – De alguma forma ouço Natsu gritar por mim, o que é praticamente impossível, já que estou tão alto. Fecho os olhos.

Não precisa vir me buscar, Natsu. Sempre estarei com você.

Toda vez que me diziam que quando sua vida está prestes a acabar, um filme de tudo o que viveu passa diante de seus olhos… Eu sempre achei tão doloroso. Mas agora que me recordo de todos os momentos felizes que vivi, sei que é exatamente ao contrário. Uma maneira de ter paz no fim e conseguir partir feliz.

Abro os olhos novamente, olhando para Chronos que se distância de mim à medida que eu caio cada vez mais rápido. Fechá-lo tomará minha vida. Assim como aconteceu com mamãe. Uma magia tão poderosa que, depois de aberta, o único jeito de fechá-lo, é com a morte do Mago regente, que tem toda sua magia esgotada.

Como aquela que te ordena abrir, agora ordeno que feche-se... Filho do universo, deus do tempo: Chronos!

O badalar ensurdecedor treme mais uma vez, a última que ouvirei. Ruídos e estrondos ecoam no céu, à medida que ele se fecha… e eu sinto a vida sair de meu corpo.

A sensação de parecer voar é maravilhosa. Me sinto vazia, mas não em um sentido ruim. E sim uma calma tremenda… que me despedaça em milhões de pontos luminosos… Flutuando no ar. Com a proximidade do solo, a resistência é menor e a velocidade aumenta… Minha visão está embaçada. Não respiro mais. Apenas sinto…

Natsu vem à toda a velocidade até mim, Happy o carregando como sempre. Sorrio, mas sei que meu corpo não expressa absolutamente nada.

Ele está chorando. Chama meu nome repetidas vezes, porém não tenho como respondê-lo. Num ato desesperado, estica os braços para cima, esperando que quando me alcance, possa tocar-me imediatamente.

Mas… não foi possível. Quando Chronos se totalmente, um forte jato de ar é jogado de sua direção ao solo, fazendo com que Natsu e Happy caim de vez e um enorme buraco se forme no chão.

Sinto minha consciência se esvair.

Ferido ao chão, Natsu tenta trazer para si os pequenos pontinhos brilhantes em que me tornei. E a última coisa faço antes de perder totalmente os sentidos é olhar em seu rosto desolado e fazer com que minhas palavras finais cheguem até ele:

– Adeus, Natsu. A melhor coisa que podia me ter acontecido, foi conhecer você.



“Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida”



Desperto num espasmo assustado, soltando um ruído brusco como respirando pela primeira vez depois de um quase afagamento. Estou anestesiada, com a mente vazia. Meus olhos estão tão pesados, que custo a conseguir abri-los. Tento mexer os dedos, mas meus ossos doem tanto, que impede que eu o faça com rapidez.

Com muito esforço, consigo finalmente enxergar. Meus outros sentidos vão entrando em sincronia, à medida que fico mais desperta. Sinto uma temperatura gélida ao meu odor, em conjunto com um cheiro estranho que me deixa levemente enojada. Ouço um ruído baixo e constante, como um fraco motor, praticamente engolindo pelo som de um bip ritmado e agudo que soa bem ao meu lado.

Giro a cabeça na direção e minha visão foca em um objeto estranho, uma tela onde linhas verdes oscilam de modo ordenado e sincronizado com o som que sai dali. Vários fios saem da máquina, e ao percorrer o caminho com o olhar, percebo que elas chegam até mim, especificamente em meus braços e peito. Analisando o ambiente ao redor, percebo que estou numa espécie de quarto clínico, com cores pastéis e cheiro de limpeza. Até que olho para frente, e dentre muitos objetos coloridos, avisto um vulto azul com grandes olhos pidões.

– Ha... ppy? – Consigo dizer, com a voz fraca.

Minha cabeça é atingida por milhões de imagens em grande velocidade, fazendo-me sentir uma pontada forte de dor. E o que até então estava esquecido, foi lembrado.

Mesmo dolorida, sento-me de modo rápido. Depois de notar que o que parecia ser o Happy é apenas mais um bicho de pelúcia dentre muitos outro ali, suspiro e ponho as mãos na cabeça.

Minha garganta fica seca. Algo está muito errado. Onde estou? Onde estão todos?

– Natsu? – pergunto para o nada, sentindo uma imensa vontade de chorar.

Ponho as pernas para fora da cama e ao sentir o piso frio sob meus pés, desabo no chão. Não tenho força alguma nos membros inferiores, estão completamente dormentes. Agarro-me ao pé da cama, com a respiração acelerada e a mente confusa.

Que lugar é esse?

Desesperada por respostas e sair dali, retiro de vez os fios em meu corpo, fazendo com que a estranha máquina assuma um som mais alto num constante bip agudo. Aperto os olhos sensibilizada pelo som e me arrasto pelo chão até chegar a um balcão ao lado. Apoio meus braços no piso, respirando fundo. Minhas pernas estão tremem terrivelmente pelo esforço que faço para tentar me erguer. Por que não consigo andar? Por quanto tempo eu dormi?

Fairy Tail... está a salvo?

Ao pensar na Guilda, procuro a marca em minha mão direita... E vejo que ela não está lá.

– O... quê?

Com um pânico crescente, meu coração bate descompassado e sinto-me prestes a gritar.

Não, não, não! Fairy Tail não existe mais?

Antes que eu possa pensar em algo coerente para responder minha pergunta, a única porta do ambiente se abre num estrondo. Duas pessoas entram por ela... Porém minha visão só consegue captar uma fisionomia.

– Natsu? – Indago, mas assim que a faço, penso que me enganei. Parte de sua fisionomia é a mesma... Mas ele parece estar mais velho, seu cabelo mais curto... E o mais intrigante: Numa cor ruiva beirando ao castanho.

– Lucy! – Seu semblante se ilumina ao me ver, e com lágrimas nos olhos, corre para me abraçar ao chão. O abraço de volta, mas não sinto dele nenhuma energia mágica... Nem sua característica morna e aconchegante.

Entretanto, ele é o único que pode me responder.

– Onde estão todos? – Pergunto, sentindo a voz embargar. – O Mestre... O pessoal. O Happy! Por que ele não está com você?

Seus olhos verdes esboçam confusão, e mais uma vez não sinto a calma que sentia ao olhar dentro deles.

– Lucy, do que está falando?

Em seus braços, agarro sua camisa e choro ali. Como ele não pode saber?!

– Fairy Tail! – falo altivamente próximo a seu rosto, que fica pavoroso. – Por que estou aqui? Eu não deveria estar viva, eu morri ao fechar Chronos!

– Lucy... – Natsu balbucia, trocando olhares com o estranho homem de branco que nos observa silenciosamente.

– Não, não! – Balanço a cabeça, as lágrimas caindo mais grossas. – Quero saber o que aconteceu, Natsu! Minha marca sumiu! – Estendo a mão para que ele veja.

Quando seu rosto se contorce em tristeza, agarro seu braço direito e levanto a manga de sua camisa... Constatando que sua marca também não está lá.

Meu corpo se retesa. O olho com súplica, mas ele apenas balança a cabeça. Afasto-me dele rapidamente, me arrastando para longe enquanto ainda me recuso a acreditar. Não é possível, isso não pode estar acontecendo. Só pode ser um pesadelo!

– Lucy...

– Por quanto tempo eu dormi? – O interrompo, exigindo saber. – POR QUANTO TEMPO EU DORMI?! EM QUE ANO ESTAMOS?

– Estamos no ano de 2014, Lucy. – Quem responde é o estranho homem de branco.

Sinto meu estômago revirar dolorosamente.

– Como... isso é possível? – Quase não tenho voz para falar. Se não pude expressar em palavras o sofrimento pelo qual passei quando acordamos de Tenroujima... A dor mal cabe em mim agora. – São mais de mil anos!

– Não foram mil anos, Lucy. E sim oito. – Torna a dizer o homem.

– Não estou entendendo! – Ponho as mãos na cabeça, pedindo desesperadamente para acordar desse pesadelo. – Eu exijo saber! Onde está a Fairy Tail?

Quando Natsu estende um objeto em minha direção, sinto meu coração se partir em milhares de pedaços, que de modo algum poderá ser consertado novamente. Um livro de couro marrom, com o emblema e nome da Guilda cravados em vermelho e dourado.

Em minha cabeça grito um sonoro “não”, mas por fora continuo olhando para o objeto, até que ouço as palavras que jamais queria ouvir:

Aqui está a verdadeira história. Fairy Tail, sua mais famosa criação.

*


“A nossa maior ilusão é acreditar que somos o que pensamos ser...”

Notas finais
Alguém aí já imaginava isso? >.> Se sim, conte nos comentários! Bem, agora estou meio sem ter o que dizer. Não sei se gostaram disso, mas foi o que planejei desde o início para esta fanfic! No início era para esta história, mas acabou saindo uma short. Primeiramente, gostaria de dizer que eu já tinha planejado toda ela antes mesmo de postar. Semelhanças com o que vem acontecendo no mangá são meras coincidências. Mas, vejam bem, eu criei FTAVH a partir de suposições sobre Fairy Tail... Que quase todos a compartilham, e podem ver na internet à vontade. Então digamos, que o crédito não é mesmo meu. "Nada se cria, tudo se copia", acredito nessa frase. Mas o que faz a diferença, é como você conta. E como você faz. Então, gostaram? Digam o que acharam nos comentários, é só descer aí em baixo :V Como disse, estou meio sem ter o que falar, por isso espero ver o que dirão. E ah! Lembrem-se de que ainda faltam um capítulo e um epílogo, ou seja, não acaba por aqui ¬u¬ AMO VOCÊS!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.