Fairy Tail! Aratana Densetsu!
54 Os Colossos do Submundo!
Notas iniciais
Parecia impossível que alguém não se agitasse diante de uma figura daquelas. O deus do Submundo era um ser gigante com o corpo envolto por sombras que se agitavam furiosamente como se indicassem seu humor. Chifres pontudos saíam de sua cabeça, e duas esferas brancas brilhantes representavam seus olhos. Sua presença tinha o efeito de deixar todos em volta paralisados de medo.
Mas Gabriel continuava calmo como se o deus nem estivesse ali.
Talvez ele já estivesse tão acostumado com sua presença que o pai não lhe desse mais medo – se é que algum dia deu. Metade de Gabriel era do Mundo Celestial, mas a outra metade era do Submundo, e foi com o pai que ele aprendeu magia. Gabriel o conhecia bem, talvez até mais do que Diego. Era a melhor pessoa para enfrentá-lo.
– O que você quer aqui? – Indagou o deus.
Mesmo que ele não demonstrasse raiva, sua voz soou como um trovão. O Darklight foi o único a não se assustar.
– Acertar as contas, pai. Soube do que aconteceu com o Mundo Celestial.
– E o que você tem a vez com isso?
– Tudo. Você tirou minha mãe de mim e de Diego. Quase matou seu próprio filho com isso.
O deus se inclinou para encarar o filho caçula mais de perto. Seu hálito era terrivelmente podre, como se algum animal tivesse morrido dentro de sua boca, mas Gabriel permaneceu parado e com a expressão inalterada.
– E pensar que isso tudo foi para acabar com aquele maldito filho rebelde... Mas não foi em vão. Sem o Mundo Celestial, meu poder aumentou ainda mais...
Finalmente, Gabriel se irritou. Envolveu um dos punhos de trevas e tentou socar o rosto do deus, mas a Dark Magic apenas foi absorvida pelo deus. Este retomou a postura ameaçadora e gargalhou, fazendo o chão tremer.
– Eu criei essa magia, garoto. É impossível me ferir com ela.
– Não. Tem um jeito.
O jovem Dark Mage se virou para seus amigos.
– Por favor, cuidem dos servos. Deixem meu pai comigo.
– Tá doido? Ele é um deus! – Exclamou Eriol. – Como acha que vai derrotá-lo sozinho?
– Eu também tenho meu trunfo – garantiu Gabriel com um sorriso. – Apenas derrotem os servos.
Dessa vez, poucos protestaram. A maioria sabia que podia confiar no potencial de Gabriel.
Com a ordem do deus, os servos – monstros de variados tamanhos igualmente envolvidos de sombras, mas nenhum que batesse nos joelhos de seu mestre – avançaram para cima dos magos. Eles se posicionaram para o combate enquanto Gabriel se esquivava de todos com agilidade, afastando-se deles e do pai para realizar sua magia. Bem posicionado, ele se preparou.
– Possession.
Um grande círculo mágico sob os pés do rapaz, e dele saiu um manto de magia negra que cobriu Gabriel por inteiro. As sombras foram se expandindo até chegar numa altura próxima à do deus do Submundo. Então, se dissiparam.
No lugar de Gabriel estava um ser gigante de pele negra, olhos verdes brilhantes assustadores no rosto contorcido numa carranca e dois chifres saindo da testa, fazendo uma curva nas pontas. Em seu peito e braços musculosos havia marcas de um verde também brilhante, de significado desconhecido pelos magos ali presentes. O gigante tinha ainda cabelos negros com apenas uma parte presa no alto da cabeça, enormes asas monstruosas e um pano preto preso à cintura. Segurava em cada mão um escudo com uma lâmina saindo de cada lado, todas contendo um brilho azul.
– Ei... Esse é o Gabriel? – Espantou-se Nonoka.
Ninguém respondeu. Até mesmo os servos do deus haviam parado o ataque com aquela aparição. O deus e seu filho se encaravam, não sendo possível identificar em seus rostos o que sentiam ou pensavam.
Mas pai e filho sabiam bem o que se passava na cabeça de cada um. O filho sentia-se orgulhoso por mostrar do que era capaz; o pai, frustrado por ter se enganado.
–--
– É só isso o que você consegue fazer?
A magia de Gabriel só pôde fazer alguns rachados no alvo de treinamento que seu pai fizera. Porém, ele já se sentia exausto de tantas vezes repetir o mesmo golpe, e o deus não lhe dava muito tempo para descansar. Suando, Gabriel tentou executar sua magia mais uma vez, sem sucesso; o círculo mágico surgiu diante de sua mão e logo se desfez.
– Eu... Preciso... De um tempo – disse o rapaz ofegante.
– Você não terá tempo nas guerras. Precisa aprender a dar o melhor de si o tempo inteiro.
– Isso é humanamente impossível!
– Você não é um humano! É filho do deus mais poderoso do universo; está além das capacidades terrestres. Agora se recomponha e faça jus ao seu título de Dark Mage!
Gabriel respirou fundo algumas vezes e recomeçou o treinamento. Ele tinha 15 anos, e já fazia dias desde que Diego fora expulso do Submundo, passando a viver com a mãe no Mundo Celestial. Sua saída complicara sua vida ao lado do pai: ele pegava ainda mais pesado nos treinos – afirmando que a Dark Magic de Gabriel deveria ser melhor do que a Light Magic do irmão – e o Darklight mais novo não tinha a companhia de Diego para consolá-lo. Isso também aumentava a antipatia que Gabriel sentia pelo deus. Se ele ao menos permitisse sua visita ao Mundo Celestial, para matar as saudades que tinha da mãe e do irmão...
Após mais algumas tentativas falhas no treino, Gabriel desabou, totalmente sem forças. Ainda ofegava e suava. Era possível sentir o olhar de desaprovação do pai, ainda que não se atrevesse a olhar para ele.
– Você é um fraco – disse o deus antes de se afastar.
“Se eu sou fraco”, pensou o rapaz, “por que não me deixa em paz e me manda para o Mundo Celestial também? Você nunca me viu como nada além de um herdeiro de seus poderes mesmo...” Ele continuou deitado e quieto, observando pai enquanto este ordenava os pecadores que habitavam o Submundo a continuar o trabalho, sem direito a pausas. Gabriel sempre detestou a tirania do pai. Se tivesse um jeito de derrubá-lo, de tirá-lo do comando do Submundo, o faria sem hesitar.
O rapaz continuou deitado ali no chão, deixando os pensamentos fluírem. Depois de algum tempo sorriu. Tivera uma ideia louca e incrível: usar a Dark Magic para superar seu criador, o deus do Submundo.
Os treinos seguintes continuaram no mesmo ritmo. Gabriel sempre acabava se cansando e o deus sempre o chamava de fraco por isso. O rapaz se cansava ainda mais rápido desde que começara os treinos secretos. Então, certa vez, o deus esbravejou:
– Você é um inútil, Gabriel! Nunca será forte o suficiente para governar o Submundo! Nunca terá força para nada!
O rapaz encarou o pai, nervoso e impaciente. Cansara de manter suas respostas apenas nos pensamentos. Por isso, gritou:
– Pode esperar, pai: em breve eu serei muito mais forte do que você! Um dia você verá do que sou capaz!
O deus riu, fazendo o chão tremer. A raiva de Gabriel aumentou ainda mais, e ele jurou, naquele momento, que faria o pai engolir aquela risada de uma vez por todas.
–--
Finalmente chegara a hora de Gabriel cumprir sua promessa. E ele não perderia mais nenhum segundo para fazer isso.
Com uma agilidade surpreendente, o gigante investiu contra o deus e desferiu um corte horizontal com uma de suas lâminas. Normalmente, isso seria inútil, uma vez que ataques comuns apenas atravessavam as trevas do corpo do deus. Porém, o corte de Gabriel o pegou de surpresa, fazendo o deus recuar com a dor. Os magos lá embaixo resolveram deixar o resto com ele e passaram a se concentrar nos servos, que agora avançavam contra eles novamente.
O governador do Submundo não deixou o filho continuar com a vantagem. Usou as sombras de seu próprio corpo para transformar o próprio braço em uma lâmina enorme e atacou Gabriel. Este bloqueou o golpe com um de suas armas e tornou a atacar o pai com a outra. Mas o deus não se deixou atingir novamente; as sombras de seu tronco se expandiram e formaram um escudo para protegê-lo de outro corte. Gabriel recuou e se preparou para uma nova investida.
Enquanto isso, os magos lutavam freneticamente contra os monstrinhos. Várias magias diferentes acertavam e destruíam os inimigos, mas cada vez mais deles apareciam para substituir os derrotados. A situação já saía do controle. Os magos resolveram se dividir em grupos para garantir a proteção em todos os lados. Lanças de gelo, rajadas de fogo e veneno, conjuntos de pedras, jatos de água, relâmpagos, pétalas afiadas como navalhas, flechas de luz, uma bola de cristal que os atacava em velocidade avançada, e mais várias outras magias se espalhavam ao redor dos aliados.
– Não saiam de suas posições! Lembrem-se de que temos de proteger a retaguarda uns dos outros! – Gritou Yuri. Vários cortes preenchiam seu corpo.
– Está complicado! – Gritou Shuichi. – Cuidado, Lothos!
Ele puxou a colega de guilda para o lado no exato momento em que um servo avançava para atacá-la pelas costas. Misaki se adiantou e usou sua magia para explodi-lo.
– Desculpe, Lothos! Me distraí tentando convencer Hana a usar sua magia e acabei deixando esse escapar!
– Não esquenta, Misaki.
Lothos lançou um olhar para Hana, que o percebeu e desviou o rosto imediatamente, continuando a lutar com sua habilidade em artes marciais.
Mais adiante, pai e filho continuavam a batalha de colossos. O braço do deus ainda tinha o formato de lâmina, e as sombras de seu corpo formavam ainda mais espinhos para ajudar a ferir o outro gigante. Gabriel revidava sempre com suas armas.
– Você ainda não é forte o bastante – rugiu o deus.
Gabriel não respondeu. O pai avançou o braço-espada mais uma vez, mas o filho cortou a metade da lâmina, fazendo as sombras se dispersaram. Porém, mais espinhos de trevas saíram das costas do deus. Gabriel recuou e girou uma de suas armas; sua lâmina dupla cortou a sombra mais uma vez. O gigante prosseguiu formando uma esfera de Dark Magic diante da outra mão, que se expandiu e disparou na direção do deus. Este tentou criar mais uma barreira de sombras, em vão; o orbe a atravessou e o atingiu em cheio.
– Teremos de nos apressar se quisermos sair daqui com vida – resmungou Kazuo, com a voz fraca. – Ei, Yuri. Tem certeza de que esse ar tóxico só nos afeta criticamente depois de vinte e quatro horas?
– Sim. Mas não sei como as horas passam aqui em baixo – disse o mago de madeira. Ele ameaçou cair de joelhos, mas foi imediatamente amparado por Nick. – Obrigado. De qualquer forma, não podemos simplesmente esperar que Gabriel derrote um deus tão rápido.
Mas Gabriel tinha plena consciência dessa responsabilidade que carregava. Tinha que ser rápido, ou os amigos sofreriam as consequências. Contudo, seu adversário não o daria tanta facilidade; estava ficando cada vez mais difícil controlar as sombras do deus, que as usava para os mais diversos ataques. Gabriel conseguia cortá-las com esforço, mas não conseguia atacar. As trevas de seu pai eram fortes demais.
O deslize de Gabriel ocorreu quando ele tentou cortar mais uma leva de sombras. Estas fugiram de sua lâmina e agarraram seu braço, impedindo-o de continuar o ataque. O gigante tentou atacar com a outra lâmina para libertar seu braço, mas um espinho de sombras perfurou seu pulso, fazendo-o rugir de dor e largar a arma. Ela caiu no chão levantando uma grande cortina de areia vermelha.
A areia ajudou a distrair os servos do deus. Os magos aproveitaram isso para contra-atacar com tudo, destruindo uma grande parte deles. Porém, o ar tóxico dificultava ainda mais sua respiração e o poder de suas magias.
– Eu... Não aguento mais... – murmurou Felicity. Suas pernas fraquejaram e ela desabou no chão, inconsciente.
– Fel! – Gritou Luke. O rapaz correu até ela e a pegou no colo com grande dificuldade, uma vez que ele também estava fraco.
– Dante, você não pode sugar esse veneno? – Perguntou Ammy.
– Não adiantaria muita coisa. Todo o ar é composto de veneno. Se eu o sugasse, não teríamos o que respirar, então não adiantaria muita coisa.
Gabriel se afligiu. Seu pai enfiara ainda mais estacas de sombras em seu corpo e ainda segurava seu único braço armado com toda a força. E a pressão aumentava ainda mais quando ele via a situação dos amigos.
– O que foi, Gabriel? Não foi você quem disse que me superaria?
O gigante encarou o pai tentando transmitir toda sua raiva através de seus brilhantes olhos verdes.
– Hm... Talvez você tenha sido contaminado com a doença dos humanos, que o faz liberar sua força verdadeira somente quando algum “amigo” é ameaçado. Vejamos...
Assim, mais uma estaca saiu das costas do deus e foi na direção dos aliados, mirando aleatoriamente em qualquer um deles.
E o alvo foi Nonoka.
Gabriel viu a estaca aproximando-se cada vez mais dela e sentiu algo queimando em seu peito. Precisava agira rápido para salvá-la. Com uma força renovada, o colosso se soltou das sombras que o perfuravam e desprendeu o braço, jogando-se na frente da estaca que ameaçava matar sua amiga. Nonoka percebeu o que acontecia e ficou paralisada com o medo. Porém, as sombras entraram no peito de Gabriel.
– Gabriel! – Ela gritou.
Yuri notou a lâmina caída e se ajoelhou, colocando uma mão no solo arenosa. Um círculo mágico surgiu ali e no chão abaixo a arma, onde cresceu um grande pilar de madeira. A lâmina foi levantada no ar e Gabriel a segurou.
– Você realmente se tornou um deles – disse o deus. – Que desgosto.
A raiva de Gabriel já passara do limite. Os ferimentos de seu corpo gigante ainda doíam demais, e seu sangue continuava derramando por causa deles. Contudo, a dor maior foi ver uma amiga quase ser morta por seu próprio pai. Gabriel não tinha mais nada a ver com o deus. Não tinha nada a ver com o Submundo além de sua magia. Gabriel era um ser do Mundo Celestial; um ser de luz.
Foi por isso que sua armadura gigante formada das trevas começou a rachar.
Antes que perdesse sua forma, ele correu novamente até o pai e o atacou com uma das armas. Seu adversário colidiu o ataque com seu braço-espada. Enquanto isso, os servos do deus o ajudavam atacando as enormes pernas do outro colosso.
Satoshi resolveu esse problema. Sacou sua espada que continha a alma de Mathias La Guardia e a apontou na direção dos monstros. A lâmina da espada brilhou, assim como a alma armazenada em seu pomo transparente. Logo, todos os servos que atacavam as pernas foram envoltos pela mesma luz.
– Mamorigami.
Os monstros foram puxados para longe de Gabriel, mantendo-o protegido como se um anjo da guarda rodeasse seus pés. Mas não havia nada a se fazer para ajudá-lo com o deus.
O gigante continuava firme na disputa com o deus, embora brilhasse e rachasse cada vez mais. Em compensação, as sombras do senhor do Submundo eram aos poucos afetadas pela luz e dispersadas aos poucos.
E enfim chegou o momento em que o corpo gigante de Gabriel se desfez por completo. Ele se quebrou,deixando os pedaços se desfazendo no ar e apenas o jovem rapaz caindo na vasta escuridão que compunha o corpo do pai.
Quando o garoto abriu os olhos, as sombras do deus já envolviam seus braços e pernas. Tentou se lutar contra elas e gritar, mas não teve forças. Ouviu gritos de seus amigos lá embaixo. Não podiam fazer nada além de gritar. Apenas a deusa do Mundo Celestial e herdeiros do poder do deus podiam feri-lo.
As trevas engoliram Gabriel. Este ainda sentia as sombras lambendo seus membros, puxando-o ainda mais para a escuridão eterna. Era uma sensação estranhamente familiar, como se o pai estivesse o acariciando a sua própria maneira. Mas ele não queria isso. Não queria as trevas. Queria a luz.
“Você já tem isso.”
Gabriel olhou ao redor. Não tinha nada ao redor a não ser a escuridão.
“Não estou aí dentro, príncipe. Só que posso ouvir seus pensamentos. Fique tranquilo; só quero ajudá-lo.”
O jovem herdeiro do Submundo: o príncipe das terras malditas. Gabriel já havia se esquecido desse título.
“Quem é você?”, ele perguntou em pensamento.
“Meu nome é Killua. Sou mais um prisioneiro do Submundo.”
“Ah, sim. E o que eu já tenho, Killua?”
“A luz que você tanto deseja. Você já a possui.”
“Como assim?”
“Veja com os próprios olhos.”
Uma luz surgiu bem ao lado de Gabriel. Quando olhou para ela, viu que a luz lhe mostrava os amigos tentando desesperadamente libertá-lo de dentro do pai. Nonoka liberara três de seus espíritos – Leo, Capricorn e Libra -, mas mesmo eles não puderam fazer muita coisa. Eriol atirava flechas sem parar enquanto resmungava alguma coisa. Sasha lançava várias magias de gelo consecutivas. Todos estavam fracos, e ainda assim usavam tudo de si para ajudar Gabriel.
“Eles são minha luz”, compreendeu o rapaz.
“E você deve retornar a eles”, completou Killua.
”Como? Não dá pra sair daqui.”
“Ora, garoto. Você é um ser composto de luz. Use-a.”
Gabriel fechou os olhos e se concentrou. As trevas o envolviam cada vez mais, mas ele não ligava. Sua luz estava ali; ele logo sairia daquela prisão.
Pensou em sua mãe e nos momentos que passara com ela no Mundo Celestial.
Pensou em Diego e em como ele sempre ficou ao seu lado quando pôde.
Pensou nos membros das Light Guilds e em como eles o acolheram tão bem.
Pensou em Eriol que se tornara seu amigo tão rápido e lhe dera uma luta memorável.
Pensou em Nonoka, por quem arriscara sua vida deixando o ataque do deus atingi-lo.
Pensou em Hayato e em como ele facilitava sua vida no Submundo...
Gabriel de repente sentiu todas as partes do corpo vibrarem. Seu peito ardeu, mas era uma sensação boa. Pôde sentir a luz o envolvendo e destruindo as sombras ao seu redor, soltando-o. Ouviu o pai gritar de espanto quando saiu de dentro dele. Entreabriu os olhos. O deus se desfazia, tamanha era a luz do rapaz. Ouviu os gritos de comemoração dos amigos lá embaixo. Contudo, o Gabriel não se sentia tão bem quanto pensara por estar enfim derrotando o pai. Era uma sensação... Estranhamente desconfortável. Quase ruim.
– Impossível! – Rugiu o deus, que quase não tinha mais sombras para formar seu corpo. – Você é meu herdeiro! Um Dark Mage legítimo! Não pode ter tanta luz assim!
O rapaz também não compreendia ao certo como alguém que viveu tanto tempo no Submundo podia fazer aquilo. Talvez não dependesse de onde ele tinha crescido, de quem era seu pai ou de qual era sua magia; e sim, de quem ele sempre foi por dentro.
As sombras do deus do Submundo se dispersaram por completo, sobrando apenas mais um grito do mesmo. Gabriel caiu suavemente na areia vermelha, dando-lhe uma sensação tão calorosa e familiar que parecia que sua mãe estava o deitando na cama depois de um longo dia de brincadeiras em seu jardim. O rapaz sentiu os olhos marejarem com a lembrança. Não teve tempo, porém, de chorar; os outros magos logo vieram ao seu encontro para ver como ele estava. E Gabriel percebeu que realmente não estava nada bem: havia um buraco em seu peito, em seu pulso, e em todos os outros lugares onde o deus enfiara suas estacas de sombras. Seu braço estava dormente e com uma marca vermelha devido ao tempo que o deus o segurara. E então o rapaz percebeu que aquelas eram suas únicas lembranças do pai. Esse pensamento o atingiu com um baque.
–... Eu matei meu pai, não foi? – Disse com a voz fraca.
Ninguém disse nada por um tempo. Nonoka colocou a mão em seu ombro, mas foi Eriol quem falou:
– Você apenas fez o certo. Impediu que ele e Ethan destruíssem nosso mundo e ainda devolveu uma parte da luz do Mundo Celestial. Não fique se culpando por fazer o bem.
Gabriel ainda tremia. Sentiu uma vontade repentina de vomitar, mas se conteve.
– Mas era o meu pai – murmurou.
– Não venha com esse papo agora! Em algum momento você hesitou em lutar contra ele? Seja honesto consigo mesmo, Gabriel. É tarde demais para se sentir mal.
O Dark Mage não se sentia melhor, mas sabia que Eriol estava certo. Ele nunca vira o deus como um pai. Sempre sentiu raiva dele. Por que estava se sentindo tão culpado por ter atingido sua meta e o superado, tirando-o do controle do Submundo? Por ter enfim vingado o Mundo Celestial? Mesmo sabendo que fizera o certo, Gabriel sentia-se sujo.
– Você tem toda a razão, Eriol – disse o Darklight. – Desculpe, não sei por que fiquei assim.
Eriol suspirou.
– Não tem que se desculpar por nada, irmão. Vem. – Ele estendeu a mão para Gabriel. – Vamos dar o fora desse lugar fedorento.
Gabriel segurou sua mão e Eriol o puxou. Assim que apoiou o braço em seu ombro, Eriol gemeu.
– Não, esquece, não dá pra aguentar seu peso – ele disse antes de cair. – O grande Eriol está fraco.
Os magos riram enquanto Nick e Koichi ajudavam os dois a se levantar. Quando Gabriel começou a desenhar o portal, todos ouviram passos tão pesados quanto o do deus. Um calafrio percorreu por todo o grupo.
– Esse cheiro... – Disse Ace. – Parece o do Igneel.
– Um momento, garoto – disse uma voz grave que vinha da mesma direção que os passos. – Você não resolveu tudo o que tinha para resolver aqui.
Gabriel reconheceu a voz de Killua e suspirou de alívio. Sabia que ele não era um inimigo.
A surpresa foi geral quando um dragão de escamas vermelhas e douradas parou diante do grupo. Os Dragon Slayers se prepararam para lutar, mesmo sem forças. Gabriel estava prestes a tranquilizá-los, dizendo que Killua não era um inimigo, quando Nadeshiko gritou:
– Onii-chan!
E ela correu para abraçar uma de suas patas. O dragão não saiu do lugar; apenas olhou carinhosamente para a garota.
– Esse é seu onii-chan? – Indagou Nicolas. – Nadeshiko, você nunca disse que ele era um dragão!
– Ele seria tipo meu tio? Ou me avô? – Sussurrou Ace para Luke, os olhos brilhando.
– Você já tá pirando com isso – respondeu o ruivo, que agora se esforçava para apoiar Felicity.
– O que faz aqui, onii-chan? – Perguntou Nadeshiko a Killua, alheia ao papo atrás dela.
– Estou pagando por meus pecados, garota. Odiei muito os humanos durante minha vida no mundo mortal... Fiz mal a alguns deles.
– Mas você me criou – retrucou Nadeshiko. – Fez muita coisa boa também.
– Não o suficiente. Meu número de pecados ainda é maior do que meu número de boas ações.
– Não é justo...
– Acho que sabemos que a vida nem sempre é justa, pequena Nadeshiko.
Gabriel aproximou-se mancando do dragão e apoiou-se em sua outra pata, sorrindo.
– Obrigado pelo toque de antes, Killua-san.
– Seu nome é Killua? – Indagou Nadeshiko.
– Nunca tinha lhe dito isso, não é? Perdão, garota.
– Mas o que você quis dizer com “eu não resolvi tudo o que tinha para resolver”? – Perguntou Gabriel.
– Você não pode ter se esquecido que é o herdeiro do deus. Sem ele aqui, você deve governar o Submundo.
O rapaz realmente tinha se esquecido desse detalhe. Quando Diego foi banido do Submundo para sempre, Gabriel passou a ser o único herdeiro do pai. Com ele morto, o garoto devia assumir sua posição. O Submundo não podia simplesmente ficar sem seu líder.
– É... Eu sei disso. Mas eu não quero ficar aqui; quero viver no mundo mortal, com meus amigos e meu irmão.
– É por isso que estou aqui – disse o dragão. – Estou disposto a fazer minha última boa ação, livrando você desse destino.
– Como?
– Se o príncipe das terras malditas renunciar o título, o poder vai ao próximo ser mais poderoso do Submundo. E este seria eu.
Gabriel ergueu as sobrancelhas. Era verdade; havia essa possibilidade. Já se sentia aliviado por ter alguém com quem deixar o Submundo. Mas a proposta de Killua também o deixou desconfiado.
– Por que quer ser o deus daqui?
O dragão olhou para Nadeshiko, que continuava encostada em sua pata.
– Sendo deus, eu ficarei sempre aqui, e você poderá me visitar sempre que quiser, Nadeshiko. E ainda poderei usar meus poderes para me comunicar com seu mundo. Salvá-la foi a única coisa certa que fiz na vida. Foi doloroso para mim morrer enquanto você ainda era tão pequena, sabendo que ficaria preso aqui até pagar por meus pecados. Quando esse dia chegar, eu simplesmente desaparecerei, e nunca mais poderei vê-la. Mas se eu for deus isso não acontecerá.
Nadeshiko sorriu.
– E como eu não tenho pulmões humanos, poderia passar o tempo que quisesse com você aqui. Seria ótimo... Mas você não poderia voltar ao mundo mortal, certo?
– Todo o poder tem limites, menina. Entretanto, cuidaria de você daqui de baixo. O que me diz?
A garota o abraçou novamente.
– Desde que você não desapareça de novo, é perfeito, onii-chan.
Gabriel viu que era melhor saída para todos. Sabia que Killua seria um deus muito mais bondoso que seu pai jamais fora. Assentiu para o dragão.
– Ótimo. Por favor, tire essas correntes de minhas patas. Elas anulam todo o meu poder.
Os magos aliados ajudaram Gabriel e Nadeshiko a soltar as correntes do dragão. Feito isso, o Dark Mage pediu que todos se afastassem dele e fez o mesmo, ainda andando com dificuldade, e estendeu os braços para Killua.
– Eu, Gabriel Darklight, herdeiro direto do antigo deus do Submundo, agora renuncio a minha posição. Entrego meu título de novo deus do Submundo e o entrego ao grandioso dragão Killua!
Feixes de Dark Magic saíram das mãos do rapaz e formaram uma bolha em torno do dragão. Gabriel sustentou essa barreira por alguns segundos com sua magia e então abaixou os braços. A Dark Magic entrou nas escamas de Killua e todo o seu corpo brilhou por um instante.
– Killua-san, espero que você cuide bem daqui.
– Não o decepcionarei, garoto.
Mesmo com muita dor, Gabriel fez uma reverência. Depois, ergueu os braços para cima e gritou:
– Submundo, moradia dos pecadores, conheça seu novo deus!
–--
O símbolo do portal já estava desenhado no chão. Metade dos magos havia desmaiado, e a outra metade carregava os companheiros com grande dificuldade, uma vez que mal conseguiam se manter de pé sozinhos. Não podiam perder mais tempo ali.
Nadeshiko e Gabriel acenaram mais uma vez para Killua antes do dragão ir se reunir com os moradores do Submundo. Sentindo-se aliviado por ter cumprido sua missão e por ter finalmente estar voltando para seu verdadeiro lar, Gabriel gritou com todas as forças:
– Para o mundo mortal!
Fale com o autor