Fairy Tail! Aratana Densetsu!
86 Essa jornada é para quem mesmo?
A carta encontrada na casa de Nick dizia o seguinte:
“Pessoal, me perdoem por favor. Eu preciso ir.
O homem que matou meus pais e me sequestrou quando criança voltou, parece que foi ele quem causou a Batalha das Fadas também. É um monstro que se alimenta da energia mágica das pessoas, e quanto mais se alimenta, mais forte fica e mais energia quer consumir. Quer devorar a gente, devorar todo o mundo mágico, e tá me vigiando faz tempo por uma questão pessoal comigo.
Se eu ficar aqui, vai vigiar vocês também e será muito mais perigoso para vocês. Desculpa.
Enquanto eu não for forte o bastante para matar lidar com ele não tem como deixar vocês em perigo.
Voltarei logoalgum diaem alguns anos na hora certa.
Não sei para onde vou, vou pegar o primeiro trem que puder. Assim que chegar em algum lugar, escrevo para vocês.
Yume, eu te amo e sei que estou quebrando uma promessa mas é que—
Desculpa.
Desculpa, Heather.
Parece que meu nome é Daniel Fullbuster.
Obrigado pela festa. mas meu aniversário foi mês pass–
Amo vocês, fiquem bem, por favor.”
Depois dela, metade de um ano voou.
. . .
Acordou com os alto-falantes dentro do trem anunciando a chegada ao destino final. Arrumou a mochila meio gasta nas costas e se levantou ainda um pouco zonzo de sono, tanto que esbarrou em outro homem sem querer. Então recuou de volta para o assento para esfregar o rosto primeiro, até deu mais uma olhada para garantir que não tinha esquecido de nada. Quando se sentiu pronto, finalmente pegou as malas no guarda-volume e saiu do trem.
Tinha muita gente na estação. Vinha percebendo, fazia alguns meses, que um tremor de ansiedade o atacava sempre que ficava em um ambiente cheio… Talvez fosse o medo de alguém ali ser Edmond. Talvez fosse paranóia. Pensou que se Yume estivesse ali, seguraria sua mão e o tremor iria embora.
A ansiedade piorou, então se apressou para a saída.
Puxou o ar lá fora e foi andando devagar. A noite estava muito viva em Crocus, com diferentes grupos de pessoas passeando, restaurantes, confeitarias e lojas abertos, artistas de rua se apresentando para pequenas platéias, uma música familiar tocando nas ruas. Era o que esperaria da capital Crocus, mas aquele clima fazia ainda mais sentido vendo a árvore gigante de natal que estava sendo montada no centro da cidade.
Já tinha chegado essa época? Se estivesse na Fairy Tail, estaria comemorando a tradição de decorar a própria árvore junto com o pessoal. Será que eles estavam fazendo isso naquele instante?
Também significava que logo veria a neve pela primeira vez em 6 meses… Sentiu aquela ansiedade de novo só de pensar; precisava continuar se mexendo.
Achou um taxista livre e deu o endereço escrito na carta em seu bolso. Deve ter levado 10 ou 15 minutos, mas enfim parou em frente a uma casa pequena no meio de outras casas pequenas, com só uma guirlanda na porta, telhado azul com fumaça saindo pelo chaminé, a tintura vermelha da porta um pouco gasta. Bateu três vezes.
Foi atendido muito rápido. Do outro lado da porta, tinha uma mulher de cabelos azuis escuros na altura dos ombros e algumas marcas de idade no rosto, e outra mulher muito parecida com ela, mas com cabelos compridos e claramente mais jovem. Os sorrisos eram bem diferentes, só que o olhar era o mesmo: as duas estavam a ponto de chorar.
— É você, Daniel?
Um frio passou por sua espinha, e precisou responder, mesmo sabendo que era insensível da sua parte:
— Por favor, pode me chamar de Nicolas?
. . .
Ur e Ultear Fullbuster, respectivamente a mãe e tia de Aiko, e as tias biológicas de Nicolas. Seu corpo ainda estava se decidindo se estar ali era confortável ou não, mas por enquanto, a certeza que tinha era de que precisava de um banho.
O quarto que prepararam para ele era pequeno e com uma cama tão confortável que suas costas rezaram assim que se deitou, ainda de cabelo molhado mesmo. Tinha cheiro de chá e biscoitos se misturando no ar. Poderia muito bem ficar todo o resto de sua pequena aventura ali, e justamente por isso o peito apertou quando se lembrou de que precisaria ir embora em breve.
Senão, Edmond acharia aquelas pessoas também.
— Será que você não está ficando um pouco paranoico? — A tia Ultear, que era mais nova, perguntou quando Nick explicou isso sentado à mesa com elas. Os biscoitos eram de chocolate com morango, e o chá, de erva cidreira.
— Seja mais gentil — a tia Ur chiou como se a irmã fosse uma criança.
— Tá tudo bem. Pode ser que eu seja paranoico mesmo… Mas a história toda é tão maluca que não posso me dar ao luxo de duvidar. Ele disse que viria atrás de mim.
As duas deram mordidas nos biscoitos.
— Acho que a Aiko não explicou o suficiente naquela carta — disse Ur. — Parece que tem mais do que “O Daniel está vivo e tem um cara perigoso perseguindo ele, você precisa ajudá-lo”. Pode explicar melhor a situação?
Não dava para culpá-la, Nick mesmo tinha pedido para não explicar muito em carta quando trocou correspondência com ela.
Explicou a história toda para suas tias. Era a primeira vez que a contava em voz alta ao invés de repassar tudo apenas em sua mente, e ficou surpreso em perceber que as palavras doíam um pouco menos quando faladas em voz alta. As duas ouviram tudo em silêncio. Dava para perceber que Ur tentava conter suas reações, enquanto Ultear deixava transparecer a surpresa, a tristeza, e a raiva despertadas em cada vírgula.
Ninguém soube o que dizer por um tempo quando Nicolas terminou. Ur se levantou de repente e se dirigiu a um dos quartos. Voltou um minuto depois, com um porta-retrato em mãos, que colocou no meio da mesa.
Era a imagem de um homem de cabelos escuros com tom azulado, com um sorriso parecido com o que Nick já tinha visto em fotos antigas de Gray Fullbuster, mas somado a um quê a mais de gentileza. Ao seu lado, uma mulher de cachos loiros que cobriam as costas, direcionava seu sorriso largo para algo que não estava na foto. Os dois estavam sentados de mãos dadas em um banco de praça, com flores vivas da primavera compondo o cenário atrás.
Apesar das pequenas marcas de tempo evidentes na fotografia, o amor dentro dela se fazia muito presente. A mão de Nick tremia ao segurá-la.
— Esses eram Nathan e Evelyn — Ur falou, mesmo que Nick já soubesse. Talvez fosse só para lembrar deles em voz alta. — Seus pais… Nosso irmão e cunhada.
— Para o que ela estava olhando? — Nick perguntou, apontando para a mãe.
— Para você — Ultear respondeu. — Você estava acenando para ela, se me lembro bem.
O rapaz se concentrou naquele sorriso da mãe, em todo o amor que emanava tão naturalmente. Era inteiro para ele.
— Eu… Posso ficar com essa foto?
Ur fez que sim com a cabeça.
— Foi por isso mesmo que peguei. Ela é sua. E quero que saiba, Dan… Nicolas. Quero que saiba que você tem uma família aqui. — Ultear concordou prontamente. — Estamos tão felizes em te ver de novo.
— Nosso irmãozinho faz falta todo santo dia. Nunca conseguimos ficar em paz com o jeito que ele e Evelyn se foram. — A voz da tia mais nova tremeu. — Mas saber que você sobreviveu, cresceu e virou um homem bom… É a melhor notícia que poderíamos ter recebido.
— Vamos fazer a nossa parte para não deixar esse Edmond tirar mais nada da nossa família. Como podemos te ajudar?
Nicolas pensava estar com a resposta pronta, mas quando a pergunta surgiu, hesitou.
— Bem… Eu preciso de ajuda para ficar o mais forte possível antes de enfrentar o Edmond. Mas… Agora que cheguei aqui…
Estava olhando para as próprias mãos, mexendo-as inquietantemente, até Ur segurá-las com uma força carinhosa.
— Deixa eu adivinhar: você precisa não ficar mais sozinho também, não é?
Foi como virar uma chave. Nicolas vinha tentando evitar pensar sobre o quanto sentia falta de seus amigos, de sua irmã, de Yume e de toda a vida que deixou para trás unicamente por causa da sombra absurda, estúpida e devoradora de seu medo. Vinha tentando não pensar nisso, porque sabia que se deixasse sentir tudo, não aguentaria.
Mas agora que tinha alguém segurando sua mão, pelo menos as lágrimas não precisavam mais ter medo de cair.
Sendo segurado por Ur e Ultear enquanto chorava como uma criança desesperada, Nicolas lembrou um pouco de como era ter uma família.
. . .
O combinado era que Nick ficasse apenas por duas semanas.
O combinado dele, no caso. Demorou para suas tias pararem de insistir que ficasse lá por mais tempo; o rapaz queria evitar ao máximo as chances de elas serem feridas por Edmond por culpa dele. Apesar de elas continuarem repetindo que conseguiriam se defender, a teimosia dele foi maior, então acabaram desistindo. Não sem deixar claro que as portas estariam sempre abertas para quando o sobrinho quisesse voltar.
Na véspera de sua partida, Nick treinou o dia inteiro com os exercícios ensinados por suas tias, que consistiam em ajudá-lo a se conectar com o núcleo de seu poder mágico para, assim, liberá-lo com maior concentração e eficácia. Elas queriam que Nick aprendesse a manter a calma mesmo nas batalhas mais difíceis e conseguisse ter o máximo controle possível do nível de força usado. Para quem cresceu com o estilo agitado e acostumado com exagerados da Fairy Tail, esse método realmente era um respiro.
Parou de treinar quando a noite caiu. Foi direto para o banho quente — “ninguém vai perambular pela minha casa fedendo a cecê”, era a regra de Ur —, e, quando saiu, viu que tinha uma surpresa deixada em sua cama.
Era uma carta.
Seu corpo tremeu de animação e ansiedade ao mesmo tempo. A única correspondência que havia trocado naqueles seis meses fora com Aiko, apenas para ter informações de onde encontrar suas tias. Não tinha atualizações de mais ninguém de lá. Será que estavam bem? Será que sentiam sua falta? Será que o odiavam?
Abriu o envelope com tanta pressa que rasgou um pouco. Havia três folhas dobradas dentro dele, todas completamente preenchidas por diferentes caligrafias: cada um dos seus amigos tinha escrito um pouco. Nicolas sorriu como não sorria em algum tempo.
“Nick,
Espero que você esteja na casa da minha mãe, senão vamos ter perdido um tempão aqui.
Só queríamos desejar um feliz fim de ano para você… Aonde quer que esteja indo.
Agora que sei que nós somos família, temos muito o que conversar.
Quando vai voltar para casa?
Ass.: Aiko, a sua prima.
PS: Mãe, se você estiver lendo, pode parar!”
“Meu irmãozinho, como você faz falta.
Está se alimentando? Tomando banho? Escovando os dentes?
Dói muito ficar longe de você de novo. Ainda não entendo totalmente sua decisão, mas só oro para que você fique bem.
Volte logo para casa, por favor. Sua família está te esperando.
Você sempre vai ser meu irmão.
Feliz natal. Eu te amo.
- Heather.”
“Como seu amigo, eu espero que você esteja se cuidando.
Mas como seu Mestre, estou doido para te dar um castigo assim que você voltar.
A Fairy Tail luta junto, certo?
Ainda vamos lutar, você querendo ou não.
Então volte para casa, Nick.
Assinado: Elijah.”
“Pô, Nick! Nem deu pra te dar um feliz aniversário!
É bom que esteja ficando bem forte, porque nós vamos brigar quando você voltar!
Não deixe a gente de fora dessa sua luta.
Somos seus AMIGOS, caramba.
Volta pra cá!
– Ace.”
“Se eu entendo por que você foi embora? Não.
Se eu respeito? Talvez… Só se você me trouxer uns presentes!
Falando sério, Nick: fica bem, cara.
Estamos te esperando aqui. Se não voltar, vamos rodar o mundo pra te puxar pela orelha!
Pensa sobre os presentes, hein.
– Eriol.”
“Nick, acho que ninguém aqui concorda muito com a sua decisão, só que pelo menos estamos tentando respeitá-la.
Até te entendo um pouco, mas fico com medo de ver você seguindo um caminho de solidão. Ele não dá em nada.
Então, pelo menos, lembre-se de que estamos todos aqui por você. Tá bom?
Cuide-se.
– Diego.”
“Nick! Aqui é o Luke.
Não sei de onde você meteu na cabeça que tem que lidar com isso sozinho. Vou te dar um soco quando voltar para casa.
Saiba que também estamos trabalhando para ficar mais fortes, porque queremos lutar ao seu lado.
Estamos todos bem. Mas falta você aqui.
Feliz natal, parceiro.”
“Estou bravo com você por ter ido embora desse jeito. Você tem amigos, lembra?
E acima de tudo, estou morrendo de preocupação.
Queria ter o poder de acabar com esse cara sozinho, agora mesmo, para você vir para casa em paz. Mas já que não posso, que tal você voltar para fazermos isso juntos?
Você é meu melhor amigo, Nick. Não vou te deixar na mão.
Fique bem.
– Yuri"
Felicity, Nadeshiko, Mia, Ammy, Dante… Todo mundo tinha escrito alguma coisa para pelo menos lhe desejar um feliz fim de ano e deixar claro que o queria voltando para casa. Nicolas leu e releu tudo, porque morria de saudades de todo mundo, e também porque estava procurando a caligrafia de uma pessoa em específico.
Mas Yume não tinha escrito nada. A única menção ao seu nome vinha em uma pequena nota de rodapé, escrita timidamente com a letra de Luke:
“(Tentamos convencer a Yume a escrever também… Acho que ela precisa de mais tempo. Foi mal.)”
O coração de Nicolas vacilou só de imaginar o quanto a namorada (se é que ainda podia chamá-la assim) estava ressentida com ele. E com razão, né?
Virou os papéis de novo, pronto para reler tudo do começo e evitar deixar os pensamentos caírem de volta no turbilhão de culpa e medo, mas foi interrompido por uma batida na porta.
— Estamos te esperando aqui na sala — a tia Ultear chamou.
Nick dobrou tudo com cuidado e guardou o envelope em uma das malas antes de sair do quarto. Assim que pisou na sala, Ultear jogou um gorro de Papai Noel no rapaz.
— Sabe que dia é hoje?
Tinha acabado de ler a mesma mensagem repetidas vezes na carta, e passara as últimas duas semanas vendo as decorações por toda a cidade, e mesmo assim ainda não havia caído a ficha.
— Nossa. Já é véspera de natal, né?
— É. E embora o seu presente para suas tias amadas seja mais uma despedida amanhã — Ur falou em tom de brincadeira —, nós temos uma coisa para você.
Ela se levantou, deu a volta na poltrona onde estava sentada, e tirou uma caixa de trás dela. Era pequena e fina, do formato de um caderno, envolvida firmemente por uma embalagem natalina. Nicolas começou a tentar abrir, só que Ur o interrompeu imediatamente.
— Não, senhor! Só pode abrir amanhã.
— Ai, sério?
— Regra da família. Pode perguntar pra Aiko.
Nick soltou uma risada.
— Beleza. Obrigado, tias.
As duas esboçaram aquele sorriso emocionado que aparecia toda a vez que o rapaz as chamava assim, e que não falhava em aquecer o peito dele também. Porém, não demorou nada para a expressão terna dar lugar para aquele olhar desviado, os lábios apertados, a puxada de ar antes de entrar no assunto ruim de novo.
— Você tem mesmo que ir? — Foi Ultear quem começou.
— Tenho… Desculpa, só não posso correr o risco de colocar vocês em perigo também.
Nick sabia que ainda existia uma parte delas que o achava paranóico. Ele também se achava um pouco. Ainda assim, o medo de Edmond era maior.
— O que seus amigos disseram na carta? — Ur perguntou.
— Bem — o rapaz suspirou, abriu um sorriso meio envergonhado —, basicamente me deram uma bronca por ter ido embora desse jeito e disseram que eu deveria voltar, porque vão lutar do meu lado.
— E essa não é a resposta que você precisa, querido?
— Ah, já sabia que essa seria a reação deles. Não me deixa feliz causar essa preocupação, mas também não posso deixar que carreguem o meu fardo. Esse vai ter que ser meu jeito de cuidar deles dessa vez.
Nicolas disse tudo isso de cabeça baixa, batucando o presente nas mãos, então não viu os olhares das tias que gritavam um “ah, não”.
— Escuta — Ur começou firme, e Nick levantou a cabeça já esperando por mais uma bronca. — Quando se trata de amigos de verdade, compartilhar uma dor nunca é criar um fardo, porque doloroso mesmo para eles é saber que você está lidando com algo difícil sozinho. Embora eu entenda você sentir que está cuidando deles desse jeito, gostaria que tentasse se colocar do outro lado: o que você sentiria se visse um amigo importante se afastando para sofrer sozinho? Teria alguma tranquilidade na sua cabeça? Você não preferiria estar do lado dele?
Não é que Nicolas não soubesse de tudo isso; esse pensamento já tinha rodado sua cabeça algumas vezes, mas o medo e a culpa formaram uma barreira tão grande que até podia sentir enquanto ela repelia as respostas lógicas e transformava tudo em mais incerteza, em mais vontade de ficar longe das pessoas. Cada vez que pensava nisso, o que vinha de volta era um pouco do que se encontrava nas palavras que escaparam em seu sussurro:
— Talvez seria mais fácil para todo mundo se eu simplesmente não estivesse aqui.
O problema, ele descobriu, era que não dava para segurar depois que aquela torneira se abria. Baixou a cabeça de novo, porque não conseguiu tolerar nem um segundo das caras que suas tias fizeram.
— Ah, Nick, não…
— Até porque, foi por minha causa que meus pais morreram, né? É por causa do meu poder que vocês perderam seu irmão.
E por trás daquela barreira, essa era a única verdade em que acreditava — e, ao mesmo tempo, da qual tentava ao máximo fugir.
O silêncio que inundou a sala de estar foi tão pesado que fez pressão sobre os ombros do pobre rapaz. Sua vontade era de voltar no tempo e impedir a si mesmo de falar aquelas coisas. Como podia ser tão idiota? Viu nos rostos das tias: era assim que fazia mais gente sofrer à toa.
Mas depois de longos segundos deixando o ambiente absorver aquele sentimento, Ur e Ultear chegaram perto, seguraram suas mãos, e o obrigaram a encará-las de novo. Estavam chorando.
— O culpado dessa história é aquele homem maldito — a mais velha declarou, devagar e firme. — Você era só uma criança.
— É verdade que conhecemos muito pouco de quem você se tornou, mas temos a sua infância viva em nossas memórias e conhecemos a alegria infinita que tem sido te ter nossas vidas de novo. E é com isso que digo com certeza: enfrentar o mundo por você sempre vai ser muito melhor do que não ter você nele.
Seu interior enfrentava um cabo de guerra; um lado tentando acreditar fielmente naquelas palavras, e outro tentava fazer suas próprias distorções cobrirem o coração em uma manobra de autodefesa. Enquanto o lado de dentro brigava, do lado de fora foi impossível de segurar: como Daniel Fullbuster faria, Nicolas Evans chorou copiosamente nos braços da família.
. . .
O dia da partida começou com um gosto agridoce. Ainda antes do sol nascer, as tias de Nick preparavam um café da manhã reforçado, e os três comeram tudo juntos em um silêncio cortado apenas por pequenos comentários triviais. Para elas, era a tristeza de o sobrinho estar indo embora de novo; para ele, era a estranheza de ter aberto uma parte tão sensível do seu sentimento.
Não queria prolongar mais sua estadia ali, então quando terminou de ajudar na louça, voltou ao quarto apenas para colocar o casaco e pegar as malas já arrumadas. Parou um minuto diante do espelho de corpo que tinha ali: tinha engordado um pouco de novo depois de seis meses emagrecendo, as olheiras tinham amenizado, e seu cabelo estava maior. Sentia-se diferente por dentro também, mas não sabia se isso era bom.
Ur e Ultear o acompanharam até a porta com os olhos cheios de lágrimas e sorrisos trêmulos. Depois dos longos abraços em cada uma, Nick suspirou e abriu o melhor sorriso que pôde.
— E aí, algum último conselho?
— Você ainda não dominou a magia de Dragon Slayer, né?
Embora tenha durado um segundo, a careta de Nick foi a resposta perfeita.
— É bom aprender a dominá-la — Ultear apoiou. — O ruim é que ninguém pode te ensinar isso: como é a magia mais intrínseca em você, só vai conseguir acessá-la de verdade quando fizer as pazes com o que está machucado aí dentro.
Quando o rapaz abriu a boca para responder, Ur já cortou.
— Eu sei… Isso dói. Você culpa esse poder pelo que ele levou embora e pelo perigo em que te colocou. — Nick só concordou com a cabeça, meio envergonhado. — Mas não pode deixar que sua própria magia continue sendo só uma arma nas mãos do inimigo. Precisa que a torne sua. Ouviu bem?
Ainda hesitante, Nick fez que sim de novo. Ur colocou as mãos em seu rosto, enquanto Ultear lhe entregava um sorriso encorajador ao lado.
— Use essa jornada para você mesmo, Nicolas.
Sob o vento frio e a luz preguiçosa da alvorada, Nick se despediu da única sensação de lar que teria em algum tempo, com passos firmes e o coração vacilante.
Pegou o primeiro trem, com destino qualquer, que o levaria para longe dali. Levou ainda dez minutos de viagem para se lembrar:
Tinha um presente de natal.
Tirou da mala e abriu a embalagem com uma pressa repentina. Para sua surpresa, realmente era um caderno, mas não era novo: um bastante usado, até amassado, com um mancha na capa marrom que parecia ser de café. Abrindo a primeira página, uma nota adesiva nova contrastava com o papel embaixo.
“Nicolas,
Sua mãe mantinha esse diário para registrar cada dia da sua vida desde que você nasceu. Achamos que você vai gostar.
Leia com calma, tá?
Te amamos muito. Aqui sempre será sua casa.
Com amor, tias Ur e Ultear.”
Ficou cinco minutos paralisado. Levou mais uns quinze até tomar coragem para virar a página.
Não estava preparado para ser atravessado com tanto amor assim.
Não estava preparado para nada daquela jornada.
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