Notas iniciais
Você perdeu,
E contempla a lua de tão longe, com um coração covarde.
Você perdeu,
E se enfia por entre os prédio, tentando se esconder da própria covardia.
Você perdeu,
Mas a lua nunca lhe reprovou por isso.

Eu os observei.

Estavam naquele corredor de antes, com as pinturas penduradas. Faltava Kirishie.

Stark admirava seus quadros e Charlotte estava imersa em seus pensamentos, falando consigo mesma qualquer coisa sem muita importância.

“O que a Kirishie foi fazer?”

“Eu não tenho nem ideia.” Stark suspirou, tocando a pintura que continha a garota de orelhas de raposa “Eu queria que ela fosse normal.”

Stark, ela é uma bruxa.

“Pode me explicar mais uma vez o que eu estou fazendo aqui?” A morena se virou, inquisitiva ao garoto.

“Lotti… Eu previ a vinda de algo tão poderoso que pode até mesmo destruir nosso mundo. Um espirito tão furioso e enraivecido e que não poderemos contê-lo como contivemos você.”

“E precisam de mim para quê?”

“Bom, o que vai acontecer é algo um tanto quanto inédito.” respondeu “Essa garota morreu, mas algo a manteve presa aqui, mesmo depois de esvaziada e ocupada novamente.”

“Ahn…”

Ele revirou os olhos “Ela morreu mas não passou pro outro lado.”

“Fez mais sentido.”

“Ou seja, ela está em uma especie de area de interseção. Ela não vai, pois algo a prende. Nem volta, pois já está morta. E você… Bem…”

“O que ele quer dizer,” a voz de Kirishie a anunciou, e ela estava com a cara fechada “é que você, sendo essa besta incontrolavel que pode viajar de lá pra cá, e como ela não está nem lá, nem aqui, e nós dois estamos lá, você é a única que pode lutar contra ela.”

“Fez ainda mais sentido.”

“Claro que fez, esse garoto não sabe de nada.”

Ficaram discutindo por mais alguns minutos, repassando para Charlotte o que ela devia fazer.

Sim, um acontecimento inédito que Light havia previsto — pintado, na verdade. Uma garota morreria mas algo tão forte a impediria de ir em paz, ou até mesmo de ser ocupada. Ela nunca seria esvaziada, mas sim, ocupada por ela mesma. Um espirito que permanece aqui, e que está cheio de ódio.

Mas o mundo está cheio de fantasmas enraivecidos, não? Este é inédito, pois a Sociedade não conseguiria controlá-la. Esse é o destino. Ela falharia.

E ele também preveu o despertar de Charlotte. Acharam que ela seria a solução, mas alguns não aceitaram isso. A Sociedade ficou divida, enquanto a outra parte tratava a morena como um messias.

O que interessa é que, os superiores de Kirishie acreditaram, e agora ela precisa ser domada.

Hm… Parece que o reinado de previsões do maldito albino está acabando.

“Enfim, melhor você parar de se preocupar com isso. Vamos saber quando isso acontecer. A Sociedade monitora todo esse tipo de atividade sobrenatural.”

“Eu só não entendo porque eles acreditaram na minha previsão sobre a garota, mas não sobre Charlotte…” Stark lamentou, mirando o outro quadro, da garota de chapéu pontudo.

“Quem acreditaria em alguém tão velho como você? Já deve estar ficando maluco, isso sim.”

“Escute aqui, sua maluca! Eu não…” Stark balançava os punhos no ar, raivoso, mas Kirishie já havia voltado para casa.

“Ela ainda está irritada com o assunto do quarto ou está de tensão pré-menstrual?”

“Acho que os dois, Lotti.”

***

Já havia anoitecido e lá estava eu, grudada no céu.

Os olhos de Charlotte grudados em mim.

Mas que pena, ela já não podia ver. É engraçado como as coisas demoram pra se ajeitar.

Me pergunto se algum dia poderá voltar a ver.

Uma forte brisa gelada soprou, fazendo o tecido leve do yukata balançar. De algum lugar escondido, Zankoku caiu ao chão, fazendo barulho alto. Charlotte abaixou-se e tateou o local até encontrá-lo.

Os cabelos castanhos, extremamente longos, aos poucos, desmanchavam o coque que Stark havia feito no alto da cabeça.

Estavam enormes, quase alcançando o chão, ela pensou enquanto acariciava uma mecha qualquer. As pontas estavam quebradiças, mas a raiz já estava forte e bem brilhante.

Como um ato de desistência, juntou o cabelo até certa altura que ficou demarcada com a mão. Num movimento rápido, cortou, jogando o restante no chão como se fosse um peso morto.

Sentiu-se leve. Os olhos esbranquiçados se voltaram para o céu, para mim. Ainda queria me alcançar?

Bocejou antes de fechar a janela e repousar em sua cama. O inverno estava chegando.

***

E no outro dia, Kirishie e Stark estavam no quarto de Charlotte. Ela olhava pela janela, no lugar em que eu deveria estar. Os cabelos curtos, com as pontas irregulares.

Stark reclamava, dizendo que era um desperdício tanto cabelo ser cortado daquela forma.

Já Kirishie exclamava, alegremente, que de um jeito ou de outro, o cabelo da garota seria cortado. Exibia o livreto preto com a garota de quimono na capa.

“Isso é só um capricho seu, temos que respeitar as vontades dela.”

“E a vontade dela era cortar o cabelo, exatamente a minha vontade. Curioso, não?”

O albino revirou os olhos, irritado “Qual o seu problema? Aceitou esse trabalho só porque ela parece com uma personagem que você gosta?”

“Ela não parece. Ainda.” e saiu.

-- Toc toc toc

Fizeram os saltos de Kirishie pelas escadas.

“Nan jikan desu ka?” ela perguntou. O relógio se acendeu, destacando a frase ‘três e meia’.

A ruiva se sentou no sofá, tirando os sapatos e colocando os pés para cima. Ah sim, estava acabando. Ou melhor, estava para começar. A melhor parte estava para começar.

“Kirishie, ainda não terminamos!” Stark descia as escadas, incomodado.

-- Paft paft

“Terminamos sim, não enche o saco.” ela elevou os longos cabelos avermelhados e os prendeu num coque “Eu preciso de algum tipo de inspiração.”

“Já te disseram que você é maluca?”

“Muitas vezes.”

“Ótimo.” ele bufou “Espere até a Sociedade saber disso.”

“Sociedade, Sociedade.” Kirishie repetiu “Eles não dão a minima pra você e você fica aí, lambendo eles. Não passam de uns idiotas que acham que podem mandar em tudo.”

“Eles estão aqui para manterem o equili--”

“Eu sou mais velha que você, eu vi aquilo crescer e, acredite, a última coisa que eles querem é equilibrar algo.”

Houve um silencio. Ambos evitaram os olhares por algum tempo e, aos poucos, um sorriso confidente brotou em seus lábios.

Lá em cima, a última porta se abriu com um barulho alto. Charlotte correu em disparada, guiada por seus instintos e pelo mapa mental que havia feito em sua mente enquanto ainda podia ver.

“Stark! Kirishie!” ela gritou do alto da escada “O que aconteceu? Estão bem?”

“Não aconteceu nada, Lotti!” ela respondeu, acenando lá em baixo “Zenzen daijoubu desu yo!

“Que barulho foi esse então?”

“Ela chegou, Lotti.”

“Ela…?”

Charlotte buscou com seus olhos cegos algo que não reconhecesse. Ela não viu, mas à sua frente havia uma garota, aproximadamente a mesma altura, vestes escuras de mangas longas. Os sapatos aparentavam ser bem maiores que seu pés e, tanto seu chapéu pontudo como seu vestido eram adornados com sinos e penas castanhas.

A primeira vista, podia até ser confundida com uma coruja.

Talvez ela fosse isso mesmo.

“Yo,” ela disse, acenando com a mão. Na outra, havia uma vassoura rustica de palha “Tsuki-san desu yo.”

Light balançou a cabeça em negação “Outra maluca…”

“Quem é você?” Charlotte perguntou, sem mostrar medo ou insegurança.

“A Sociedade me designou para observá-los. Para certificar que o trabalho está sendo feito.”

“Está sendo, e muito bem feito.” Kirishie retrucou, levantando-se do sofá e se aproximando da escada.

“Vejo que já prepararam um aposento para mim antes mesmo de ser anunciado a minha vinda.” comentou com um tom irônico. Num decimo de segundo, sua figura desapareceu, e reapareceu ao pé da escada, próxima a Stark. As mãos apertaram as bochechas rosadas do garoto, formando um bico em seus lábios “Deve ser obra do cãozinho da Sociedade.”

“Não me chame assim, sua coruja!”

Perdeu o interese de imediato ao notar Charlotte novamente. Reapareceu ao lado dela, examinando-a cuidadosamente com o olhar. “Ela é estranha… Ela não deveria ser mais…”

“Mais o quê?” a morena indagou, incomodada

“Mais surda, eu acho.” a pequena bruxa respondeu, arqueando uma sobrancelha “Mas parece que você está mais para cega… Oh, é uma pena. Mas acho que não faz diferença.”

Pegou na mão de Charlotte e desceu as escadas, degrau por degrau, como uma pessoa normal. Juntou todos eles no centro da sala, e com um sorriso travesso disse “Vamos todos, logo a Acensão de Asanase vai começar.”

***

Notas finais
E BAM, último capitulo! Fading Into The Light acabou, e o proximo será B O N D S !
Obrigada por terem lido até aqui, quem quer que tenha lido ♥