Notas iniciais
As negras nuvens que trarão as chuvas de bençãos sobre meu forte
São as mesmas que me trarão as glorias da batalha.
As negras nuvens que trarão as chuvas de bençãos sobre meu forte
São as mesmas que saciarão minha sede.
As negras nuvens que trarão as chuvas de bençãos sobre meu forte
São as mesmas que me afogarão.

"Está tudo bem?" a voz da secretaria soou afobada e baixa "Você está sangrando, Kirishie!"

"Kirishie-san, por favor." ela disse, contraindo os labios "Alguém ouviu alguma coisa?"

"Não. Os filtros de percepção estão funcionando perfeitamente bem."

"Hontou ni? Tem certeza que nada, nem ninguém vê, ou passa por aquela por aquela porta?"

"Não tem com que se preocupar; está totalmente isolada."

Kirishie deu um fraco aceno de cabeça e voltou pelo corredor, pelas escadas.

No comodo mal arrumado, o corpo de Charlotte jazia sobre o sofá, inerte, adormecido, e dolorido.

“Como ela está?” Kirishie perguntou assim que abriu a porta

“Você sabe como ela está, Kirishie-senpai” ele respondeu, acariciando os fios escuros “O que está acontecendo com ela?”

“Devia saber. Você passou pelo mesmo.” Ela foi até o armario procurar por algo. Encontrou um rolo de gaze, enrolou-o a volta do corte em um laço, e caminhou lentamente para o sofá “É um assassinato diario, todos os dias, todas as horas. Um sofrimento eterno, uma luta por espaço, por sobrevivencia. O mais forte vence. E o que acontece quando os dois são o “mais forte”?”

“...”

“Eles coexistem. Mas é uma coexistencia dolorosa, pois ambos continuam se assassinando.”

“Por favor, pare.”

“Você profetizou isso, viu uma vez e não pôde fazer nada. E está vendo pela segunda vez, e não pode fazer nada.” Tendo o silencio ali presente, ela acrescentou “Estariam mortos sem mim.”

“A morte é uma escolha agradavel, quando ser normal, é ser anormal.”

“Vocês não são anomalias. São apenas... Mais desenvolvidos.”

“Esse é o problema. Não somos apenas um.”

“Um, ou dois, estão vivos e são vencedores!” Stark se levantou e ambos ajeitaram seus oculos “Imagine que, essa garota morreu, mas sua vontade de viver era tanta que lutou até o último segundo. Pelo que ela queria viver? Nem ela mesma sabe porque, sua hospedeira é extremamente forte e tomou todo o seu espaço, mas olhe, ela está viva. Ela ainda é humana. Ela ainda é a Charlotte.”

Os dois trocaram olhares, e puseram-se a observar o corpo que espasmava sobre o acolchoado.

“Ela está acordando, Kirishie-senpai?”

“Sim, ela está.”

“E o que ela exatamente é.”

“Justamente o que nós precisavamos.”

_____

E eu os observei.

Os observei dentro daquela sala onde apenas os olhos mais espertos chegariam e, ainda mais esperta fui.

Dentro daquele corpo, daquela mente, daquela alma cheia de incerteza, perdida, cega e surda ela brigava consigo mesma. Brigava com o que era agora. Qual delas tomaria o controle quando os olhos se abrissem? Talvez as duas? Talvez, até mesmo, nenhuma.

Então, quando eles finalmente se abriram, mirando o teto. Ela inspirou fundo e olhou para os lados. Viu Star e Kirishie conversando, reservadamente.

“Kirishie-senpai, ela acordou!”

Yokatta!” a ruiva se aproximou aos pulos, como sempre “Daijoubu, Lotti-chan? Você nos deu um baita susto!”

“O que... Aconteceu?” Charlotte sussurrou e se sentou no sofá. Seu corpo parecia relativamente pesado e suas temporas latejavam. Ela levantou a cabeça, assustada, os olhhos vidrados na parede, atentos. Podia ouvir passos. Não, eco de passos em sua direção. Sua garganta secou e ela meneeou a cabeça na direção do som.

“Algo muito importante está acontecendo. Kowakunai de, nós vamos te proteger!

Ela ouviu a voz infantil de Kirishie, mais como um eco distante, ou quando se ouve algo embaixo da água. Ela estava ouvindo, mesmo que apenas ruídos, mas estava ouvindo.

“Eu não tenho a minima ideia do que disse, mas... Mas eu lhe ouvi.”

Stark e Kirishie se entreolharam, um pouco confusos. Os labios da ruiva se moveram de forma inutil, e Stark se apressou em analisar os olhos dela, segurando o rosto de Charlotte pelo queixo.

“Consegue me ouvir?” Ela ouviu o ruívo da voz de Light, irritante porém agradavel. Os olhos castanhos se moveram minimamente e apenas isso. “Parece que a audição está voltando.” Declarou.

“Como pode estar voltando? Arienai yo!” a ruiva bradou, cruzando os braços “A Sociedade disse que os ouvidos humanos nunca se acostumariam a...”

“Mas estão acostumando!” ele puxou alguns fios de cabelo para trás, mordendo o labio inferior. Parecia confuso “Você pesquisou certo? Você tem certeza que...”

“Se... Se ela recuperar a audição...” Kirishie agora parecia extremamente preocupada “Então ela não é quem pensamos que era.”

Eu vi Kirishie sair apressada do comodo sendo seguida por Stark, que puxava Charlotte pelo pulso. Os olhos castanhos e estaticos, mirando as gravuras emulduradas e penduradas nas paredes que agora pareciam simples borrões de tinta, enquanto o barulho de passos se tornava, não um eco, mas algo ligeiramente palpavel.

Algo que ela palpava com os ouvidos.

Subiram as escadas até a casa de Kirishie onde ela, violentamente, abriu a porta vermelha e correu até à estante de livros, puxando um cordão que estava em seu pescoço. O pingente de uma chave o adornava, e ela introduziu a chave em uma das gavetas que havia ali.

“O que está fazendo, Kirishie?!” O albino bradou, mas não vou resposta. Ela procurou por entre varios livros, um que tinha uma capa arroxeada, e o desenho de uma garota de quimono. Olhou as paginas com cuidado, olhou a capa novamente e subiu as escadas correndo. “Para onde você vai?”

“Eu vou falar com o conselho. Chotto mate ne!” e, dizendo isso, abriu a porta de seu quarto e desapareceu para dentro dele.

Charlotte forçou os olhos, tateando ao redor, até encontrar o sofá branco, e sentou-se. Stark sentou-se ao seu lado, suspirando cansado. A garota permaneceu em silencio, contemplando o nada.

“Então...” ele começou, pigarreando “Pode me ouvir?”

Charlotte tocou a orelha com a ponta dos dedos, virando-se para Light “Perfeitamente.”

“Oh, ótimo! E a sua visão?”

Ela esfregou os olhos como se estivesse com sono e respondeu “Parece tem areia nos meus olhos. Estão secos, mas embaçados.”

“Pisque-os o maximo que puder.” O albino recomendou

“Será que agora você poderia me explicar alguma coisa?”

“Acho que uma imagem diz mais do que mil palavras por si só. Pensei que, com o benefecio da visão aprimorado, já tivesse descobrido algo.”

“De fato, descobri algumas figuras de tinta que”

Stark a cortou “Como elas eram?”

“Eram... Figuras de tinta. Figuras humanas. Coisas humanas. Pensamentos humano.” Ele suspirou, recostando-se ao sofá “Pode me explicar?”

“As vezes, os artistas colocam... Desejo demais em suas criações. Algumas se parecem com eles, outras se tornam eles, e umas acabam ganhando vida propria, uma personalidade...”

“E quem é Astunt? O autor das pinturas?”

O garoto engoliu em seco, ajeitando um oculos “Um velho amigo de Kirishie-senpai. Sim, um velho amigo...”

“Os quadros do corredor. A lua, a garota no quimono, o garoto que se parecia com você. São de Astunt também?”

Light Stark permaneceu quieto. Como se soubesse que eu o observava, ele assentiu com a cabeça, sorrindo. Pisquei algumas vezes, tentando entender tal comportamento.

“Por que justamente agora que posso lhe ouvir, você não fala nada?”

Stark se espreguiçou, e colocou-se à frente dela.

“Não sei como vou explicar sem seus sentidos completos mas, vamos lá...” houve uma pequena pausa e ele retomou “Há coisas no mundo que não podem ser vistas. As que não devem. As que são proibidas. Mas há também pessoas podem ver essas coisas. Mesmo que seja errado.”

“E o que isso tem a ver comigo?”

“Quando digo “ver”, não é apenas “enxergar”. É ouvir. É sentir. É tocar. É poder falar.”

“O que isso tem a ver comigo?” ela insistiu

“Charlotte, você morreu.” Ela revirou os olhos, bufando “Não só morreu mas, quando morreu, algo se alojou no seu corpo e te empurra para esse mundo de coisas que não podem ser vistas. Seus sentidos humanos estão tentando se acostumar a esse novo mundo, ao passo que você tenta se puxar de volta para o seu mundo. É isso o que está acontecendo.”

“Como. Assim.”

Ele se aproximou, ajoelhando-se à sua frente, tocando os joelhos de Charlotte “Lotti, seu sentidos precisam aceitar que certas coisas existem. Pensamos que você seria um pouco mais dificil de lidar, pois não sabiamos como abrir os seus ouvidos. Mas os seus olhos, ah, são muito mais faceis.”

Gentilmente, ele retirou seus oculos e colocou-os no rosto da morena. Ela piscou algumas vezes e sua respiração falhou. Por alguns milesimos, seu corpo parou e seus olhos deslizaram pelo sorriso acolhedor de Stark até o seu redor.

Rapidamente, retirou os oculos da face e jogou-os para longe. O que ela havia visto, nem a minha, nem a sua, nem a imaginação da coruja, nem todas essas imaginações juntas poderiam enxergar.

Era algo muito além da minha compreensão.

Notas finais
Aaawwwgh, eu sinto muito, mas não farei um glossario, eu 'tô praticamente morrendo! haha'
Qualquer duvida, perguntem, por favor! ♥