Fading Into The Light
3 Esmeralda
Notas iniciais
E escapar pelos meus fracos dedos.
Eu vi você se afastar para um tempo mais brilhante
E fechar a porta que abrimos.
Eu vi você se afastar para um tempo mais brilhante
Enquanto eu me misturava ao passado obscuro.
Eu a observei.
E ela, de sua janela, me observou.
Eu estava com medo de que acontecesse de novo. De que ela tentasse me alcançar, por isso me escondi.
Seus olhos buscam a luz pelos cantos do céu. Cansada, desistiu, e deitou-se em sua cama.
Era fofa e confortavel. Parecia-se com a cama de sua casa, mas algo era diferente. A sensação era diferente. Charlotte não entendia o que estava fazendo ali, mas conseguia sentir que ali era o lugar certo para que ficasse.
Sua mente rebobinou todo o filme que correu até agora.
Tudo aconteceu tão rapido. Mal acordou e já estava indo dormir. Mal acordou e já tagarelaram sem limites.
Ela se sobressaltou.
Lembrou-se de um quarto pouco luminoso, uma brisa seca, folhas voando pelas janelas e alguém ao seu lado, de cabelos claros cor da luz do luar.
"Abra os olhos, minha besta." ela sussurrou para si mesma.
Franziu o cenho. Sua cabeça estava cheia de palavras. Palavras ditas, escritas, como se seu cerebro fosse um grande quandro negro e alguém as desenhasse.
"Abra os olhos..." ela sussurrou novamente.
Um grande barulho invadiu sua cabeça. Por algum motivo, lembrou-se de tudo que lhe fôra dito, em um turbilhão de memorias. Como um computador acumulando dados, lembrou-se dos quadros, lembrou-se do nome dos autores e lembrou-se do que Kirishie pensava sobre eles.
Lembrou-se da voz de Kirishie. Era alta, e parecia infantil para a idade dela.
Lembrou-se de alguém sentado em um banco. Como se chamava mesmo?
"Light Stark?" pronunciou, com a voz seca.
Lembrou-se de Light Stark prometendo lhe visitar, prometendo levar ela consigo.
"
Ela se perguntou o que veio antes disso. Não sabia pois havia desviado sua atenção para os labios de Light Stark.
Continuou repassando seus dias de recuperação, até se lembrar de dois grandes olhos azuis. Flamejantes de raiva.
As duas se olhavam. Uma, o reflexo da outra, vestindo o mesmo quimono preto com flores rosadas. Estavam sentadas, observando a si mesmas.
Se é que poderia ser considerado uma garota.
A maçaneta girou e a porta se entreabriu. Um feixe de luz amarela iluminou parcialmente o quarto. Houve um barulho que parecia gotejar. "Charlotte..." ela ouviu novamente, arqueando uma sobrancelha, como se estivesse com tédio.
Levantou-se da cama.
–- Nheeeck nheeeck
Fizeram as passadas de Charlotte no assoalho de madeira.
Ela caminhou até à porta, olhos caídos de sono e desinteresse. Abriu-a de uma vez, e não havia mais nada além do lustre que jorrava luz amarela pelo extenso comodo lá embaixo.
Mirou o chão. Minusculas goticulas de tinta, amontoadas em uma trilha até à porta vermelha, que também estava entreaberta.
"Kirishie disse algo sobre a porta vermelha? Eu não me lembro..." ela sussurrou para si mesma.
Eu também não me lembrava.
Seguiu até a porta vermelha.
–- Nheeeck
Fez a porta. Charlotte olhou para trás, temendo ter acordado a dona da casa. Prosseguiu para a galeria, que estava com suas luzes apagadas.
A má iluminação dava um ar sinistro à galeria. Charlotte engoliu em seco antes de dar o primeiro passo.
O chão estava um pouco umido, talvez até pegajoso. Não conseguiu enxergar as pinturas nas molduras devido a escuridão, mas algo parecia escorrer dela. Como tinta fresca gotejando.
Aproximou-se de uma das molduras. Se chamava O Soldado, e fôra pintada por um tal de Astunt Edmond. Charlotte lembrou-se disso.
Correu os dedos pela moldura dourada, e notou a tinta que escorria na parte de baixo, como se o quadro estivesse transbordando.
O quadro ao lado, também por Astunt Edmond. A Mulher Em Vermelho escorria tinta de vermelho vivo e outros tons mais claros.
Todas as pinturas que pendiam naquela parede estavam no mesmo estado. Ela contemplou as mãos sujas de tinta, caminhando pela escuridão. Chegou à seção onde as pinturas eram dispostas pelo chão. Sentiu a maciez das flores que estavam lá, e sentiu seus pés serem envoltos por algo liquido, frio e azul-escuro, que acabou manchando seu pé.
Mãos geladas que pareciam ser feitas de uma solução mais grossa que a água a puxaram para trás. Ela contemplou a pintura do fundo do mar no chão. Um peixe acinzentado pulou e, antes que pudesse cair de volta, se desfez e caiu por sobre a tinta, pintando-se novamente em seu lugar.
Charlotte olhou a mancha em seu quimono. Alguns tons mais claros que a sua pele manchavam o tecido em forma de dedos.
Virou-se e elevou o olhar. Os olhos acostumados com a escuridão se arregalaram de forma sutil, e sua boca secou na hora. Estava surpresa.
À sua frente, uma figura feita de tinta. Uma perfeita figura humana, que gotejava tinta, que parecia ser feita por dentro, e por fora de tinta. De seu rosto escorria uma tinta infinita, assim como em todo o seu corpo.
"Você quase caiu." ela disse como uma voz doce.
Os cabelos negros escorridos, e os olhos que olhavam apenas uma única direção e que piscavam ocasionalmente. As roupas e o chapeu avermelhados pareciam um rio vermelho que corria por seu corpo.
"O quê?" Charlotte perguntou, quase sem voz "O que é você?"
"Me chamam de A Mulher Em Vermelho." ela respondeu, soltando um riso baixo "Mas pode me chamar de Vermelho."
"Vermelho?"
"Sim. E você é Charlotte Thompson, não? Filha de Kirishie Sunao."
"Filha não." ela negou categoricamente "Ela é apenas minha guardiã legal." por alguns segundos, ela se perguntou onde aprendera isso.
"Em todo caso..." Vermelho foi interrompida por um barulho de passadas altas.
–- Paft! Paft!
Faziam as passadas da figura que se aproximava.
Alta e corpulenta, desajeitada, gotejando tinta igual Vermelho.
Charlotte recuou, prendendo a respiração.
"Está tudo bem. É só O Soldado."
O Soldado se aproximou, segurando uma lança. Curvou-se diante Charlotte, e bateu a arma no chão uma única vez. "Bem vinda, Lady Thompson."
"Não ligue para ele. Ele é formal demais as vezes" a morena fez que sim a cabeça, enquanto seus instintos a mandavam correr "Como eu estava dizendo... Nós preparamos uma festa para você."
"Festa?" ela repetiu "Mas por quê?"
"Lady Thompson ficará conosco agora." explicou O Soldado "Uma festa de boas vindas é mais do que apropriado."
Seguiram pelo corredor que se extendia, até uma curva. Um amontoado de estatuas e outras criaturas de tinta foram descobertas ali.
Havia uma escultura de rosa em um canto, conversando com uma moça de chapéu de palha e vestido branco. Noutro lugar, um sofá rosado com três garotas de vestidos coloridos sentadas nele.
Um casal de namorados que não se largavam por um minuto.
Um homem que fumava um cigarro, encostado na parede.
Até mesmo uma mesa, com uma bonita toalha, enfeitada com um banquete e candelabros. Perto, uma rainha com roupa de rei, e um rei com roupa de rainha. Um sujeito com a boca muito grande. Uma mulher vestida de retalhos, que carregava três bebês em seus braços. Um cachorro de cores estranhas que rosnava para um gato de olhos purpura.
No centro, um grande bolo com três velas acesas. Ao redor dele, três criaturinhas de tinta pulavam, alegres.
"Como se chamam?" Charlotte perguntou
"Os Três Diabos." Vermelho respondeu
"Sim mas, seus nomes. Como são?"
"Não sabemos. Apenas os chamamos de Os, Três e Diabos." disse, apontando para a figura vermelha, amarela e azul respectivamente.
O Rei bateu palmas e anunciou "A convidada especial está aqui!"
Logo em seguida, a Rainha proclamou "Está aqui, a convidade especial!"
O sofá moveu-se desajeitadamente para perto do bolo, jogando as garotinhas que estavam sentadas nele. Convidou Charlotte a se sentar e, muito relutante, ela aceitou o convite. Sentiu seu traseiro se afundar na tinta espessa e fria. Não era uma sensação tão ruim.
Todos em coro anunciaram "Seja bem vinda, senhorita Thompson!"
Houve imenso barulho de conversa. Todos falavam ao mesmo tempo, sobre suas roupas, seu rosto, sobre o que aconteceria. Os e Três correram até seus pés, fazendo cocegas e Diabos subiu até sua cabeça, embaraçando alguns fios.
"Vocês três, deixem a garota em paz!" ralhou a mulher vestida em retalhos "Não tratamos convidados especiais assim!"
As três criaturas soltaram um barulho esganiçado e se afastaram para brincar com as três meninas de vestidos coloridos.
"Sinto muito." ela se desculpou para Charlotte "Sou a Mulher De Trapos mas, todos de chamam de Trapos."
"Trapos...?"
Trapos se preparou para falar mas suas três crianças iniciaram um choro estridente, e ela se afastou.
O cachorro e o gato vieram se roçar em suas pernas. A mulher de chapeu de palha sentou-se ao seu lado, a Rosa a acompanhou. Logo em seguida, o casal de namorados depositou-lhe um beijo em cada bochecha e o homem que fumava lhe ofereceu cigarros.
O homem de boca grande se aproximou. "Está na hora da convidada apagar as velas e fazer um pedido!" anunciou, fazendo uma reverencia.
Foi quando eu vi algo que não esperava ver.
Naquela escuridão em que Charlotte se encontrava, sentada, olhando para si mesma, para o seu proprio reflexo. Eu vi a Charlotte que sabia, que se importava levantar e, com um sorriso em seus labios, tomar o pescoço branco da outra em suas mãos. Sacudiu-o por todos os lados, jogando-o no chão.
Um sorriso brotou nos labios de Charlotte. Sua face se iluminou, assim como seus olhos que chamuscavam de excitação. Tomou folego e assoprou o trio de velas, fazendo um desejo que talvez eu nunca vá descobrir.
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Por um vago instante, fiquei curiosa.
Voltei meus olhares para outro lugar, que não fosse o lugar onde Charlotte estivesse.
Chequei seu quarto e este continuava escuro, recebendo apenas a iluminação de fora. Junto à porta, nunca esperei encontrá-la ali mas, estava Kirishie. Usava um roupão esverdeado, transformando-a em uma grande esmeralda, e estava com o celular colado ao ouvido direito, escutando um farfalhar que saia de sua galeria com o outro ouvido.
"Está começando." verbalizou, dando uma risada levemente afetada.
Notas finais
Obrigada por lerem até aqui! ♥
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