Saio da pensão junto da Selene e novamente Fior saiu na frente rumo ao local onde estávamos de noite.

Só nos resta ir na direção contraria.

Olho para céu limpo e sem uma nuvem se quer, o brilho sol ainda está suave para esse início de manhã.

−O sol está forte hoje, não consigo ver nada.

−Eu queria dormir mais um pouco.

Selene reclama de não conseguir ver direito, mas é porque ela acabou de acordar e nem se quer lavou seu rosto.

−Deixa disso, vamos fazer nosso trabalho e depois ir comprar um bolo quando a loja abrir.

Seus sinais de cansaço são visíveis porque voltamos bem tarde a noite.

Aquela órfã me fez lembrar de muitas coisas ruins da minha vida e a forma que cidade se encontra é estranha.

Caminhando pela rua principal da cidade, percebo melhor a grande quantidade de lojas que a cidade tem. A noite não parece a mesma cidade aparentemente alegre e cheia de vida, é assustadora e o ar frio do outono causa calafrios.

Em silencio nos aproximamos da entrada da cidade e sinto minha manga esquerda ser puxada.

−Ei, Hector.

Selene está com um olhar sério e concentrado para uma casa próxima a entrada da cidade.

Meu olhar se desvia para essa casa com um pequeno espaço com flores brancas e amarelas.

−Aquela casa tem um cheiro estranho.

−O mesmo cheiro que tem o Chaos, tenho certeza que há uma Sombra lá.

Selene está olhando fixamente para aquela casa cheia de flores, procurando algum traço que indique uma Sombra.

Growl!

Ouço um estranho som próximo de nós.

−Hector...

−Ahn! Estou com fome, por favor vamos comer um bolo.

Era o som do estomago dela reclamando de fome, mas não tem uma loja aberta ainda.

Vamos ter de procurar alguma que esteja abrindo.

−Mas está cedo para alguma loja abrir agora.

Ela faz um olhar de cão sem dono.

Como resistir a um olhar como esse?

Eu queria saber fazer isso, é muito difícil resistir a esse olhar.

−Entendi, vamos procurar na próxima rua se tem algo aberto.

Selene tende a comer muito e geralmente são doces.

Então ela praticamente está com fome sempre, mas vou dar um desconto dessa vez já que quando chegamos todos caíram no sono.

Viramos para a direita na direção que devemos ir e passamos na frente da casa com uma possível Sombra.

É uma rua longa que parece ir até uma loja, na qual avisto de longe.

−Selene, como você parou no Chaos?

Caminhando silenciosamente pela rua vazia sob um sol levemente quente.

O som dos pássaros de manhã é tão bom, espalha uma certa alegria e vida.

−Porque isso de repente?

−Além disso nem eu mesmo sei como fui parar lá.

−A única coisa que lembro bem é quando encontrei você, parece que eu estava dormindo esse tempo todo.

Apesar de sua reclamação, aos poucos ela começa a se abrir comigo.

Ela e Fior são bem parecidas no quesito comportamento.

−Pensei que você conseguia usar seu poder para aparecer no mundo real.

−Você parece estar bem acostumada com a nossa vida.

É algo incomum vindo de alguém que afirma sempre ter vivido no Chaos.

−Eu nunca saí do Chaos ou matei alguém.

−Simplesmente sei como viver aqui e é por isso que recuperar minha memorias é essencial para mim.

Por alguma razão eu acredito nela, é um sentimento que não sei explicar nem para mim mesmo. Como se eu já conhecesse ela e seja capaz de entender sua situação.

−Ah! Tem uma loja aberta ali.

−Hector, vamos, vamos.

Ela puxa meu braço esquerdo para correr junto com ela.

Correndo na direção daquela loja no final da rua, Selene mostra um sorriso contente como uma criança quando encontra o brinquedo preferido para comprar.

Chegamos na frente da loja e vejo as mesmas flores daquela casa.

A placa dela diz “Confeitaria da Amélia”.

Selene empurra a porta devagar, mas quando ficamos de frente para a parte de dentro do estabelecimento encontramos uma cena inesperada.

−Tsk! Uma Sombra está perto, consigo sentir seu cheiro.

A loja está destruída, as paredes têm marcas de arranhões gigantescos, as mesas e cadeira estão jogadas para todo lado e muitas delas quebradas. Tem algumas marcas de sangue no balcão e no chão.

Alguém se feriu e correu para os fundos da loja.

A Selene fica em alerta.

−Devemos ter cuidado então.

−Sozinhos vamos muito problema se a Sombra decidir atacar.

Silenciosamente vasculho o balcão e algumas mesas.

Hiss!

Sinto a presença de algo atrás de mim. Alguém correu para os cômodos de trás, essa sensação de ser vigiado pelas costas me incomoda.

Olho para a porta que leva aos fundos da loja. Com passos calmos e lentos, me aproximo da porta que divide a loja dos seus cômodos internos.

Fecho meu punho direito e concentro um pouco da magia no braço.

Concentrando meu olhar para a entrada escura e não sei se a Selene percebe o que estou fazendo.

Creeeek!

Droga! Pisei em algo solto do piso de madeira.

Rawww!

Algo cinza escuro pula em minha direção e em questão de segundo meu braço se move.

Pow!

Grrrauurrr!

Boom!

No susto acabei usando o Impact Burst nele.

Coff! Coff!

Coff! Coff!

Somos pegos por uma cortina de poeira que invade o salão.

Não consegui ver direito, mas era algo pequeno e desfigurado.

−O que é isso?

−Coff! Coff!

−Hector, onde você está?

Selene tenta alcançar sua mão em mim.

−Estou um pouco a sua frente.

−Alguma coisa pulou para cima de mim, parece ser uma Sombra.

Consigo pegar a mão dela e ela consegue chegar perto.

Aos poucos a poeira abaixa.

−Hector... Selene.

−Onde vocês estão?

A voz de Fior vem de fora.

Como ela conseguiu chegar aqui rápido?

É a segunda vez que ela faz isso.

−Estamos aqui dentro, um segundo vamos sair.

De mãos dadas caminhamos até a saída do estabelecimento completamente destruído. Quando saímos, encontramos a Fior com suas sobrancelhas inclinadas demonstrando preocupação.

−Vocês estão bem?

−Escutei um barulho de explosão e vi uma fumaça vinda da direção em que vocês estavam.

−Então vim o mais rápido possível.

Sua expressão não demonstra cansaço, mas conhecendo o quanto ela é energética duvido que ficaria cansada facilmente.

−Estamos bem.

−A medida que o possível.

Olho para a trás e percebo uma cortina de fumaça saindo justamente do local onde joguei aquela coisa desfigurada com a minha magia. Naquele momento percebi que aquela sombra dentro do Chaos era bem poderosa em relação a essa.

−Não sinto o cheiro de alguma Sombra por perto, ele fugiu talvez.

Selene tenta encontrar a criatura olhando para a direção da confeitaria, mas parece que o inimigo simplesmente desapareceu.

Não tem muito o que fazer agora.

Partimos de volta ao nosso quarto, mas antes passamos na loja da avenida principal e compramos alguns doces para comer agora de manhã.

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Sentados na mesa do quarto, estamos aproveitando a tarde com um pouco de chá e bolo como de costume.

−Ter que esperar até a noite para sair atrás de uma Sombra é muiiito chato.

−Porque eles fazem isso?

A impaciência da Selene reflete sua vontade de entrar em uma briga.

Ela parece se irritar facilmente com as outras Sombras.

−Bem cada contratante tem uma forma de agir.

−Aquela menina por exemplo, usava perfumes para atrair suas vítimas que vinham comprar eles a noite e possíveis abusadores também eram seus alvos.

Fior faz sua explicação enquanto movimenta uma colher em círculos em sua xícara.

Cling!

−Não entendo isso.

Selene dá uma resposta bem obvia para o assunto.

−Tem algo que me deixou curiosa.

−Hector, como você atingiu aquela Sombra lá na confeitaria?

A Selene puxa um pires com um pedaço de bolo de chocolate.

−Eu usei uma magia, a mesma que eu usei no Chaos.

Com uma colher em minha mão.

Cling!

−Ehhhh! Mas ela parece mais forte do que a última vez.

−Você destruiu a parte de trás da casa.

Com a boca cheia de bolo, ela continua conversando.

A Selene não tem jeito mesmo.

−Na verdade acertei ele por puro reflexo, então não tenho noção de quanta magia foi usada no momento.

−Não sou bom com magias de ataque, me ensinaram a usar anti magia e magias defensivas.

−Segundo meu pai, eu deveria ser um líder diferente.

−Eu devo ser sábio e capaz de proteger as pessoas do reino, então desde pequeno desenvolvi essas habilidades com a intenção de ser o primeiro a marcar uma mudança nas grandes lideranças do continente.

−Sendo assim, não demonstraria ser alguém hostil e que ameace outras lideranças.

Mesmo ele sendo bem ausente durante toda minha infância e parte da adolescência também, sempre tive a presença de professores como filósofos, astrônomos, alquimistas, o capitão do exército e uma pistoleira bem assustadora.

No fim, acabei transformando a biblioteca da mansão na qual fiquei separado das minhas irmãs. Tinha uma infinidade de livros desses temas e uma seção especifica para magias.

Cling!

−Espera. Você usa anti magia?

−Isso é incrível!

Os olhos da Fior se abrem mais do que o normal.

−Porque issho é incrível? Tem algo de espechiaal nisso?

Novamente a Selene tenta conversar de boca cheia.

−Sim, é algo muito raro.

−Nhum! Anti magia era o dom do Rei Cinza, o ultimo líder de uma raça humana muito poderosa magicamente.

−Na história existem apenas 3 magias supremas, elas representam um estado de conexão natural com o mundo.

−Essas 3 são, anti magia, anti matéria e a magia de materialização.

−Anti matéria era a habilidade da esposa do Rei Cinza e seu filho, o Príncipe das Cinzas, usava magia de materialização.

−Nhum!

Socorro eu estou cercado por duas loucas por bolo.

O que a Fior disse para a Selene é um fato histórico do nosso continente.

O Rei Cinza e seu povo morava nas regiões a leste, como antigamente eram nômades, não possuíam um lugar fixo para viver e poder plantar.

Com isso ele passou por todo o continente leste até chegar aqui, onde ele fundou vários vilarejos sob liderança de grandes famílias e fundou a cidade de Perpetua, que durante séculos ficou conhecida como o centro do mundo.

Não tem provas concretas de como ele morreu, muitos livros afirmam que foi por Pneumonia. Após sua morte, seu filho desapareceu misteriosamente como cinzas ao vento e ainda alguns filósofos afirmam que o príncipe desapareceu ao mesmo tempo em que seu pai morreu.

−Então, issho quer disher que ele éf orte certo?

−Ah! Esse pedaço é meu.

Agora que eu peguei um pedaço de bolo de morango, ela quer ultimo pedaço do que antes era um bolo.

−Em tese sim, nascer com essa habilidade e ser capaz de usa-la é bem mais difícil do que se pensa.

−A nova geração dos líderes é realmente incrível.

−A princesa de Ebrima usa magias do som, a princesa de Fogels é uma sacerdotisa capaz de curar e usar magia da luz, a princesa de Heathcliff usa magia da gravidade e o filho adotivo e príncipe de Braska é usuário de magia da destruição.

−Sem falar das irmãs do Hector, a Celia é especialista em invocação e a pequena Ada usa magia da terra, podendo ser tão forte que pode destruir uma casa fácil com suas mãos.

−Todos tiveram dificuldades em aprender e usar suas habilidades, mas agora são capazes e fortes.

−Para mim eles são fora do normal.

Com o queixo apoiado sobre a mão esquerda, Fior expressa o que sabe sobre os filhos dos 5 reis.

−Todos eles parecem ser fortes, mas o Hector é mais forte do que eles.

Selene pula da cadeira com entusiasmo.

−Porque você acredita nisso?

−Nhum!

Entendo a visão da Fior.

Por mais que eu tenha um dom raro, não significa que eu saiba usar.

−Como assim porque?

−Sombras são seres muito fortes, conseguir acertar um golpe em uma delas e causar um dano, não é algo que um humano consegue fazer.

−Hector acertou o Bebe Insano com um soco e jogou ele para longe também.

Selene tenta pôr em palavras sua opinião.

É a única vez que vejo ela parar de comer para conversar.

−Hmm... Impact Burst é uma magia não elemental tradicional dos Sabrie e foi criada assim para não ter fraquezas ou vantagens.

−Normalmente, usam-se magias com um dos 6 elementos básicos e suas variações, dando origem a magias com vantagens e desvantagens.

−Uma magia não elemental pode ser uma grande vantagem em várias situações, por essa razão que magias defensivas tendem a ser sem elemento.

A conversa entre essas duas está bem interessante, é a primeira vez que vejo o quanto a Selene esta curiosa com algo que a Fior explica.

−Então, a magia do Hector pode ser bem forte em muitas situações e em poucas pode ser fraca.

−Entendi, melhor essa história de magia.

Ela gira a xícara olhando para o chá que há dentro.

−Isso mesmo.

−Agora, o que precisamos é ter paciência e esperar a noite cair para pegar essa Sombra e se dermos sorte encontrar a terceira também.

Fior olha para a janela do quarto como se pedisse para o sol se pôr mais cedo hoje.

A paciência de esperar o inimigo é um dom para poucos e é mais importante do que qualquer magia.

Sigh! Vai ser uma longa tarde...