Faded Hearts
30 Ada Sabrie
Notas iniciais
Nos tuneis, chegamos a uma sala com utensílios de limpeza destruídos, não havia muita luz, mas era possível ouvir vozes vindo de fora. Inúmeras vassouras de palha, algumas feitas com tecidos, espanadores e muitos outros que até mesmo não sei dizer seus nomes.
−A saída da passagem é por... aqui.
Brum!
Da mesma forma que ele fez antes, ele tocou nas paredes abrindo uma pequena abertura estreita para passarmos. Saindo do caminho secreto, entramos em um longo corredor dentro da academia.
−Hmm... então, essa é a famosa academia de Ebrima?
−É bem parecida com a nossa academia ou melhor era.
Enquanto caminhávamos, observei que as paredes da academia são feitas de grandes blocos de pedras com cor clara, possui lampiões por todo o lado, as janelas são grandes para permitir que a luz do sol ilumine por bastante tempo o ambiente e chão são de azulejos em xadrez, mas algumas partes mantem a original com piso em blocos de pedras cinzas.
−Tio, onde a Ada está?
−Aqui é realmente grande.
Disfarçados como os alunos não somos incomodados por outros que passam por nós.
−Ela está no auditório no andar acima.
−Só espero que ela não tenha desistido.
Jack nos orienta até as escadas indo rumo aos fundos da academia.
−Ei, você!
Uma mulher ao longe chama a atenção de um de nós.
−Meninos eu alcanço vocês em breve, agora tenho que correr.
Jack corre feito um menino fugindo de sua mãe após aprontar algo na cidade ou atrapalhar os vendedores, deixando o trabalho de encontrar a o local de encontro para nós.
−Certo... ali é a escadas, vamos?
Selene acena com a cabeça concordando comigo e então começamos a subir as escadas, passando por alunos que comentam sobre um homem disfarçado de aluno que invadiu a academia.
−Ei, Hector! Você também ficou nesse lugar?
Seria normal ela perguntar isso, afinal eu deveria ter estudado em uma academia como essa.
−Não, para poder entrar em uma academia eu preciso ter 15 anos.
−Embora eu tenha estudado desde pequeno, talvez eu viesse estudar aqui.
Não que eu não quisesse, mas duvido que eu viria parar em um lugar como esse, ainda mais porque eu tomaria o lugar do meu pai como líder da minha terra.
−Eeee... eu quero algum dia poder estudar assim.
−É melhor que ficar sem fazer nada em casa.
Ela olha para dentro das salas que passamos, enquanto caminhamos até o tal auditório.
−Huh! Essa melodia.
Quando chegamos perto do fim do corredor, uma melodia tocada no piano parece familiar aos meus ouvidos.
−Hector! Não é mesma daquele seu relógio?
Acredito que ela tem razão, é a mesma melodia, a única diferença é que o piano traz um som mais rico e um ar mais melancólico a ela.
−Sim..., mas de onde está vindo?
−...
Fico em silencio para tentar ouvir a melodia e conseguir saber de onde ela vem.
−Está vindo do final do corredor.
−Vamos lá.
Selene e eu caminhamos até o fim do corredor e quando chegamos de frente com a última sala, vejo um garoto com cabelos castanhos e arrepiados, aparentemente muito concentrado em tocar as teclas certas para som da música sair perfeitamente como ela é.
−Huh? Quem são vocês?
−Não tentem fugir!
Justo no momento que eu estava empurrando a Selene para sair de fininho sem sermos visto, somos descobertos por alguém.
−Vocês dois? O que vocês querem aqui?
O mesmo garoto emerge na entrada da sala do piano com um olhar nada agradável e com sobrancelhas inclinadas para dentro dos olhos.
−Er... He! He! É que...?
Ele faz um olhar como se quisesse me matar, até parece que sou um criminoso.
−Não seja enrolado, rápido diga.
Nada grosseiro, imagina só. Ainda mais, com essa voz alta, pouco grave e autoritária.
−Eliot, não seja tão grosseiro com os outros.
−Eles também alunos como nós.
Um garoto com lentes arredondadas sobre os olhos e cabelos pretos, aparece atrás do grosseirão logo na minha frente.
−Humpf! Não gosto que venham até a sala do piano quando estou tocando.
−Pensei que tinham avisado a todos.
Para ajudar é um completo arrogante e egoísta, vou ter problemas com esse cara. Por sorte a Selene anda bem calma ultimamente, não sei como ela não reagiu a isso ainda.
−Eu nunca vi eles por aqui, parece que são novatos.
−Deixe eles em paz.
Falando com um tom baixo e calmo, o garoto de óculos toca sobre o ombro do grosseiro, que se distancia um pouco passando as mãos na camisa e arrumando o blazer branco.
−Perdoe meu amigo, ele anda meio mal-humorado.
−Deixe-me nos apresentarmos direito.
Selene e eu apenas acenamos com a cabeça, sem falar uma palavra se quer.
−Meu nome é Simon, Simon Brawn.
−Muito prazer.
Ele direciona sua mão direita até mim para um comprimento e eu aperto a mão dele em retorno.
−Meu amigo se chama Eliot Gray.
−Anda, Eliot comprimente os dois.
Com um olhar amigável, ele tenta apresentar o irritado atrás dele para nós, que parece se recusar a conversar conosco, estando de braços cruzados nos encarando.
−Humpf! Prazer, Eliot.
Selene e eu apertamos sua mão também, mas até onde entendi, a única pessoa que ele dá ouvidos é esse garoto de óculos.
−Muito prazer, meu nome é Hector, Hector Sabrie.
−Ela é a Selene.
Quando falei meu nome, o menino com lentes reagiu de uma forma estranha.
−Hector? Sabrie?
−O herdeiro desaparecido de Aeternam?
Ah, que bom, ele é muito bem informado.
−Sim, sou eu.
Eliot muda seu olhar com um sorriso escondido nos lábios fechados.
−Então temos uma celebridade aqui.
Sinceramente não gosto disso, ser o centro das atenções.
A voz dele é mais grave como a de um homem adulto, como se ele fosse mais velho que o garoto amigo dele.
−Posso lhe perguntar algo?
Eliot acena com um olhar desconfiado diante as minhas palavras.
−Como você conhece aquela melodia?
−Até onde sei apenas o Relógio Lunar toca essa música.
Retiro o relógio do bolso da minha calça e mostro para ele, que fica com as pupilas retraídas.
−Eu criei essa música, eles apenas colocaram ela dentro desse relógio com engrenagens de caixinha de música.
−Onde você encontrou ele?
Irritado ele volta para aquele tom grosseiro e cruza os braços fazendo biquinho como uma criança emburrada.
−Isso é impossível, ele pertence a minha família a 3 gerações.
−Eu sou a quarta geração e carrego ele comigo desde os 5 anos.
Tem algo estranho aí, ele não tem idade para ser o criador dessa música e julgado por sua aparência, ele tem pelo menos 16 anos.
−Eh! Eliot, temos que ir.
−Seu pai logo estará aqui.
Simon chama a atenção dele, que puxa Eliot pelo braço e rapidamente vão embora passando por nós. Olho para a Selene, que observa silenciosamente, os dois caminharem pelo corredor até a escada.
Suspeita essa atitude deles, esses dois tem algo a esconder. Essa conversa de ser o criador da melodia do relógio, é muito desconfiável.
~~~~~~~~~~~~
Demoramos alguns minutos no andar, procurando pelo auditório, essa academia é bem grande e fácil de se perder, se não usar a numeração das salas ao lado das portas delas. Tem uma sala grande no lado esquerdo com um corredor até as escadas para o andar superior, segundo meu tio é lá que a Ada está.
−Ei Hector! Não é aquela sala ali na frente?
Selene observa uma sala adiante, que aparentemente pode ser o auditório que nos descrevam.
−Hmm! Vamos.
Andamos rapidamente até o local para vermos se tem alguém dentro.
−Gyah!
−Por favor, tenha cuidado.
−...
Distraído com ambiente acabo por esbarrar em alguém, por estar preocupado com a quantidade de pessoas nos arredores, até porque poucos sabem sobre meu retorno.
Imagine se todos esses jovens nobres souberem que o herdeiro de Aeternam voltou.
−Hm! Perdão, estava um pouco distraído.
Respondi de forma automática, a aquela voz baixa e delicada que chegou aos meus ouvidos com um tom sério.
Ao virar meu olhar para a sua direção, a garota a minha frente parecia estar paralisada por algum motivo, seus olhos de tom amarelado estavam arregalados e seus lábios pareciam querer falar algo, mas ela não conseguia.
−I... irmão?!
−He-Hector... é você, mas... não...
Me surpreende a dificuldade dela de falar, enquanto uma outra garota que estava junto dela, ajuda a se levantar direito.
−Por céus, como você pode ser tão descuidada?
−Você machucou o rosto, venha para dentro comigo.
A garota com cabelos pretos presos por um rabo de cavalo, com um brinco com formato de perola e olhos pretos como uma uva negra. Olha diretamente para os olhos dela e tenta leva-la para sala.
−Espera... ele... er...
−Deixe ele entrar, por favor.
Essa voz é bem familiar, está um pouco diferente, mas apenas uma pessoa falava de forma calma assim, mesmo quando ficava brava.
−Está bem, vocês podem entrar também.
A voz da outra garota é mais grave e madura, porém é suave ao ouvir.
Seguimos elas até o interior da sala. Ao meu ver, não parece um auditório. Na frente o piso de madeira deixa ele um pouco acima da altura do piso normal, possivelmente um palco, no centro dele tem uma pequena mesa e um quadro negro na parede, que se destaca na cor bege da pintura.
A Selene e eu estamos de frente para as duas, sendo aquela que eu esbarrei sentada em uma cadeira e a outra de pé ao seu lado, com um lenço em mãos.
−Me desculpe, por minha amiga.
−Ada anda preocupada desde que recebeu a notícia do retorno do seu irmão.
A garota fala o nome dela, no momento que limpa o pequeno corte no lado esquerdo do rosto de sua colega, por um breve momento eu me ligo ao ouvir isso.
−Espe-... Ada?
−Não acredito. É você mesma?
Ao me ouvir percebo uma pequena lagrima escorrer sobre sua bochecha esquerda.
−Ir... irmão, sou eu mesma, sua irmãzinha Ada.
−Senti tanto a sua falta.
Ela se levanta rápido da cadeira e vem até mim, envolvendo seus braços sobre meu pescoço e me apertando de forma carinhosa.
−Hector, é você...
−Mal posso acreditar que você voltou.
−Hehehe! Meu irmão está de volta.
Sabia que conhecia essa voz de algum lugar, mas não lembrava exatamente de quem era. Agora tenho certeza que é a Ada, aquela menina que vivia grudada comigo onde quer que eu fosse.
−Senti sua falta também.
−Mais do que você imagina.
Para mim o tempo não se moveu, apenas algumas horas no Chaos fizeram os anos passarem como se fosse um único dia.
−Sabe... é estranho para mim ser mais alta que meu irmão mais velho.
−Ah- e pareço ser a irmã mais velha agora.
Depois de me abraçar, Ada sorri com as mãos juntas nas suas costas e enquanto fala percebo sua inquietação por ficar mexendo a perna esquerda, girando a ponta da sua bota no chão, da mesma forma que fazia quando pequena.
−Sim, vou demorar para me acostumar com isso.
−A propósito, esqueci de apresenta-la antes.
−Essa é a Selene, minha nova amiga.
Quando tive a oportunidade, apresentei a Selene a ela, mas não posso contar que ela na verdade é a Sombra que me ajudou a sair do Chaos.
−Oh... oh... ela muito bonitinha e fofa.
−Não me diga que... ela é uma namorada.
Ela está agindo como a May, quando viu a Selene pela primeira vez. Só falta eu ver ela apertar a coitada como a May faz.
−Não! Hector é minha propriedade.
−Ninguém vai tirar ele de mim.
Ei, ei, ei! Selene não é hora de começar outra confusão.
Cleeeek!
−Ei! Vocês viram um homem com uma trança longa e óculos, andando por esse andar?
−Os outros alunos estão reclamando de um estranho que invadiu a academia, vestindo o nosso uniforme.
Eliot abre a porta de repente, perguntando sobre alguém ter invadido a academia. Infelizmente sei bem quem é a pessoa que ele descreveu.
−Ada, não me diga que seu tio está aqui.
A garota de cabelos pretos tem razão, nosso tio está aqui e causando bastante problemas.
−Não... bem... er... não era para ele vir hoje de novo.
−É possível que sim, tio Jack até parece uma criança.
Uma criança de 42 anos, eu tenho que dizer. Não acredito que concordei em vir com ele desse jeito.
Eliot sai da entrada e volta procurar pelo invasor que eu conheço muito bem, no corredor e em outras salas.
−Irmão! Não apresentei minha amiga para você.
−Essa é a Helena e também é minha serva.
−Celia que trouxe ela para casa, eu não sabia o porquê, mas então do nada ela disse que a Helena estaria comigo sempre e fez ela recitar o juramento de servidão.
A garota misteriosa atrás dela foi salva por Celia? Então possivelmente ela é uma órfã que passou por situações bem complicadas.
−Prazer em conhece-lo, Senhor Hector.
−Ada fala muito do senhor para mim, imagino que seja um bom irmão mais velho.
−Mas discordo totalmente disso, um irmão mais velho deve sempre estar presente na vida dos mais novos e saber orienta-los também.
Ela se curva levemente como qualquer outro serviçal faz e depois começa a falar com um tom grosseiro e irritável. Diferente da Ada ela tem uma língua bem afiada, uma voz pretensiosa e levemente grave.
−Chega, chega.
−Não é hora para isso.
Ela põe a mão esquerda sobre o ombro da Helena que imediatamente desiste de continuar o que estava prestes a falar e seu olhar diante de mim é ameaçador como a de alguém que quer te destruir de todas as formas.
−Hmm! Concordo.
−Infelizmente não podemos ficar aqui para conversar, tenho certeza que tio Jack está com problemas.
−Selene, vamos?
Ela responde acenando com a cabeça, mantendo o olhar fixo na Helena desde quando entramos na sala.
−Até mais, Ada.
Aceno me despedindo, enquanto a Selene abre a porta para sairmos.
−Espera! Eu quero ir com vocês.
−Tudo bem se eu ir? Hm...
Essa voz doce e baixa é difícil de ignorar e ao ver ela com sua mão direita fechada junto ao peito, não conseguia entender o que ela queria dizer com seus gestos. Esse olhar meigo e aqueles cabelos castanhos, lindos com a franja caída sobre a testa entorno dos olhos, ainda me traz à lembrança de que essa garota é minha pequena irmãzinha.
−Sim, sem problemas.
−Será mais fácil encontrar o Jack com mais pessoas procurando por ele.
Com minha resposta as duas vem até a porta junto a mim, então partimos pelos corredores em busca do nosso familiar problemático.
~~~~~~~~~~~~
Durante o tempo que caminhávamos, pude conversar um pouco com minha irmã que perguntava bastante coisas para mim e para a Selene. Ada comentava bastante sobre o que estudou, sobre suas amigas e também sobre o nosso amigo irritadiço, que por algum motivo era paciente com ela.
Não conseguimos encontrar nosso tio em lugar algum nos 3 andares da academia, então decidimos ir até a entrada secreta para voltarmos.
−Chegamos.
Andamos até a sala vazia que se encontra próximo a escadaria do primeiro andar.
−Err... tem certeza que aqui é uma saída?
−Não vejo nada de diferente aqui.
A decepção dela diante a sua visão era engraçada, porque eu disse que era uma entrada secreta, então não tem possibilidade de acha-la assim fácil.
−Ora! Ora! Parece que peguei um peixe grande.
−Foi mais fácil do que eu imaginava.
Essa forma de falar é igual a daquela vez na colônia, é levemente grave, clara e indiferente.
−Ah! Droga.
−Isso é ruim.
É a voz daquela mulher de cabelos castanho-claro e ondulado, que atacou a May. Olho para o fundo escuro da sala e confirmo que ela era a membro da Graveyard de antes.
−Hoo... você reconhece a minha voz.
−É uma pena que seja tarde demais para isso.
Ela tira o capuz que cobre seu rosto, olhando diretamente para mim com um sorriso nada convidativo.
−Peguem todos.
No exato momento que ela fala, 3 homens vestidos igual a ela emergem da escuridão da sala e nos prende. Eles vendaram meus olhos antes, impedindo que eu saiba o que aconteceu com os outros, apenas ouvi os gritos das meninas e um cheio estranho que me fez ficar desacordado.
O que essa mulher planeja agora? Usar minha irmã contra mim?
Fale com o autor