Notas iniciais
Parabéns a quem entender o pq do título!!!

Risos e aplausos vindos daquela luz. Meu coração oscilava, acelerava e por instantes parava junto a minha respiração. Esta sendo um show incrível o que estamos apresentando, com figurinos bem montados e um elenco de se invejar. Eu tinha sorte de estar ali. Já via colegas de trabalho desejando minha oportunidade, mas antes de chegar até aqui batalhei muito, por isso não sinto remorsos.

Trabalhava anteriormente com Patrícia, uma velha amiga de minha mãe e antes mesmo de completar seus cinqüenta anos aquela senhora definhou como que lhe pusessem a palavra fim antes da metade do seu roteiro. Adoeceu e morreu em questão de dias, deixando uma vaga muito importante a ser preenchida no teatro.

Vivi minha vida em prol dos roteiros e desejava mais que ninguém chegar algum dia ao estrelato, mas por azar nunca tive saúde para tanto, então me via a auxiliando os verdadeiros atores.

Sentia e vivia aqueles palcos que se enchiam de gente, ria junto ao elenco de toda peça que nos era dada para brilhar. Mas nunca pensei chegar tão perto de onde me encontro.

...

Entro em cena mais uma vez, vestido como um mendigo e me disfarçando entre os outros três personagens me dirijo a uma jovem que parece abatida mais a ponta do palco sentada em uma caixa brilhantemente disfarçada de pedra.

Ela nota minha aproximação e faz menção de levantar, mas eu a apunhalo com uma faca nas costas e lhe ameaço em alto e bom tom, para que todo telespectador ouça minhas lamentações de vida e ria um pouco da trágica existência desse rato de esgoto que interpreto hoje.

A jovem parece não sentir pena de mim e com um pouco de brutalidade atira-me para longe, segurando ela a faca em sua mão e pronunciando palavras que jamais poderiam ser ditas pela boca de uma jovem daquele patamar.

Enquanto a atriz se afunda em seu personagem contracenando com um de meus colegas que a vista parecia um homem posto a fino tentando abrandar a brabeza da dama.

Retiro-me do palco com a mesma expressão de pavor que minha colega havia feito a meu ver inicialmente.

...

_Ela esta demais hoje! – dirijo minha palavra ao nosso auxiliar mais novo, um menino magro baixo, pele e olhos de um legítimo mulato, usando a boina que sempre o caracterizou.

_Com certeza! Parece que algo a motivou! Meu irmão! – bradou ele olhando para mim segurando uma risada lembrando a cena que antes do espetáculo se sucedera nos bastidores. Ainda sinto em meus cotovelos o ralar daquele assoalho de madeira. Fui praticamente atirado do camarim da nossa estrela Verônica, levando em seguida o buquê que lhe havia apresentado como presente como chapéu de bobo na cabeça. Mas não fui a primeira vitima que aqueles olhos verde esmeralda fisgaram, apesar de beleza extrema e talento inegável, aquela jovem continha em seu interior um temperamento horrível, mais digno a uma fera selvagem do que aquele rosto de princesa.

De conhecimento de todos havia tempo era esse lado ameaçador da moça, mas como novato me senti tentado por aquela cabeleira cacheada, seus olhos e balançar de quadris ao caminhar se tornavam uma dança irresistível aos menos avisados.

...

Como ensaiado procurei me apressar aos preparativos, enquanto o desenrolar da peça seguia sem problemas, fui posicionar-me ao outro lado da cortina, desta vez usando uma capa preta, uma mascara branca e segurava uma foice na mão. Ao apagarem as luzes, me arrastei pelas cortinas e apareci no foco do refletor.

Adentrando no personagem da morte, me fui a discutir com aquela moça o porque de tanta reclamação. Ela por fim revoltada com tantas frases feitas que eu morte dizia-lhe, ela arrancou-me a foice das mãos e roubou-me a mascara, como esperado o que me fez esconder o rosto e sumir na escuridão. Quando a luz voltou, Verônica já não encenava como uma jovem depressiva da alta sociedade, mas como uma enviada da morte, espalhando pavor aos telespectadores. Enquanto eu observava as próximas cenas de um canto do palco.

...

_Realmente hoje ela esta empolgada, parece mais sanguinária que nunca nesse papel. Agora devo me trocar – falei para meu irmão e fui-me ao camarim.

...

Ao retornar com uma roupa de anjo me assustei ao ver meu irmão atirado de joelhos no chão num soluço sem igual. Corri para socorrê-lo e nem me dei por conta que o silêncio era total. Quando olhei para o palco vi Verônica duas cenas adiantadas, atirada ao chão, coberta de sangue chorando.

Como reflexo entrei em cena e estendi aquela moça ensangüentada uma capa preta, o que representaria a real aceitação dela como a própria morte. E ela para me surpreender tirou a mascara que coberta de sangue cobria seu rosto e me beijou profundamente.

_Quem melhor pra reconhecer um anjo, do que o próprio demônio?! – disse ela para que todos ouvissem.

Sem entender vi de relance no fundo do cenário meus colegas de atuação estendidos e verdadeiramente mortos, estraçalhados de uma forma brutal.

Essa foi a ultima expressão que apresentei em um palco, um sorriso de satisfação seguido por pânico instantâneo.

Talvez seja assim o amor.

Apenas sei que não atuo mais, pois apesar de receber aplausos pela excelente “atuação”, perdi meu gosto pelo fictício e prefiro a partir de hoje viver o real.

Notas finais
Mandem reviews, que não dói!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!