Notas iniciais
Aqui entram a tragédia, o suspense e a violência que prometi na parte dos Gêneros dessa fic. Precisei inclusive dividir o capítulo em duas partes, por motivos de ficou muito grande (nos meus padrões de escrita). Amo vocês ♡

* Daniel's POV *

– Minhas jovens donzelas, eu... eu acho que seria muito conveniente se as senhoritas me matassem agora. — disse honestamente, com a visão do capeta, ou melhor, do meu pai se aproximando da Elemento. Não fazia muita diferença.
Não bastava a perseguição e a magistral batida no poste – há muito transformado numa espécie de Museu da Arte Peniana -, ainda tivemos a sorte de fazer isso em frente à Igreja. Eu sinto que, no momento, seria capaz de me afogar e depois congelar num poço formado a partir do meu próprio suor frio.
Enquanto a maldita figura andava em nossa direção, deixando para trás aquela que – todos já sabemos – é sua amante desde o tempo em que era casado com a minha mãe, eu só conseguia ouvir a respiração pesada de Sofia e Lana embaçando os vidros que ainda permaneceram inteiros.

– Eu espero que o Sr. Ricardo Soares tenha um seguro, a situação vista daqui é quase de perda total. – falou o meu velho, agora num tom mais severo — Ah, e espero que você, Daniel, tenha um motivo decente pra estar dentro de um carro amassado em frente a Igreja Universal do Reino de Deus.

– Claro que tenho, pai. – respondi sarcasticamente — ... pai. Pai. Pai. Pai. Pai. Pai. – precisei dar um tapa na minha própria cara, porque, PUTA MERDA, que hora conveniente pra se gaguejar!

Empurrei a porta ao meu lado e o vidro da janela terminou de se estilhaçar sobre mim. Levantei do banco do carona, e foi então que percebi que o meu corpo inteiro doía, com ênfase nos meus braços, pois eu devo tê-los cruzado sobre a minha cabeça para me proteger do impacto, e, como resultado, eles estavam completamente cobertos de sangue e arranhões.

– Se cuidem, as duas. – eu disse baixinho, me debruçando sobre o carro.

– Boa sorte, Dan. – sussurrou Lana em resposta. Sofia parecia absorta demais em seus pensamentos sobre a bronca que também levaria ao chegar em casa para sequer me ouvir.

Fiz um sinal positivo com o dedão e abri espaço entre os fiéis, tomando meu rumo para casa como se nada tivesse acontecido.

* * *

Cheguei ao portão, propositalmente adiantado, entrei e fui direto para a cozinha procurar algo útil no armário. Localizei água oxigenada, algodão e um rolo de bandagens, meu sangue escorrendo e pingando no chão pelos cotovelos durante o processo.

Fui lavar esses braços no banheiro, e, Deus, como ardia. Encontrei alguns cacos amigáveis de vidro ainda presos em certos pontos de cada membro, e tive que tirar um por um. Maravilha. Depois “desinfetei” os cortes com a água oxigenada, e, enquanto começava a enrolar bandagens nos braços, meu pai simplesmente brotou. Eu realmente gostaria de desaparecer agora, mas isso seria fisicamente impossível.

Ignorei por alguns segundos o fato de que ele havia parado em frente a mim, ainda com seu habitual terno pós-culto, e obviamente exigindo explicações.

– Oi. – me dirigi a ele, levantando o olhar.

– Daniel... eu achava que você já tinha 17 anos, mas pelo jeito estou muito enganado! – ele esbravejou, com sua face ficando vermelha e gotículas de saliva voando de sua boca a cada sílaba pronunciada. – Que ideia foi essa de aparecer com aquelas duas transviadas, na rua da Universal?! Já sei, é Satanás. Ele quer tentar me derrubar de novo, eu vi ele se manifestando quando você falou comigo naquela hora...

– Será que o senhor não pode agir como o homem de 51 anos que é e parar de culpar o Satã ou o raio que o parta o tempo inteiro?! – levantei a voz e a bunda da cadeira. Até quando ele vai agir assim?

– Não fale assim comigo, moleque! Pense duas vezes antes de me afrontar debaixo desse teto, porque sou eu quem te banca!! – ele continuava gritando, e pressionou o indicador contra o meu peito com tanta força que eu continuei sentindo a dor no esterno por 10 minutos seguidos. – Se for aparecer naquela rua de novo, tome cuidado, os clientes, quer dizer, fiéis te viram naquela situação, parecendo que tinha feito um ritual dentro do carro e acompanhado daquela delinquentezinha e aquela ruiva de família impura, certeza que é bruxa. Infelizmente eles ainda lembram que você é meu filho.

Okay, cara, você acabou de cruzar um certo limite.

– ... Não vou mais nem entrar naquela rua. Certo, assim? Obrigado. Aliás, já é noite e eu não jantei ainda. Vou passar no dogão da praça. Com licença. – confesso, uma das coisas mais irritantes da vida é ter que agir como o estagiário novato da empresa só pra fugir dessas malditas discussões, mas é a solução que eu acabo encontrando, pelo menos até completar meus 18 anos.

Subi as escadas em espiral que levavam ao primeiro andar com a disposição e agilidade de um atleta, apesar de estar cansado pra caralho por dentro, e entrei no meu amado quarto. Terminei de amarrar as bandagens, vesti um moletom preto por cima da camisa cinza, mais para cobrir os braços que para evitar o frio. Em seguida, catei algumas moedas na mochila que uso na escola, coloquei-as num bolso e desci a escada na mesma velocidade com que subi.

Acenei pro meu pai e me dirigi ao portão, onde Sheila – ah, esse é o nome dela! – ainda esperava para entrar, provavelmente porque já sabia que iríamos discutir ao chegar em casa. Ela me olhava como se eu tivesse acabado de arrancar a cabeça de um hamster com a boca e esguichado o sangue na minha cara. A mulher entrou rapidamente e sem encostar em mim. Certo, jovem, acalme-se... era só parte do meu ritual, e sangue de hamster faz muito bem à pele.

Por que eu penso tanta merda enquanto ando sozinho?

* * *

Barriga cheia e pé na estrada (ou quase isso). São 21h17min quando volto do trailer de hot dog e entro na minha rua – que, aliás, devia ganhar o Oscar Imaginário da Má Iluminação, já que eu só via dois postes acesos.

São 21h19min quando eu ouço um tiro. Dois.

Por favor, que não seja o que eu estou imaginando. Isso é tudo fruto da minha conturbada e ansiosa imaginação. Com certeza foram fogos de artifício.
Abro o portão, um tanto trêmulo. Ao adentrar na sala de estar, não vejo uma luz acesa sequer. Mal identifico a silhueta da escada espiral. A escuridão da rua invadiu essa casa também.

Não ouço o som da cama rangendo no primeiro andar, como era comum quando o pastor Aurélio resolvia transmitir seus “ensinamentos bíblicos” à Sheila, sua mais dedicada discípula.

Começo a subir a escada, meus All Stars de cano médio reproduzindo o mesmo silêncio que os cômodos a minha volta. Atinjo o primeiro andar. Só a luz do meu quarto está acesa, pois a deixei assim quando saí. A porta seguinte está fechada. Começo a me aproximar da mesma, e, consequentemente, a ouvir alguns gemidos baixos. Mas não o tipo de gemido que eu normalmente presenciava por aqui. Eram genuínos gemidos de culpa, quem sabe desespero.

Eu lentamente giro a maçaneta e abro a porta do quarto do meu pai, e, em seguida, desejo nunca tê-lo feito.

Vejo algo escuro – que identifico como sangue, porque seu cheiro estava por todo o quarto – nos lençóis e na parede atrás da cama de casal. Vejo o corpo nu a quem pertence esse sangue debruçado sobre o colchão, com seu braço esquerdo pendendo para fora do mesmo.

Ah, vejo quem fez isso. O dono dos gemidos de lamento encara o corpo sem vida com um revólver na mão.

– Será que o senhor poderia não matar cada mulher com quem se envolve?... – disse, tentando esconder o pânico que em breve tomaria conta de mim.

Apontando o revólver em direção ao meu rosto, vejo, na penumbra, que acabara de acordar um monstro. O assassino me dirige o olhar mais maníaco que eu já tive a infelicidade de vislumbrar. Sua ira era palpável até mesmo na escuridão, e posso lhes dizer, algo assim eu só havia sentido quatro anos atrás.

Notas finais
... eu tô morrendo. ahsuahuhsusah Não sei se sinto pena do Dan por estar fazendo isso com o coitado, ou rio like a Malévola porque amo torturar meus personagens. É isso aí, povos. Fiquem com a segunda parte na sexta feira! XD