FULL MOONS | REESCRITA DRARRY
1 CAPITULO 1 | HOGWARTS, QUERIDO?
Notas iniciais
29 de Agosto de 1991 | Hogwarts, querido?
O grito de dor não saiu de seus lábios. Ficou preso na garganta, o arranhando por dentro. Harry acordou com o corpo rígido, os dedos cravados no colchão fino, seus pulmões puxando o ar rápido demais. Ele queria poder dizer que seus pesadelos eram comuns nos filmes: algo fantasioso e subjetivo, como ele fugindo de um monstro em uma floresta bonita. Mas não, era tudo muito cru. Não existia corrida pela vida, mas sim as lembranças dilacerantes. Os dentes fincados na carne, o sangue manchando o chão, o grito por ajuda.
Ele não se mexeu de imediato, não conseguia. O mundo parecia alto demais do lado de fora, estava ouvindo os passos dos garotos no andar de cima, os talheres no refeitório, o vento raspando contra a janela. Tudo veio de uma vez, e ele se sentiu tonto demais.
O sol entrou por uma das frestas da janela, fazendo as correntes quebradas brilharem. Harry engoliu em seco. Sua pele doía. Não era uma dor nova — nunca era — mas algo naquela manhã parecia especialmente insuportável.
Devagar, ergueu as mãos até o rosto, apertando os olhos cansados e, em seu ritmo, tateando a pele até o pescoço, sentindo as cicatrizes sob os dedos. Algumas mais altas do que outras. Tentou soltar um palavrão cansado, mas assim que abriu a boca, sentiu um ardor no lábio, de repente sentindo o gosto metálico de sangue.
Ouviu o pequeno salto de Hades se chocando contra o chão frio da escola, indo em sua direção e suspirou. Queria passar o dia inteiro na cama, sem fazer nada.
Batidas soaram na porta, secas, ritmadas. O perfume amadeirado do diretor chegou a seus sentidos. Ele sentiu vontade de vomitar.
— Potter?
Ele demorou a falar, até porque o recente corte em sua boca o impedia de falar muito.
— Sim…?
— Se apresse – A voz fria do senhor Hades atravessou a porta — Ou vai perder o café da manhã.
Harry revirou os olhos, mesmo sabendo que ninguém estava vendo.
— Sim. – respondeu automaticamente.
Não ouviu nada do outro lado, nem mesmo um arrastar de pés. Revirou os olhos novamente, sabendo o que viria:
— Sim, senhor. — Hades corrigiu.
Harry levantou a mão devagar, com o máximo de esforço que poderia fazer e mostrou o dedo do meio para a porta fechada.
— Sim, senhor — repetiu, dessa vez baixo, arrastado. Os passos se afastaram pelo corredor. — Sim, senhor – debochou, com voz fina, antes de se arrastar para fora da cama.
Crunchem Hall não era exatamente uma escola, era onde jogavam as crianças que ninguém queria por perto.
Os mais novos tinham olhos grandes demais para o rosto, crianças que aprenderam cedo demais a roubar para comer. Os adolescentes carregavam marcas de brigas e orgulho ferido. E os mais velhos estavam desesperados para completar a maioridade e sair de lá.
Harry não andava com nenhum deles, gostava de ficar sozinho e quieto. Observando o suficiente para não ser pego de surpresa, mas nunca o bastante para parecer interessado.
Quando iam ao vilarejo, uma vez por mês, os olhares vinham antes mesmo dos passos. Comerciantes atentos. Mãos protegendo caixas registradoras. Portas entreabertas, prontas para fechar. O uniforme ajudava a manter distância. Listras sujas de branco e azul, tecido áspero, pesado demais. No peito, a insígnia de um carcará — como se aquilo fosse intimidar alguém que já não estivesse acostumado com coisa pior.
Harry aprendeu a ir sozinho, praticamente não ser visto. A árvore retorcida e velha atrás da escola tinha um de seus galhos escapando pela cerca alta. Seria uma coisa muito séria se alguém realmente se importasse em consertar ou podar a árvore esquecida. Detalhe pequeno para a maioria, mas grande o suficiente para Harry.
Ele não era bom escalando, mas sempre dava um jeito. Estava planejando sua escapada do dia quando ele chegou ao refeitório. O estômago revirou antes mesmo dele olhar direito para a mesa. Um barulho mais alto de uma cadeira arrastando no chão fez seus ouvidos doerem.
Ele olhou. Os olhos verdes baixos, semicerrados, julgadores. O rapaz olhou de volta, o queixo erguido como quem estava procurando motivo para brigar.
— Cara, para – Um colega resmungou, o advertindo — Ele tá’ mal de novo.
O rapaz, antes cheio de petulância, desviou os olhos de Harry, chamando o grupo para irem jogar cartas no quarto. Harry, se sentando, os seguiu com o olhar.
As crianças não gostavam muito dele, na verdade, todos evitavam ficar perto dele por precaução. Os mais velhos, sempre tinham mais coragem, mas sempre acabavam machucados. Falavam demais e batiam pouco. E Harry tinha um ótimo gancho de direita.
Harry tinha oito quando quebrou o nariz de um garoto de quinze. Depois disso, ele ficou cada vez mais conhecido como encrenqueiro. Ao longo dos meses, foi taxado de doentee encrenqueiro. Aparecia cansado, com curativos malfeitos e bandagens sob uniforme.
Estava pensando em qualquer outra coisa para fazer a tarde que não incluísse correr ou escalar — seu corpo doía como o inferno.
Mordeu com força, sem fome e sem vontade, o pão seco que estava na mesa.
— Potter. – Hades disse de repente, ao seu lado. Harry quase engasgou. Engoliu seco, forçando o pão a descer enquanto levantava o olhar. — Você tem uma visita — disse o homem, calmo demais. — Não demore.
Harry levantou, sem humor. Seu corpo, cansado, protestou imediatamente. O resto do suco que ele deveria tomar caiu quando ele esbarrou na mesa, mas não se importou. Era difícil realmente se importar com algo depois da noite de lua cheia. Prioridades.
Odiava se sentir errado, odiava não lembrar de nada da noite, odiava o medo de ter atacado alguém. Odiava não saber porque ele foi amaldiçoado daquele jeito.
Tia Petúnia dizia que era castigo. Um tipo de punição divina pelos pecados dos pais dele. Harry nunca acreditou muito em divindades. Se existissem mesmo, já teriam feito algo.
Um corte no braço esquerdo ardeu quando ele abriu a porta do refeitório e ele seguiu andando pelo corredor, os passos quase sumindo no meio das vozes altas dos outros garotos — risadas, discussões idiotas, alguém falando alto demais sobre futebol, outro sobre alguma garota “gostosa” e um outro sobre o clube novo que abriu na cidade.
Harry revirou os olhos. Não gostava de nenhuma daquelas coisas.
A porta da sala de Hades estava fechada. Ele parou por um momento, e bateu três ritmadas vezes, formando um triângulo na porta. Gostava de triângulos.
— Entre.
Harry abriu e franziu o cenho para o homem que mal cabia na sala. Alto demais. Grande demais. Como se tivesse sido colocado no lugar errado. A barba espessa escondia metade do rosto, os cabelos caíam sem ordem, e os olhos — escuros, atentos — pareciam enxergar mais do que deviam.
Harry ficou imóvel por um segundo a mais.
— Potter — Hades chamou, com aquele tom controlado demais. — Este é Rúbeo. Ele trabalha em uma escola… especial. Veio falar com você, a pedido do diretor.
Escola especial. Algo dentro de Harry afundou. Não existia lugar no mundo capaz de o controlar. Nem as salas trancadas, nem as correntes e nem mesmo as jaulas não adiantavam. Só serviam para lembrar que ele era errado.
Harry fez uma careta quase imperceptível.
— Posso levar ele pra dar uma volta? — O homem gigante perguntou, já dando meio passo à frente, como se a resposta fosse obviamente “sim”.
— Claro — respondeu o diretor, rápido demais. — Fique à vontade.
Harry saiu primeiro e Hagrid veio logo atrás, passos pesados ecoando pelo chão e maltratando os ouvidos de Harry. Eles só pararam quando estavam longe o suficiente do prédio. Hagrid se virou para ele com um sorriso enorme — largo, fácil, como se já gostasse dele há séculos.
— Então você é o Harry! — disse, quase animado demais.
Harry ergueu os olhos, desconfiado.
— A última vez que te vi, você era só um bebezinho — continuou, rindo sozinho — Cabia assim ó — fez um gesto desajeitado com as mãos — E agora olha só pra você!
Harry franziu o cenho.
— A gente se conhece?
— Conhece nada, não — Hagrid respondeu rápido, ainda sorrindo — Quer dizer… não desse jeito. Mas eu te vi, sim. Quando você era pequeno.
Ele inclinou a cabeça, observando melhor.
— Você é bem parecido com seu pai… — apertou os olhos — Mas os olhos… ah, esses aí são da sua mãe, sem dúvida.
Harry ficou em silêncio por um segundo.
Ninguém falava com carinho dos pais dele.
Nunca.
— Eu ainda não sei quem você é — disse, direto.
— Rúbeo Hagrid! — respondeu, quase ofendido por um segundo, mas logo voltou ao normal — Mas pode me chamar só de Hagrid, todo mundo chama.
Ele estendeu a mão e, hesitante, Harry apertou.
O corte em seu braço ardeu.
— Eu trabalho em Hogwarts — Hagrid continuou, já andando de novo — Sou o guardião das chaves e das terras. Harry acompanhou com passos mais rápidos “Meu Deus, como ele fala!” Harry pensou. — Você sabe o que é Hogwarts, né?
— Não.
Hagrid parou, virou-se devagar, dramático.
— Não sabe? — repetiu, incrédulo.
Harry desviou o olhar por um instante. Hagrid parecia legal, não gostava da sensação de falhar com um dos poucos adultos que foi legal com ele.
— Desculpa? – Arriscou, não sabendo se precisava.
— Desculpa? — Hagrid soltou, a voz subindo — Desculpa nada! Quem tem que pedir desculpa são eles! – ele bradou, apontando para o céu.
Harry piscou, incomodado com o volume.
— Você nunca se perguntou? — Hagrid continuou, passando a mão pelos cabelos — De onde eles vinham? O que eles sabiam fazer?
— Eles quem? — Harry respondeu, já irritado — Fazer o quê?
— Mas como assim “o quê”? — Hagrid soltou, quase rindo de nervoso — Você não sabe de nada? Nada mesmo?
Harry cruzou os braços, ofendido.
— Eu sei coisas — disse, seco — Matemática. Leitura. O básico pra não ser completamente inútil.
Hagrid fez um gesto com a mão, impaciente.
— Não isso! Do nosso mundo!
Harry franziu o cenho.
— Ciências então?
Hagrid soltou um suspiro pesado.
— Os Dursley nunca te contaram nada? — Harry descruzou os braços, incomodado com a menção do nome. Tinha sido jogado lá pelos tios, não gostava de lembrar da existência deles. — Mas você sabe quem são seus pais! — Hagrid insistiu, agora claramente indignado — Quero dizer, eles são famosos! Você é famoso!
Harry soltou uma risada sem humor.
— Famoso?
— Você não sabe… — Hagrid murmurou, passando a mão no rosto — Não sabe quem é…
— Fale de uma vez! – Disse, irritado.
Hagrid olhou pra ele.
— Harry… — começou, mais sério — Você é um bruxo.
Harry piscou.
— Eu sou o quê?
— Um bruxo! — repetiu Hagrid, agora mais firme — E dos bons, aposto. Com um pai e uma mãe como os seus? Não tinha como dar outra coisa! – Ele remexeu nos bolsos do seu enorme casaco de pele — Já passou da hora de você saber disso — resmungou, puxando um envelope amarelado e estendeu para Harry. — Toma. Sua carta.
Harry olhou para o envelope por tempo demais, hesitante, e abriu.
As letras estavam ali, quietas, perfeitamente desenhadas, mas ainda assim pareciam escapar dele. Eram letras, sem dúvida, mas era difícil ler quando parecia que o significado das palavras estava fugindo dele. Harry estreitou os olhos, aproximando o papel do rosto. A respiração começou a acelerar sem que ele percebesse, o ar entrando rápido e irregular. Como sempre acontecia quando precisava se concentrar demais em algo simples.
Aquilo o irritava.
Muito.
Apertou o envelope entre os dedos, amassando levemente a borda, e tentou de novo.
Uma palavra depois da outra.
Harry Potter.Magia. Hogwarts. Vaga.
Parou ali, soltando o ar, frustrado. Eram poucas informações. As palavras vinham soltas, desconectadas, como peças de algo maior que ele não conseguia alcançar. Sabia que era importante, mas não conseguia montar o todo, e aquilo o frustrava mais do que qualquer coisa.
Desviou o olhar rápido, como se o papel tivesse feito algo contra ele.
Quando ergueu os olhos para Hagrid, seu rosto infantil já estava mais fechado, mais duro — tentando esconder a vergonha que subia pelo peito. Vergonha de não saber o básico.
Hagrid parecia completamente alheio. Já estava enfiando a mão dentro do casaco, puxando… uma coruja. Uma coruja de verdade. Viva!
Harry piscou, devagar, o corpo ainda meio rígido, como se qualquer movimento brusco fosse fazer aquilo desaparecer. Hagrid tirou também uma pena longa e um pedaço de pergaminho, apoiando-o na palma da mão enquanto escrevia, a língua presa entre os dentes, concentrado de um jeito quase infantil.
Ele odiava aquilo.
Odiava não entender.
Odiava ficar atrás.
Hagrid enrolou o pergaminho, prendeu no bico da coruja e, com um movimento simples, a lançou no ar, como se fosse algo rotineiro. Harry acompanhou o voo com os olhos, sentindo a boca se abrir sozinha antes que pudesse impedir. Fechou rápido, como se alguém pudesse ter visto.
— Onde é que eu estava mesmo? — Hagrid murmurou, coçando a barba, como se realmente nada daquilo fosse estranho. Harry ainda olhava para o céu quando disse:
— Meus tios não vão deixar eu ir.
A voz saiu seca, automática, e ele deu de ombros logo em seguida, como se aquilo não importasse. Mas importava.
Hagrid soltou um som indignado, quase ofendido.
— Ah, eu queria ver aqueles trouxas tentando te impedir!
Harry não voltou a olhar para ele até que a coruja tivesse sumido no céu.
— Trouxas — repetiu a palavra nova, incerto.
— Trouxas! — Hagrid respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo — Seus tios são trouxas! — percebendo o olhar perdido de Potter, Hagrid seguiu: — Gente sem magia! E olha… — passou a mão pelos cabelos, bufando — você deu foi azar. Eles são os mais ignorantes que eu já vi. — Ele balançou a cabeça, claramente incomodado. — Seus pais… ah, eles iam odiar isso. O jeito que te criaram… isso aqui… — fez um gesto vago, apontando para o internato, como se não soubesse nem por onde começar — Isso tá errado.
— Petúnia disse que eles morreram num acidente de carro.
A reação foi imediata.
— NUM ACIDENTE DE CARRO?! — Hagrid praticamente rugiu. Harry enrijeceu na mesma hora, os ouvidos sensíveis protestando com o volume da voz do gigante. — Como é que um acidente de carro ia matar Lily e James Potter?! — continuou, revoltado, a voz carregada de incredulidade — Isso é um absurdo! Um escândalo! — Ele apontou para Harry, como se aquilo fosse ainda mais inacreditável. — E você aí, sem saber de nada! Quando qualquer um no nosso mundo sabe quem você é!
Harry o encarou, curioso, segurando as perguntas que rondavam sua cabeça.
Hagrid pareceu perceber o próprio tom e respirou fundo, tentando se acalmar — embora a indignação ainda estivesse ali, latente.
— Olha, Harry… escuta — disse, mais controlado, ainda que a voz carregasse emoção demais — Hogwarts é uma escola pra gente como você. Lá você aprende. Entende. Treina.
Harry queria dizer que não fazia sentido. Dizer que Hagrid era só um maluco inventando histórias, mas tantas coisas na vida de Harry não faziam sentido. Coisas desapareciam quando ele estava com raiva, ele já tinha feito Duda, seu primo, cair escada abaixo só com o pensamento, e nada – além de magia – explicava ele poder falar com Darius.
— Amanhã a gente resolve tudo — Hagrid disse, já animado de novo — Vamos comprar suas coisas, seus livros, tudo direitinho. Você vai ver!
Ele já estava se virando, como se aquilo estivesse decidido.
Como se fosse simples.
— Espera. — Harry mandou
Hagrid parou na hora.
Virou.
Harry voltou a cruzar os braços, defensivos, a expressão firme.
— Eu tenho um problema — disse, entredentes — Eu… me transformo. — a palavra ficou presa, o incômodo de falar alto sobre o assunto lhe atingindo como um raio — Numa coisa.
— Ah, Harry… — murmurou, mais suave — Dumbledore já sabe disso. E não precisa se preocupar. Hogwarts tem tudo preparado pra isso. Tudo mesmo.
Harry sentiu um arrepio subir pela espinha. Não sabia o que aquilo significava. Ele odiava jaulas.
— Agora eu tenho que ir! — Hagrid disse de repente, como se tivesse lembrado de algo importante — Falar com o seu diretor, resolver umas coisas… Amanhã cedo eu volto!
E saiu.
Harry ficou parado por alguns segundos.
O vento passou leve, mexendo seu cabelo rebelde, frio na pele ainda sensível.
Ele apertou o envelope entre os dedos, mais uma vez.
Não entendia quase nada.
Mas entendia o suficiente.
Se suas transformações tinham a ver com o mundo mágico, talvez a resposta e a cura estivessem do outro lado também
Chutou uma pedra no caminho, sem força.
Olhou de novo para o envelope e para as palavras que não conseguiam ficar no lugar.
Respirou fundo, frustrado, com raiva de si mesmo. Se Hogwarts tivesse muitos livros, ele teria sérios problemas.
Nas horas seguintes, o tempo passou rápido como nunca tinha passado antes, e na manhã seguinte Harry estava em Londres, com Hagrid.
— Você guardou sua carta, Harry? — Rúbeo perguntou, a voz alta demais para o gosto de Harry, atravessando o barulho da rua como se aquilo fosse o lugar mais silencioso do mundo. Harry não respondeu. Enfiou a mão no bolso do casaco, puxando o envelope já meio amassado, os dedos passando pelas bordas gastas como se aquilo fosse, de alguma forma, importante demais para simplesmente existir jogado ali. — Ótimo — Hagrid assentiu, satisfeito, como se Harry tivesse acabado de passar em algum tipo de teste invisível — Aí tem tudo que você vai precisar.
Harry puxou o segundo papel, aquele que tinha ignorado na noite anterior, e tentou ler. Tentou mesmo. Os olhos correram pelas linhas, travando aqui e ali, captando palavras soltas — “vestes”, “livros”, “varinha” — como se estivesse montando um quebra-cabeça com peças faltando. Era informação demais, organizada demais, detalhada demais para alguém que ainda estava tentando aceitar o fato de que magia existia e, pior, que aquilo tinha alguma coisa a ver com ele.
Dobrou o papel antes de se irritar de verdade.
— Dá pra comprar tudo isso… aqui? — perguntou, enfiando tudo de volta no bolso com menos cuidado do que deveria.
— Dá, sim — respondeu Hagrid, tranquilo — se você souber onde ir.
Harry não sabia.
Na verdade, começou a entender que não sabia de muita coisa.
Nunca tinha estado em Londres antes, e aquilo ficava óbvio a cada passo que dava. As ruas eram cheias demais, rápidas demais, barulhentas demais, e ele não gostava disso — não daquele jeito. Era um tipo de movimento que não dava espaço para pensar, e pensar era uma das poucas coisas que ele ainda conseguia fazer sem errar.
Hagrid também não parecia muito melhor.
Ficou preso na catraca do metrô.
Reclamou dos assentos.
Reclamou do trem.
Reclamou da escada rolante.
— Não sei como os trouxas conseguem viver sem magia — murmurava, enquanto eles emergiam para uma rua movimentada, o fluxo constante de pessoas obrigando Harry a se manter perto demais de alguém que ocupava espaço demais.
Harry não respondeu.
Estava ocupado demais tentando parecer normal.
Não olhar demais.
Não travar demais.
Não parecer um completo idiota.
Tinha a sensação de estar falhando em todos.
— É aqui — Hagrid disse de repente.
Harry seguiu o olhar e franziu o cenho.
Um bar pequeno, encaixado entre uma livraria e uma loja de discos, com uma aparência esquecível o suficiente para passar despercebido — e, de fato, parecia exatamente isso que estava acontecendo. As pessoas passavam direto, os olhos escorregando pelo lugar como se ele simplesmente não estivesse ali.
— Esse é o Caldeirão Furado — Hagrid apresentou, contente, como se aquilo explicasse tudo. Mas antes que Harry pudesse perguntar qualquer coisa, a porta já estava sendo aberta pelo gigante.
Harry sentiu antes mesmo de perceber — os olhares, o peso deles, a forma como as conversas morreram no meio das palavras. Seu corpo respondeu sozinho, ficando rígido, os ombros tensos, os sentidos atentos demais para um lugar que, claramente, não era seguro no tipo de forma que ele entendia. Um homem, no balcão do bar, arregalou os olhos para eles. Harry sentiu todos os olhos nele. Quis morrer. Recuou um passinho para trás.
— Por Merlin… — murmurou o homem atrás do balcão — é ele mesmo?
E, de repente, Harry estava cercado de mãos, vozes, toques.
Por muito pouco não mandou todo mundo ir à merda.
— Harry Potter!
— Que honra!
— Sempre quis te conhecer!
— Posso apertar sua mão?
Não.
Não podia.
Mas aparentemente ninguém se importava.
Os toques vieram sem aviso, sem cuidado, direto no braço errado.
A dor subiu na mesma hora, quente, irritante, e Harry travou o maxilar com força, segurando qualquer reação que denunciasse mais do que ele queria mostrar.
Ótimo.
Talvez ele devesse andar com uma placa.
Cuidado: frágil.
— Já chega, já chega! — Hagrid abriu caminho, empurrando gente como se fossem almofadas — Deixem o garoto respirar!
Quando finalmente saíram dali, Harry ainda sentia o corpo tenso.
— Viu? — Hagrid disse, satisfeito — Eu te disse que você era famoso.
Harry franziu o cenho.
— Gosto de ser ignorado – resmungou.
Hagrid riu.
— Você acostuma!
Não gostava de fama. Descobriu isso em menos de dois minutos. Ser observado era ruim. Ser tocado sem aviso era pior. E aquelas pessoas… não olhavam para ele como se fosse alguém, e sim um herói. Harry não era herói de ninguém.
Ele enfiou as mãos nos bolsos do casaco gasto, o ombro ainda meio tenso.
— Eu sou famoso pelo que?
Hagrid, que até então parecia confortável, hesitou. Foi sutil: um segundo a mais de silêncio, o sorriso diminuindo um pouco, o olhar desviando.
— Ah… — ele começou, coçando a barba — Não sei se sou a melhor pessoa pra te contar isso, Harry… mas alguém precisa, né? Você não pode chegar em Hogwarts sem saber de nada…
Ele olhou ao redor, como se procurasse um lugar melhor, e acabou encostando perto de uma parede, ao lado de uma lata de lixo amassada. Não parecia o cenário ideal para uma revelação de vida inteira, mas Hagrid claramente não estava preocupado com isso.
Harry parou na frente dele, os braços soltos ao lado do corpo, mas a atenção inteira focada.
— Começa com… uma pessoa — Hagrid disse devagar — Um bruxo. Quer dizer… — ele fez uma careta — É estranho você não saber. Todo mundo sabe. — Harry apenas inclinou levemente a cabeça, esperando. Hagrid suspirou. — Eu não gosto de dizer o nome dele… ninguém gosta.
— Por quê?
— Porque… — ele soltou um riso sem humor — as pessoas ainda têm medo. Muito medo. — Passou a mão pelo rosto, como se aquilo fosse mais difícil do que parecia — Ele foi… ruim, Harry. Ruim de um jeito que não dá pra explicar direito. Pior do que qualquer pessoa que você possa imaginar. O nome dele era… — Hagrid travou. Engoliu em seco. Tentou de novo. Nada. Até que, quase irritado consigo mesmo, soltou de uma vez: — Voldemort. — Hagrid estremeceu logo depois, como se tivesse dito algo proibido. — Não me peça para repetir — murmurou rápido, sacudindo a cabeça — Enfim… ele começou a juntar gente. Seguidores. Alguns iam por medo, outros porque queriam poder. E ele estava ficando forte… forte demais. — A voz dele ficou mais séria — Foram tempos ruins. Ninguém confiava em ninguém. As pessoas tinham medo até de fazer amizade… porque nunca sabiam de que lado o outro estava. E quando alguém se opunha a ele…
Harry não disse nada. Só observava, absorvendo cada pedaço daquilo.
— Hogwarts era um dos poucos lugares seguros — Hagrid continuou, depois de um tempo — Dumbledore… — ele soltou um pequeno sorriso — acho que era o único de quem ele tinha medo de verdade. Nunca tentou tomar a escola. Não no começo.
Um gato atravessou o beco nesse momento, e, por um segundo, o olhar de Harry escapou para ele — acompanhando o movimento leve, o silêncio tranquilo do animal, como se fosse um pequeno respiro no meio de tudo aquilo.
Então Hagrid falou de novo.
— Seus pais… — Harry voltou a atenção imediatamente. — Eles eram dos melhores que eu já conheci — disse, com uma firmeza diferente agora — Brilhantes. Primeiros da turma. E… bons. Muito bons. — Harry trocou o peso da perna, incomodado. — A gente nunca entendeu direito por que ele não tentou trazer eles pro lado dele antes… — Hagrid continuou — mas acho que ele sabia. Sabia que eles nunca aceitariam. — Ele apareceu onde vocês estavam… numa noite de Halloween. Você tinha um ano. – O olhar de Harry nublou com o peso do assunto — Ele foi até a casa de vocês e… — Hagrid parou. Puxou um lenço sujo do bolso e assoou o nariz, sem nenhum pudor. — Desculpa — murmurou — Eu conheci eles. Não tinha gente melhor.
Potter engoliu em seco.
Não sentia exatamente tristeza. Nem choque.
Só um vazio estranho, como se aquela informação não tivesse onde encaixar dentro dele.
— Ele matou os dois — Hagrid disse, mais baixo agora. — E depois tentou te matar também. — Um arrepio subiu pelas costas de Potter. Rápido e involuntário. — Queria terminar o trabalho, eu acho… — Hagrid continuou — mas não conseguiu. — Ele olhou direto para Harry. — Ninguém nunca sobreviveu depois que ele decidiu matar. Ninguém. Só você. Você nunca se perguntou sobre essa cicatriz? — Hagrid apontou para a testa dele — Aquilo não é um corte qualquer. É o que sobra quando um feitiço… muito poderoso… dá errado.
Harry conseguia lembrar. Da luz verde rápida e forte, e de uma risada distante e fria.
Hagrid o observava com cuidado agora.
— Eu te tirei de lá — disse, mais suave — por ordem de Dumbledore. Te levei até seus tios. — E depois teve o ataque… — Hagrid continuou, mais hesitante — Greyback. A gente só ficou sabendo dias depois. — Ele olhou para Harry, mais sério — E… bom… por mais que eu não goste dos seus tios… tenho que admitir. Sua tia foi esperta em procurar os livros da sua mãe para te ajudar com a dor.
Harry desviou o olhar. Lembrava da dor, do sangue, do calor absurdo da ferida.
Ele tinha seis anos.
Seis.
A mandíbula travou por um instante.
— E o que aconteceu com ele? — Harry perguntou finalmente — Com Voldemort?
Hagrid fez uma careta imediata pelo nome.
— Ele sumiu. Desapareceu na mesma noite.
Um pequeno silêncio se instalou. Então Hagrid bateu as mãos uma vez, como se afastasse o peso da conversa.
— Mas chega disso! — disse, forçando um tom mais leve — Já falamos de coisa triste demais por hoje. — Ele se virou para a parede ao lado da lata de lixo, murmurando: “Três pra cima… dois pro lado…”
E Harry ficou ali por um segundo a mais, parado, tentando organizar tudo aquilo dentro da cabeça. O fato da parede de tijolos se retorcer e dar entrada a um mundo totalmente novo nem chegou direito à mente de Harry.
Para qualquer criança, parecia o paraíso. Mas tinha tanta gente, tantas cores, tantas coisas, que mais parecia o inferno pessoal de Harry Potter.
— Vamos! – Rúbeo chamou, o empurrando para dentro da rua mágica.
Harry deu um passo e depois outro. Sem perceber quando começou a andar de verdade.
O Beco Diagonal era demais. Era cor demais, som demais, movimento demais — e, ainda assim, fazia sentido de um jeito que Londres não fazia. As coisas eram estranhas, sim, mas eram estranhas de forma curiosa.
— Vamos começar pelo uniforme — Hagrid disse, apontando — Entre lá e diga que é para o uniforme de Hogwarts, eu vou no banco.
Harry assentiu, hesitante, e seguiu sozinho para entrar na loja. Estava distraído tentando não morrer com todo aquele barulho, quando esbarrou em alguém. Não foi forte, mas foi o suficiente para fazer o corte no braço latejar.
Harry travou, os olhos subindo devagar, pronto para reagir — porque era isso que ele fazia, era isso que sempre precisava fazer — mas parou antes que as palavras saíssem. O garoto à sua frente não parecia surpreso, nem irritado, nem assustado.
Era loiro — claro demais, quase branco — com uma postura que não combinava com a idade e um olhar… estranho. Não no sentido ruim. No sentido de alguém que estava olhando de verdade, como se estivesse tentando entender alguma coisa.
Aquilo incomodou Harry mais do que qualquer xingamento.
— Você devia prestar mais atenção — Harry disse, seco, mais por hábito do que vontade.
O garoto ergueu uma sobrancelha, devagar.
— Engraçado — respondeu, a voz arrastada, mas não exatamente irritada. Um sotaque diferente de qualquer um que Harry já tinha ouvido — Eu ia dizer a mesma coisa.
O tom não era agressivo, mas também não podia ser chamado de amigável.
Harry estreitou os olhos, esperando o resto — provocação, empurrão, qualquer coisa que justificasse uma reação. Não veio.
— Você é novo por aqui — o garoto concluiu, inclinando levemente a cabeça, como se estivesse organizando uma ideia. Harry não respondeu. — Dá pra notar — continuou, tranquilo demais — por tudo… isso – disse, finalmente, olhando Harry de cima a baixo. O analisando demais.
— Você fala demais — cortou, seco
O canto da boca do garoto subiu.
— Talvez.
A resposta veio leve demais pra quem claramente não gostava de perder.
O silêncio que caiu depois não foi vazio, foi daqueles que esticam, que incomodam um pouco, que fazem parecer que alguém precisa falar alguma coisa, mas nenhum dos dois quer ceder primeiro. O garoto soltou um sopro pelo nariz, algo entre um riso e um comentário que ele decidiu não fazer.
— Você é estranho. — Disse, finalmente.
Harry inclinou levemente a cabeça, analisando, como se estivesse considerando aquilo com seriedade.
— Você fala demais – repetiu, monótono — Para alguém que não disse nada útil até agora.
O olhar do loiro mudou um pouco. Parecia interessado.
— Provavelmente — ele respondeu, fácil demais pra quem tinha acabado de ser cortado. E aí veio aquele meio sorriso de novo. Pequeno. Arrogante. — Mas você continuou ouvindo, não é?
Harry revirou os olhos na mesma hora.
— Hnm.
— Hnm. — imitou, irritante.
E então, como se a conversa simplesmente tivesse acabado — ou como se ele tivesse decidido que já tinha tirado o suficiente dali — o garoto deu um passo para o lado, desviando de Harry com precisão.
— Nos vemos em Hogwarts, eu suponho. — E seguiu.
Potter virou o rosto, acompanhando enquanto Draco se afastou, passando como se o mundo inteiro abrisse espaço para ele — irritante, convencido e, de algum jeito, impossível de ignorar.
Harry soltou o ar pelo nariz, baixo, quase um riso.
— Idiota irritante.
A sineta denunciou uma mulher elegante com uma fita métrica no pescoço abrindo a porta da loja, com aquele olhar surpreso que Harry já tinha visto no Caldeirão Furado. diferente dos outros, ela pareceu tentar se conter.
— Hogwarts, querido? — E sorriu.
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