FEITICEIROS
1 Amor por correspondência só existe no cinema
FEITICEIROS
A todos que esperaram por mais de uma década o final.
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques e Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 01
Amor por correspondência só existe no cinema
Tomoyo já estava acordada quando o despertador tocou de forma estridente na mesinha de cabeceira. Ela levantou o braço e desligou o aparelho, fazendo o quarto voltar a ficar silencioso. A jovem olhou para a cama ao lado da sua, onde sua amiga preguiçosa continuava a dormir como se nada tivesse acontecido. Ela não pôde deixar de se perguntar, novamente, como uma pessoa poderia dormir tão profundamente. Sakura tinha ficado acordada até tarde estudando para as provas que começariam na próxima semana.
'Ela não vai conseguir acordar...' Suspirou Tomoyo.
Kero surgiu a sua frente, pousando suavemente na cama da morena e olhando para sua mestra com um ar de censura. 'Se ela não deixasse para estudar em cima da hora, não estaria passando por esse aperto.’
Tomoyo sorriu de leve. ‘Mas aí não seria a Sakura, não é? Planejar nunca foi um dos fortes dela. Ela sempre foi mais prática.’
Kero concordou com um gesto e sorriu de leve. ‘Acho que sim.’
‘Bem… melhor acordá-la.’ Olhou de relance para o relógio. ‘Ela tem aquela malfadada aula de Anatomia agora pela manhã.’
A morena se levantou e caminhou até Sakura, sacudindo-a de leve enquanto a chamava com a voz doce. Kero voou até ela e olhou desanimado para a morena, balançando a cabeça de leve.
'Assim não irá acordá-la nunca.’ O bichano alertou. ‘Tem que ser assim: Sakura!' Gritou a plenos pulmões.
Tomoyo chegou a fechar os olhos e trincar os dentes. Detestava gritos logo pela manhã e, realmente, às vezes, conviver com o barulhento guardião era complicado. Não é que não gostasse de Kero, adorava-o, mas ele era por demais espaçoso. Afastou-se da cama de Sakura e a observou abrindo os olhos devagar.
Sakura bocejou, tampando a boca com a mão e se espreguiçou um pouco, revirando-se suavemente na cama. Por fim levantou-se e sorriu para os amigos.
'Bom dia, Tomoyo. Bom dia, Kero.’
A morena sorriu. Ela amava a cada dia mais aquele sorriso belo que a cumprimentava todas as manhãs. Poderia até mesmo suportar a gritaria de Kero como um preço a pagar pelo benefício de recebê-lo. Ela desviou os olhos, fitando o relógio no criado-mudo que separava a duas camas de solteiro.
'Já está atrasada para sua aula de Anatomia.' Ela constatou o inevitável.
'Isso mesmo! Olha a hora.' Alertou Kero, de forma mais dramática.
'Droga! Eu estou atrasada. De novo!' Sakura lamentou, saltando da cama e correndo em direção ao banheiro para se arrumar. Dali a poucos minutos lá vinha ela: tentando se pentear enquanto arrumava o material para a aula. Tudo ao mesmo tempo.
Tomoyo riu, pensando que não seria má ideia a amiga criar uma carta que lhe desse vários braços, como uma mulher polvo. Sakura virou-se para a amiga e a viu rindo sem entender.
‘O que foi, Tomoyo? Estou com a roupa do lado avesso de novo?’ Perguntou, fitando-se para verificar sua roupa.
Tomoyo riu com gosto, agora, com a lembrança da semana anterior quando Sakura passou praticamente o dia inteiro com o vestido do lado avesso sem se dar conta.
‘Tomoyo, assim você não está me ajudando.’ A ruiva resmungou, sentindo-se incomodada com aquele estranho acesso de bom humor da amiga logo pela manhã.
‘Você está linda, como sempre, Sakura.’ Ela sentenciou finalmente. ‘Agora vá, ainda tem chance de chegar a tempo para sua aula’. Recomendou.
'Aquele professor já não vai com a minha cara.'
'Claro, você sempre chega atrasada à aula dele.' Kero retrucou.
Sakura estreitou os olhos no bichano que a olhava com o rosto de clara desaprovação. ‘Não me provoque… ou você voltará a passar uma temporada com Touya e…’ Ela inclinou o corpo, fitando Kero bem de perto. ‘Yue.’
Kero fechou o rosto e cruzou os bracinhos sobre o peito. ‘Você sabe que eu e aquele metido não nos damos bem.’
‘Exatamente.’ A voz dela era baixa. Ela se afastou e passou a mão na cabeçona do guardião solar. ‘Bom dia, Kero. Controla o tempo de videogame hoje. Vai acabar zureta de tantas horas em frente a televisão.’
A ruiva colocou a mochila nas costas e olhou para a companheira de dormitório. ‘Bom dia, Tomoyo. Conversamos mais tarde!’ Despediu-se, abrindo a porta e passando por ela.
Tomoyo ouviu a amiga ainda esbarrando em alguém e se desculpando, antes de finalmente ouvir os passos apressados de Sakura Kinomoto.
‘Às vezes, tenho que dar razão ao Touya,’ Kero comentou, voando em direção à mesa de estudos de Sakura e constando que mal tinha espaço para ele pousar de tanta bagunça. ‘Ela parece uma monstrenga.’ Sentenciou inconformado com o desleixo de sua mestra.
A morena apenas sorriu com o comentário. Agora que o furacão Sakura estava solto para atingir o campus da faculdade. Suspirou e sentou-se na mesa para tomar o café da manhã, diferente da amiga, não conseguia fazer nada antes do desjejum. Seus olhos foram novamente ao relógio verificando que tinha ainda muito tempo até a primeira aula do dia.
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Sakura corria como um verdadeiro tornado pelos corredores da enorme faculdade de Tomoeda. Estava no quarto período da faculdade de Educação Física e dividia com Tomoyo um dos quartos do alojamento feminino da irmandade Kαβ. Às vezes, Kero passava uma temporada com ela, mas ele morava mesmo com Touya e Yukito agora.
A jovem ultrapassou um colega pela direita e quase o derrubou enquanto tentava segurar os livros que caíam de seus braços. ‘Foi mal aí!’ Desculpou-se sem parar de correr e mal olhando para o rosto do colega.
Arregalou os olhos, vendo outro obstáculo à sua frente: um grupinho de meninas que caminhavam de forma lenta, formando assim uma verdadeira barreira.
‘Com licença... eu preciso passar...’ Falou, empurrando duas delas e fazendo uma brecha no bloqueio humano.
Voltou a correr, vendo as folhas do fichário que carregava não aguentarem mais e voarem para todos os lados. Foi obrigada a voltar para pegá-las do chão. Alguns estudantes tentavam ajudar e outros a ignoravam, pois jovens correndo era algo comum no mundo universitário. Nessas horas é que realmente sentia falta de usar Movimento. Soltou um suspiro irritado, se Kero não estivesse em seu dormitório, poderia ter pego algumas cartas de forma sorrateira. Balançou a cabeça, mais irritada ainda por pensar naquilo. Não precisava de magia. Não precisava mais de nada que viesse pela magia.
Estava já perto do prédio que abrigava o curso de Medicina, onde era ministrada a aula de Anatomia que estava cursando. Sentia-se invadida por um calor morno de vitória quando esbarrou com tudo num rapaz que a segurou, evitando que os dois caíssem no chão. Ela balançou a cabeça, tentando recuperar-se do forte impacto.
‘Bom dia, Sakura.’ Ouviu lhe cumprimentarem e ela levantou o rosto, olhando com censura para o rapaz.
‘É Kinomoto! Já nunca lhe dei essa liberdade, Yanamoto.’ Resmungou. Voltando a caminhar com passos rápidos pelo andar térreo do prédio, percebeu que o rapaz veio em seu encalço. Virou-se para ele. ‘Não me siga! Sabe que não gosto disso.’
Seiya Yanamoto era aluno de Direito da faculdade de Tomoeda e cercava-a o tempo todo de forma irritante. Inclusive, não fazia sentido algum ele estar no bloco que abrigava as disciplinas de biociências. Não se deu nem ao trabalho de se perguntar o porquê dele estar ali.
Encararam-se por alguns segundos, antes dela retomar seu caminho em direção à sala de aula, sabendo que não seria seguida pelo insistente rapaz. Finalmente parou em frente aos elevadores e apertou, freneticamente, o botão. Olhou para o relógio, verificando que faltavam dois minutos para o início da aula.
'Droga.' O sentimento de vitória esfriou com a demora dos elevadores. Olhou para o visor acima da porta de metal e reparou que ele ainda estava no décimo andar. Olhou para os outros dois elevadores e verificou que ambos estavam também acima, pelo menos, do quinto andar. Um deles, inclusive, estava subindo. Não teve dúvidas, virou-se e correu para as escadas, pronta para subir e tentar chegar a tempo.
Via-se logo que era estudante de Educação Física devido a sua ótima forma física. Depois da maratona até o prédio, Sakura subiu a escadaria pulando os degraus e desviando de qualquer obstáculo humano que encontrasse em seu caminho até a sala de aula. Porém, não foi tão rápida ao tentar desviar de uma jovem que estava parada, em sua opinião, como uma tonta. Foi com tudo na garota, fazendo livros, papéis, canetas e tudo mais, rolar escada abaixo. Voltou-se perplexa para seu material caindo pelos degraus.
'Quem pisar no meu trabalho, morre!' A ruiva gritou, alertando o fluxo de estudantes que subiam e desciam as escadas, provavelmente, tão atrasados quanto ela para alguma aula.
Ela pegava os papéis de forma frenética, mal prestando atenção se realmente pertenciam a ela ou à moça tonta que lhe jogou tamanho balde de água fria em seus planos de chegar à tempo para a aula de Anatomia. Colocando as folhas de qualquer maneira dentro do fichário, e rezando para que tivesse recuperado tudo, voltou a correr escada acima.
Enfim, chegou ao sétimo andar, correu pelo corredor, parando em frente à sala de número 723. Ficou na ponta dos pés e espiou pelo visor da porta, verificando se o professor já tinha começado a aula. Seu coração se encheu de alegria ao não encontrá-lo no púlpito.
Soltou um suspiro de vitória e abriu um sorriso, aliviada por ter chegado a tempo. Não pôde deixar de agradecer por, depois de toda aquela maratona, o destino não lhe pregar uma peça fazendo-a levar uma bronca do professor. Respirou três vezes, de forma profunda, tentando controlar a respiração ainda acelerada pelo esforço físico e, finalmente, cruzou a porta entrando na sala de aula.
'Sakura!' Ouviu alguém chamá-la. Virou-se tentando identificar de onde vinha o chamado, logo encontrando o rosto do namorado. ‘Sente-se aqui.’ Ele sugeriu apontando para a cadeira vaga ao seu lado.
Ela sorriu discretamente para ele e caminhou devagar, desviando dos outros alunos que ainda estavam em pé na sala, conversando enquanto esperavam o professor. Sentou-se ao lado dele. 'Bom dia, Makoto.'
Sakura não tinha mais contato com Li. Aos poucos a comunicação entre os dois começou a diminuir. Amor à distância só existia mesmo no cinema. Deus sabia o quanto ela tentou entrar em contato com o namoradinho de infância. Foram cartas e mais cartas sem resposta. Telefonemas sem retorno. E-mails ignorados. Mensagens sem resposta. Noites de insônia pensando nele. Anos de espera.
Até que, finalmente, Yelan Li, mãe de Syaoran, colocou uma pedra naquele assunto. No último e mais doloroso telefonema de Sakura na tentativa de se comunicar com o menino, Yelan foi taxativa em afirmar que aquele namoro bobo estava atrapalhando os estudos e o desenvolvimento do filho. Mesmo que tivesse colocado as palavras de forma doce e cuidadosa, para não ser tão indelicada com a sucessora de Clow, ela deixou clara a situação.
Sakura sofreu, mas tinha que continuar sua vida. Terminou o colegial, entrou na Universidade e, depois de vária tentativas de Makoto para que, pelo menos, saíssem juntos, Sakura resolveu se dar uma chance de esquecer Li. Não era quem ela queria, mas era o que o destino tinha lhe reservado. Não aguentava mais falarem que ela tinha que tocar a vida para frente e esquecer o chinês.
Às vezes, sentia-se culpada por ter aceitado o namoro com o rapaz quando sabia que não o amava de verdade, mas estava longe de ser perfeita.
Makoto era estudante de Medicina, era educado e vinha de uma boa família tradicional japonesa. Em sua paranoia, Touya tinha levantado a ficha completa das últimas três gerações da família do rapaz, a fim de verificar se não existia nenhum antecedente criminal. Eles estavam cursando a mesma aula de Anatomia. Sakura tinha a impressão que ele tinha mexido os pauzinhos para estar na mesma turma que ela ao invés de acompanhar a sua turma de Medicina.
O rapaz mal conseguiu conter o entusiasmo ao ver a namorada logo cedo. Rápido, roubou-lhe um beijo, pois sabia que ela não gostava de demonstrações de carinho na frente dos outros. Sakura era discreta demais.
'Bom dia. Está cada dia mais linda, meu amor.' Cumprimentou-a de forma amorosa, evitando receber uma censura da namorada pelo beijo roubado.
Sakura suspirou e balançou a cabeça de leve, da próxima vez saberia como se esquivar melhor daquelas atitudes que Makoto insistia em tomar na frente dos outros.
'Como você é galanteador, Makoto. Chegou até a me embrulhar o estômago.' Uma voz feminina chamou a atenção de Sakura que desviou seu olhar das folhas as quais tentava organizar.
'Está com ciúmes, Kimura?' Makoto censurou-a.
Ela sorriu de forma debochada, tentando se manter indiferente. 'Claro que não, só que esse comentário foi um pouquinho assim... brega.' Falou, fazendo um gesto com a mão.
Sakura concordava, mas suspirou e tratou de defender o namorado. Era para isso que serviam as namoradas, não era? 'Deixe-o, Kimura. Makoto é assim mesmo.'
'S.O.S. Sakura, tudo para salvar seu namorado.' Kimura brincou, arrancando um sorriso da jovem de olhos verdes. ‘Bom dia.’ Finalmente, cumprimentou-a adequadamente.
'Bom dia, Kimura.' Respondeu à colega de faculdade, ainda sorrindo.
Sakura voltou sua atenção para os papéis. Estava com dificuldade de colocá-los na ordem correta e isso já a estava deixando levemente nervosa.
Quando o professor entrou na sala, cumprimentando a todos, ela olhou rapidamente para o relógio de pulso e estranhou que o sempre pontual Senhor Sasaki tivesse chegado quase 10 minutos atrasado. Não teve muito tempo para pensar a respeito, pois o senhor iniciou rapidamente mais uma das suas intermináveis aulas. Por mais que tentasse, era dificílimo manter os olhos atentos à matéria. E, pelo jeito, não era só ela que tinha essa dificuldade.
'Acho que as únicas pessoas que estão entendendo o que ele fala são aqueles CDFs lá da frente.' Makoto sussurrou ao pé do ouvido da namorada.
Ela nem tinha ideia que ele só fazia esses comentários bobos para poder sentir o perfume da amada.
Kimura diferente da jovem não aguentou se manter calada e virou-se para o casal, falando a meia voz para não despertar a atenção do mestre. 'Vocês ouviram o boato do que aconteceu no alojamento da ΔPα?' O casal em silêncio, respondeu que não. 'Disseram-me que encontraram o corpo de um dos estudantes completamente mutilado.'
'Mutilado?' Sakura espantou-se, franzindo a testa de leve.
Tomoeda era uma das cidades mais calmas e pacatas do Japão. Este tipo de crime não era comum. Na verdade, ela mesma nunca tinha ouvido de algo parecido já ter acontecido antes.
'Isso mesmo.’ A colega confirmou e continuou a dar sua macabra notícia. ‘Andam dizendo que não foi o primeiro corpo que encontraram assim. A reitoria tem feito de tudo para abafar os casos, mas devem fazer um pronunciamento a respeito disso em breve.'
Sakura desviou os olhos da jovem e fitou o professor que falava sem parar na frente da turma. Perguntou-se se o atraso do professor não teria alguma coisa a ver com aquele crime.
'Parece que temos um assassino solto pelo Campus.' Sentenciou Kimura, sentindo-se satisfeita em informar aos amigos o que estava acontecendo. ‘Melhor terem cuidado quando saírem para namorar à noite.’ Ela acabou rindo ao observar a amiga ficar vermelha pelo comentário malicioso.
‘Presta atenção na aula, Kimura. Ou vai acabar repetindo a matéria... de novo.’
A jovem espevitada deu de ombros e voltou a tentar prestar atenção na aula.
Makoto segurou a mão de Sakura, assustando-a um pouco com aquela atitude. ‘Eu a protegerei de qualquer maluco, Sakura.’
A feiticeira puxou a mão devagar. Não queria, e na verdade nem precisava, ser protegida. Queria só prestar atenção à aula para não ser obrigada a assisti-la novamente. O que aconteceria caso fosse reprovada.
O professor voltou-se para trás e observou Makoto e Sakura. 'Será que o casalzinho aí atrás poderia me dizer o nome do ligamento que estou mostrando para a turma?'
Sakura morreu de vergonha por ter os olhos de todos sobre si.
'Foi o que eu imaginei. Deveriam prestar mais atenção na minha aula ou acabarão não passando nesta disciplina.'
‘Desculpe-nos, professor.’ Makoto tentou remediar.
'Não tenho nada a lhe desculpar, senhor Makoto. Deverá pedir desculpas ao senhor mesmo quando tiver que refazer a minha disciplina.' A turma riu do comentário do professor e o rapaz ficou completamente sem graça.
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'Eu o detesto, ele é simplesmente...' Sakura começou, desabafando para Tomoyo assim que a encontrou na hora do almoço
'Um imbecil.' Completou Makoto, tão ou mais irritado com o comentário do professor de Anatomia durante a aula de hoje.
'Assim não conseguirão passar nunca em Anatomia.' Ponderou a morena, fitando a amiga a sua frente.
Kimura que, desta vez, tinha se livrado dos ataques irônicos do senhor, solidarizou-se com os amigos. 'Ele nos detesta.'
'Isso porque demos uma surra no time da KΩε, que é a irmandade do filho dele.' Concluiu Makoto irritado.
Sakura olhou de esguelha para o namorado e soltou um suspiro. O professor Sasaki era apenas rígido e conservador demais. Ele não estava nem aí para disputas entre irmandades, na verdade já tinha deixado claro que os alunos se distraíam demais com as atividades extracurriculares ao invés de estudarem para as matérias.
‘Na boa, Makoto. Ele não está nem aí para futebol. A não ser que um dos jogadores tenha uma lesão em algum ligamento.’ Ela murmurou.
Makoto olhou para a namorada que mantinha o rosto séria. Ele sabia que aquilo lhe causaria dor de cabeça mais tarde, Sakura detestava ser o centro das atenções e tinha certeza que a namorada acabaria desistindo de saírem para jantar naquela noite. Aquela timidez era por demais irritante, às vezes. Ele a amava. Tinha ficado uns bons seis meses no encalço dela até que, finalmente, aceitasse namorá-lo, mas o namoro deles não evoluía e isso era bem irritante para o rapaz. Sakura era linda, ele queria mais era sair de mãos dadas com ela pelo Campus, recebê-la em seu dormitório à noite, mas não. Sakura era distante e, até certo ponto, fria demais com ele.
Tomoyo observou o casal a sua frente. Sorriu de forma doce para o rapaz que olhava desolado para Sakura. ‘Vocês realmente fizeram um ótimo jogo contra a KΩε. ‘ Ela comentou, chamando a atenção do rapaz.
'Isso mesmo. O KΩε nunca serão páreo para nós.' Esbravejou Kimura.
'Pelo menos nos esportes.' Ponderou a morena. 'Porque em notas eles são os melhores da faculdade inteira não importando em qual carreira.'
'Grande coisa. Eles só sabem ficar estudando como uns nerds.'
'Eles são nerds.'
Sakura não queria participar daquela discussão de nerds versus esportistas e tudo mais. Por fim, sentenciou como seria o seu próximo final de semana.
'Acho que vou ter que estudar mais Anatomia, senão, não passo mesmo. Vou que me debruçar nos livros sábado e domingo.’
Makoto não conseguiu esconder seu desgosto e contrariedade ao ouvir a namorada já colocar seus planos de cineminha no final de semana no lixo. Kimura percebeu a expressão do rapaz e tentou ajudar. Aproximou-se de Sakura e colocou uma das mãos no ombro da colega. 'Falta muito ainda para as provas. Não precisa se desesperar.'
'É semana que vem.’
‘Já?!’ Kimura falou, arregalando os olhos e tentando achar as datas das provas na agenda. ‘Inferno!’ Soltou quando constatou a data correta das provas. ‘Já era o meu final de semana, também.’
Tomoyo observou a amiga brincando com a comida já fazia uns dez minutos. ‘Isso é verdade, mas tente não pensar nisso agora. Daqui a pouco temos aula e você ainda nem tocou na sua comida. Além disso, você ainda tem que levar uma coisa para o nosso dormitório.'
'O quê?' A ruiva levantou o rosto e fitou a amiga.
A cantora ergueu uma sobrancelha encarando-a. 'Oras, o quê? Sakura acorda.'
Sakura precisou ainda de alguns instantes. Viu Tomoyo levantar as mãos e fazer um gesto discreto de passarinho voando para lembrar a amiga sobre o guardião que deveria estar desesperado de fome no dormitório das duas.
'Ah, claro! Como pude ter esquecido.'
'Você nunca foi boa em lembrar dessas coisas.'
Sakura sorriu sem graça para a amiga, desculpando-se.
'Tem aula ainda hoje, Tomoyo?' Kimura perguntou.
'Não, eu só tenho ensaio do coral.'
'Quando será sua apresentação?' O único rapaz daquele grupinho perguntou, já arquitetando mais um plano para convencer a namorada a aceitar um convite para sair.
'Daqui a dois meses, mas...' A jovem deteve-se em continuar. Seu olhar era aflito e Sakura percebeu isso.
'Mas o quê?' insistiu Makoto.
A morena inclinou o corpo para frente, sendo copiada pelos colegas que se aproximaram como se ela fosse contar um grande segredo.
'Encontrei com a Rika hoje e ela me disse que o Reitor está pensando em cancelar todas as atividades do Campus. Está correndo um boato de que estão acontecendo coisas estranhas aqui na universidade.’
'Eu não disse a vocês!’ Kimura gritou a plenos pulmões, fazendo Tomoyo rodar os olhos impaciente. Era para ser uma conversa confidencial.
Makoto também não se sentiu confortável com o berro da amiga, pediu com um gesto que ela diminuísse o volume. 'Está falando dos assassinatos?' Perguntou, encarando a morena.
'Ainda não foi confirmado se foi realmente um assassinato.’ Ela hesitou por alguns segundos. ‘Mas é verdade que encontraram um corpo na ΔPα.'
Kimura bufou, sentindo-se ofendida pela censura. 'Isso está até parecendo filme de terror de segunda.' Declarou com desdém agora.
'Acho melhor ficarmos atentos.' Sakura se manifestou. ‘Pode ter um psicopata em Tomoeda.'
Tomoyo também compartilhava a preocupação da prima. ‘Tomoeda é uma cidade pacata demais para se proteger de um maluco.’
'É, talvez seja um dos nerds do KΩε que enlouqueceu de tanto que estudou.’ Brincou Makoto, ele olhou para a namorada e sorriu, passando o braço sobre os ombros dela. ‘Não se preocupe, meu amor, eu a defenderei do nerd maluco.'
Sakura pensou que não tinha a menor graça aquele comentário. Havia pessoas morrendo de verdade e não era para brincar com isso. Censurou o rapaz com o olhar e, com delicadeza, tirou o braço dele de seus ombros. 'Tenho que ir agora. Vem comigo, Tomoyo?'
'Claro.’ A prima respondeu, levantando-se.
Sakura sentiu Makoto enlaçando sua cintura e a puxando para perto dele. 'Espero você depois da aula para namorarmos um pouquinho, está bem?'
Sakura sorriu sem graça. ‘Vamos ver, Makoto. Vamos ver.’ Respondeu, esquivando-se do rapaz.
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À noite, Sakura e Tomoyo contaram a Kero o que estava acontecendo no Campus.
O guardião ouviu toda a narrativa das jovens com o rosto sério e seus bracinhos curtos cruzados. 'Muito estranho...'
Sakura percebeu que Kero estava mais sério que de costume. Na verdade, o seu guardião solar só se mantinha sério para falar algo que era de seu interesse como videogame e doces. ‘O que é estranho, Kero?’
'É que ontem de madrugada eu acordei sentindo uma presença muito maligna.'
Sakura arregalou os olhos e franziu a testa, ainda encarando o amiguinho. 'Eu não senti nada.'
‘Claro que não! Você dorme como uma pedra, sonhando com aquele seu namorado troglodita. O teto pode cair que você não está nem aí…’
Sakura rodou os olhos, já andava meio sem paciência com a implicância de Kero com Makoto. Ela sabia que Touya tinha mandado o bichano passar um tempo com ela apenas para verificar se estava se comportando como uma “senhorita de respeito”.
'E você fica no videogame e não quer saber de mais nada.'
'Mas nunca me distraí do meu trabalho.'
Sakura ergueu uma sobrancelha, encarando o bichano 'Trabalho? Você não trabalha…’
'Vocês não vão começar a brigar novamente, não é?'
'Tomoyo está certa, não vale a pena discutir com você.' Sakura concluiu.
'Concordo.'
Os dois viraram a cara um para o outro.
Tomoyo suspirou e pensou que, novamente, teria que contornar o clima tenso entre os dois cabeças duras. 'É verdade que sentiu uma presença maligna de madrugada, Kero?'
'Sim, eu não pude identificar o que era, mas...'
Sakura voltou a encarar o amiguinho, impaciente. 'Fala logo, Kero! Estou ficando aflita dessa maneira.'
'Talvez, esta presença seja a responsável por estes acontecimentos.' Concluiu, finalmente.
Os três ficaram em silêncio por alguns instantes. Tomoyo, novamente, foi quem quebrou a tensão. 'Precisamos investigar.'
'Isso mesmo. Está na hora de voltar a usar sua magia, Sakura.' Sentenciou Kero, fitando sua mestra.
Sakura arregalou os olhos surpresa. ‘A gente não tem que se meter nisso. É coisa para a polícia.’
'Até onde sabemos, você é a única feiticeira da faculdade. É você quem deve investigar essa presença misteriosa.' Kero a alertou de seu dever.
Sakura soltou um suspiro e desviou os olhos de Kero. ‘Esse lance de “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” é coisa do Homem Aranha. Isso aqui é vida real, Kero. Meu poder de feiticeira não tem como combater um assassino, seja ele um ser humano ou não.’
‘Como você pode ter certeza disto?’ Tomoyo perguntou, parando em frente à prima que se sentiu intimidada ao encará-la. 'A polícia não possui magia. Ninguém mais aqui teria condições de nos proteger, Sakura.’
Sakura deu de ombros e se afastou da morena. Não gostava de usar magia. Desde que perdeu totalmente o contato com Syaoran há cinco anos, recusava-se a usar qualquer magia abertamente. Às vezes, usava uma ou outra carta para benefício próprio mesmo, embora sempre ficasse com a sensação de estar fazendo algo errado.
Movimento era ótima para quando esquecia um livro no dormitório ou qualquer outro objeto na casa de Touya. Corrida para quando queria espairecer e correr pelo Campus. Alada para fugir de um engarrafamento e Ilusão para rever o pai e a mãe que já não estavam na Terra...
Sorriu lembrando-se da última vez que utilizou a carta pedindo que lhe mostrasse como imaginava que Syaoran estaria hoje em dia. Não custava sonhar. Por mais que não quisesse admitir, sentia saudades de Li e morria de curiosidade para saber como ele tinha crescido. Fazia tudo escondida, como se estivesse cometendo um crime. Abertamente, não gostava de usá-las.
Abaixou os olhos, fitando o chão e pensou que se arrependeria da decisão que estava tomando. Agora que eles colocaram nas costas dela a vida de todos no Campus, ficava difícil simplesmente tomar um banho e ir dormir tranquilamente. Ela tinha princípios.
‘Está bem! Está bem!’ Falou por fim e fitou Kero de forma séria. ‘Não gosto de usar magia e você sabe disso. Também sabe o porquê.’
‘Está na hora de superar o passado, Sakura.’ Kero saltou do ombro de Tomoyo e voou até pairar a frente do rosto de sua mestra.
Sabia que estava exigindo algo difícil para ela e isso o fazia se sentir mal, mas ela tinha um poder fenomenal. Não tinha o direito de simplesmente trancar tudo e colocar debaixo do colchão por causa de um namorico infantil mal resolvido.
Ela afastou o amiguinho de forma gentil com uma das mãos para caminhar até o banheiro. ‘Vou tomar um banho e vamos começar logo com isso. Tentarei perceber alguma presença diferente e maligna no Campus. Também darei uma olhada na irmandade da última vítima.’
‘O que você pretende fazer, Sakura?’ Tomoyo perguntou, mal cabendo em si de ansiedade.
‘Bem, vou ter que invadir a irmandade ΔPα para ver se eu descubro alguma coisa ou se, pelo menos, sinto a presença do tal “ser maligno”.’ Ela encarou Kero novamente. ‘Acha que Sono e Cadeado podem me ajudar?’
Kero estreitou os olhos em sua mestra. ‘Elas estão loucas para que você as destranque. Todas estão ansiosas para que volte a ser a Mestra delas. Não é justo que as esqueça, deixando-as de fora sua vida só por causa de um moleque.’
Sakura mordeu o lábio inferior, evitando assim que saísse um bocado de xingamentos. Kero não tinha o direito de julgar suas atitudes. Achou melhor não falar nada ou começaria mais uma briga com o amigo e, agora que se sentia responsável pela segurança de toda a cidade, não tinha tempo a perder com discussões sem sentido com o guardião.
Entrou no banheiro e fechou a porta com força, fazendo questão de mostrar que não estava aceitando ser contrariada.
‘Você pegou pesado com ela, Kero.’ Tomoyo o recriminou. ‘Ela está fazendo o melhor que pode.’
Kero deu de ombros. ‘Sakura está fazendo corpo mole. COmo feiticeira, ela tem responsabilidades e precisa assumi-las. Negligenciá-las por causa de uma desculpa esfarrapada não é justo com ninguém aqui.’ Kero encarou Tomoyo. ‘Comigo, com as Cartas, com Clow e nem com ela mesma.’
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Eram três da madrugada quando Sakura, usando Flutuação, desceu pela janela e pousou no jardim da sua irmandade. Correu pelas sombras até se aproximar do prédio da ΔPα.
Foi difícil proferir novamente as palavras para invocar seu báculo na frente dos outros depois de tanto tempo. Ver-se diante de uma Tomoyo extasiada enquanto era filmada foi difícil também. Era como se fosse novamente uma garotinha prestes a transformar as Cartas, junto com Syaoran. Ela nunca considerou as cartas como dela. Ela sempre as considerou como sendo deles e usá-las sem a presença dele parecia errado demais.
‘Droga, Kero. Só você para me fazer lembrar de caraminholas que eu já tinha esquecido.’ Mentiu para si mesma, apertando o báculo com mais força na mão direita.
Era mais fácil colocar a culpa do que sentia em alguém e Kero era um ótimo culpado. Esperava resolver de forma rápida aquela situação. Poderia ser bem simples: encontraria o assassino, usaria Sono para fazê-lo dormir, chamaria a polícia, que o prenderia, e pronto. As cartas voltariam a ser guardadas e aquele maldito buraco no seu peito voltaria a ser tampado.
Parou, encostada à parede do prédio que abrigava a irmandade. Não viu janela alguma aberta. Usou Através para passar pelas paredes e entrar no enorme salão. Não havia ninguém por perto. Em silêncio, subiu as escadas, procurando o quarto que estava interditado pelas faixas da polícia, pois aquela seria a cena do crime.
Quase foi descoberta por um casal de namorados que desrespeitou as regras e estavam se pegando numa das salas de estudo do prédio.
Encontrou o que procurava. Já estava até com Cadeado pronta para ser usada, porém foi apenas encostar nela para que a porta se abrisse com um rangido. Abriu a porta com cuidado, estranhando que ela estivesse destrancada.
Talvez, algum policial novato tivesse esquecido de fechá-la ou algum dos peritos se descuidou. Entrou devagar, olhando para os lados. Estava tudo escuro. Pensou em usar Luz, mas precisava primeiro fechar a porta para que não percebessem.
Foi quando sentiu ser pega por trás, ela tentou gritar, mas taparam-lhe a boca, impedindo-a.
'Não grite.' A ordem foi sussurrada em seu ouvido de forma baixa e perigosa. Ela fez que sim com a cabeça. Aos poucos a mão destampou a sua boca, mas quem quer fosse não a soltou.
'O que está fazendo aqui?' Perguntaram, segurando-a fortemente pelas costas.
Os braços de Sakura estavam presos e ela não tinha como invocar nenhum poder. Estava começando a ficar, além de nervosa, em pânico.
'Só fiquei curiosa sobre a história que andam contando pelo Campus.' Respondeu, tentando parecer boba. Falar a verdade era loucura.
‘Garota tola.' Sussurraram, finalmente soltando-a.
Sakura pulou, afastando-se dele. Franziu a testa e tentou identificar quem era o homem que estava ali, como ela, na cena de um crime. Pela voz e pelo que a penumbra permitia observar dava para perceber que era um rapaz jovem de alta estatura e corpo bem feito. Por alguns segundos conseguiu ver uma leve aura esverdeada circulando-o, balançou a cabeça de leve. Estava há muito tempo usando magia apenas de forma esporádica e aleatória. Estava desacostumada a sentir auras mágicas.
‘E o que você está fazendo aqui?’ Ela perguntou de forma desafiadora. Levantou o báculo, já tendo decidido que carta usaria, caso ele se aproximasse. Brincava com Disparo entre os dedos.
'Não lhe interessa o que estou fazendo. Agora, é melhor cair fora.' Foi a resposta que recebeu.
Ela cravou os olhos naquele vulto, atenta a qualquer movimento dele. Por algum motivo, estava ficando muito curiosa. Curiosa demais. Seus dedos foram até outra carta, embora ainda tivesse Disparo pronta para ser usada a qualquer momento.
'Luz!' Invocou sua carta.
O quarto foi iluminado pela magia, revelando à Sakura a figura de um rapaz alto, de cabelos castanhos bagunçados e penetrantes olhos castanhos. Sentiu que prendeu a respiração, reconhecendo-o de imediato.
Mas que droga! Pensou a jovem. O que ele estava fazendo ali parado na sua frente depois de tanto tempo? Por que ele resolveu aparecer justo agora, que seria apenas resolver este caso para voltar a enterrar toda aquela dor debaixo do colchão como tinha feito por mais de 5 anos? Ela sentiu o báculo escorregar levemente na sua mão suada pelo nervosismo de estar novamente à frente dele.
‘O que está fazendo aqui, Syaoran Li?’ Perguntou sem rodeios.
Li cerrou os olhos na moça de aparência frágil a sua frente. Sorriu de lado, pensando que ela não tinha mudado muito, continuava com o mesmo rostinho perfeito como a tinha em suas lembranças. Os olhos deslumbrantes cor de esmeralda ainda possuíam aquele brilho fora do normal. Desceu os olhos, fitando a boca pequena e rosada, perfeita.
Os lábios dela estavam entreabertos, demonstrando que ela respirava de forma ofegante. Ele ainda se lembrava do sabor deles, devido ao único beijo que haviam trocado, na última vez que ele esteve em Tomoeda, quando tinham 13 anos.
Ela estava realmente surpresa por vê-lo naquele cubículo escuro e fedorento. Não era assim que havia sonhado em reencontrá-la depois de tanto tempo. Ele soltou um suspiro, desviando os olhos dela e caminhando devagar pelo quarto iluminado pela magia da jovem. Cruzou os braços e se encostou na mesa de estudos que deveria ser do infeliz rapaz assassinado. Reparou que Sakura acompanhou cada movimento dele com os olhos. Ela estava aflita.
Agora ele conseguia perceber a aura mágica em torno dela, estava fraca, muito fraca. Sakura realmente havia parado de evoluir na magia. Era uma pena, ela tinha um grande potencial.
‘O que você está fazendo aqui, Sakura Kinomoto?’ Respondeu com uma outra pergunta.
Sakura abaixou o cetro mágico e respirou fundo, sentindo o fedor do sangue que sujava quase todos os cantos daquele recinto. Não sabia o que falar, não sabia o que responder. Tinha tantas perguntas para fazer a Syaoran quando voltasse a encontrá-lo que, agora, com ele a sua frente, nenhuma vinha a sua cabeça.
No fundo, achou que não queria era que ele estivesse ali na sua frente. Estava na sua zona de conforto com as lembranças dele trancadas junto com as cartas dentro do livro.
Por fim, a luz mágica acabou chamando a atenção da irmandade, ouviram vozes se aproximando e passos apressados indicando que logo invadiriam o quarto e nenhum dos dois gostaria de ser descoberto por outras pessoas. Syaoran correu até a janela e a abriu, teve que forçá-la, pois estava trancada por um lacre, mas foi fácil desferir um golpe e abri-la.
'Flores do vento.’ Sakura o observou invocar através de um de seus talismãs. Era diferente dos que ela conhecia. Ele a encarou e estendeu a mão. ‘Vamos sair logo daqui.'
Sakura caminhou até ele e bateu na mão do rapaz, informando que não aceitaria a ajuda dele. Invocou Flutuação para descer de forma segura.
Li sorriu de lado, observando a reação desaforada da jovem, mas talvez fosse pedir realmente demais que ela o recebesse com os braços abertos depois de cinco anos do mais absoluto silêncio entre eles. Ela estava magoada, ele pensou lisonjeado. De alguma forma, era melhor saber que era odiado por Sakura do que pensar que havia sido esquecido.
Assim que ambos, com suas magias, pousaram em segurança no chão correram, afastando-se do local do crime. Foram até atrás da reitoria: o lugar mais escondido do Campus. Sorte deles que não havia nenhum casal de namorados por ali naquela noite. Se bem que, depois de ter estourado a notícia dos assassinatos, ninguém daria mole na rua àquela hora da noite.
Voltaram a ficar em um silêncio constrangedor, ouvindo apenas a respiração ofegante um do outro enquanto recuperavam-se da corrida.
Li desmaterializou sua espada e guardou a esfera negra no bolso da calça. Sakura pendurou a chave no seu pescoço, guardando Cartas no bolso de trás da calça jeans. Agora estavam, novamente, um encarando o outro, sem conseguirem falar nada.
‘Preciso ir’. Falaram juntos.
Calaram-se e desviaram o olhar um do outro. Ficaram mais quase cinco minutos em silêncio, estáticos, com a cabeça a mil por hora.
Sakura respirou fundo, fechou os olhos e demorou alguns segundos para reabri-los, voltando a fitar os penetrantes olhos castanhos a sua frente.
‘Quando voltou?’ Perguntou de uma vez. ‘E por que não me procurou?’ Ela percebeu que ele abriu a boca para responder, mas não lhe deu tempo, fez finalmente a pergunta que realmente queria. ‘Por que você desapareceu?’
Li fechou novamente a boca. Como responder àquelas perguntas? Franziu a testa. Observando Sakura com mais cuidado e, sem o receio de ser descoberto num lugar comprometedor, pôde analisá-la melhor. Sorriu de lado, constatando que ela cresceu. Claro que tinha crescido. Estava com quantos anos mesmo? Às vezes, ele se perdia na própria idade. Concluiu que ela devia estar com dezenove, agora. Uma moça, não a menininha de quem ele se despediu há muito tempo. E estava linda.
Verdade que sonhava com ela várias vezes. Era prazeroso para ele imaginar como estaria Sakura depois de tanto tempo. Considerando tudo, era um de seus poucos prazeres. E, agora, ali estava ele, com aquela que sempre habitou seus sonhos à sua frente, e não pôde deixar de constatar que, nem em seus mais elaborados delírios, chegaria perto da verdadeira beleza de Sakura.
‘O gato comeu sua língua, Syaoran?’ Sakura perguntou de forma irônica, mostrando-se impaciente por sua demora em responder.
Ele sorriu de leve, reparando que, por mais chateada que ela estivesse, continuava a tratá-lo pelo primeiro nome. Isso era um bom sinal. Queria contar a verdade para ela, mas não podia. Era um fardo dele para carregar.
‘Você nunca foi muito paciente, não é mesmo, Sakura?’
‘Acredite, fui paciente até demais com você.’
Ele deu um longo suspiro e resolveu responder logo à jovem. Devia isso a ela e não era homem de ficar devendo nada.
‘Sua primeira pergunta: cheguei semana passada ao Japão. Fiquei em Tókio e vim para Tomoeda apenas hoje. Segunda: Não a procurei porque não sei quanto tempo vou poder ficar aqui. Assim que resolver uma questão, voltarei para a China. Terceira...’ Ele fez uma pausa, como responderia àquela pergunta sem mentir, mas também sem revelar a verdade?
Sakura deu um passo a frente, ficando mais perto do rapaz e fitando-o nos olhos. ‘Terceira...’ Ela repetiu, esperando uma resposta.
Droga, se ela soubesse o quanto aquela aproximação mexia com ele, não faria isso. ‘Não posso responder.’
Sakura franziu a testa e deu mais um passo na direção do rapaz, parando a poucos centímetros dele. ‘Não pode responder?’
Li pôde sentir o calor gostoso da aura da feiticeira. Era morno, quente. ‘Não.’
Sakura sentiu todas as células do seu corpo explodirem, e sua presença se expandiu de súbito, assustando o rapaz. Como assim ele não podia responder? Ele estava maluco? Perdeu o senso do perigo?
Ela levantou a mão e apontou o dedo na direção do rosto do rapaz. ‘Você…’ Sakura reteve-se, comprimindo os lábios.
Não sabia nem o que falaria para ele. Que ele era um idiota? Cretino? Que não queria vê-lo nunca mais na vida! No fundo, ela não conseguia nem verbalizar o quanto estava magoada e irritada por ele ter sumido, por ele estar agora a sua frente e por ele, simplesmente, recusar-se a lhe dar uma justificativa para isso.
Ainda tinha os olhos cravados nos olhos dele e engoliu em seco. Inferno! Ele ainda mexia com ela. Abaixou o braço e deu um passo para trás, afastando-se dele ao mesmo tempo que, finalmente, quebrou o contato visual entre eles. Virou-se, começando a caminhar em direção ao seu alojamento. Li foi atrás dela.
‘Eu a acompanho.’ Ele declarou. Verdade era que não queria ainda se afastar dela.
Sakura deu de ombros. Estava com tanta raiva do namoradinho de infância que não tinha nem mais forças para lhe dirigir a palavra. Ela só queria entrar debaixo das cobertas, dormir e, quando acordasse, concluir que seu encontro com Syaoran, não passara de mais um dos tantos sonhos que teve com o retorno dele.
Consertando seu último pensamento: pesadelo, tudo não passara de um pesadelo, não um sonho.
O caminho foi feito em silêncio. Um silêncio incômodo, mas necessário para os dois. Não tinham muito o que falar um para o outro. Diferente de todas as fantasias que ambos tinham sobre aquele reencontro, quando este se tornou realidade, tudo pareceu meio sem sentido.
Pararam na lateral do alojamento feminino da irmandade da qual Sakura fazia parte. Ela olhou para cima, observando a janela com a luz acesa. Tomoyo e Kero estariam esperando ansiosos pelo seu retorno. Não soube explicar porque ficou apenas olhando a janela ao invés de, simplesmente, invocar uma de suas Cartas para levitar até lá e sair, de uma vez, de perto de Syaoran.
Olhou de esguelha para o rapaz que estava ao seu lado e depois fechou os olhos, conseguindo perceber a aura dele novamente. Sorriu de leve, sem querer, mas fechou o sorriso rapidamente para que ele não percebesse. Balançou o corpo de leve, mantendo-se concentrada apenas para continuar a sentir aquela presença ao seu lado.
Foi obrigada a admitir, de forma penosa, que era bom demais voltar a sentir a aura que o circulava. Era quente, forte e transmitia segurança e a sensação de que tudo sempre terminaria bem. Ficaria tudo bem, porque ele estaria ao lado dela. Balançou a cabeça e levou uma das mãos até os olhos, apertando-os.
‘Se a faz sentir melhor, também está sendo difícil para mim.’ Ouviu a voz do rapaz ao seu lado, bem próximo a ela. Perigosamente próximo a ela.
‘Droga, Syaoran. Você não devia ter voltado.’ Ela falou de forma sincera o que estava pensando. Abriu os olhos novamente e voltou a fitar os olhos âmbares de que tanto sentira falta. ‘Você não tinha esse direito.’
‘Eu sei, mas não tinha outro jeito.’ Foi a resposta franca dele.
O que estava acontecendo com ela? Por que não invocava logo Alada ou Flutuação ou Salto? Ou qualquer uma de suas Cartas que lhe permitisse cruzar o espaço vertical entre o chão e a janela do seu quarto, dando por encerrado aquele momento dolorido e surreal que estava vivendo.
Ela sorriu de lado quando pensou na resposta. Porque, no fundo, ela gostaria mesmo era de invocar Luta. ‘Confesso que minha vontade é lhe dar uma surra, Syaoran Li.’
O chinês sorriu de leve, perdendo-se nos olhos glaucos. Ele adorava o fato de não precisar perder tempo conjecturando no que ela estava pensando. Sakura sempre falava de forma franca, mesmo que tímida, o que pensava e sentia.
‘Verdade?’ Perguntou, mais por desafio que por dúvida. Abriu a boca para dizer que adoraria vê-la utilizando o poder da Carta e que lutaria com ela com o maior prazer.
‘Sakura!’ Ouviram a voz de Tomoyo.
A morena estava na janela, olhando com imensa curiosidade para o casal. Os dois desviaram os olhos um do outro de forma lenta e fitaram a jovem no alto.
‘Melhor eu ir.’ Syaoran falou por fim, virando-se e afastando-se.
Ela sentiu um frio invadir-lhe o corpo, bem diferente da sensação morna e gostosa que era irradiada pela proximidade do rapaz. Fechou os olhos e, por mais que lutasse para que isso não acontecesse, percebeu que eles estavam molhados. Trincou os dentes e não permitiu que nenhuma lágrima saísse deles. Já tinha chorado muito por Syaoran, e não era a menininha boba que ele tinha deixado no Japão.
‘Sakura!’ Tomoyo insistiu ainda mais, observando o rapaz se afastar da prima e caminhar em direção à escuridão do Campus. ‘Suba logo!’ Ordenou.
A ruiva desviou o olhar do rapaz já envolto nas sombras da noite e fitou o rosto aborrecido da amiga. Sabia que receberia uma enxurrada de perguntas que não queria responder agora.
Suspirou e sentiu que, aos poucos, voltava ao seu usual estado entorpecido. Percebeu que, durante todo o tempo em que esteve ao lado do rapaz, não tinha conseguido respirar direito. Surpresa? Nervosismo? Ansiedade? Raiva? Não soube responder, talvez uma mistura de todos eles.
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Tomoyo e Kero se entreolharam, e depois observaram a ruiva tomar o café da manhã lentamente. Eles olharam o relógio e constataram que ela estava atrasada, mas isso não era novidade. A novidade era que, apesar de Sakura estar atrasada, e de saber disso, estava ainda andando em câmera lenta.
Ontem quando chegou da sua primeira atuação como investigadora dos assassinatos da Faculdade de Tomoeda, recusou-se a falar com qualquer um dos dois. Tomoyo insistiu em perguntar quem era o rapaz que a acompanhara até a janela e que havia sumido na noite, mas a prima não respondeu. Não queria responder e a morena, no fundo, sabia que não adiantaria insistir, então apenas fez o mesmo que Sakura: foi dormir em silêncio, apesar dos protestos de Kerberus.
Sakura literalmente o ignorou. Na verdade, ignorou os dois, a morena constatou de forma amarga. Alguma coisa tinha acontecido e era muito, muito séria. Além de infinitamente dolorosa para Sakura. No entanto, ela não conseguia atinar para o que podia ser. Durante a noite mal dormida, conjecturou inúmeras explicações para o que tinha acontecido e quem era o homem que estava ao lado da prima ontem à noite.
De repente, Sakura levantou os olhos e fitou Tomoyo de forma intensa, deixando-a envergonhada por ter sido flagrada olhando para ela. Sakura desistiu de tomar o café. Repousou no prato o pedaço de pão que, há minutos, mordiscava sem vontade alguma e limpou as mãos num guardanapo. Por fim suspirou, era melhor falar de uma vez.
‘Syaoran Li voltou. Foi ele quem você viu ao meu lado ontem à noite.’
‘Li?!’ Gritaram Tomoyo e Kerberus juntos, mostrando total e absoluta surpresa pelo que a ruiva os informou.
‘Eu sabia que conhecia aquela presença de algum lugar!’ Kero exclamou e depois franziu a testa de leve. ‘Está diferente. Mais forte e mais… Está estranha.’ Ele concluiu olhando para Sakura que o fitava agora com atenção. ‘Você não percebeu?’
Ela balançou a cabeça de leve, negando e desviou os olhos do bichano. ‘Por um segundo eu tinha percebido a aura esverdeada dele, mas achei que... Sentia-me tão culpada em voltar a usar magia que pensei ser fruto da minha imaginação.’ Ela soltou um suspiro. ‘Aí depois… bem... ‘ Ela sorriu de leve, mas novamente fechou o sorriso. ‘Era só me concentrar que dava para perceber melhor.’
‘E como você se sente?’ A morena perguntou com a voz doce.
Sakura soltou um suspiro, levantando-se da mesa para evitar responder aquela pergunta da prima. Pegou a mochila com os livros e mais algumas coisas que tinha separado para as aulas daquele dia. Foi até a sua cama e tirou de lá o livro com as Cartas Sakura debaixo do colchão.
Sabia que os dois a estavam olhando agora. Pegou as Cartas, colocando-as no bolso de trás da calça jeans e pendurou a chave no pescoço, como há muito tempo não fazia, escondendo o poderoso pingente dentro da blusa. Voltou a colocar o livro no seu esconderijo nada secreto e virou-se para os amigos.
‘Tem um maluco à solta na Universidade. Preciso estar preparada.’ Falou, explicando o porquê de voltar incorporar suas queridas Cartas à sua rotina diária, como fazia antes.
Kero franziu a testa. ‘De que maluco está falando, Sakura? Do assassino ou do Moleque?’
Sakura sorriu de lado, encarando o amiguinho. Seu guardião tinha certa razão. ‘Verdade, temos dois malucos soltos na Universidade. Preciso estar preparada para lidar com os dois.’
Tomoyo sentiu um nó na garganta. Sabia que a prima estava sofrendo, e muito, com a súbita volta, embora muito esperada, de Li. Acompanhou o sofrimento e a agonia de Sakura por não ter notícias do namoradinho. E lembrava-se, claramente, do choro contínuo dela depois de seu último telefonema para a China.
A feiticeira ainda tinha esperanças de que Syaoran voltaria, mas, com o passar do tempo, essas esperanças foram diminuindo até se tornarem amargura em seu coração. Ela continuava alegre e tocando a vida de forma feliz, mas, para quem a conhecia como a palma da própria mão, sabia que, lá dentro do coração da prima, existia um sombra negra.
‘Que voltou.’ Concluiu em voz alta seu pensamento.
‘É, Tomoyo.’ Sakura soltou, amargurada, indo em direção à porta. ‘Aquele filho da mãe voltou.’
Poucas vezes a morena tinha visto a prima amargurada e isso pesava no seu coração apaixonado.
‘Mas fazer o quê, não é? Não tem como eu pulverizá-lo da face da Terra.’ Falou em tom jocoso e olhando para Kerberus, que ainda a encarava com o rosto fechado. ‘Vou ter que conviver com isso por um tempo. Depois, ele vai embora. Exatamente como fez da última vez.’ Falou com pesar, mas tentando mostrar indiferença. ‘E eu não estou mais afim de encarar vocês dois com essas caras feias para mim. Não vou e não tem mais porque eu sofrer por causa dele. Fiquem tranquilos, ok?’
Kero abriu a boca para retrucar, mas Tomoyo, literalmente, bateu no cabeção dele, ordenando, de forma enérgica, para ele se calar, pois já tinha falado besteiras demais naquela manhã e olha que ele nem tinha dito muito. Assim que a prima sumiu atrás da porta fechada do dormitório das duas, ela olhou para o bichano. ‘Precisamos falar com Yue.’
‘Por quê?!’ Kero se espantou, não gostava de Yue e sempre deixava isso bem claro. ‘Eu consigo proteger sozinho minha mestra daquele moleque. Não precisamos dele.’
‘Kero, isso não é brincadeira. Não estamos mais falando dos assassinatos, estamos falando de Sakura. Ela vai precisar da ajuda de Yue.’
‘Ela precisa é esquecer de vez aquele moleque idiota.’
‘Ela nunca vai conseguir esquecê-lo. E a presença dele aqui só vai complicar ainda mais a cabeça dela. Ano passado já foi um ano muito difícil com a perda do senhor Fujitaka e, agora, com a volta do Li. Sakura vai acabar explodindo.’
‘Ela precisa usar magia. Se não ficasse negando a magia que ela possui, conseguiria enfrentar todos esses obstáculos. Ninguém pode negar uma parte de si.’
‘Aí está o problema, Kero. Syaoran Li é como se fosse uma parte de Sakura. E ela o tem negado há muito tempo.’ Sentenciou a morena, já caminhando até o telefone para falar com Yukito, apesar dos protestos de Kero.
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‘Kinomoto! O que está acontecendo com você hoje?!’ Gritou uma colega de Sakura na quadra.
Elas estavam jogando voleibol contra o time da irmandade rival, mas, diferente de tantos outros jogos, a ruiva estava cometendo erros e mais erros bobos.
‘Não enche o meu saco, garota.’ A ruiva respondeu entre os dentes.
Resolveu jogar a toalha e desistir daquele jogo idiota entre irmandades rivais. Pela primeira vez, pediu para ser substituída em quadra. A treinadora assustou-se, pois Sakura nunca tinha feito isso antes. Ela não devia estar se sentindo bem, isso explicaria seu péssimo desempenho em quadra.
A jovem secou o suor com uma toalha e respirou aliviada pela técnica não ter reclamado. Estava sem condições de inventar uma desculpa esfarrapada pelo péssimo jogo. Olhou para a arquibancada, vendo Makoto com o rosto tenso e interrogativo. Acenou para ele com a cabeça e indicou que iria sair do jogo. Observou o rapaz franzir a testa e caminhar em direção à saída da quadra, pronto para encontrá-la.
Sakura respirou fundo e rolou os olhos. Não estava com a mínima vontade de lidar com ele. Falaria que estava de TPM e esperava que o namorado engolisse a desculpa.
Estava caminhando, lentamente, para a saída da quadra quando percebeu a presença de Syaoran. Involuntariamente, durante o dia inteiro, pegara-se procurando pela aura do rapaz.
Ele estava no alto da arquibancada, observando-a. Encararam-se por um bom tempo até a Sakura ser surpreendida pela voz do namorado a chamando. Achou melhor ignorar Li. Deu alguns passos em direção a Makoto que estava aflito na entrada da quadra.
‘Estou bem, Makoto. Estou bem.’ Já falou antes mesmo de ouvir qualquer pergunta. ‘É TPM. Estou com uma baita TPM.’
‘Ah, então o idiota que não tira os olhos de você há quase meia hora tem o nome de TPM?’ Makoto perguntou de forma debochada, surpreendendo-a.
Sakura franziu a testa e finalmente encarou o namorado. Viu-o desviar os olhos, e ela sabia o que o rapaz fitava com tanta intensidade e animosidade: Syaoran Li.
‘Quem é o idiota de verdade, Sakura?’
Ela mentiu. ‘Não sei. Deve ser só um maluco que anda perambulando pelo Campus.’
Makoto trincou os dentes. ‘Então melhor procurar a polícia e avisar o delegado Amizuki.’
Sakura respirou fundo, não queria entrar numa discussão com Makoto agora. Sua cabeça transbordava de fantasmas e preocupações. Estava pronta para se afastar dele, indo para o vestiário, quando foi pega de surpresa pelo rapaz que a abraçou e a beijou nos lábios de forma possessiva.
Arregalou os olhos, sem reação pela atitude do namorado. Makoto estava ficando abusado demais, ela já tinha dito que detestava essas coisas em público. Empurrou o rapaz, afastando-o dela e o encarou duramente, avisando que, se voltasse a fazer aquilo, acabaria com o namoro de uma vez. Livrou-se dos braços dele e caminhou em direção ao vestiário para tomar um banho e tentar relaxar um pouco.
Makoto a acompanhou com os olhos até desaparecer, adentrando o vestiário. Depois voltou-se para o estranho, que continuava no topo da arquibancada, apenas o encarando. Cumprimentou-o com a cabeça e sorriu de forma irônica. Era bom que tivesse entendido o recado de que Sakura era comprometida com ele.
Syaoran retribuiu o cumprimento, vendo-o afastar-se com passos apressados.
Makoto lhe deu as costas e caminhou em direção à saída do ginásio para esperar sua querida. Precisava se desculpar e prometer, mais uma vez, que não faria algo semelhante.
Li acompanhou o rapaz cruzar a saída do ginásio. Em uma das mãos, dentro do bolso, estava sua esfera negra. Tinha segurado-a, de forma involuntária, e estava incrivelmente tentado a materializar sua espada para cortar aquele idiota ao meio. A outra mão estava apoiada numa cadeira da arquibancada à sua frente. Apertou mais forte a cadeira, quebrando, sem querer, o encosto. Bem, pelo menos, não tinha quebrado o pescoço do namorado de Sakura.
‘Ainda.’ Sussurrou, entre os dentes.
Continua.
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