× F u t a t s u N o U t e k i ×
3 Jasmim
Notas iniciais
De todos os cheiros possíveis que um tecido podia exalar, o cinzento sobretudo de Erwin escolhera o jasmim. Pude constatar isso após ter ficado – de uma forma que ainda não compreendo – horas agarrado ao traje, ainda úmido, impregnado com o perfume do loiro.
É difícil recordar de todas as papeladas que tenho de organizar e os clientes que tenho de contatar urgentemente. É difícil aceitar o fato de que não poderei ficar aqui, de braços e pernas abertas sobre o colchão macio, ao lado do inigualável perfume de Erwin, que entrara em minhas narinas tão suavemente quanto da primeira vez que agarrei-o contra meu peito.
“O que estou fazendo aqui, afinal de contas?”
O vento entra pelas janelas semi-abertas e convidativas, sibiliando um pouco antes de atingir meus pés sobre o chão escuro. Estico meus braços finos como um felino preguiçoso, caminhando em direção ao computador e ligando o monitor piscante em seguida.
Meu índex pressiona diversas vezes os pequenos botões do mouse, que também foram cruelmente deslizados para todos os cantos possíveis. A face de um Erwin sorridente e desenhado em estilo chibi surge instantaneamente.
Não consigo lembrar-me de quando o loiro tornara-se tão importante para mim, a ponto de me fazer pensar em seu lindo rosto pálido próximo ao meu. Seu sorriso e formalidade são os elementos culpados por me algemar à Fukushima.
Posso afirmar isto pois, um pouco antes de fechar a bagagem e checar novamente o passaporte, senti uma ligeira pontada de culpa. Era como se eu só estivesse perdendo tempo tentando fugir daquele lugar, porque agora, infelizmente, o loiro eram as algemas que me impediam de respirar o ar puro da tão almejada liberdade.
[...]
Um café sobre a velha escrivaninha, um sorriso cansado, porém confiante; Cabelos perfeitamente penteados e um olhar exaltante. Esse era o Erwin de hoje. Arrumando as papeladas, atendendo os telefonemas frequentes e revisando pilhas e pilhas de textos através do pobre e antigo notebook.
Arrisquei um “olá” bem amigável, mas o loiro apenas continuou a teclar rapidamente, com os orbes azuis fixados na tela branca que iluminava seu rosto, deixando-o mais pálido do que aparentava ser. Bebera uma dose farta do café antes de jogar alguns relatórios sobre a mesa do modo mais agressivo possível. Aquele certamente não era um bom momento para conversas ou entregas.
Deixei-o sozinho, ao lado das incontáveis papeladas que ele detestava como companhia em dias gélidos.
Sobre minha mesa, uma caneca temática, com faixas coloridas e pequeninas estrelas douradas. O canto no qual jazia o objeto fumegava de modo incessante. Ao lado de biscoitinhos recheados, a jovem Rin – com seus longos cabelos prateados presos numa adorável trança – segurava firmemente a mão de um Eren demasiadamente tímido, com as bochechas róseas, sob um moletom azul folgado demais para seus braços finos.
— E-Eren? O que ele faz aqui, Rin-san? – Tomei-o, pousando as nádegas do menor sobre meus braços. Senti-o desmanchar-se em meu colo, afundando o pequeno rosto sobre meus ombros.
— Foi mal, Rivaille. Ele insistiu demais. Disse que queria muito ver você.
— Isso é verdade, Eren? Você queria mesmo ficar aqui comigo? – Indaguei, esperando mais uma das típicas expressões envergonhadas que o pequeno sempre fazia ao me ver. E ele o fez, de fato, logo após assentir e dizer um “sim” quase inaudível.
Eren era o único que me fazia companhia todos os dias. Isso quando não estava na creche rabiscando borboletas de diversas cores no pequeno caderno, que eu mesmo fiz questão de personalizar, colando uma fotografia aleatória de ursinhos rosas.
É claro que o trabalho nos impedia de aprofundar nosso relacionamento como irmãos, mas não era nada que eu não pudesse compensar nos fins de semana, com longas caminhadas ao parque e passeios à shoppings.
E quando as coisas apertavam e eu tinha de sair para caçar um material de trabalho ou outro, Rin era a pessoa no qual ficava e supervisionava Eren, que geralmente mantinha-se calado, porém inquieto, até meu retorno.
— Seu trabalho é realmente legal, onii-san. – Um Eren curioso e ao mesmo tempo fascinado, recolhia alguns papéis e dobravam-nos até tomar a forma perfeita de um tsuru. Rin segurou-o pelo braço, tentando impedi-lo de continuar desorganizando o pequeno escritório... Sua tentativa, porém, fora em vão. Os cabelos desgrenhados mostravam o quão difícil estavam sendo as últimas semanas ao lado do menor.
— Quer que eu o leve para casa? – Perguntou, cruzando os braços e observando o pequeno Eren interagir com os relatórios sobre a mesa de Erwin.
Organizava-os em pilhas perfeitas, colocando os mesmos sob uma gaveta qualquer. O loiro agitara a cabeleira repicada do menor, que tratara de lançá-lo um sorriso gentil.
— Não, está tudo sob controle. Nós vamos ficar bem.
[...]
Eu sabia que com a intrusão do pequeno Eren com relação aos relatórios de Erwin, algo nem tão novo assim aconteceria após o final do expediente do loiro.
Senti meu peito palpitar, e provavelmente o menor sentira tais palpitações em seu índex, que jazia pousado delicadamente sobre meu pescoço, tal como seu corpo em meu colo, inconsciente e respirando de modo tranquilo.
Trabalhar com uma criança no colo realmente não é uma tarefa nada fácil. Principalmente quando sua função principal é desenhar através do uso de aparelhos eletrônicos difíceis de controlar.
Um dos processos mais complexos durante a criação de um desenho, é obter a coordenação motora perfeita durante cada traço sobre a tela branca... E se eu quisesse criar algo de qualidade, teria de fazê-lo sozinho, em silêncio.
Porém confesso que tê-lo junto a mim trouxe-me um sentimento desconhecido até então: o sentimento de um pai para um filho.
Seu rosto morno foi tomando a forma computadorizada e de detalhes não tão belos quanto os reais. Senti seu palmo pequeno ser repousado em meu peito, que batera mais forte devido ao gesto carinhoso.
— Ele é lindo, Rivaille. Bem parecido com você. – O loiro disse, de súbito, apoiando o queixo sobre um de meus ombros. Jasmim... Senti o mesmo perfume convidativo invadir minhas narinas, fazendo-me suspirar profundamente. Sua última contestação fizera meu rosto ruborizar significantemente.
Entre beijá-lo ferozmente diante de um Eren adormecido e terminar meu desenho, salvando-o e desligando o computador logo após, decidi ficar com a última opção, que naquele momento aparentava ser mais apropriada. E de fato, realmente era.
O pequeno fora sacolejado incontáveis vezes, o que o fizera despertar uma vez ou outra. No entanto, assim que terminei de recolher meus pertences e guardá-los dentro da adorável bolsa tiracolo, Eren repousara o queixo sobre meu ombro e voltara a dormir rapidamente.
— Vai almoçar agora? – Desconversei, ajeitando o cabelo do menor com um pequeno acessório infantil nas laterais. O loiro fez um gesto positivo com o polegar, ajudando-me a segurar a mochila do moreno, que incrivelmente continuara a dormir sem demonstrar insatisfação com o barulho das vozes e cadeiras sendo arrastadas pelo corredor.
— Eu agradeço por estar sendo gentil comigo, Rivaille. Você não faz ideia do quanto isso é importante para mim. E como retribuição por ter cuidado tão bem do meu casaco, o que acha de uma carona até seu apartamento e um jantar? – Era possível encontrar vestígios de empolgação na voz grave de Erwin, que abrira a porta da Agência para que pudéssemos caminhar até o estacionamento.
Senti sua mão acariciar, de modo quase que imperceptível, meus cabelos escuros. E antes que eu pudesse questionar o motivo de ter o feito, o loiro apenas alegou ter retirado uma folha que jazia presa entre meus fios negrumes.
“Por que, diabos, é impossível negar algo à você, Erwin?”
— Um jantar? Quando?
— Sábado, ás 20h. – O loiro respondeu prontamente, abrindo a porta dos fundos do veículo, onde pude colocar Eren ao lado de algumas bolsas. Sentei-me ao lado do menor, repousando o crânio do mesmo sobre minhas pernas.
Não quero que pensem que tenho algo com Erwin. Ele provavelmente desaprovaria comentários do tipo, principalmente em seu local de trabalho, onde tem uma imagem a manter. E mesmo que isso só fosse acontecer caso eu aprovasse a ideia do loiro, não dei muita importância naquele instante... Era uma verdadeira tortura vê-lo sair decepcionado por minha causa.
— Tudo bem, Erwin. Eu topo.
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