Fênix no gelo
1 Capítulo único
Notas iniciais
Enfim, espero que gostem.
O rapaz de cabelos negros e olhos azuis passeava pela praia. Ele possuía uma urna entalhada e seu semblante sério parecia perdido em lembranças...
Ele lembrava da sua infância, que não fora fácil, mas também de seu irmãozinho. Sorriu levemente... Seu irmão estava crescendo e logo seria um homem digno de orgulho... Não, ele se corrigiu mentalmente, ele já se orgulhava dele, embora tivesse muita dificuldade de expressar suas emoções, o amava incondicionalmente e tinha plena certeza que Shun sabia disso...
Estava lá, sentado na praia e admirando o ir e vir das ondas, quando percebeu a aproximação de outra pessoa. Não a reconhecia, mas era uma mulher oriental como ele e sentia grande poder emanando dela. Levantou-se rapidamente e esperou que ela se aproximasse e dissesse a que vinha.
— Como vai Ikki Amamyia? Está reflexivo hoje... – ela disse com um pequeno sorriso e sua voz lhe transmitia um calor levemente conhecido.
— Quem é você e como me conhece? – Ikki exigiu autoritariamente.
A mulher sorriu mais ainda e se virou para o horizonte. Ikki não perdeu um movimento da mulher.
— Estou aqui para lhe pedir um favor. – disse a mulher, esquivando-se das perguntas dele e esperando pelo próximo passo do rapaz.
Ikki a olhou, desconfiado das intenções dela, muitas batalhas e lutas lhe ensinaram a ser confiante em sua força, mas também cauteloso com pessoas que evitavam determinadas perguntas. Porém, algo em seu íntimo (seu cosmo talvez...) o instigava a perguntar o que a mulher queria.
— Fale e direi se posso realizar. – ele fala finalmente.
— Preciso que lembre a uma pessoa a força que carrega dentro de si. Ele está duvidando muito de sua capacidade e, embora seja naturalmente inseguro, é uma pessoa muito boa e a disposição de seu coração me agrada. – ela responde de forma vaga.
Ikki tem certeza que aquela mulher é bem mais poderosa do que aparenta, mas a forma como ela falou da pessoa que ela está pedindo para ajudar lembrou-lhe o próprio irmão. Shun era parecido com a descrição que fazia dessa pessoa: inseguro de sua força, mas com o coração puro e bom. Ele pensa um pouco e olha o mar, tomando sua decisão por impulso.
— Aceito ajudar. – ele gostaria que alguém agisse como ele, caso fosse Shun no lugar da pessoa que ajudaria. Essa era sua motivação... Isso e a curiosidade a respeito da mulher...
A mulher se vira para ele e acende seu cosmo. Ela era realmente poderosa!
— Te mandarei para o Japão, mas em outra realidade, Ikki Amamyia. Deve procurar Yuri Katsuki, ele é a pessoa que deve ajudar. Mas cuidado, ele não deve saber quem é você de verdade e ele também não estará sozinho. O treinador dele Viktor Nikiforov pode ser um aliado. – a mulher diz e Ikki se vê envolvido numa esfera dourada de cosmo.
A caixa da sua armadura se desprendeu e está caída na areia da praia... Ikki sente-se apreensivo, mas sua confiança e seu orgulho afastam qualquer pensamento desse tipo.
Ele era Ikki de Fênix e tinha aceitado ajudar aquela pessoa que a mulher pedira. Ele alcançaria seu intento e removeria qualquer obstáculo para isso.
— O trarei de volta quando tiver alcançado seu objetivo. – a misteriosa mulher fala como se tivesse lido a mente do Cavaleiro.
— Vamos logo com isso. – Ikki fala de forma ríspida e a mulher sorri. AQUELE era o cavaleiro de Fênix...
A mulher fez um movimento, como se empurrasse suavemente s esfera em que ele se encontra, Ikki sente-se transpondo barreiras dimensionais, muito semelhante aos seus voos nas asas da Fênix e um brilho intenso o ofusca. Quando abre os olhos está em uma praia diferente de onde estava, olhou em volta e reparou duas coisas: o castelo no alto de uma colina e um rapaz que corria com capuz.
— Estou em Quiuxu. – Ikki murmura mais para si e sente que deve seguir o rapaz que corria, mas antes resolve fazer um pequeno teste e se concentra. Tenta manifestar seu cosmo e não consegue, ele o sente, está dentro de si e pode tocá-lo, mas não manifestá-lo... – Hunf! Alguém gosta de complicar as coisas... – ele resmunga e colocando as mãos nos bolsos segue com tranquilidade o corredor.
Ele se dirige a um local que está identificado como um rink de patinação e o cavaleiro não pode deixar de arquear a sobrancelha com a ironia da situação. Afinal ele era ligado ao fogo da ave fênix, era Hyoga o que melhor se adaptaria aquele lugar.
Pensava nisso quando ouviu uma voz feminina falar.
— Bom dia Yuri! – ela saudava o corredor e ele pode ver o rosto dele. Era esguio, mas não tanto quanto Shun, tinha uma expressão um tanto inocente... sorriu consigo e pensou que entendia a motivação da mulher. Aquele devia ser quem ajudaria, pois notou um traço de insegurança na postura dele... Como se estivesse desconfortável com sua própria pele.
— Bom dia Yuko. Viktor já chegou? – ele pergunta um tanto ofegante e Ikki arqueia a sobrancelha para isso. Ele deveria estar em melhor forma se era patinador profissional e percebeu uma possibilidade de se aproximar.
— Sim, ele está te esperando. – a moça sorri e abre caminho, entrando logo atrás de Yuri. Ikki os observa de longe e resolve entrar de forma discreta. Queria observar o rapaz primeiro e depois decidiria como agir.
Ele consegue entrar no rink sem problemas e Yuri já está treinando sob a orientação de Viktor. O cavaleiro percebe que o rapaz tem dificuldade de fazer determinados movimentos, não por falta de técnica, mas por falta de preparo físico e também de confiança, principalmente confiança.
Ikki observa a interação entre os dois e percebe que são bem próximos. Devia se aproximar de ambos e se apresentar. Espera o treino terminar e desce das arquibancadas se dirigindo ao par.
— Com licença. – Ikki chama a atenção dos dois e eles parecem surpresos com sua presença. – Sou Ikki Amamyia e vim me oferecer para ser seu preparador físico, Yuri Katsuki.
— Hum, nunca te vi por aqui. – Viktor o analisa com uma expressão zombeteira, mas arguta e Ikki estreita os olhos para o russo.
— Cheguei recentemente e vim apenas para oferecer apoio ao Katsuki. – é a resposta direta do Cavaleiro.
— Por que? – é a pergunta de Viktor e Ikki pondera a resposta que dará.
— Sou japonês. Quero ver um japonês no topo. – é uma resposta simplória, mas no meio profissional dos dois deve bastar.
— Parece razoável. – Viktor ainda analisa o rapaz á sua frente, parece ser confiável. Mas seria competente? – Quais as suas referências? – o russo pergunta e Ikki pragueja intimamente. Tinha esquecido esse detalhe!
Mas sente algo em seu bolso e pega um envelope, arqueando a sobrancelha, mas já intuindo o que seria e entrega a Viktor. O russo lê o conteúdo do envelope e arqueia a sobrancelha levemente, esboçando um sorriso confiante.
— É bem recomendado. – disse por fim e bate palmas, contente. – Está aceito. Pode começar hoje mesmo!
Ikki observa o jeito descontraído do outro e não pode deixar de lembrar de outro russo, que não era nenhum pouco afeito a esse tipo de demonstração sentimental...
Nesse momento Hyoga espirra e reflete quem estaria pensando ou falando sobre si...
— Vamos para a pousada. Ficará conosco e verá como Yuri está. – Viktor já tinha tomado posse da situação e Ikki ainda não havia ouvido a voz de Yuri.
— Está tudo bem para você? – Ikki pergunta diretamente para Yuri.
— Sim. – ele responde um pouco embaraçado e Ikki percebe uma enorme timidez, além da falta de confiança. Esse ia dar mais trabalho que o Seya...
O referido cavaleiro espirra e todos o encaram, surpresos.
— Quem será que está falando de mim? – ele pensa assim como Hyoga.
Eles chegam à pousada e Ikki é bem recebido, ele acompanha a todos os passos de Yuri nos dias seguintes, sempre orientando sobre como ele pode melhorar seu preparo físico. Entretanto não sabe ainda como abordar o outro sem quebrar de vez seu espírito.
Ele percebeu que Yuri é dedicado, mas falta autoconfiança ao rapaz. Algo que um patinador ou um Cavaleiro devem ter para garantir a vitória... Em uma das muitas corridas que faziam ele resolve começar a sua missão.
— Yuri. – ele faz uma pausa na praia e o rapaz o olha com curiosidade. – Você tem medo de que? – ele pergunta diretamente... Ok, sutileza não é o forte do Cavaleiro de Fênix (o rei das entradas triunfais).
— M...Me...Medo? – Yuri gagueja. Apesar de já estar convivendo com Ikki há algum tempo a presença do outro ainda é opressiva para ele. Ikki é intenso e sua presença é marcante! Ele nunca passaria despercebido... Ao contrário dele...
— Seja sincero, principalmente consigo, e responda a pergunta. – Ikki o intima e vê o outro engolir em seco e olhar o mar, refletindo e pensando se falava ou não.
O Cavaleiro de Fênix, apesar de não ser a pessoa mais paciente do mundo, respeitou o momento do rapaz e esperou.
— De não ser o suficiente. – a resposta veio depois de muitos minutos e num sussurro.
— O que não seria suficiente? – Ikki insistiu e Yuri respirou profundamente.
— Meu esforço, meu talento, se é que eu tenho algum, minha força. – ele admite seus piores medos para aquele quase desconhecido e, por mais assustador que seja, também o deixa leve.
— Hum, venha comigo. – Ikki recomeça a corrida, mas num ritmo mais leve e Yuri fica sem entender muito bem o que eles faziam, já que se afastavam do rink e subiam a colina na direção do castelo.
Ali chegando, Ikki entra por uma trilha pouco visível enquanto Yuri observa meio receoso.
-Venha. – Ikki o chama de forma tranquila, mas firme.
Yuri decide acompanhar o outro e eles se embrenham no terreno ao redor do castelo.
Eles chegam a uma cachoeira, mas não a que fica próxima ao castelo. Esta é pequena, escondida nas sombras das montanhas, mas tem uma beleza singela que encanta Yuri. Ikki senta sob um pessegueiro e fica admirando a paisagem, Yuri resolve seguir o outro e faz o mesmo, sem se preocupar com hora os dois permanecem em silêncio absorvendo a paz e a tranquilidade daquele lugar.
— você parece com meu irmão mais novo. – Ikki quebra o silêncio entre eles e atrai o olhar de yuri. – Mas também é como essa cachoeira.
— Como assim? – Yuri pergunta com curiosidade.
— Os dois duvidam de si mesmos e não reconhecem a própria força, mas ambos tem a capacidade de resistir às piores sombras e obstáculos. – Ikki fala sem encarar Yuri. – Essa cachoeira não é grandiosa como a outra, mas tem sua própria força e beleza, ela sobrevive mesmo nas sombras e quando o momento certo surge...
Nesse exato momento, como se estivesse esperando a deixa do Cavaleiro, um raio de sol atinge em cheio a cachoeira e forma um lindo arco-íris, um espetáculo singelo, mas magnífico. Yuri está encantado e observa o espetáculo da natureza sob o olhar atento de Ikki.
— Faça de cada apresentação que faça um raio de sol em meio ás sombras Yuri. Seja como essa cachoeira, que sobrevive nas sombras até o momento certo, quando então ela cala e encanta com sua beleza. – Ikki voltou seu olhar para o arco-íris e o silêncio voltou a reinar entre eles.
Quando estava tarde eles levantaram e foram para a pousada, Yuri mantinha-se pensativo e Ikki torcia para que estivesse ajudando o outro. Assim que chegaram na pousada encontraram Viktor emburrado e preocupado.
— Yuri! Ikki! Onde estavam? Fiquei muito preocupado. – o russo agarrou Yuri, encenando um drama e Ikki foi para seu quarto, onde se despiu e caminhou até as fontes.
Estava relaxando quando sentiu a presença de outra pessoa entrando na fonte que ocupava, sabendo quem era nem abriu os olhos.
— Onde estavam? – Viktor perguntou, num misto de curiosidade e preocupação com Yuri. Ele se manteve calado sobre onde tinha ido com Ikki.
— Tentando fortalecer a confiança dele. – Ikki concedeu ao russo essa resposta, mas calou novamente.
— Estou fazendo isso. – Viktor alegou, mas ele sabia que isso era difícil, Yuri era muito inseguro e autodepreciativo.
— Ele precisa encontrar seu próprio fogo, não depender do seu. – Ikki rebate e Viktor se espanta com essas palavras.
— Seu próprio fogo?! – o russo repete sem entender.
— Ele deve ser como uma fênix agora. Deve se reconstruir, renascer para poder alçar voo e brilhar esplendidamente. – Ikki faz uma pequena careta depois de falar a última palavra. Estava ficando tempo demais perto de Viktor... Estava até mesmo falando de forma poética.
— Uma fênix... – o russo estava pensativo e, de repente, se levanta num salto, espantando Ikki. – É isso! Uma fênix no gelo! Obrigado, Ikki! – ele sai correndo pelado em direção ao quarto e Ikki observa meio espantado.
— russo doido... – ele resmunga e continua mais um pouco na fonte.
Algumas semanas depois Viktor chama Ikki para ver um treino de uma nova coreografia que Yuri ia fazer.
O Cavaleiro assiste a tudo um tanto surpreso e um tanto maravilhado... Yuri deslizava no gelo como se voasse, realizando saltos e giros, num crescendo até explodir como uma fênix e começar seu renascimento.
Ao fim do ensaio Viktor está sorrindo pretensiosamente para Ikki.
— Ainda falta acertar muita coisa, mas o principal está aqui. O que achou? – Viktor pergunta de Ikki e o Cavaleiro se dirige para Yuri.
— O que você achou? – Ikki pergunta e Yuri o olha diretamente nos olhos antes de responder.
— Minha fênix ainda pode brilhar muito mais e voar muito mais alto. – havia confiança na voz do patinador e Ikki acenou para isso, aprovava a postura mais confiante de Yuri.
— continue treinando e aperfeiçoando. – ele recomenda e percebe um formigamento em seu corpo. – Acho que já chegou minha hora de ir. – Ikki comunica.
— Como assim?! – Yuri pergunta surpreso.
— vou voltar para casa. Encontrar meu irmão e meus amigos... Continue com esse espírito, vou torcer por você. – Ikki coloca as mãos nos bolsos e acena com a cabeça para Viktor, numa despedida, caminhando para fora do rinque.
— IKKIIIII! – ele escuta o grito e arqueia a sobrancelha, vendo Yuri correndo em sua direção e parando diante de si. O patinador se inclina diante do Cavaleiro. – Obrigado por cuidar de mim! – Yuri agradece emocionado.
— de nada. – Ikki respondeu com um sorriso leve. – Se cuide Yuri. – de costas ele acenou para Yuri, que viu o outro se afastar.
Ikki caminhou para a praia, no exato local onde chegou e sentiu a mesma energia que o levou até ali o envolver, novamente ele rompeu as barreiras dimensionais e voltou ao seu próprio mundo.
— Obrigada, Cavaleiro de Fênix. – a voz da mulher misteriosa surgiu à sua direita.
— Ele vai ficar bem? – Ikki perguntou com preocupação e a mulher sorriu para ele.
— Ainda terá altos e baixos, mas a conversa que teve com você vai ajuda-lo a continuar e ser uma inspiração a outros, como deveria ser. – ela responde e Ikki acena, conformado com a resposta. Ele então a encara e indaga. – Ainda não me disse quem é?
Ela retorna o olhar do rapaz e acende seu cosmo de forma muito forte e Ikki se surpreende com o que vê...
Uma magnífica e grandiosa fênix dourada e vermelha surge detrás da mulher, a envolve em suas asas, e, quando ele olha novamente, ela não está mais lá, desaparecendo como veio, mas deixando uma pena dourada com pontas vermelhas para trás.
Ikki se abaixa e quando pega a pena escuta uma voz sussurrada no vento: “Obrigada, meu Cavaleiro.”
Notas finais
Ela está meio crua, mas eu a aprecio muito e, talvez, eu mexa nela em outro momento.
Obrigada por ler.
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