Fênix - Até as cinzas voarem
5 Apresentação
Após finalmente conseguirem assinar os contratos, Eduardo e Gilberto precisavam correr contra o tempo para preparar tudo, já que os pilotos em breve visitariam a fábrica da equipe e ela ainda nem estava 100% pronta.
A semana que se passou foram de pura correria e desgaste, com noites sem dormir, só acompanhando a construção e a evolução das fábricas enquanto começavam a contratar todos os funcionários que podiam.
Ambos tiveram que se dividir: enquanto Gilberto ficava monitorando a construção da fábrica, Eduardo cuidava das contratações. revisando currículos, criando posts na Internet para atrair clientes e arrumando patrocínios.
Faltando dez horas para a visita dos pilotos à fábrica, já passava da meia-noite quando finalmente todos respiraram aliviados ao ver tudo pronto.
-Ótimo trabalho pessoal! Vão descansar! Amanhã os equipamentos chegam — disse Gilberto.
-O senhor também deveria descansar — disse um dos operários.
-Pode deixar. Boa noite.
Depois que os operários saíram, imediatamente ele ligou para Eduardo.
O telefone chamou duas vezes, três. No quarto toque, Eduardo atendeu.
-Fala amigo — disse Eduardo, com a voz sonolenta.
-Desculpa ligar à essa hora. É só para avisar que a fábrica só ficou pronta agora. Então, como os pilotos chegam em dez horas, precisamos de uma equipe para impressionar os empresários deles, senão, eles rasgam o contrato — explicou.
-Eu já cuidei disso. Eu marquei de encontrar eles na porta da fábrica e fazer um suspense, enrolá-los até que tudo estivesse pronto para eles entrarem, mas agora posso fazê-los entrar direto — sorriu Eduardo.
-Ótimo, então nos vemos amanhã às nove.
-Com certeza. Boa noite.
-Boa noite mano.
Na manhã do dia seguinte, às nove horas em ponto, duzentas pessoas entre homens e mulheres estavam na porta da fábrica. Um deles, um homem de uns trinta anos que apresentava no currículo recém-formação em mecânica, se impressionou com a imponência do lugar.
Por fora, a pintura fresca cinza-chumbo tenta passar a imponência de uma escuderia europeia. O logotipo da equipe brilha em letras metalizadas na recepção, mas basta dar alguns passos para dentro para perceber que o "glamour" ficou na calçada. Onde as grandes equipes têm pisos de resina branca cirúrgica que reluzem, aqui o chão é de cimento queimado cinza, com algumas marcas de leo antigas que o produto de limpeza não conseguiu apagar.
-Incrível esse lugar! — comentou alguém.
-Que bom que gostou. Venham, mostrarei a vocês aonde ficam o setor que irão trabalhar — disse Gilberto.
Na sala de engenharia, em vez de dezenas de telas de LED gigantescas e estações de trabalho personalizadas, a sala de engenharia parece uma mistura de lan house com escritório de startup.
Os Computadores: Monitores de modelos variados — alguns doados ou comprados de segunda mão — dividem espaço com laptops pessoais dos próprios engenheiros.
O Software: Eles usam softwares de simulação com licenças contadas no limite. Cada minuto de testes virtuais de CFD (Dinâmica de Fluidos Computacional) é precioso, já que a equipe não tem dinheiro para pagar por servidores em nuvem superpotentes.
No centro do pavilhão, repousa o chassi. Não há divisórias de vidro temperado ou controle rigoroso de partículas no ar. O carro fica sobre cavaletes de aço escovado que parecem ter sido soldados ali mesmo na semana passada.
No entanto, o carro ainda não estavam totalmente pronto, apenas a estrutura interna como a suspensão dianteira e traseira e as rodas estavam montadas, mas ainda faltavam construir o monocoque o chassi.
O Motor: o motor Renault que chegou em uma caixa de madeira robusta, aguarda para ser acoplado. Ele é a peça mais cara do lugar e é tratado como uma joia sagrada. Os mecânicos usam ferramentas manuais de marcas boas, mas comuns — nada dos carrinhos de ferramentas pneumáticos ultra-tecnológicos repletos de sensores das equipes de ponta.
A Fibra de Carbono: Faltam peças sobressalentes. Enquanto a Red Bull ou a Ferrari descartam uma asa com um arranhão microbiano, os mecânicos brasileiros usam resina e lixam manualmente os componentes de carbono para fazê-los durar mais um GP. O cheiro de resina epóxi e metal cortado flutua pesado no ar.
-Motor Renault? Por quê o motor mais fraco? — perguntou Eduardo.
-Desculpe amigo, eu tentei negociar com as montadoras grandes, mas nenhuma delas se interessou porque não viram potencial no carro e não querem ficar gastando dinheiro em um motor que não empurra o carro pra frente — respondeu Gilberto, frustrado.
-Então, eles querem evitar o vexame Mclaren-Honda entre dois mil e quinze e dois mil e dezessete.
-Exatamente. Só sobrou o motor Renault. Fora que também era o mais barato e nós estamos começando do zero, temos que economizar o máximo para sobrar mais recursos para desenvolver o carro.
Eduardo assentiu ao ouvir aquilo, envergonhado.
-Tem razão, temos que começar debaixo e ir crescendo aos poucos — concordou.
Eles voltaram a caminhar com os recém-contratados funcionários. Como um túnel de vento real custa milhões, a equipe depende 100% da criatividade. No fundo da fábrica, há uma área apelidada de "Setor de Milagres".
Uma impressora 3D de porte médio, trabalhando sem parar, cospe peças de plástico em escala reduzida para que os engenheiros testem a ergonomia e o encaixe básico, antes de mandarem fabricar a peça real em fibra de carbono (o que é feito por um fornecedor externo terceirizado, já que a equipe não tem autoclave própria).
O "simulador" do piloto é, na verdade, uma estrutura de cockpit antiga acoplada a um computador de jogos de última geração e três monitores curvos. Não há atuadores hidráulicos para simular a força G, mas serve para o piloto decorar o traçado das pistas.
Ao verem o quão precário era a estrutura por dentro, sem aquele montes de tecnologia de ponta que as equipes normalmente têm, Gilberto olhou para os funcionários.
-Fiquem tranquilos, eu sei que tudo parece amador, mas eu garanto que quando formos competitivos, conseguiremos todos os equipamentos necessários para tudo ficar mais profissional e transformar essa fábrica em algo maior, ok? É só o começo da jornada — ele garantiu.
Todos assentiram, então ele seguiu em frente.
As prateleiras de metal ostentam caixas organizadoras de plástico com etiquetas escritas à mão: "Parafusos de Titânio — USAR COM PARCIMÔNIA", "Pastilhas Usadas — Treino". O controle de estoque é rígido não porque há muitas peças, mas porque a perda de uma única porca especial pode atrasar o cronograma em semanas.
A Atmosfera Geral: O lugar não exala a frieza robótica de uma McLaren ou a opulência de uma Ferrari. Ele exala o calor do automobilismo raiz. Há uma bandeira do Brasil gasta pendurada na parede principal e um rádio de pilha sintonizado em alguma estação local ao fundo. É uma fábrica onde o dinheiro é escasso, mas o suor, a engenharia de precisão feita na raça e o orgulho de colocar um carro no grid da maior categoria do mundo compensam cada ferramenta improvisada.
A Atmosfera Geral: O lugar não exala a frieza robótica de uma McLaren ou a opulência de uma Ferrari. Ele exala o calor do automobilismo raiz. Há uma bandeira do Brasil gasta pendurada na parede principal e um rádio de pilha sintonizado em alguma estação local ao fundo. É uma fábrica onde o dinheiro é escasso, mas o suor, a engenharia de precisão feita na raça e o orgulho de colocar um carro no grid da maior categoria do mundo compensam cada ferramenta improvisada.

Após algum as horas, finalmente tudo estava perfeitamente encaixado. Ainda que a fábrica não fosse tão bonita, todos estavam animados trabalhando nela.
E, como o combinado, às dez horas em ponto, Gustavo chegou com seu empresário Hunter e Rafael chegou com Nicolas.
Ao vê-los, Eduardo e Gilberto, com sorrisos que tentavam esconder o cansaço extremo, abriram as grandes portas de correr da fábrica.
-Sejam muito bem-vindos à nossa casa, a "Fênix Racing" — anunciou Eduardo.
Gustavo, o piloto principal, entrou primeiro, seus olhos percorrendo imediatamente o espaço. Ao contrário do brilho esterilizado das fábricas que ele conhecia, o chão de cimento queimado e as marcas de óleo eram evidentes. Ele trocou um olhar rápido com seu empresário, Hunter, que vinha logo atrás. Hunter, um homem experiente e habituado ao luxo da F1, ergueu levemente a sobrancelha, surpreso pela rusticidade do local.
Rafael, o segundo piloto, entrou em seguida, com Nicolas, seu empresário, ao seu lado. Rafael parecia analisar a estrutura com curiosidade, notando os equipamentos de simulação improvisados e as prateleiras com etiquetas escritas à mão. Nicolas, por outro lado, cruzou os braços, sua expressão ilegível, enquanto observava os mecânicos trabalhando no chassi com ferramentas manuais.
Enquanto caminhavam em direção ao centro do pavilhão, onde o chassi do carro estava sobre cavaletes, o cheiro de resina epóxi e metal cortado se tornou mais intenso.
-Eu sei que não parece muito agora — disse Gilberto, percebendo a hesitação dos empresários — mas cada peça aqui foi feita com sangue, suor e muita paixão. É um projeto em construção, mas com um potencial enorme.
Hunter, finalmente, quebrou o silêncio.
-É... diferente. Mas a paixão é inegável, Sr. Gilberto. O desafio é transformar essa paixão em performance. O relógio está correndo. E espero que consigam isso.
Nicolas, mantendo seu tom formal, questionou:
-E sobre o motor? Vocês confirmaram o Renault?
Eduardo suspirou.
-Sim, foi o único que conseguimos. Sabemos das limitações, mas estamos confiantes de que podemos desenvolver o carro em torno dele. É o primeiro passo de uma longa jornada.
Os pilotos, no entanto, pareciam mais otimistas. Gustavo, tocando levemente a fibra de carbono inacabada do chassi, sorriu para Eduardo.
-É cru, mas é nosso. Eu mal posso esperar para testá-lo.
Rafael concordou, olhando para o simulador.
-A gambiarra tecnológica pode nos ajudar a decorar a pista, isso é o que importa agora. Vamos fazer funcionar.
A tensão inicial na fábrica diminuiu ligeiramente, substituída por um misto de ceticismo cauteloso por parte dos empresários e de entusiasmo genuíno por parte dos pilotos. A visita estava longe de terminar, mas o primeiro contato com a realidade da Fênix Racing já havia deixado claro que o caminho para o sucesso seria, acima de tudo, uma prova de resistência e criatividade.
5 de Novembro de 2019
O lançamento oficial do carro da Fênix Racing foi confirmado para acontecer após o final da temporada de 2019 da Fórmula 1. Em vez das apresentações puramente digitais ou dos grandiosos eventos em teatros europeus, a equipe brasileira optou por revelar sua máquina fisicamente, ao vivo, misturando a simplicidade de um estúdio improvisado com a expectativa do "Grid de Largada".
O palco foi montado nos boxes no Autódromo de Tarumã, em Curitiba, perto da sede da equipe, com fundo infinito escuro. Diferente das apresentações hiper-tecnológicas, a estética da equipe trazia um clima mais sóbrio e focado:
O Palco: Uma plataforma preta ligeiramente elevada, cercada por painéis de LED verticais que exibiam o logo estilizado da Fênix em tons de prata, cinza-chumbo e detalhes em verde-e-amarelo neon.
A Iluminação: Canhões de luz azulada e branca cruzavam o teto, criando sombras dramáticas sobre a silhueta do carro, que estava coberto por uma capa de seda preta com o brasão da escuderia.
O Som: Um pulso eletrônico de música eletrônica industrial crescia ao fundo, ditando o ritmo cardíaco dos presentes, enquanto feixes de fumaça de gelo seco começavam a rastejar pelo chão.
O anúncio da entrada da nova equipe foi feita pela internet e parou o Brasil. Milhares de torcedores, fãs do Brasil inteiro da Fórmula 1, alguns do Rio, outros do Sul, São Paulo, todas as cidades possíveis, que ansiavam pela falta de um piloto representante do país há dois anos, estavam lá, presentes naquele evento para prestigiar a apresentação da nova equipe do grid.
A Entrada dos protagonistas, com os flashs dos fotógrafos e jornalistas espalhados pelo espaço, Eduardo e Gilberto subiram ao palco vestindo camisas polo pretas com faixas em amarelo e verde. Cores oficiais da equipe. Ao lado deles, os empresários Hunter e Nicolas acompanhavam dos bastidores, observando com atenção a recepção da mídia internacional.
Em seguida, sob aplausos, Gustavo e Rafael entraram vestindo os novos macacões de corrida para a temporada. O design remetia diretamente àquela era: linhas limpas, tecido fosco e, no peito, o orgulhoso logo da fabricante de motores Renault ao lado dos poucos, mas cruciais, patrocinadores master brasileiros que viabilizaram o projeto.
Ao sinal de Gilberto, Gustavo e Rafael se posicionaram cada um de um lado do bólido. Com um movimento sincronizado, eles puxaram a capa preta, revelando as formas do carro sob a luz forte dos refletores.
A pintura, seguindo a tendência de 2019 e 2020 de economizar peso deixando partes na fibra de carbono crua, o carro exibia uma identidade visual agressiva. A lateral e a cobertura do motor ostentavam o carbono fosco exposto, que contrastava perfeitamente com faixas diagonais em verde-bandeira e amarelo-ouro acetinado que subiam pelo bico e pela asa traseira.
O design,embora visualmente refinado pela pintura nova, os olhos mais atentos dos jornalistas técnicos notaram soluções aerodinâmicas ligeiramente mais conservadoras na asa dianteira e nos bargeboards laterais — um reflexo direto do orçamento limitado e das simulações feitas puramente no CFD da fábrica. No entanto, o acabamento final era impecável, mascarando com maestria o suor e as lixadas manuais dadas pelos mecânicos dias antes.
Os quatro se juntaram à frente do carro para os tradicionais microfones da imprensa internacional.
-Sabemos que o grid da Fórmula 1 é implacável e que o orçamento dita muitas regras — disse Gustavo à Sky Sports, apoiando o braço na asa traseira do carro — Mas o que este carro tem em suas linhas é engenharia pura feita na raça. Não estamos aqui para passear; estamos aqui para construir uma história.
Rafael sorriu para as câmeras, apontando para o bico do chassi.
-A beleza desse carro está nos detalhes que ninguém vê: as noites em claro da nossa equipe. Ele é rápido no papel, agora é hora de fazê-lo voar na pista.
A apresentação terminou com a clássica foto oficial: os dois pilotos com os braços cruzados à frente do bico do carro, ladeados por Eduardo e Gilberto, sob a chuva de flashes que oficializava a Fênix Racing como a mais nova e audaciosa desafiante do automobilismo mundial.
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