Fênix - Até as cinzas voarem
16 A sensação da temporada
Silverstone é o templo da velocidade. É a pista onde os carros ruins são desmascarados na emblemática sequência de curvas Maggotts, Becketts e Chapel, onde a força aerodinâmica e o equilíbrio do chassi são levados ao extremo absoluto. Sem chuva, sem Safety Car, sem quebras dos rivais e sob o sol brilhante do verão britânico, o GP da Grã-Bretanha de 2022 virou o palco da maior aula de pilotagem e engenharia da temporada.
Quando a equipe chegou no paddock de Silverstone na quinta feira de manhã, a mídia não perdeu tempo.
-Gustavo, tá todo mundo falando do pódio histórico da equipe no Canadá. Vocês realmente mudaram o carro e continuarão progredindo ou foi apenas sorte da chuva no final? — o jornalista perguntou.
Gustavo não gostou da alfinetada e suspirou.
-Se aquele pódio no Canadá não foi o suficiente para convencer sobre o potencial da equipe, continuem acompanhando nossa evolução ao longo da temporada e na última corrida eu responderei com prazer. Ou vão entrevistar atores, porque vocês obviamente não entendem de Fórmula 1 — disparou, sem parar de caminhar.
Alguns metros dali, Rafael caminhava na direção dos boxes quando alguém lhe fez uma pergunta parecida:
-Rafael, é verdade que a equipe realmente tá evoluindo ou o pódio foi apenas sorte por causa da chuva?
Rafael manteve a postura e o sorriso calmo que não chegava aos olhos.
-Prefiro responder isso na pista. Os números não mentem. Sei que não estamos aonde queríamos, mas não acho que tivemos sorte. Acompanhem as próximas corridas — ele disse, voltando a andar.
Quando finalmente conseguiu se afastar e entrar no box da equipe, encontrou Gustavo terminando de fechar o macacão, com uma expressão séria.
-Eles te perguntaram sobre o pódio no Canadá? — quis saber ele.
Gustavo assentiu.
-Eles acreditam no Marco Santoro, não param de perguntar se foi sorte nossa — respondeu ele.
-Calma, é só continuarmos com esse desempenho nas próximas corridas e eles vão perceber a realidade.
-Já era para terem percebido né?
-Assim é a Fórmula 1, a Red Bull dominando, precisam achar alguma coisa para dar ibope.
-E aquela sua resposta Gustavo, vai fazer todo mundo ter uma má impressão de você — alertou Eduardo, entrando na conversa.
-Oxe, mas eu não quero impressionar ninguém, quero é ser campeão e não é preciso ser gentil para isso — rebateu Gustavo.
-Continua pensando assim. Quando isso começar a ter prejudicar, vai entender do que o chefe tá falando — sorriu Rafael, dando um tapinha no ombro dele.
-Foquem em pilotar, garotos! Temos um treino para começar — disse Eduardo, colocando seus fones.
Se Marco Santoro achava que a equipe passaria vergonha em solo inglês, ele se esqueceu de um detalhe: Silverstone era a casa de Arthur Pendelton. O velho projetista conhecia cada ondulação daquele asfalto.
No sábado de classificação, sob pista totalmente seca, a engenharia genial de Arthur brilhou. Ajustando o fluxo do assoalho para dar estabilidade impecável nas curvas de altíssima velocidade, o VT-02 fluía pelas sequências rápidas como uma flecha preta.
4º Lugar: Rafael
5º Lugar: Gustavo
Sem truques. Apenas velocidade pura no cronômetro.
-Rá, quero ver agora a mídia falar que foi sorte! — comemorou Rafael, tirando o capacete ao descer do carro.
-Ele tá incrível nas curvas do segundo setor! Muito na mão! — sorriu Gustavo, saindo do cockpit.
-Então teremos uma boa chance de conseguir mais um pódio amanhã! — disse Eduardo, comemorando com Arthur.
A Corrida: Uma Cena de Cinema
No domingo, as luzes vermelhas se apagaram e o que se viu em Silverstone foi um espetáculo de talento bruto.
Logo na largada, Rafael largou como um monstro, emparelhando por fora na curva Copse e superando a Mercedes de George Russell com uma manobra ousada de tirar o fôlego. Gustavo veio logo atrás, aproveitando a vácuo para colar na traseira do companheiro de equipe.
À medida que as voltas passavam, enquanto equipes rivais começavam a sofrer com a degradação excessiva dos pneus dianteiros devido ao calor e à exigência do circuito, a configuração com a traseira solta e arisca pedida pelos brasileiros se provou uma arma mortal. Gustavo e Rafael contornavam as curvas rápidas usando a rotação do carro no pedal do acelerador, poupando a borracha dianteira com uma maestria digna de campeões mundiais.
-É INACREDITÁVEL! A DUPLA DA VORTEX GP ESTÁ GUIANDO COMO DOIS EXPERIENTES PILOTOS!!
Na volta 40 de 52, sem precisar de interrupções na pista, a dupla da Vortex GP ultrapassou a Ferrari de Charles Leclerc na raça, na freada da Stowe, com dois xadrezes impecáveis.
Pelo rádio, a voz de Eduardo tremia, mas a de Arthur Pendelton permanecia tranquila:
— Rafael, P2. Gustavo, P3. Mantendo o ritmo de 1:30.8, vocês vão cruzar a linha de chegada sem sobressaltos. O carro tá impecável.
— Recebido, Arthur —, respondeu Rafael, respirando fundo no capacete. — Esse carro tá voando!
O Pódio Duplo Histórico
Nas últimas voltas, o rádio da equipe era só silêncio tenso e expectativa. Quando a bandeira quadriculada foi agitada na reta principal de Silverstone, a história foi reescrita com letras de ouro:
1º:Carlos Sainz Jr. (Ferrari)2º: RAFAEL — VORTEX GP (+3.8s)3º: GUSTAVO — VORTEX GP (+4.5s)Dois pilotos brasileiros. Uma equipe caçula. PÓDIO DUPLO NO TALENTO PURO.
A garagem da Vortex GP veio abaixo. Mecânicos pulavam, se abraçavam e invadiam o pit lane gritando em português e inglês. Eduardo desabou no mureta de boxes, chorando abertamente, sem conter a emoção. Ao seu lado, Arthur Pendelton tirou os óculos, limpou uma lágrima discreta no canto do olho e deu um sorriso largo de quem sabia exatamente o que tinha construído.
O Cala-Boca Definitivo em Marco Santoro
No parque fechado, Rafael e Gustavo saltaram dos cockpits e se abraçaram na frente dos carros, sob os aplausos de pé de toda a torcida britânica e dos próprios mecânicos de Red Bull, Ferrari e Mercedes. Depois, correram até os mecânicos da Vortex e se jogaram nos braços deles.
-NÓS SOMOS VORTEX GP!! — gritou um deles.
-PRA CIMA DELES TIME! — sorriu Rafael, comemorando.
Na transmissão ao vivo da TV italiana — a mesma onde Marco Santoro havia cravado que o resultado do Canadá fora "sorte de principiante" —, o comentarista principal não perdoou:
— "...E para quem dizia que era sorte na chuva, aqui está a resposta! Em pista seca, no templo de Silverstone, a Vortex GP coloca DOIS PILOTOS NO PÓDIO por puro mérito, velocidade e talento! Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o trabalho de Arthur Pendelton e desses dois jovens brasileiros, hoje todas as dúvidas foram atropeladas a 300 km/h!"
Na sala de imprensa, a foto de Marco Santoro sumia dos debates técnicos. Ele havia sido apagado da história da equipe pela força do resultado.
No pódio mais bonito do ano, com Rafael no segundo degrau mais alto e Gustavo ao seu lado no terceiro, Eduardo se debruçou na grade do parque fechado para acompanhar o pódio de seus pilotos. Ele olhou para os dois garotos banhados em champagne e pensou em Gilberto. A dor do passado, as traições e o desespero haviam ficado para trás.
A Vortex GP não era mais uma promessa ou uma zebra; era uma realidade gigante no topo do automobilismo mundial.
-Espero que agora o veneno do Marco Santoro saia das veias da imprensa! — riu Gustavo, jogando champanhe em Rafael.
-E eu espero que você esqueça isso ou use como combustível para continuar evoluindo! — rebateu Rafael, banhando o amigo.
A Sequência Avassaladora pelo Mundo
O acerto solto na traseira e a eficiência do chassi de Arthur Pendelton continuavam fazendo estragos em diferentes tipos de pista:
GP da Hungria(Hungaroring): Em um circuito travado e estreito que gerava corridas monótonas, Rafael conquistou um P3 brilhante, cravando ultrapassagens precisas na primeira e segunda curva e segurando a pressão de Leclerc no fim.
GP da Bélgica (Spa-Francorchamps): Na mítica Eau Rouge e na veloz reta de Kemmel, o motor Ferrari afinado com a aerodinâmica limpa do VT-02 permitiu que Gustavo voasse para o P3, mostrando que o carro era uma máquina completa.
GP da Holanda (Zandvoort): Nas curvas inclinadas e travadas do templo holandês, Gustavo deu um show de pilotagem no oversteer e conquistou um épico P2, ficando a meros segundos do líder e calando a torcida local.
GP de Singapura (Marina Bay): Na corrida noturna mais exigente e física do calendário, Gustavo brigou até o limite do cansaço físico e garantiu mais um P3, sobrevivendo ao calor sufocante e aos muros colados.
GP do Texas (Austin): No Circuito das Américas, com suas ondulações e o setor 1 técnico, Rafael teve uma atuação impecável para beliscar o P3, mostrando uma regularidade assustadora.
GP do México (Hermanos Rodríguez): Na altitude da Cidade do México, onde o ar rarefeito testa a refrigeração do motor e a pressão aerodinâmica, Rafael repetiu a dose com outro P3 fantástico, somando pontos vitais na tabela.
O Gran Finale: Pódio Duplo em Interlagos (P2 Rafael, P3 Gustavo)
A penúltima etapa do campeonato trouxe o circo da F1 de volta ao Brasil. O Autódromo de Interlagos estava lotado, pulsando numa atmosfera de futebol, com bandeiras pretas e verdes da Vortex GP espalhadas por cada canto de Sopa do Asfalto e do Setor A.
Ao perceber isso, Rafael sorriu para Gustavo.
-Primeira vez correndo em casa!
-É mesmo. Em qualquer lugar que eu olhe tem pessoas torcendo pra nós! — sorriu Gustavo.
-Acredite meninos! Eu quando tinha a idade de vocês já estive nessas arquibancadas para assistir às corridas do Senna, do Rubinho, do Massa — lembrou Eduardo, sorrindo.
-Com o Senhor Gilberto? — quis saber Rafael.
Eduardo sentiu a pontada no peito pela saudade, mas não recuou.
-Sim, ele também vinha — respondeu ele.
-Vamos correr por ele. Independente do resultado, vamos dedica à ele. É graças ao incentivo dele que estamos aqui hoje! — disse Rafael, com as mãos nos ombros do chefe e do parceiro de equipe.
-Isso aí garoto, vamos para cima! — sorriu Eduardo, animado com a determinação do seu piloto.
-Pelo Gilberto! — completou Gustavo, sorrindo.
Na corrida de domingo, sob o céu paulistano instável, a equipe viveu o seu momento mais emocionante.
Nas voltas finais, com a pista levemente úmida no Laranjinha e na Junção, a habilidade nata dos dois garotos com a traseira arisca fez a diferença. Se aproveitando que as duas Red Bulls tiveram problemas de ritmo e a Ferrari, como sempre, errou na estratégia com seus dois pilotos, Rafael e Gustavo escalaram o pelotão na raça, passando a Mercedes de Lewis Hamilton na última volta e cruzando a linha de chegada em P2 e P3, respectivamente.
-EU NÃO ACREDITO! A DUPLA DA VORTEX GP ULTRAPASSOU O HEPTACAMPEÃO MUNDIAL!! — o narrador da corria berrava nos autofalantes do circuito.
O público brasileiro, vendo a ultrapassagem, foi ao delírio, pulando e gritando como se o Brasil tivesse sido hexa da copa do mundo.
No momento da ultrapassagem, todo o box da Vortex veio abaixo, eles não sabiam se vibravam e comemoravam ou se já corriam para a mureta dos boxes para receber seus pilotos, mas não importava, seus dois pilotos estavam no pódio.
Em casa!
-CONSEGUIMOS!! PÓDIO DUPLO EM CASA!! — comemorou Gustavo, erguendo o punho no ar.
-Parabéns equipe! Vocês foram incríveis hoje! Ótima estratégia e ótima execução. Esse pódio é pelo Gilberto! — comemorou Rafael.
Eduardo bem que tentou, mas não conseguiu se conter. As lágrimas desceram assim que os dois cruzaram a linha de chegada. Enquanto os mecânicos se abraçavam, ele abraçou Arthur, que comemorava o resultado fantástico da equipe em casa.
-Sabe o que mais me impressiona? — perguntou Arthur, ao se separarem.
-O-o-o quê? — gaguejou Eduardo, ainda limpando as lágrimas.
-Achei que a torcida ia reclamar que não foi uma vitória, mas eles estão comemorando como se fosse!
-Ainda bem! Quando vencermos aqui, a festa vai ser ainda maior!
Quando os dois carros estacionaram abaixo do pódio em Interlagos, o autódromo inteiro veio abaixo em um coro uníssono gritando os nomes de Gustavo, Rafael e Eduardo.
-Gustavo, vocês conseguiram um pódio duplo! É a primeira vez que desde 1978 que uma equipe brasileira consegue um pódio na corrida em casa, só que agora com um pódio duplo. Ou seja, é um momento histórico! Realmente não eram boatos, a equipe está crescendo. Tem algo a comentar sobre isso? — perguntou David Coulthard, na entrevista pós-corrida no parque fechado.
-Sim. Isso ainda não acabou! Ano que vem, podem esperar mais da Vortex GP! — sorriu ele.
Rafael sorriu, feliz que seu amigo não se importou com o comentário discreto sobre as palavras de Marco Santoro.
No pódio mais emocionante do ano, os dois garotos dividiram os degraus em casa. Eduardo novamente se pendurou nas grades de proteção e, emocionado, ergueu o olhar para o céu, oferecendo o momento à memória de Gilberto.
O Fechamento Inesquecível de 2022
A contabilidade final do campeonato selou o milagre:
Classificação de Construtores: A Vortex GP fechou a temporada em 4º Lugar Geral, ultrapassando a Mclaren por uma margem apertada e garantindo uma premiação milionária da FIA que mudaria o patamar da equipe para sempre.
O Calamidade de Marco Santoro: O italiano sumiu dos holofotes do automobilismo europeu, com sua reputação completamente destruída após tentar desacreditar um projeto que terminou no top 3 do mundo.
O Contrato dos Investidores: O consórcio renovou com a Vortex GP por mais cinco anos, sem imposições, dobrando o orçamento para 2023.
No galpão da equipe em São Paulo, na festa de encerramento do ano, Arthur Pendelton ergueu uma taça de guaraná ao lado de Eduardo, Gustavo e Rafael, olhando para o quadro de Gilberto no escritório.
— O VT-02 foi um bom carro, garotos — disse o velho Arthur, com um sorriso enigmático por trás dos óculos. — Mas esperem só para ver o que eu estou desenhando para o VT-03 de 2023...
A Vortex GP não era mais uma história de superação; era uma potência da Fórmula 1 pronta para brigar por títulos mundiais.
Fale com o autor