Notas iniciais
Continuação...

À tarde do mesmo dia...

Em seu quarto, Félix conversava com a mãe enquanto se olhava no espelho experimentando alguns terninhos antigos que ainda guardava.

– Você tinha que ver, mami, a carinha do carneirinho quando eu pedi para ele me acompanhar no baile!

– Ah, eu imagino... – Pilar disfarçou, mas sabia qual havia sido a reação de Niko ao que Félix lhe fez o convite, pois ficou espiando os dois depois que saiu da mesa.

... ...

Pela manhã...

– Quer... Seu meu acompanhante no baile?

Niko o soltou do abraço e olhou para ele com aqueles olhos verdes arregalados.

– Hã?!

– Carneirinho, eu perguntei se você quer me acompanhar ao baile, sim ou não?!

– E-eu?!

– Claro, criatura! Quem mais?

O loiro abriu um sorriso e o abraçou novamente, quase o puxando para seu colo.

– Félix... Amor, eu iria adorar!

– Eu... Já sabia, carneirinho! Mas, pode me soltar agora!

– Ah tá... – Deu um sorriso tímido, porém logo depois um beijo ardente. Isso fez Félix perder o fôlego. Surpreso, perguntou assim que Niko o largou:

– O... É... O que significa isso tudo, hein?!

O loiro bem próximo a ele, encarando-o com um sorriso faceiro, respondeu:

– Significa que seu convite significa muito pra mim! – Beijou-o outra vez.

Nessa hora o mordomo chegou e pigarreou para chamar-lhes a atenção, parecendo ficar um pouco sem jeito.

– Senhor Félix... Doutor César acabou de acordar e está chamando!

– Sim... Já vou! – O mordomo saiu e ele virou de volta para o loirinho. – Tenho que ir logo ver o que o papi quer, Niko! Imagina se ele imagina que eu estou aqui com você, assim, aqui na mesa...

– Não fazíamos nada demais, só nos beijávamos...

– Eu sei, e eu adoro! Ainda mais por pensar que estou aqui com você, nessa mesa que já serviu pra tanto... Ai, enfim, deixa pra lá... Mas, se o papi chama tenho que correr né?! Senão já sabe...

– Sim! Vai lá, Félix! Eu também tenho que ir! – Deu-lhe só um selinho dessa vez e levantou.

Félix o acompanhou até a porta e antes de ir Niko o avisou:

– Vou tirar um dia, talvez amanhã, porque hoje não avisei ao Edgar, pra eu ir só um horário no restaurante e poder fazer compras...

– Compras?

– Claro! Vou comprar minha roupa para o baile...

– Nossa! Tá parecendo uma debutante pronta para escolher o vestido...

– Olha que bobo, nada a ver tá?!

– Ah não... – Foi sarcástico. – Tá bom, mas pelo menos compre um terno bonito porque, afinal, você só tem um né?! E digamos que você não tem lá muito bom gosto para roupa né?!

– Não me importa o que você diga! Eu não vou nem ligar porque estou muito feliz!

– Essa felicidade toda se deve a quê exatamente? A essa noite? Por que se for eu também estou felicíssimo, ou melhor, igual meu nome, felixíssimo!

Niko riu, mas respondeu: — Não, amor! Eu também estou feliz por essa noite e por todas as outras e por cada dia que passamos juntos, mas não é só isso! Acontece que estou muito ansioso pra o baile no sábado, quero muito ir com você...

– Por que essa ansiedade toda, Niko?! É uma festinha, duvido que vá ser grande coisa... Um bando de gente que fez faculdade junta e que não tinha se visto nunca mais e agora decide se reunir pra uma boca livre!

– Ai Félix, você tem ver tudo dessa maneira?!

– E de que outra maneira eu vou ver?

Niko falou sério e calmo: — Talvez pra você fosse comum participar de coisas desse tipo, sua família sempre foi da alta sociedade, mas eu, Félix, nunca tive um baile assim na minha vida! Pelo menos, nada que pudesse se comparar a essas festas grã-finas que sua família está acostumada! Nunca participei de nada tão chique assim! Sabe por quê? Por que eu não tinha condições! Sabe por que eu só tenho um terno, Félix? Por que foi o melhor que eu consegui comprar desde que melhorei de vida e porque não tenho necessidade de ter outro, pois nunca tive ocasiões para usar! Tá bom assim?!

– É... Tá, tá sim, carneirinho! Entendi! Desculpa, tá?! Não queria estragar sua ansiedade, é que... Eu não consigo ver as coisas como você...

Ele respondeu carinhosamente: — Não, Félix, você não disse nada demais... É só que... Ah, você sabe que eu sou romântico, sempre sonhei em ir a um baile assim com... – Pegou em seu rosto. – Com um príncipe como você!

Félix riu e beijou sua mão. – E você vai, meu carneirinho lindo! – Também lhe fez um carinho: — Acho que eu que vou com um príncipe de verdade! Príncipe Nicolas! – Deram mais um rápido beijo de despedida e Niko saiu.

... ...

De volta à tarde do mesmo dia...

– Então mami... Você acha que eu devo acompanhar o carneirinho quando ele for comprar o terno pra ir?

– Não Félix, melhor não!

– Ai mami! Posso saber por que respondeu com tanta convicção?

– Como por quê? Por que te conheço Félix! Você sempre deu pitaco com minhas roupas! Eu tenho pena do Niko...

Félix finalmente tirou a atenção do espelho e virou para ela pondo a mão na cintura.

– Mami! Será que eu derramei vinho na túnica de algum apóstolo para a senhora dizer que eu dou pitaco?! – Ele mexia as mãos parecendo nervoso. – Não faço isso não tá?! Tudo que eu faço é opinar sobre sua visão da moda... Que por sinal é muito ruim! Sua visão de moda, mami, sofre de miopia grave!

– Félix! Está dizendo que me visto mal?!

– Não, mami! A senhora não se veste mal, graças a mim! Mas tenho impressão de que se não fosse eu para lhe ajudar quanto às suas combinações... A senhora seria tão brega quanto... A Márcia! Pronto, falei!

Pilar, que estava sentada em sua cama, levantou e reclamou.

– Félix! Se vai ficar falando assim comigo eu vou embora!

– Não mami...

Ela cruzou os braços. – Não sei por que me chamou pra te ajudar a escolher a roupa para o baile já que você é o expert em moda daqui...

– Ai mami... Não, não vai, por favor, fica! Eu não falo mais nada, pronto! – Fez sinal de zíper na boca.

– Hum... Duvido que você se mantenha assim por muito tempo!

Ele bem tentou, virou novamente para o espelho, mas realmente não conseguiu passar nem dez segundos calado. Virou de novo para a mãe, soltando os ternos que segurava.

– Ai mami... É que eu estou nervoso! Meus terninhos estão todos fora de moda, eu nem sei o que se veste nessas festas... O Niko está super ansioso por isso como a Cinderela pra ir ao baile... E eu, pra falar a verdade, só quis ir mesmo por ele!

– Deveria falar a verdade para ele, Félix! O Niko vai compreender se você desistir!

– Eu sei disso, mami, mas... – Suspirou. – O carneirinho ficou tão contente! Eu, por um lado, não quero ir, por outro, quero muito levá-lo!

– Você está é confuso, Félix! Se resolva antes de qualquer coisa!

– Ai... – Ele foi sentar-se na cama perto dela que estava de pé. – Mami... Por que é tão difícil dizer não a ele? Eu não consigo negar nada ao carneirinho!

Pilar sorriu e pegou no rosto do filho, e falou olhando em seus olhos. – Sabe por que isso, Félix? Por que você está completamente apaixonado pelo Niko! Meu filho, você ainda não consegue medir o tamanho do sentimento que você tem por esse rapaz! Ele é muito especial... E tenho certeza que vai mudar sua vida... Já está mudando!

Félix gostou muito do que a mãe lhe disse e demonstrou isso com um sorriso e um abraço forte nela. Abraçou-a na cintura, sentado na cama, enquanto ela acarinhava seus cabelos como se ele ainda fosse um menininho.

Quando a soltou, Félix agradeceu:

– Tem toda razão, mami poderosa! Obrigado! Agora, voltando ao assunto baile... A senhora vai me ajudar a escolher a roupa ou não?

– Ah! Quer mesmo que eu ajude?! Mesmo eu não entendendo tanto de moda?!

– Mesmo assim, mami! Tudo bem! Eu aceito uma dica!

– Uma dica?! – Ela pensou. – Tudo bem! Que tal...

– Que tal o quê?

– Que tal... Uma bermudinha vermelha e uma flor no cabelo, hein?! – Riu e saiu do quarto.

– Mami! Não acredito... – Gritou. – Muito engraçado, dona Pilar, muito engraçado! – Recolheu os ternos que havia largado e voltou a se olhar no espelho, se reclamando. – É o cúmulo a mami fazendo piadinhas desse tipo... Sem graça...

Observando-se no espelho, Félix notou sua própria ansiedade, que era bem diferente da de Niko, mas talvez ainda maior. Ele estava se preparando para apresentar-se às pessoas como nunca havia se apresentado antes. Seu sonho de vida estava prestes a se realizar, afinal, Félix sempre sonhou em ter um companheiro, alguém que o amasse, alguém com quem ele pudesse andar livremente sem se importar com o que iam falar dele... Tudo isso estava se realizando ao lado de Niko. Mas, quando se vive muito tempo sonhando com algo, quando este algo está para se realizar, ao invés de trazer a alegria que pensávamos que sentiríamos, traz uma angústia inexplicável. Talvez, causada pela ansiedade para que se realize logo, ou pelo medo de fazermos algo errado e perdermos a oportunidade da realização. Enfim, Félix não compreendia o que estava realmente sentindo, mas tudo que queria era que tudo desse certo para ele e para seu carneirinho, pois o que mais desejava na vida a partir do momento que aceitou seu amor, era que aquele loirinho lindo que o fazia tanto bem fosse feliz, imensamente feliz.

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Na tarde do dia seguinte...

Félix e Niko saíam do restaurante.

– Tchau, Edgar! Até amanhã! Lembre-se que no sábado como eu te disse você vai fechar o restaurante, viu?! Eu venho só pela manhã, por que à noite tenho um lugar para ir!

– Sim, seu Niko! Pode deixar!

Eles saíram. Andando pelo shopping, Félix começou a rir.

– Ai carneirinho...

– Que é?

– Eu pensei que você ia começar a falar pra o Edgar que vai a um baile comigo e mais um monte de coisas! Do jeito que você está entusiasmado...

– Estou mesmo! E daí?!

– Nada, meu carneirinho lindo! – Félix pôs o braço em volta dele, mas logo tirou já que não era seu costume andar assim com ninguém. – Eu só acho graça por você estar querendo ir bem mais que eu, só isso!

– Hum... Não tem por que achar graça, eu sou assim, ora! – Falou todo dengoso e se aproximou mais de Félix para pegar em seu braço.

Para Niko seria tudo de bom andar com seu amado assim de braços dados, no meio do shopping, mas ele esqueceu que Félix não era exatamente um modelo de romantismo, tampouco estava acostumado a essas demonstrações de carinho em público.

– É... Então... Aonde vamos primeiro? – Perguntou o loiro pegando no braço de Félix com as duas mãos.

– Hum... Não sei... Aonde você quer ir? – Quando notou como Niko o segurava, Félix comentou: — Me solta, Niko! Como vamos andar com você pendurado em mim, criatura?!

O loiro soltou desolado. – Ai Félix! Eu só pensei que você quisesse andar assim mais juntinho...

– Não! Pra quê?!

– Nossa... – Niko preferiu não começar a pontuar os inúmeros motivos que tinham para os dois andarem mais como se fossem namorados e não apenas amigos. – Pelo menos, pega na minha mão!

– Ah carneirinho, por favor...

– Que foi?! Não pode nem andar de mãos dadas comigo?!

– Posso Niko, claro que posso... É só que... Nunca... Nunca andei assim, eu acho estranho...

Essa não era a resposta que o loiro esperava.

– Você também, viu... É muito incomodado... Ai esquece! Vamos logo...

Félix o interrompeu, agitando o corpo um instante como se estivesse impaciente e segurou em sua mão, dizendo: — Tá bom, tá bom! É isso que você quer?! Pronto! Vamos!

Niko gostou do gesto, mas ao mesmo tempo compreendeu que Félix não era acostumado a todas as demonstrações de afeto que ele gostaria de lhe ensinar, então, beijou a mão do moreno e lhe disse:

– Não precisa andar de mãos dadas comigo se não quiser ou não gostar, Félix! O importante é que você goste de mim!

– Você sabe que eu gosto, meu carneirinho! É claro que eu gosto! E... Eu adoro ficar todo o tempo que puder com você... Mas...

– Mas?

– Ai, pelas águas do Mar da Galiléia... – Ele coçou a cabeça e respirou fundo. – Antes de comprarmos uma roupa pra você... É... Vamos conversar, carneirinho?!

– Conversar? Sobre o quê?! Você não quer ir para o baile, é isso?!

– Para ser sincero... Não... Não muito...

– Amor, olha... Se você não quiser ir mesmo, eu vou te compreender!

– Verdade?

Niko sorriu olhando profundamente em seus olhos.

– Claro, querido! – Se aproximou mais. – Se você quiser desistir, pode ser sincero comigo, eu vou te entender...

Félix ergueu uma sobrancelha. – Você andou falando com a mami?

– Não, por quê?!

– Não, é que eu falei pra ela que não estava com vontade de ir, ao mesmo tempo... – Suspirou. – Ao mesmo tempo, seria um sonho ir com você e te apresentar pra todo mundo, carneirinho! Mas, eu... Não sei... Estou ansioso, receoso...

– Ei, não fica assim! Eu só peço que você me conte por que está assim!

– Se nem eu sei, Niko!

– Félix... Quantas vezes eu vou ter que te falar que sentimento não tem explicação, só existe?! Sentimento é assim... Sejam bons ou ruins... São inexplicáveis! Não quero que você me explique, só quero que você me diga o que se passa no seu coração e na sua cabeça!

Félix sorriu emocionado. – Você é inacreditável, meu carneirinho! – Esquecendo de todos seus medos por estarem em um local público, Félix ia beijá-lo, mas quando lembrou, disfarçou e pigarreou, se afastando um pouco.

Niko, que apesar de compreendê-lo ficou um tanto triste pela atitude, soltou sua mão e se afastou também, levando as mãos aos bolsos.

– Bom... Vamos para onde agora? Já que você não quer mais ir... Eu não preciso comprar uma roupa nova... É... T-talvez seja melhor eu voltar ao restaurante né?!

Niko deu uns passos fazendo um caminho de volta, mas Félix não era bobo para não notar sua decepção.

– Ei... Espera carneirinho! – Chegou mais perto e segurou em seu braço como Niko queria fazer antes com ele. – Quem disse que eu vou desisti de ir, hein?! Vem... Vamos comprar um terno pra você que eu te quero bem bonito, mais lindo do que você já é, lá na festa!

Niko se surpreendeu e ficou muito feliz. Soltou as mãos de Félix do seu braço, carinhosamente e olhando em seus olhos, e pegou em sua mão, entrelaçando os dedos.

– Assim! Vamos assim!

– Tá bom! – Respondeu Félix baixinho lhe dando um beijo na testa.

Niko ficou ainda mais feliz e radiante. Ambos saíram andando de mãos dadas pelo shopping, visitando lojas e vitrines.

Ao chegarem a uma boutique masculina de luxo, havia uma quantidade razoável de clientes. Félix logo começou a soltar farpas.

– Parece até promoção! Nunca vi tanta gente aqui! E pior que não é... Pelas contas do rosário, olha o preço deste aqui, Niko!

Félix não controlava muito bem o volume de sua voz, mas Niko bem mais discreto comentou: — Fala mais baixo! – O moreno olhou para os lados e soltou a mão de Niko enquanto olhava as roupas, até que o loiro comentou: — Ai Félix, vamos sair?! Eu já havia passado por essa loja antes e nunca comprei nada, aqui é tudo muito caro!

– Pois eu já comprei uns cinco ternos aqui, carneirinho! São chiquérrimos! Mas, agora... Infelizmente minha situação financeira atual não permite, senão eu levaria mais um!

– Você pode comprar um mais barato... Ou então, por que não compra a prestações?

Félix ajeitou a sobrancelha e levou a mão à boca levantando a cabeça.

– Ai... Eu... Félix Khoury... Comprando à prestação... É o apocalipse!

Niko balançou a cabeça, rindo com o jeito de Félix. – Ai amor, só você...

Alguns clientes viram os dois chegarem de mãos dadas e olharam de cara feia. Outros continuaram cuidando de suas próprias vidas normalmente. Um, porém, estava vendo algumas roupas bem perto deles e parou os observando. Os dois se afastaram para o outro lado da loja e aquele cliente ficou ali parado os olhando até que exclamou consigo:

– Félix Khoury! É ele mesmo! Ah! Então ele... Eu sabia...

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Notas finais
Continua...