Félix & Niko - Dias Inesquecíveis
66 Learning How To Love -- II
Notas iniciais
Na manhã seguinte...
Niko acordou envolto nos braços de Félix que o mantinha abraçado mesmo dormindo. O loiro, se pudesse, ficaria assim vinte e cinco horas por dia, pois as vinte e quatro não seriam suficientes e ele criaria mais uma só para ficar um tempinho a mais com seu amado.
Naquela manhã, o loiro acordou primeiro após uma noite de amor que serviu para fazerem as pazes depois de um pequeno abalo no namoro e serviu para firmarem ainda mais o sentimento que tinham um pelo outro.
Niko se ajeitou nos braços de Félix, subindo mais um pouco em seu corpo para recostar a cabeça entre seu ombro e seu pescoço. Gostava de ficar assim já que assim podia ficar sentindo daquele homem o perfume que lhe inebriava.
A respiração quente do loiro foi acordando suavemente o moreno. Félix abriu os olhos e sentiu o corpo do seu carneirinho pesando sobre o dele, esquentando o seu com um calor sem igual. Abraçou-o mais forte e sorriu.
– Bom dia, carneirinho!
– Bom dia! – Niko sussurrou junto ao seu pescoço. Isso o fez arrepiar-se e abraça-lo ainda mais forte. O loiro riu sentindo a força com que seu amado o apertava contra seu corpo.
– Félix... Tá me apertando!
– É que você tem muito para pegar, carneirinho!
– O que você quer dizer com isso?
– Que você é muito gostoso, carneirinho!
O loiro riu, pois adorou a resposta. Distribuiu beijos no pescoço do amado como agradecimento.
– Ei Niko... Posso te fazer uma pergunta?
– Claro amor! Todas que você quiser!
– Posso... – Deu uma pequena pausa. – Saber se estou perdoado?
Niko deu uma gargalhada com a pergunta que já tinha uma resposta completamente óbvia. O olhou nos olhos e respondeu:
– É claro que está! Eu nem tinha o que te perdoar... – Suspirou apaixonado. – E você?
– Eu o quê?
– Você me perdoou pelo... Pelo showzinho que eu dei?! – Perguntou um tanto envergonhado.
– Carneirinho... – Félix segurou em seu rosto com uma das mãos enquanto a outra, ainda o abraçando, passeou por suas costas largas. – Eu preciso mesmo responder?!
Niko viu nele a expressão que queria ver, de leveza, compreensão, e amor por ele, e não necessitou de respostas.
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Dias antes...
O namoro estava numa fase tão boa que ambos já acreditavam que a relação que construíram era inabalável. Niko estava no céu, vivendo o melhor do amor. Félix já se acostumara com a ideia de que não havia salgado mesmo a santa ceia como sempre dizia, pelo contrário, não sabia o que tinha feito de tão bom para merecer o amor de um ser tão puro e lindo. Realmente, ele não tinha feito nada de tão bom. Mas, certa vez quando Félix questionava isso para Niko, este lhe ensinou que a vida não é uma moeda de troca. É claro que os bons são recompensados de alguma forma... Mas os que sofreram também merecem sua recompensa. Nesse dia, Félix aprendeu uma lição e descobriu sua recompensa, seu grande tesouro: o seu primeiro e verdadeiro amor, o carneirinho que fez morada em seu coração.
Félix acordou nos braços de Niko que também acordou ao mesmo tempo. Sorriram um para o outro e se beijaram.
– Que bom é acordar aqui com você... Meu... Carneirinho! – Entre as palavras ele o beijava. Niko sorria.
– Ah Félix... Também adoro estar aqui... Na sua cama...
Os dois não paravam de se beijar até que Félix lhe disse com ar puramente sincero:
– Como eu queria ter te conhecido antes, carneirinho... E que essa tivesse sido sempre nossa cama!
Niko o olhou carinhosamente e sorriu.
– Também queria ter te conhecido antes, Félix! Eu seria o homem mais feliz do mundo... Como sou agora!
– Não... Você teria me feito o homem mais feliz do mundo!
Os dois, dia após dia, ficavam mais e mais apaixonados. Não havia um só dia em que não dissessem coisas românticas, ou que, depois de um dia desgastante apaziguado por uma noite de paixão, não fizessem e refizessem promessas de amor um para o outro.
Com o rosto logo abaixo do de Félix, Niko levou suas mãos a acariciarem seu cabelo negro liso, suas orelhas, sua nuca. Félix, por sua vez, enrolava os dedos nos cachos dourados e gemia baixinho, quase ronronava feito um gato com tantas carícias.
Todo aquele carinho, a paixão e as carícias serviram para ficarem mais um pouquinho na cama. Na noite anterior, Niko havia deixado os filhos sob os cuidados de Adriana para ir jantar na casa do amado. Acabou ficando para dormir lá.
Pouco tempo depois de terem um momento revival da noite, ambos levantaram da cama e tomaram um banho juntos. Àquela altura do namoro, Félix já havia levado seu carneirinho para conhecer seu quarto, sua cama, seu chuveiro, mas sempre lhe dava enorme prazer repetir. Depois de ter vivido a vida inteira naquela casa que só lhe trouxe sofrimento e decisões erradas, ele finalmente vivia bons momentos naquele lugar. Momentos inesquecíveis ao lado do ser que conseguiu mudar sua vida.
Trocaram de roupa. Niko, que já previa muito bem o que poderia acontecer – que geralmente acontece quando ele vai à noite para a casa de Félix – levou uma muda de roupas extra para o dia seguinte. Após vestirem-se, desceram para o café da manhã. Ainda era cedo, pois Niko tinha que voltar o quanto antes para casa para ver os filhos antes de ir trabalhar.
Na mesa, Félix estava tranquilo, pois ainda era muito cedo para o pai estar acordado e ele não tinha com que se preocupar por enquanto. Pilar já havia levantado com Maciel e lhes fazia companhia. Todos comiam e conversavam, quando o mordomo entregou a correspondência para a dona da casa. Entre as cartas, uma destinada a Félix.
– Filho, olha... Essa é pra você!
– Pra mim, mami?! – Félix prontamente pegou a carta.
Niko, ao seu lado, ficou curioso.
– Nossa... Félix, quem mandaria uma carta pra você?
– A pergunta, carneirinho, é: quem ainda manda cartas hoje em dia né?! – Ele abriu e logo viu: — É um convite!
– Convite... Pra quê?
– Vou ler...
...
Após a leitura do convite, Félix o largou na mesa, comentando:
– Hum, baile e reunião de ex-alunos... Quanta besteira!
– É legal, Félix! Você não vai?
– Ah não, eu não!
– Por que não, Félix?
– Ora, porque carneirinho... Por que... Não tenho a mínima vontade de ir numa festinha dessas! Deve ser tão sem graça...
– Ai Félix, que nada! Deve ser ótimo! Imagina... É a chance de você reencontrar velhos amigos...
Pilar interviu: — Niko tem razão, meu filho! Você não tem nada para fazer mesmo, pode ser uma oportunidade para você se divertir...
– Ai mami! Obrigado viu... Por dizer que eu não tenho nada para fazer, que eu sou um desocupado!
– Eu não disse isso, Félix! Não coloque palavras na minha boca! Eu disse apenas que você deveria ir sim... E, aliás, por que não vão vocês dois?!
Ambos se surpreenderam de formas diferentes com a proposta.
– Eu... Ir com o Félix, Pilar?
– Sim, Niko... Por que não?! Geralmente o pessoal não vai acompanhado a essas reuniões? Quem é casado, vai com marido, esposa... Quem não é, leva namorado, amigo... Não vejo porque você não ir acompanhando o Félix!
– Ah... Eu iria com todo prazer... Se o Félix quiser...
Ficaram olhando para Félix esperando sua resposta. Félix olhou para os dois, mas parecia estar com uma grande dúvida quanto ao que decidir.
– Ai... Pelos véus de Salomé... Me ajuda, Maciel!
– Eu? Eu não tenho nada a ver com isso, Félix!
– Ai que coisa! Você está me saindo um belo padrasto!
– Félix! – Interrompeu Pilar. – Não mude de assunto! Então... Vai ou não?
– Eu devo ter afiado a tesoura com que Dalila cortou o cabelo de Sansão pra vocês me pressionarem a tomar uma decisão agora, assim... Deixem pelo menos eu acabar o café! — Pegou o envelope com o convite e guardou no bolso.
– Mas você já acabou, Félix! – Falou serenamente Niko ao seu lado.
– E daí, Niko? Não posso estar com fome ainda?
– Ai, pode... – Olhou para o outro lado e falou em provocação. – Depois diz que eu que como muito!
– Ah! – Levou as mãos à cintura e ficou encarando o loiro que estava claramente querendo rir. – Mas... Eu devo ter feito pior, eu devo ter jogado água oxigenada no cabelo de Dalila depois que ela cortou o de Sansão! Olha aqui Niko, eu posso comer um pouco mais porque afinal, eu peso o mesmo que pesava aos vinte anos, mas você... Já é outra história...
– Olha Félix, se quer me chamar de gordo fala logo sem rodeios!
– Eu não disse isso, acho até que você está mais magrinho do que quando te conheci! Mas... Se a carapuça serviu...
Niko ficou de costas para Félix com os braços cruzados, enquanto Félix fingia que continuava tomando uma xícara de café sem ligar para ele.
Pilar só observava e sorria com a briguinha dos dois. Mesmo discutindo, os dois tinham uma sintonia incrível e ela podia ver o quanto Félix gostava de Niko, mesmo implicando com ele. Sua felicidade era ver que seu filho agora era feliz como nunca e como ele irradiava tal felicidade quando estava perto daquele loirinho.
Não passou mais que um minuto, Niko suspirou e virou para Félix de novo.
– Tudo bem tá?! Se você não quer ir... Pelo menos, nos diz o motivo!
– Não é nada de especial, gente...
– Ok, meu filho, se não quer ir não vá! – Disse Pilar levantando junto com Maciel. – Mas, se tiver algum motivo em especial para não querer ir, converse com o Niko que com ele você se entende! Vamos Maciel?
– Vamos!
O casal saiu deixando o outro casal a sós.
– Então, Félix... – O loiro pôs a mão no queixo, virado para ele, encarando-o.
– Então o quê?
– Vai me dizer por que você não quer ir?
– Por que não, ora! Não é o suficiente?
– Vai dizer que você não tem vontade de rever os seus ex-colegas de turma?!
– Não... Pra quê?!
– Geralmente todo mundo quer... Eu gostaria de poder rever meus colegas de adolescência no ensino médio, depois os do curso de culinária...
– Ai Niko, só você pra pensar nessas coisas! Imagina... Você vai rever a garotada que estudou com você naquela época e aquele que era o magrinho da turma hoje tem uma barriga de cerveja, a moça que era a mais bonita teve sete filhos e está igual uma baleia, o que era nerd é patrão, o que era metidinho virou empregado, e por aí vai...
– Ai Félix, e daí?! O tempo passa, as pessoas mudam! Acontece tanta coisa na vida da gente...
– Eu sei! Por isso mesmo eu... Eu não quero ir! Pronto! Simples assim!
– Amor... – Niko pegou em sua mão. – Você não quer ir por que acha que vão te achar muito diferente do como você era na época? É isso?
– Não... E sim! Ah carneirinho, você bem sabe que eu nunca fui como sou hoje! Eu passei a vida toda fingindo ser o que não era... Pra agradar o papi, você sabe... E quando eu estudava, eu nunca me mostrei como eu realmente sou...
– O que quer dizer?
– Que tudo muda, carneirinho... Não vê como eu mudei?!
Mesmo que Félix falasse palavras um tanto confusas, Niko sentiu ter uma epifania.
– Acho que... Entendi...
– Entendeu?
Niko afirmou com a cabeça e o olhou profundamente com toda compreensão do mundo.
– Félix... Você passou a vida inteira tentando ser como seu pai queria que você fosse... Ou seja... Ninguém nunca te conheceu como você realmente é... Não é isso?
– É, Niko...
– Meu amor... – Niko chegou mais perto. – Me fala... Ninguém nunca soube que você era gay?
Félix negou com a cabeça.
– Ah Félix... – O loiro lhe fez um carinho no rosto. – Você nunca confiou em ninguém, não foi?
Novamente negou com a cabeça, afirmando tudo que Niko dizia.
– E... Você tem... Medo... De que seus ex-colegas não te aceitem? É isso? Ou... Você tem vergonha?
Félix apertou os olhos tentando controlar as lágrimas que já se acumulavam, mas foi em vão. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e na mesma hora ele olhou para Niko, dizendo:
– Não é vergonha, Niko... Também não é medo... É que... – Pausou e suspirou. – Eu não sei como explicar!
– Tenta! Eu estou aqui para te ouvir e para te ajudar a entender!
Ele olhou fundo nos olhos verdes do seu carneirinho por um instante e sentiu-se alcançado por uma imensa paz. Sua expressão se tornou mais leve e até um suave sorriso surgiu em sua face. Então, respirou e falou:
– Carneirinho... Eu... Quando vi do que se tratava esse convite... – Retirou o envelope do bolso. – Eu me lembrei, assim, de repente, daqueles tempos... Quando eu estudava!
Niko o ouvia com total atenção e a paz que lhe passava fazia Félix ser sincero e expressar seus sentimentos como nunca.
– Naquele tempo, carneirinho... Eu era sempre o primeiro da classe a entender todos os problemas matemáticos que o professor passava! Eu entendia as frações, as equações, tudo... Só não conseguia entender uma coisa...
– Que coisa?
– Por que os problemas matemáticos pareciam tão simples perto dos problemas daqui de casa?!
Niko começou a entender melhor o que se passava no coração de Félix nesse momento e este demonstrou mais ainda quando mais lágrimas rolaram e ele, chorando, fez uma pergunta que não tinha resposta:
– Carneirinho... Eu tinha inteligência suficiente para entender qualquer fórmula matemática... Mas... Eu não conseguia... Nunca consegui entender... Por que o meu próprio pai não me amava! Não... Não me ama! Por quê?
Niko, sem falar uma só palavra, o abraçou forte. O loiro não tinha o que dizer. Só sabia que precisava consolar seu amado. Não queria vê-lo sofrendo. Foi então que Félix, durante o abraço, sussurrou:
– As fórmulas matemáticas eram tão fáceis pra mim... E tudo que eu queria era descobrir a fórmula do amor!
Tais palavras vindas de Félix como uma revelação das mágoas que ele ainda guardava no recanto mais profundo de sua alma fizeram Niko estremecer por dentro por um instante para logo abraça-lo mais forte como se quisesse com o abraço extirpar toda a dor que Félix ainda sentia.
Após alguns minutos apenas abraçados, Félix se acalmou e Niko o sentiu sorrir para logo depois falar:
– Carneirinho, eu adoro ficar assim com você... Mas, você está me apertando!
Niko sorriu, mas não o soltou. – Desculpa Félix! É que você é muito lindo e eu adoro ficar assim também!
Félix riu finalmente. Niko então, o soltou devagar e ainda bem juntos passou a mão em seu rosto.
– Eu queria poder te ensinar a fórmula do amor, Félix... Mas, eu também não sei qual é... Talvez, simplesmente, não exista...
– Não?! – Sério, Félix segurou em seu rosto e se aproximou para beijá-lo, não sem antes dizer: — Então, como você fez para me conquistar dessa maneira? Hã?!
Niko não conseguiu falar nada, primeiro por que não saberia o que dizer, segundo porque Félix o beijou e ele correspondeu ao beijo sem hesitar.
Após o beijo apaixonado, eles se olharam. Niko sorriu e o abraçou. Foi então que olhou para o relógio.
– Olha a hora, Félix! Eu tenho que ir! Você vai ficar bem não vai?!
– Vou sim, carneirinho! Não se preocupe! Já estou bem...
Deram mais um beijo para se despedirem e Félix comentou:
– Seus beijos me curam... – Pausou e pensou rápido em algo. – Sabe... Acho que já descobri a tal fórmula... Se não for isso, pelo menos é mais eficaz que qualquer remédio e laboratório nenhum do mundo poderia criar! – Dizia isso circulando os lábios de Niko com o polegar.
Niko não entendeu de imediato, mas quando entendeu abriu um largo sorriso e voltou a abraça-lo forte e emocionado.
– Ah Félix... Às vezes você diz umas coisas tão lindas...
– E olha que já disseram que eu era analfabeto em sentimentos, viu?!
Sem soltá-lo, Niko falou: — Quem disse isso não te conhece nem um pouco!
Félix ficou feliz em ouvir isso. Abraçados, ele ficou em silêncio como se pensasse em algo e então perguntou no ouvido do loiro:
– Carneirinho... Posso te fazer uma pergunta?
– Você sabe que sempre pode, todas que você quiser!
– Quer... Ser meu acompanhante no baile?
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