Félix & Niko - Dias Inesquecíveis

61 Dia dos Papis Soberanos 2015 - A véspera...


Notas iniciais
Sábado, 8 de Agosto de 2015

Acordei...

Os raios de sol que entram pela fresta da janela parecem mais radiantes... Como sempre parecem quando acordo e a primeira coisa que vejo é o rosto desenhado pela perfeição do meu carneirinho lindo.

Cada dia acordo meio sem acreditar que isto seja realidade... Que ele está aqui comigo, que moramos juntos, que ele me transformou num pai de família...

E pensar que ano passado eu nem me lembrava do dia dos pais. Hoje ainda é véspera e mal posso esperar para viver pela primeira vez plenamente esse dia. Com meus filhos... Meus e do meu carneirinho.

Aí ele acorda e me olha com esses olhinhos de jade arrebatadores... E eu me derreto todo... Pelas contas de todos os terços, eu vou acabar virando um sensível idiota apaixonado! Mas... Não estou nem aí...

Quero mais é me afogar nesse mar verde e mergulhar num beijo profundo como vou fazer é agora...

...

...

Acordei e o olhei... Ele sorriu e me beijou... Me beijou tão profundamente que me senti mergulhar num oceano de amor. Adoro quando ele me beija assim logo de manhã!

– Hum... Bom dia, amor! A que se deve esse beijo?

– A que mais? Ao prazer de passar mais uma noite inesquecível com um ser tão maravilhoso...

Que fofo e amoroso! – Ah Félix...

– Eu estava falando de mim, carneirinho!

– Ah! – Me surpreendi e ri. Sabia que ia brincar... – Seu convencido! Mas, é verdade, você é tão maravilhoso...

– Eu sei que sou! – Piscou para mim. – Você é mais! – Sussurrou em meu ouvido me fazendo arrepiar todo.

Ah... Como eu amo esse homem!

Ficamos um pouquinho mais na cama até levantarmos para tomar café com nossos filhos... E meu sogro! Espero que ele queira vir para a mesa conosco hoje.

Esse ano algo me diz que vai ser diferente. Seu César nos aceitou, finalmente... Pelo menos, na medida do possível, como ele mesmo diz. Aprendeu a gostar dos netos... Eu sei que ele gosta de ficar conversando com o Jayminho! E, enfim, passou a chamar Félix do que ele é: seu filho. E disse que o ama! E saber como Félix se sentiu realizado com isso já é uma grande realização para mim.

Agora, eu tenho fé que esse nosso dia dos pais será único. Será ótimo.

...

...

Niko e eu saímos do quarto... Embora eu quisesse ficar mais um pouquinho... Sempre quero!

Pensar que ano passado eu já fazia meus planos de viver com o meu querido carneirinho e ainda não conseguia dizer apenas três simples palavras... As quais hoje faço questão de repetir sempre olhando em seus olhos, só para não esquecer como se diz...

– Eu te amo! – Falei pegando em seu queixo, acariciando-lhe a barba cerrada macia, aquela pele de pêssego bem mais que a minha... E mergulhado no verde inexplicável de seus olhos...

– Também te amo, Félix! – Ele me respondeu com o sorriso mais lindo do mundo. Sei que ele gosta quando falo o que sinto...

Sei que ele tem certeza do meu amor... E eu sei que essas três palavras significam muito, mas são pouco diante do que sinto por ele. São três palavras pequenas diante da grandeza de tudo que ele me proporcionou.

Ele deu pra mim o seu tesouro mais precioso: sua família completa. E hoje, eu me sinto completo graças a essa família.

Para ser melhor só faltava acontecer um milagre... E aconteceu! Há alguns meses quando o papi finalmente disse que me amava... E ainda me chamou de filho! Isso me fez acreditar em milagres. Assim como o Niko sempre me disse: milagres são reais!

Eu não poderia estar mais feliz. Se bem que o papi soberano continua tão soberano quanto sempre... Quem é rei nunca perde a majestade, mas às vezes o papi age como se vivesse realmente numa monarquia! Mandão...

Bom, enquanto o carneirinho vai ver os meninos eu vou ver o papi. Espero que ele esteja de bom humor hoje... Se bem que é difícil...

...

...

Já estou acordado há um tempo... Esperando o Félix vir... Como todos os dias.

Agora sou isso... Fui reduzido a um velho inútil sendo cuidado pelo filho e por seu... Companheiro.

Como fui parar aqui? Como fui acabar assim? Nada mais tive a fazer a não ser me conformar. Não sei se é conformidade, aceitação, ou... Agradecimento. Afinal de contas... De qualquer maneira... Sinto-me agradecido. Agradecido e aliviado por finalmente ter tirado um nó da minha alma, quando disse ao Félix que o amava... E quem diria?! Só naquele momento percebi que nunca havia chamado meu filho de filho!

Lá vem ele...

– Papi soberano! Já acordou?!

– Claro que já, não é Félix?! O que achou?! Que eu estava dormindo com os olhos abertos?!

– Ah ah ah... Papi está muito engraçadinho pra o meu gosto!

– Não falei pra fazer graça, Félix!

– Ok! Quer que eu traga seu café agora ou quer tomar um banho primeiro para se refrescar...

– Não está calor! Traga logo meu café!

– Tá bem, papi! Vou ver se o carn... Se o Niko já preparou o café e trago pra você, viu!

Não, não, não podia deixar que ele ficasse perdendo tempo aqui comigo, com esse velho chato, enquanto sua família estava lá fora! Sim... Sua família... Fosse como fosse. Mesmo que eu não entenda esse tipo de família dele, mas... É dele...

– Não!

– Não?

– É... Não! Vá primeiro tomar seu café da manhã, depois você traz o meu!

– Ah... Tá! Tem certeza, papi?

– Tenho, filho, vá!

Ele ficou parado... Por que ficou parado?

– Ainda está aí?!

– É... Papi... Obrigado!

– Pelo quê?!

– É que... É que eu... Quando o senhor...

– Fala logo, Félix!

– Eu fico... Muito feliz quando o senhor me chama de filho!

Também me sinto bem em te chamar assim, meu filho.

– Tá, tá, Félix, chega de sentimentalismos! Vá logo!

– Tá, papi! Já vou, já fui! – Ele saiu sorrindo. Não posso ver direito, mas sei que foi assim. Até que voltou com a cabeça na porta. – Ah, mas, volto já com um café caprichado e o senhor vai comer tudo, ok?!

Ele sempre tão ele...

– Ok, Félix... Vá de uma vez!

Saiu... Finalmente... Porque não consigo ficar muito tempo com ele imaginando o que poderia ser e não foi!

Ele demorou uns quinze minutos para voltar. Durante esse tempo tenho certeza que ouvi risadas. Tenho que admitir... O Félix é feliz assim. Confesso que às vezes me pego sorrindo ouvindo as risadas lá fora. Mas, não quero admitir que me sinto feliz com essa vida porque... Por que... Nem sei por quê! Talvez tenha um medo ou não sei o quê de acabar me apegando demais a eles...

Já falei que amo o meu filho! Nunca vou conseguir falar que gosto do companheiro dele! Já dos garotos... Não sei... Eles insistem em dizer que esses garotos são meus netos... Mas, não são! Se bem que eu gostaria de ter um neto como o Jayminho... Esse Fabrício também é uma gracinha, mas... Não sei...

Embora eu não fale... E talvez nunca fale... Eu gosto deles. Esses três estão fazendo com que o Félix tenha algo que nunca pude lhe dar: felicidade.

Se o Félix passou quase quarenta anos sendo um infeliz... A culpa foi minha! Se hoje ele consegue dar um sorriso sincero e ter um brilho nos olhos que mesmo eu sem enxergar bem consigo ver... A culpa é do... Niko!

Sei que o dia dos pais é amanhã... E tenho que admitir que esse rapaz é um excelente pai! Tem um zelo muito grande com esses dois filhos... E com o meu filho com o qual eu nunca tive zelo igual.

Eu não preciso falar-lhes com palavras... Não mudariam nada se as dissesse... Mas, se eu ainda puder ter a mínima chance de ser perdoado por meus pecados e a graça de pedir uma coisa apenas, gostaria de pedir aos céus que meus filhos e suas famílias sejam verdadeiramente felizes.

...

...

Durante o café, Niko e eu rimos muito com nossos filhos. Jayminho pegou o copinho que Fabrício toma o leite para entregar ao irmãozinho, mas esqueceu de fechar direito. Fabrício foi beber, mas acabou tomando um banho de leite. Depois, o que sobrou no copo ele jogou em cima do irmão. Agora estão os dois sujinhos aqui e o carneirinho tentando limpar sem sucesso.

– Ah não... Olha só Félix, quanto mais eu limpo mais suja!

– Óbvio né, carneirinho?! Você queria limpar leite com guardanapo?! Só vai grudar em tudo!

– Ah, e o que eu faço? Olha como esses dois estão!

– Já dizem, não chore pelo leite derramado!

Eu não conseguia parar de rir da situação e da carinha dos nossos filhos.

– Ai Félix, não fica rindo! Tenho que dar um banho no Fabrício... E você Jayminho, banho também!

– Ah pai, não queria tomar banho agora!

Esse Jayminho... Adora água e, no entanto, quando a gente manda tomar banho ele não quer.

– Jayminho, é melhor ir logo! Você não quer ficar cheirando a leite de bebê, quer?!

– Não...

– Então?

– Já vou, pai Félix! – Jayminho subiu e Niko também levantou para levar Fabrício.

– Ai, você tem um poder de persuasão, Félix!

– Tenho mesmo, carneirinho! Ah! Olha só o Fabrício tá sujando toda sua roupa!

Esse meu carneirinho burrinho... Pegou nosso bebê todo sujo e se sujou também.

– Ai, nem percebi!

– Ah carneirinho... – Só podia rir. – Sua inteligência é... Absurda!

– Isso é uma indireta pra me chamar de burro, é isso?!

– Não, imagina Niko... Você é como a minha querida Tetê diz, inteligência pura!

– Ah ah! Como se eu não soubesse quando você está sendo irônico, senhor Félix!

Eu estava mesmo...

– Quer saber, você falou no meu poder de persuasão não foi?! Então... Posso tentar te convencer a fazer uma coisinha?!

– Que coisinha?

– Quando você der banho no Fabrício vai tomar um banho também... E me chama tá?! – Pisquei para ele entender.

E é claro que ele entendeu... Esse sorrisinho dele me diz!

– Félix... Olha... Vou pensar se te chamo!

– Tá bom, mas pensa bem no que vai perder se não me chamar! – De repente lembrei... – Ai, já ia quase esquecendo vou levar o café do papi, carneirinho! Já tá pronto, não tá?!

– Tá, tá sim! Leva e depois... Sobe! – Agora ele que piscou pra mim. Adorei!

...

...

Subi com o Fabrício para lhe dar um banho e fiquei pensando em como o Félix muda de expressão quando tem que ir ficar com o pai. Torço muito para que eles se deem melhor cada vez mais. O Félix está fazendo de tudo e se o senhor César não fosse tão cabeça dura poderia aproveitar bem mais o dia com o filho maravilhoso que tem.

Fico muito feliz por meu amor desde que o doutor César lhe chamou de filho, admitiu que o ama... Mas, ainda vejo uma pontinha de tristeza nos olhos dele pelo pai ser como é. Poxa, não é porque o Félix o chama de soberano que ele tem que tratar o filho como se fosse um reles plebeu... E nem mesmo os plebeus merecem ser tratados com tamanha indiferença. E se o doutor César fosse mesmo um rei soberano, o Félix não seria um plebeu, ele seria o que ele é para mim: um príncipe.

Ah... E pensar que amanhã é dia dos pais e meu sogro nunca se deu a chance de passar um bom dia com seu filho maravilhoso. Só de lembrar em como foi o dia dos pais desses dois no ano passado já me vem uma tristeza... E uma vontade de desejar e pedir a todos os santos que dessa vez seja diferente. Tenho fé que assim será. Dessa vez Félix é mais que o filho desolado... Ele é pai. Pai dos meus filhos. E também tem o Jonathan que o adora.

Da minha parte eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para tornar esse dia dos pais, nosso primeiro juntos como uma família, inesquecível.

...

...

Voltei ao quarto do papi com o café dele.

– Papi, voltei! O café da manhã está uma delícia!

– Foi você quem preparou?

– Não... Foi o Niko!

– Ah... Menos mal!

– Menos mal? – Essa me surpreendeu! Não entendi...

– Claro! Menos mal! Quando é você que faz sempre vem uma torrada queimada ou o café amargo, ou um chá sem sabor... Resumindo, sempre vem alguma coisa errada! Já esse rapaz cozinha muito bem!

O papi não sabe como me faz bem ouvir da boca dele um elogio ao meu carneirinho.

– É... O Niko cozinha maravilhosamente bem... Tudo que ele faz, faz bem...

– Não me interessa saber o que mais ele faz bem, Félix! Só sei da comida porque tenho que comer!

– A-ah... C-claro, papi... – Acho que fiquei ligeiramente ruborizado. Papi me deu um fora ou tentou ser engraçadinho?! Por que se foi a segunda opção, não conseguiu! Ele nunca consegue! Definitivamente, meu senso de humor eu devo ter puxado a mami.

Mas, já que ele parece estar de bom humor hoje, acho que posso tocar num assunto...

– Papi... – Demorei um pouco procurando as palavras, mas não muito para ele não ficar impaciente. – Você... Você já sabe que... Que eu pretendo formalizar minha união com o Niko... Logo... E... Bom, quando isso acontecer, provavelmente... Não, sem dúvida, eu vou me tornar pai do Jayminho e do Fabrício! Na verdade, já me considero, eles já me chamam de pai, mas... Você sabe, eu... Eu quero, um dia, dar meu sobrenome para eles...

– Onde você quer chegar com isso, Félix?

Engoli o nervosismo e tentei chegar o mais rápido possível onde queria.

– E-então... Eu... Eu já tenho o Jonathan... Agora eu tenho mais dois filhos... Ai papi, o que quero dizer é que... – Uma luz acendeu em minha cabeça e eu soube exatamente o que ia dizer. – Papi, você já reparou que nós dois temos três filhos?

...

...

Não estava entendendo onde Félix queria chegar com tudo aquilo, mas... O que ele me disse por último me fez pensar...

– Nós dois... Temos três filhos...

– Sim, papi! Olha, eu tenho o Jonathan, o Jayminho e o Fabrício! Você tem o Junior, a Paloma e... Eu! Só que, o que eu quero dizer é que... Ah papi, eu não quero que se cometam injustiças!

– Não estou entendendo, Félix!

– Eu, esse ano, vou, pela primeira vez, receber três presentes do dia dos pais! Dos meus três maiores presentes, meus filhos! – Ele suspirou profundamente e pegou em minha mão. Nessas horas não o reconheço, mas sinto-me orgulhoso por ver como ele mudou. – E... Você papi? O que vai querer ganhar de dia dos pais?

Está mesmo me perguntando isso?! Ah Félix...

– O que mais posso querer?! Não tem mais nada nessa vida que me interesse...

– Não, papi, que baixo-astral! Deve haver alguma coisa que o senhor queira, sei lá... Nem que seja uma bengala nova!

Ele... Não adianta! Ele muda em vários aspectos, mas ainda não controla o que fala. Nunca vai controlar, tenho certeza!

– Não preciso de uma bengala nova, Félix!

– Ai... Desculpa, papi... Falei sem pensar...

– Novidade!

– Nossa...

– Agora, ouça, porque só vou falar uma vez... – Eu precisava falar-lhe isso, ou minha consciência não me deixaria dormir. – Não preciso de bengala nova nenhuma! Por que sei que se a minha quebrar... Você vai estar aqui para me apoiar! – Ele me olhou surpreso. Também é difícil pra mim, falar isso... Mas, é sincero. – E também não preciso de presente algum! Pois, assim como você falou dos seus filhos dizendo que eles são seu presente... Eu... Digo o mesmo dos meus!

...

...

O papi soberano disse mesmo o que acabei de ouvir?!

Estou quase chorando como um bebezinho aqui... Ah pai...

Que podia fazer depois dessas palavras senão abraçá-lo e agradecê-lo... Mesmo que ele não seja muito de abraços!

– Ah pai... O-Obrigado! N-nem sei o que dizer...

– Chega! Leve isto daqui, já acabei! E me deixe... Não quero sair hoje!

– T-tá... Tá, papi... – Soltei-o do abraço e controlei a emoção. – Não vai querer nem ir para o jardim? Tomar um banho de sol?

– Não já disse que não quero sair?!

– S-sim papi...

– Então... Me deixe sozinho!

– Tá... – Fui saindo, mas ainda virei arriscando falar... – Te amo, pai!

Sem resposta...

É... Era querer demais! É melhor eu sair e deixá-lo só como ele quer.

...

...

– Eu também, meu filho!

Deveria ter lhe dito antes de ele sair por aquela porta.

Por quê? Por que sou tão... Não sei... Não consigo nem explicar... Até parece que não tenho sentimentos, mas os tenho, estão aqui... Mas, não consigo expressá-los! Não é que não queira, eu só não posso...

Sendo médico por tantos anos, aprendi como o ser humano é fisicamente complexo... Mas, psicologicamente é muito mais... E quando se fala em alma, então... É inexplicável.

Mas, por esse sentimento sem explicação que deve ser apenas o tal do amor paternal, espero que ele, pelo menos ele, tenha um feliz dia dos pais amanhã. E que ouvir de longe as risadas pela casa, pois isso já me faz bem... E que ele não venha perder seu tempo comigo... Que passe seu tempo com aqueles que souberam amá-lo. Que ele viva a vida! Por que eu não espero mais nada dela...

Se bem que... Não seria tão mal ter apenas um dia que fosse para conhecer verdadeiramente esse filho que eu nunca conheci como ele é...

Mas, creio que já é tarde para mim... Pra mim, não pra nós... Porque ele ainda tem muito pra viver...

Viva, Félix! Deixe-me morrer, não me importa... Mas, viva!

...

...

Eu havia acabado o banho do Fabrício e deixado meu pequeno com Adriana que havia acabado de chegar. Fui ver o Jayminho que também já tinha tomado banho e se arrumado. Penteei seus cabelos e ele desceu para ver TV, mas, antes pedi:

– Jayminho, quando você descer vê se seu pai já saiu do quarto do seu César e diz que eu tô chamando ele, tá?!

– Tá pai!

Ele desceu. E eu, fui esperar meu amor no nosso quarto, ou melhor, no nosso chuveiro.

...

...

Eu acabava de sair do quarto do papi sentindo uma alegria imensa por aquelas palavras que ele havia dito. Estava com um sorriso de orelha a orelha.

– Pai Félix! Pai Félix! – Jayminho chegou correndo me chamando.

– Que foi meu filho? Ah, olha já tomou banho! Tá todo cheiroso! – Ele me respondeu com um sorrisinho muito fofo.

– O pai Niko mandou avisar que tá chamando lá em cima!

– Me chamando lá... Ah... Sei... – Logo minha alegria se tornou maior. O carneirinho, com certeza, está me esperando... Com uma surpresinha em mãos... Aliás, surpresinha é modo de falar, é uma baita surpresa... Enfim... Adoro!

– Eu vou lá! Você vai ficar aqui embaixo né, filho?

– Vou!

– Então, tá! Vai assistir TV, filho, que eu vou ver o que seu papi carneirinho quer! – Como se eu não soubesse o que o carneirinho quer...

Subi imediatamente.

– Carneirinho? – O chamei ao entrar no quarto, mas logo vi que a porta do banheiro estava entreaberta. Cheguei mais perto e pude ouvir o barulho do chuveiro.

Ele estava me esperando como eu pedi. Ah, esse meu carneirinho... Vou aproveitar que ele só vai um pouquinho mais tarde para o restaurante e... Ah, vou aproveitar...

...

...

Nem o vi entrar. Só percebi quando senti duas mãos grandes escorregarem em meu corpo junto com o sabonete.

– Félix!

– Oi, carneirinho! Cheguei! Esperou muito?

– Não... – Adorei o fato de ele já ter tirado a roupa. – Mas, esperaria o tempo que fosse preciso pra você vir! Queria aproveitar já que hoje vou ficar mais um pouquinho...

– Você parece que adivinha meus pensamentos, meu carneirinho lindo!

Adoro quando ele me chama assim... Adoro quando me beija assim... Adoro quando me toca assim...

Passamos um bom tempo... Só nós dois... Curtindo nossa paixão... Fazendo amor...

E era muito bom... Muito bom sentir como o Félix estava feliz!

...

...

Alguém bateu na porta. Deve ser o Félix de novo. – Entra Félix! – O que será que ele quer agora?

– Não é o pai Félix, sou eu! – Era o Jayminho. O que esse menino quer aqui?!

– Ah! O que você quer aqui, Jayminho?

Ele veio se aproximando meio tímido, mas sentou no canto da cama.

– Vô César... O que você disse pra o pai Félix?

– Como assim o que eu disse?

– É que quando ele estava saindo daqui ele estava rindo!

– Hum, não sei por que! Não contei nenhuma piada pra ele! – Mas, estranhei. – Como que ele estava rindo?

– Ah, estava sorrindo assim... – Pude ver que ele imitou o sorriso. – Como quando ele tá contente!

– Ele devia estar contente... Não sei!

– É que... Quase sempre que ele sai daqui do seu quarto eu vejo que ele fica meio tristinho...

Entendi. Aquilo me doeu de alguma forma... Alguma forma que não sei explicar...

Pigarreei tentando encontrar as palavras para perguntar...

– Jayminho... É... O Félix sempre fica triste depois que fala comigo?

– Não... Não é sempre...

– Não?

– Não! Quando ele te leva pra passear no jardim, pra tomar banho de sol, e quando vocês ficam conversando ele não fica triste não! É só quando...

Vi que ele não quis dizer... Insisti...

– Quando o quê, Jayme?

– Quando... Quando você reclama com ele!

Ah... Entendi...

Senti uma angústia por isso. Eu sei que faço mal ao Félix... Sempre fiz muito mal a ele. Mas, agora ele tem quem o faz feliz.

Que bom que pelo menos hoje ele saiu daqui sorrindo.

Nem eu sei o quanto me arrependo... O quanto desejaria voltar no tempo e consertar tudo... Mas, isso é impossível... Então, me conformo...

– Eu... Eu reclamo muito, Jayminho?

– Às vezes... Às vezes a gente ouve você brigando com ele e ele sai triste... Mas, aí o pai Niko diz pra a gente abraçar ele, os três juntos, aí ele fica alegre!

– Q-que bom...

– É! Vô César... Por que o senhor reclama tanto com o pai Félix? O que ele fez?

Minha visão já embaçada ficou ainda mais turva... Com meus olhos marejados...

– Ele... Ele... Ele não fez nada, Jayminho! Eu que... Que sou um velho chato!

Esse menino... Surpreendeu-me... Chegou mais perto e me abraçou. Eu não merecia esse abraço... Mas, gostei.

– Vô César, o senhor tá me ensinando a jogar xadrez e me conta histórias de quando era médico! Então, não é chato não! Só não briga tanto com o pai Félix porque ele fica triste!

– T-tá bom, Jayminho... Eu... Eu v-vou tentar n-não brigar...

Vou tentar... E espero que neste exato momento o Félix esteja feliz...

...

...

– Ah carneirinho... Eu estou tão feliz!

Félix não sabe como me deixa feliz ouvir isso. Nesses minutos que ficamos aqui juntos, no nosso chuveiro, no nosso quarto, pude perceber que hoje ele está radiante.

– Eu percebi, Félix!

– Você me faz tão bem...

– Você também me faz muito bem, Félix! Me faz muito feliz! Eu te amo!

– Te amo, meu carneirinho!

Trocamos mais beijos, encostados a cabeceira de nossa cama, aconchegados um no outro.

– Amor, hoje eu notei que você está tão contente... Foi só porque eu fiquei mais um pouquinho?

Ele riu com esse sorriso lindo que me encanta!

– Por isso também, carneirinho! E... Por causa do papi!

– Do seu pai? Foi alguma coisa que ele disse pra você ficar assim?

– Foi... – Ele ficou claramente emocionado. Deve ter sido algo realmente bom para ele ficar assim. – O papi... Praticamente... Disse que eu sou um presente pra ele, carneirinho!

Fiquei pasmo. Fiquei chocado. E fiquei tão emocionado quanto Félix que já enchera os olhos de lágrimas.

– Félix... Nunca poderia imaginar o doutor César falando algo assim!

– Nem eu... – Ele enxugou uma lágrima e tentou fazer com que outra não rolasse. – Logo ele que... Que já disse que preferia que... Que eu tivesse morrido no lugar do meu irmão... Agora... – Félix não aguentou mais e se recostou em mim chorando... Mas, era um choro bom.

– Oh meu amor, não chora, não chora! – Mas, eu também estava quase chorando de felicidade. – Eu não sei o que você está sentindo, mas imagino... E sei que essas lágrimas são de felicidade, mas não chora mais, por favor...

Ele ficou abraçado a mim e eu abraçando-o, confortando-o. – S-são... E-eu me senti tão... Tão bem, Niko...

– Eu imagino, meu amor! Eu sei! Mas, me fala... Por que ele disse isso? Como foi?

– Foi assim... – Ele parou de chorar, mas continuou encostado em mim como se fosse um menininho no meu colo. Ele adora ficar assim que eu sei. – Eu puxei o assunto perguntando o que ele queria ganhar de dia dos pais... Aí, no meio da conversa eu disse que meu maior presente são os meus filhos... – Que coisa linda, Félix! – Aí... Ele disse que não queria nada e que não precisava de presente nenhum, por que... – Ele suspirou e sorriu, falando com a voz embargada. – Por que os três filhos dele também são um presente para ele! Ah carneirinho...

Ele voltou a se emocionar. Pudera! Tudo isso deve ter sido um bálsamo para o Félix. Tanto sofreu com o pai e agora... A vida o está recompensando. Creio que recompensará os dois! Creio, de todo coração, que esse dia dos pais será, para ambos, inesquecível... Ou, por que não, para nós três?!

...

...

...

Notas finais
...Continua...