Fé E Pecado
11 Capítulo 10 - O meu diabo particular
Notas iniciais
-Chamem a ambulância! – Gritei para Paul, enquanto entrava no quarto. -Bella? –Perguntei próximo do seu corpo inerte, mas não obtive qualquer resposta.
Eu, infelizmente, admito que já passei horas a imaginando nua, mas nunca imaginei que quando a visse, – ou até se veria algum dia – veria desse jeito, tão machucada. Lágrimas caíram involuntariamente dos meus olhos e sem pensar, toquei seu rosto, onde tinha uma grande mancha roxa ao redor dos olhos.
Ela se retraiu fracamente ao meu toque e piscou vagarosamente.
-Edward? – Perguntou sussurrante e rouca, com os olhos semicerrados.
-Sim, sou eu! – Falei sorrindo ao vê-la consciente. Abracei-lhe de felicidade e a acalentei. – Está tudo bem, meu anjo. Você vai ficar bem...
Ela assentiu com os olhos fechados e encostou sua cabeça em meu ombro, enquanto o socorro não chegava. Sua respiração quente estava pesada e eu não sabia se ela estava consciente ou não, ela poderia ter batido a cabeça.
-Bella, fale comigo. Não durma, por favor. –Pedi.
Ela engoliu e abriu um pouco os olhos.
-O que você q...quer que eu f...fale? – Perguntou baixíssimo.
-Qualquer coisa, meu anjo. Só não durma. – Pedi novamente.
-Você está me abraçando. – Constatou com dificuldade.
-Sim, estou. – Falei não achando muito sentido nessa observação, mas eu tinha que manter um diálogo para ela não cair na inconsciência novamente.
-E eu estou pelada... — Murmurou num esboço de sorriso, que se ela estivesse bem, com certeza, seria sacana. – Acho que vou me machucar mais vezes.
Eu não consegui não rir.
-Nem agora você para, não é? –Perguntei entre risos.
Ela sorriu mais uma vez antes de cair no sono. Pelo menos, a ambulância chegou logo e a levou para o hospital. Pedi que avisassem aos pais dela, pois eu não sairia de perto de Bella um segundo sequer.
Bella’s POV
Com muita força de vontade abri meus olhos. Minha cabeça doía pra cacete, meu rosto parecia que estava em brasa e meu corpo parecia ter sido atropelado. Eu estava num lugar muito branco e tinha um cheiro insuportável de alvejante, deveria estar no hospital.
Uma enfermeira botava algo na minha veia e quando percebeu que eu estava acordada, me cumprimentou:
-Bom dia, querida. Como está se sentindo? –Perguntou afofando meu travesseiro.
-Estou bem. – Menti. – Onde está Edward? –Perguntei me lembrando, vagamente, da sua presença ao meu lado algumas vezes, em algum lugar.
- O padre? –Perguntou-me e eu assenti. — Ele estava aqui há pouco, foi à lanchonete conversar com seus pais. – Avisou-me.
Que legal! Meus pais estão aqui...
-Quer alguma coisa? –Perguntou-me. – Água, comida?
-Um espelho, por favor.
Ela sorriu surpresa.
-Claro. Vou ver se eu arranjo um pra você, já volto. – E saiu fechando a porta.
Eu queria saber o estrago que Jake tinha feito em mim desta vez. Pela dor, ele deveria ter me deixado mais ferrada do que das outras vezes. A enfermeira entrou e eu me ajeitei.
-Tome. – Falou me entregando um pequeno espelho. – Ah, eu avisei ao padre Edward que já acordou...
Ela falava, mas eu sequer ouvia. Eu estava muito horrorizada com minha própria imagem para prestar atenção a mais alguma coisa. Meu rosto estava todo desfigurado. Meu olho esquerdo estava extremamente roxo e inchado, sendo seguido por toda essa parte do meu rosto. Meu nariz parecia partido e havia um corte costurado na minha testa.
-Ele quer entrar e falar com você. – Ouvi, enfim, o que ela dizia.
-Nem pensar! — Exclamei veemente.
Eu não deixaria que Edward me visse daquele jeito. Eu parecia um monstro! Ele simplesmente não podia me ver assim. Não que eu fosse vaidosa, mas era ele, Edward, pelo amor de Deus! Não, de jeito nenhum!
Edward’s POV
-Como assim você não faz ideia de onde ele está? – Charlie me perguntou incrédulo. – Então, aquele delinquente quase mata minha filha e você não faz a mínima ideia onde ele está?
Só de ouvir a voz daquele homem já me dava calafrios de ódio. Quem era ele pra falar do Black? Um monstro falando de outro... Argh! Se eu pudesse, com certeza, quebraria a cara tanto de um quanto de outro, mas eu estava de mãos atadas. Eu não poderia fazer nada, era papel da policia fazer justiça nos dois casos.
Renée tomava seu café com cara de quem estava nem aí. Fiquei me perguntando por que diabos ela estava aqui se detestava Bella, mas também fingi que não sabia de nada.
Nossa! Como Bella vive assim?
Sua vida é cheia de ódio, rancor e violência. Agora, sabendo de tudo, não me surpreendo que ela seja do jeito que é. Ninguém ficaria bem com tudo isso à sua volta. Eu já teria surtado há muito tempo...
-Padre Edward, Bella acordou e está perguntando pelo senhor. – A enfermeira que cuidava da minha menina me avisou e depois foi embora. Abri um sorriso que não passou despercebido pela mãe dela, que me olhou com uma cara cheia de significados.
Ela percebeu alguma coisa, droga!
-Então, vamos lá? – Charlie perguntou já se levantando. – Quero ver como ela está!
Renée se levantou também, mas de má vontade, e ainda me encarava como se tentasse ler meus pensamentos. Fomos os três em direção ao quarto em que Bella estava internada há dois dias. A enfermeira saiu de lá e me olhou hesitante.
-O que foi?! – Perguntei assustado. – Ela está bem?
-Tá, está bem melhor do que imaginávamos, mas... –Parou, sem jeito.
-Mas o que minha filha, quer me matar de preocupação? – Charlie perguntou rispidamente.
-Calma. – Falei tocando seu ombro, mas com um nojo que só Deus sabe.
-Não, é nada. – Sorriu sem graça. – É só que ela proibiu a entrada do Padre.
Charlie suspirou de alivio.
-Por quê? –Perguntei chateado pela sua rejeição. Eu estava doido pra ver Bella, falar com ela, e em resposta, ela simplesmente me proíbe de entrar? Que sacanagem... Com todo perdão da palavra.
-Eu não sei, ela não me disse. Mas me pediu para que não o deixasse entrar de jeito nenhum. – Explicou.
Olhei pela janela de vidro do quarto e a vi. Ela estava sentada na cama, tão distraída com o espelho que sequer percebeu que a gente estava a observando.
-Será que eu posso entrar? –Charlie perguntou à enfermeira.
-Ela não fez mais nenhuma objeção. –Deu passagem a ele. – A senhora não quer entrar também? – Perguntou à Renée.
-Eu não! – Disse rápido, mas depois completou com um sorriso sínico: — O deixa ir primeiro, depois, se der tempo, eu vou.
-Tudo bem. – A outra falou confusa, não entendendo muito essa.
Eu fiquei observando os dois pela janela. Vi quando Charlie entrou e a abraçou, senti vontade de vomitar nessa hora. Os dois começaram a conversar alguma coisa e ele a fez deitar novamente. Eu estava tão absorto que sequer vi Renée se aproximando de mim.
-Sério, eu tenho que tirar o chapéu pra essa garota... Até você! – Comentou com um tom tão irônico que chegava a ser repulsivo.
-Ãh? Do que está falando, Sra. Swan? –Perguntei com desinteresse na conversa.
-Ah, não se faça de desentendido! –Exclamou. – Eu vi como você ficou com ela quando a gente chegou. Todo protetor, todo carinhoso... E quando a enfermeira falou que Bella perguntou por você, então? Nossa! Seus olhos brilharam! –Contou-me com certo nojo na voz. – Você está apaixonado por ela! Nem tente negar... — Falou num sibilo, para que ninguém a ouvisse.
-Desculpe, mas eu acho que a senhora está enganada... — Falei aparentando indiferença.
-Me poupe, tá padre? – Disse revirando os olhos. – Eu pari essa garota e sei bem o efeito que ela causa nos homens. Eu pensei que resistiria a ela, sendo padre e tal. –Comentou.
-Como você fala assim da sua própria filha? – Perguntei incrédulo.
-Eu digo isso por que a conheço melhor que ninguém. – Rebateu. –Ela adora ver os homens aos pés dela! –Contou-me. – Ela tem um mel que deixa vocês, homens, caidinhos... Ela envolve qualquer um em sua teia. Não vê Charlie?- Apontou para o marido pela janela. — Ela atentou tanto o juízo dele que ele acabou cedendo.
-Então, quer me dizer que ela já tinha malícia aos doze anos? – Contestei.
-Ah, pelo visto ela já bancou a coitadinha com essa história de estupro, né? – Perguntou-me com escárnio. – Não acredite nessa cara de santa que ela faz, pois de inocente ela não tem nada! Ela já nasceu com maldade na cabeça. Ela tem o prazer de manipular a mente das pessoas. Homens para ela são simplesmente como desafios, ela irá lutar com unhas e dentes para conseguir conquista-los, mas se consegue, aliás, quando consegue, ela perde completamente o interesse. – Contou-me. – Você deve estar se achando extremamente especial por ser o objeto de desejo dela agora, mas acredite, assim que você finalmente sucumbir a Bella, ela vai te tratar como lixo.
-Mas... – Eu ia replicar, mas ela não deixou.
-Agora você deve estar me achando cruel e dura, mas é a pura verdade. — Garantiu-me. — Eu já vi isso acontecer algumas vezes e o fim é o mesmo, só muda os personagens. Primeiro, ela se faz de vitima, de inocente, faz com que você se aproxime dela e depois aos poucos vai te provocando, vai te instigando, te seduzindo, até que você não resiste e aí, depois de usar e abusar, ela te descarta e parte pra outra. Eu vi Bella fazer isso com Charlie, Mike, Jacob...
-Mike? –Perguntei não me recordando de ouvir Bella comentar sobre ele.
-Ela não te contou do cara que ela fez se matar? –Perguntou seca. – Eles namoraram há uns três anos, ele era casado com uma amiga minha. –Depois do meu olhar incrédulo, ela complementou: — É, a inocentinha da Bellase envolveu com um homem casado. Mas esse não é o ponto. Mike era um homem bom, tinha esposa, filhos, emprego importante... E Bella se interessou por ele. No inicio, eu estranhei a vontade súbita dela de passar férias, finais de semana e até feriados na casa dos Newton, mas como era uma família muito amiga da nossa, eu não me importei. Aliás, até fiquei aliviada por Bella finalmente ter deixado meu marido em paz, porém nem me toquei que ela tinha outra caça em vista. Eu só sei que quando dei por mim, Bella já estava quase morando na casa deles e eles já estavam se envolvendo. Bella negou qualquer relação com Mike, mas dava para notar quando nos reunimos os olhares que eles trocavam. Fiquei desconfiada e não acreditei nela. Não deu outra. Alguns meses depois, Mike largou Jéssica, seus dois filhos e emprego. Achou que Bella fosse fugir com ele, mas ela se recusou, e ele insistiu muito, até propôs casamento... Estava extremamente apaixonado, mas ela não estava nem aí. Quando ele caiu em si, viu que tinha perdido tudo e que tinha arruinado sua vida por causa dela e ficou louco. Algum tempo depois, tive noticia que ele se enforcou num hotel barato.
Eu engoli a seco depois de ouvir toda aquela história do passado de Bella. Renée podia estar mentindo, porém eu conseguia imaginar Bella provocando tudo aquilo e destruindo a família do tal Mike. Fingi imparcialidade e lhe respondi:
- A única coisa que eu posso fazer é rezar pela alma desse homem.
-Deus, você já está enrolado até a cabeça na teia dela! – Observou pesarosa. – Coitado, vai sofrer tanto... Mas... – Ela ia falar alguma coisa, mas a porta se abriu e ela se calou quando Charlie saiu.
-Vamos? –Perguntou ele a ela. – Bella está descansando agora, mas disse que está ótima.
Renée deu de ombros.
-O senhor vai ficar aqui, padre? –Ela me perguntou voltando ao tom de respeito e reverência a mim.
Eu apenas assenti e eles se foram.
Fiquei meditando sobre tudo aquilo que a mãe de Bella me disse e eu fiquei sem saber o que fazer. Como ela mesma havia dito, eu já estava enrolado com Bella até a cabeça... Não tinha mais jeito! Minha mente falava que era para eu me afastar e ir embora agora mesmo, mas meu coração se recusava a partir e praticamente me obrigou a ficar ali, velando o sono daquela garota que mais parecia um anjo caído dos céus.
-O diabo, com toda sua maldade, também é um anjo caído. Ele conseguiu manipular Adão e Eva, fazendo-os desobedecer a Deus e saborear do fruto proibido. – Pensei alto. – Então, ela é o meu diabo particular. –Percebi tarde demais.
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