1 único


A rotina de Joaquim pelas manhãs era a mesma. Levantava e fazia a mesa com uma toalha xadrez, esquentava água no fogão e sentava na cadeira de frente para a porta. Essa porta dava acesso para o quintal, ele costumava acender um cigarro com os olhos mirados nela, enquanto ouvia qualquer bicho do mato fazer algum barulho. Também via o portão de aço da cor verde-água e se lembrava daquele dia. O dia que seu filho o atravessou e deixou a casa.

Havia muito atrito entre os dois e a mãe havia morrido, Joaquim não era muito sábio, na verdade era um bruto que não entendia nada dos sentimentos do filho. Ele só queria um compressor e trabalhar no seu próprio carro, mas Joaquim não o permitia seguir o caminho à sua maneira. Enquanto trabalhasse na oficina, seu filho teria que fazer exatamente tudo do jeito como era. Claro, que ele deixaria aquele velho ranzinza algum dia e esse dia chegou.

As cinzas do cigarro caíram sobre sua camisa apertada, a barriga era volumosa e grande, volta e meia se acumulavam ali. Amaçou a bituca no cinzeiro, queimando as pontas de seus dedos calejados e com unhas sujas de graxa. A chaleira apitou e se levantou para passar o café.

Ele pensou o quanto as crianças são injustas e complicadas. Tudo que queria era envelhecer e saber que podia contar com a ajuda de seu filho. Os dois morando naquela casa, trabalhando na oficina, cozinhando um para o outro. Agora quando chegasse a idade não sabia o que faria, quem cuidaria dele? A última coisa que queria era estar num asilo rodeado de gente velha e fedida. Com certeza, não fazia o seu tipo. Era sim um senhor, mas era bom da cabeça. Tinha gosto por música e por filmes, até mesmo daria trabalho para alguma novinha, não que ele quisesse se envolver com uma moça tão jovem, até porque odiava homens que dormiam com quem podia ser sua filha. Contudo, o seu filho agora estava longe, quem cuidaria de si seria ele mesmo. Era irônico, porque foi o que seu filho exatamente pediu. Quando somos jovens queremos ser independentes e trilhar nossos próprios caminhos, Joaquim já fora assim também, mas agora só queria que alguém cuidasse dele.

Alguém que lhe ouvisse tocando violão, nem ao menos chegou a ensinar para o filho como tocar um. Ele pediu bastante, mas Joaquim não teve tempo. Pelo menos queria acreditar nisso, talvez seu filho fez o certo em lhe deixar. Quantos homens sonham em ter um garoto? Ele simplesmente jogou fora a sua chance. Talvez ele fez o certo em ir embora... talvez não o merecesse...

Colocou o café na caneca de metal com a tinta descascando, sua esposa com certeza preservaria melhor a louça daquela casa, mas deu de ombros e se sentou na mesma cadeira para dar o primeiro gole. Novamente fitava o portão verde-água, porque aguardava por sua volta como no ditado: O bom filho a casa torna.

Ou pelo menos que ele lhe desse mais uma chance para tudo dar certo. As rugas aumentavam, as mãos tremiam, o peito doía, queria vê-lo antes que fosse tarde demais. Chorou desesperado, temia o seu futuro, sentia a falta dele, do seu único filho.

Se agarrava na fé.

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