A gente passa a vida sonhando.

Sonhando com um amanhã melhor, com uma versão de nós mesmos que ainda não existe — mas que, de alguma forma, sempre parece possível.

A gente acredita que o melhor ainda está por vir.

Que a vida, em algum momento, vai finalmente começar de verdade.

E, enquanto esse momento não chega, a gente vai adiando.

Adiando planos.

Adiando decisões.

Adiando a própria vida.

Eu sempre soube sonhar.

Talvez esse tenha sido o meu maior talento — e, ao mesmo tempo, o meu maior erro.

Porque entre sonhar e fazer existe um espaço silencioso e perigoso: o tempo.

E eu confiei nele.

Confiei que ele estaria sempre do meu lado.

Que ainda havia muito pela frente.

Que as oportunidades não tinham prazo.

Que eu teria força — e, principalmente, fôlego — pra correr atrás de tudo, quando decidisse que era a hora.

Mas o tempo não avisa quando muda.

Ele não faz barulho.

Não pede permissão.

Ele só… passa.

E, quando você percebe, já não é mais o mesmo.

Depois de um tempo — não importa exatamente quando — a gente começa a sentir isso.

Não de forma dramática.

Mas sutil.

Um cansaço que antes não existia.

Uma disposição que já não é a mesma.

Pequenas coisas que a gente nota… e escolhe ignorar.

Porque é mais fácil assim.

Enquanto o corpo ainda responde, a gente se apega à ideia de que tudo continua possível.

A gente acredita que pode recomeçar quantas vezes quiser.

Que ainda dá tempo.

Sempre dá tempo.

Até o dia em que não dá mais.

E esse dia… não chega como a gente imagina.

Não tem aviso claro.

Não tem preparação.

Ele começa pequeno.

Quase imperceptível.

No meu caso, foi uma dor.

Nada que me fizesse parar.

Nada que parecesse urgente.

Só um incômodo persistente, daqueles que a gente aprende a conviver.

Depois veio o cansaço.

Não aquele cansaço que passa com uma noite de sono.

Era diferente.

Mais pesado.

Como se o corpo estivesse tentando dizer algo… e eu não quisesse ouvir.

Eu percebi.

Mas ignorei.

Porque a gente sempre ignora.

A gente sempre tem uma explicação pronta:

“É só estresse.”

“É só uma fase.”

“Depois melhora.”

A gente nunca acha que é sério.

Nunca acha que é com a gente.

E assim o tempo vai passando — sem pedir licença.

Até o dia em que algo muda de verdade.

E não dá mais pra fingir que está tudo bem.

Eu lembro do momento.

Não teve anúncio.

Não teve aviso.

Só aconteceu.

Eu puxei o ar…

e ele não veio como antes.

Veio curto.

Veio incompleto.

Como se algo, dentro de mim, tivesse decidido impor um limite.

Foi ali que eu entendi — ainda sem entender completamente.

Que havia algo errado.

E que não era recente.

Aquilo não começou naquele instante.

Só estava sendo impossível ignorar agora.

E, de repente, o tempo mudou de forma.

Ele deixou de ser promessa…

e passou a ser dúvida.

O amanhã perdeu a certeza.

E o hoje ganhou um peso que eu nunca tinha sentido antes.

Porque, pela primeira vez, eu não sabia quanto tempo ainda existia.

E essa dúvida muda tudo.

Muda o jeito que você pensa.

Muda o jeito que você sente.

Muda o jeito que você olha pra própria vida.

E então vêm as perguntas.

Não aquelas que a gente faz por curiosidade…

mas aquelas que vêm carregadas de urgência.

O que eu fiz com o tempo que eu tinha?

O que ainda dá pra fazer com o tempo que me resta?

Quantas coisas eu adiei achando que teria outra chance?

Quantas vezes eu disse “depois”… sem saber se esse depois existiria?

Porque, no fim, a verdade é simples — e dura:

a gente vive como se o tempo fosse infinito…

até o momento em que ele deixa de parecer.

O corpo já não acompanha o ritmo da mente, e coisas simples do dia a dia passam a ser grandes desafios.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.