FÉRIAS DE VERÃO
2 As Reflexões de Katherine Beckett
Notas iniciais
Sem desviar os olhos do marido, ela concluiu a conversa ao telefone com o Esposito — Sim, eu entendi, Espo. Vá com o Ryan para a cena do crime. Estou indo agora para o Distrito e vou ver se eu consigo dar um jeito. Hoje o médico legista quem está de plantão no Necrotério é a Lanie. Vão lá. Vão para a cena do crime. Se precisarem de mim, me chamem. Eu estarei lá na minha sala.— ela desfez a ligação.
Ela mal desligara o aparelho e o marido se levantou da cama enfurecido — Prá mim, já deu, Beckett.— vestiu o roupão comprido de seda preta, por cima do pijama e se encaminhou para sair do quarto.
Muito rápido, quase tropeçando, Kate se levantou e foi atrás dele— Amor! Por favor, me entenda.
— Eu já entendi tudo mesmo, Beckett e acho que você já falou tudo o que tinha que falar e eu já escutei tudo que eu não queria ouvir.— e com sarcasmo ele completou — Vá logo para o distrito porque as pessoas lá dependem de você.
Ela tentou segurar no braço dele, mas ele se soltou e saiu do quarto, arrastando seu chinelão almofadado preto.
Kate achou melhor não insistir para a situação não ficar pior.
Escolheu a roupa que iria para o distrito, prendeu os cabelos no alto da cabeça e entrou no box e ligou chuveiro.
Enquanto estava sob o jato d’água quente, ela ouviu ruídos no quarto e ficou aliviada porque Rick retornara, então arriscou — Amor, você pode preparar o café da manhã das crianças? Elas devem acordar às sete e meia.
Ele não respondeu, mas ela ainda ouvia movimento no closet.
— Rick! Você está me escutando, amor!— ela repetiu o pedido — Você pode preparar e dar o café da manhã das crianças? Você sabe que elas devem acordar por volta das sete e meia.
Ele continuou sem responder e após alguns minutos o silêncio do closet acabou e o marido chegou belíssimo à porta do banheiro vestindo calça jeans, camisa social cor de vinho e por cima ele usava uma jaqueta preta.

Ela estava terminando o banho— Uaaauu!!! Cada dia esse meu marido está mais bonito! – brincou— Vai fugir do banho agora de manhã, é? — ela continuou no tom e brincadeira.— Amor, você vai comigo para o Distrito, é? E as crianças? Elas não tem com quem ficar porque a diarista não vem hoje. Você vai deixa-las com quem? Sua mãe está viajando com o grupo de teatro... A Alexis...
Ele a interrompeu e, austero, comunicou— Não vou com você ao Distrito, Beckett. E quanto ao café da manhã das crianças, prepare você mesma. Você é a mãe deles, ou você já se esqueceu disto?
— Rick, aonde você vai? Rick!
Ele não respondeu e saiu sem se despedir.
Kate ficou aflita, não porque não tinha com quem deixar as crianças para ela poder ir trabalhar, tampouco porque ela própria teria que preparar o café da manhã dos seus filhos. Ela estava angustiada foi pelo fato do Castle ter saído daquela maneira, chateado com ela, então, nem desligou a ducha direito, pegou a toalha e saiu nua do banheiro, se enrolando pelo caminho e, pingando água pelo chão ela foi atrás do marido e ainda o encontrou passando pela porta do quarto deles— Amor, me escute, aonde você vai?
Ele não a olhava com raiva. Ele tinha um olhar triste.
— Rick! — ela insistiu e tentou abraça-lo.
Com voz baixa e rouca e sem conseguir esconder que estava triste e chateado, ele responde— Eu ainda não sei para onde eu vou, Beckett.
— Mas você não pod...
— Eu não posso? Eu 'não posso' o que, Beckett? Eu não posso ir embora ou não posso sair sem preparar o café da manhã dos nossos filhos e também não posso deixa-los sozinhos porque você vai ter que ir para a sua idolatrada delegacia? É isso? Se for isso, fique tranquila porque, apesar dos pesares, você é a única pessoa, depois de mim, que eu confio completamente em deixar meus filhos. Eu sei que você sabe cuidar deles.
Aquilo doeu na alma, mas Kate não iria entrar na mesma sintonia dele. Ela não iria aceitar a provocação, então respondeu de modo suave— Óbvio que eu sei cuidar deles, amor. Eu os carreguei por nove meses no meu ventre... Os gêmeos um pouco menos... e os amamentei. Eu morro e mato por eles. Sei o que cada um deles sente, gosta e sabe fazer. Sei tudo sobre eles. E sei fazer tudo para eles e por eles. Eu sou a mãe deles.
— Que bom que você lembra. — ele pegou a maçaneta da porta da rua e tentou abrir, mas Kate travou a porta com a perna direita e o impediu.
— Rick, eu só quero... Eu só preciso saber aonde você vai, Rick. Somente isso. E você não pode sair de casa assim, chateado comigo. Amor, vamos conversar — ela não conseguiu reter as lágrimas.
Ele não se abalou com as lágrimas dela e pediu baixinho— Beckett, sua perna está travando a porta. Libere a porta porque eu quero sair.
— Amor, eu só precis...
Ele a interrompeu e muito calmamente, ele a olhou nos olhos e avisou— Kate, minha intenção inicial não é ir embora para sempre. Mas eu preciso de ar. Confesso que estou decepcionado. Depois dessa nossa conversa, depois dos seus argumentos e também os meus, eu preciso pensar sobre quem somos, sobre o que eu represento para você e o que você significa para mim. E eu preciso fazer isso longe daqui. Eu preciso respirar.
Arrasada com a situação, Kate se afastou da porta e sem demora, ele a abriu e saiu sem olhar para trás.
Ela não fechou a porta de casa. Ao invés disso, ficou olhando para o marido até ele entrar no elevador e a porta da cabine fechar.
Mesmo depois que Rick se foi, Kate ficou olhando por algum tempo para a porta fechada do elevador, sem se dar conta de que ainda esta enrolada na toalha, até que a vizinha que estava indo trabalhar, a tirou dos seus pensamentos— Bom dia Sra. Castle.
— Aaahh! Bom dia, Sra. Müller. Com licença. — Kate apertou a toalha no corpo e pediu permissão para fechar a porta.
— Fique à vontade.
Kate fechou a porta e apoiou suas costas nela do mesmo jeito que na primeira vez que ficaram juntos naquela noite mágica, quando ela bateu àquela mesma porta e se jogou nos braços dele dizendo que o queria. Só que agora Rick não estava ali com ela, abraçando-a, beijando-a, acariciando-a. Ele não estava ali. Ela estava sozinha. Sentindo-se terrivelmente só, ela deslizou pela superfície lisa da porta até que ficou sentada no chão com as pernas encolhidas, então as lágrimas desceram livremente. Todas as comportas da represa estavam abertas.
Kate tinha consciência que o marido a amava e que ele sabia que ela também o amava e isso ela não tinha a menor dúvida. Tinha também certeza absoluta que Rick retornaria para casa no máximo em uma hora, pois ele, apesar de ser passional, era um excelente marido. Ela não tinha nenhuma reclamação a este respeito. Castle era amoroso e extremamente dedicado à família. Toda aquela explosão dele fora em virtude do compromisso dele em fazer a família feliz. O único objetivo dele naquela discussão sobre as férias, era porque ele queria o melhor para ela e para a família.
Ela compreendia que o marido queria que ela usufruísse suas férias o que era normal e juridicamente legal, no amplo sentido da palavra. Ele queria o melhor para ela e Kate sabia de tudo isso, só que ela tinha se comprometido com o Comissário de Polícia e não tinha nem ideia de como voltar atrás neste compromisso. Aliás, ela achava, inclusive, que isso estava fora do seu alcance. Se ela tivesse que “não aceitar’, era para ter dito isso no dia em que o chefe a convocara. Fazer isso agora seria por em risco sua carreira.
Com toda a tensão presente no ar, a conversa emocionada e apaixonada ainda ecoando nos seus ouvidos e com a imagem dele, pedindo licença para passar, saindo de casa e entrando no elevador, milhões de coisas passavam pela cabeça de Kate e ela tentava arrumar. Ela fez uma retrospectiva da vida deles.
Ela estava sofrendo.
Eles se conheciam há quinze anos e desses quinze, quatro foram como amigos, um como namorados, um como noivos e nove como casados, mas tirando os primeiros meses de namoro, e os dois primeiros meses do noivado, quando ela morara em Washington-DC, eles sempre moraram juntos e tinham um excelente relacionamento.
No primeiro ano, por mais que ela estivesse secretamente excitada com a ideia de ter que trabalhar junto com o seu autor favorito, ela não o queria como parceiro porque ele a irritava profundamente, pois se comportava como um garoto travesso de nove anos brincando na Disneyland, mas ela não podia fazer nada contra isso, pois ele era uma celebridade, famoso e um bilionário muito bem relacionado, muito carismático e amigo de um monte de autoridade e dos chefões dela, ou seja, a ordem vinha de cima e ela, uma simples detetive de polícia, tinha apenas que obedecer e vê-lo todos os dias brincando de ser policial. Contrariada com aquela situação, ela implicava e fazia muita birra com o Castle e, muitas vezes, como ele a irritava profundamente, ela até o tratava como criança, inclusive no quesito repreensão, só que apesar disso, ele não dava a mínima importância ao mau humor dela e relevava tudo e ainda zoava dela. Por mais que ela se irritasse com ele, ela não podia deixar de apreciar essa qualidade do escritor que, aos poucos, ia quebrando a sua resistência. Em meio a isso tudo, ela percebia que o escritor jogava charme pra cima dela, contudo, apesar de apreciar secretamente as investidas, ela não dava crédito, porque ele tinha fama de playboy. No segundo ano, apesar dela continuar implicando e fazendo birra com o Castle, a relação deles já ficou mais cordial. Kate percebia que ele continuava jogando charme em cima dela e ela começou a gostar dele, no entanto disfarçava. No terceiro ano, ela já estava completamente apaixonada e percebia que ele também, e teve certeza disto no dia em que trocaram beijos quentes e apaixonados durante um disfarce para resolver um homicídio. Não comentaram sobre o beijo. No final do terceiro ano ele confessou seu amor, só que ela tinha acabado de levar um tiro e, covarde, fingiu que não se lembrava, pois seus medos e traumas a impediam de aceitar tanto o próprio amor quando o dele. Nestes três primeiros anos ela tivera três namorados com o objetivo de tentar esquecê-lo, mas nenhum daqueles namorados era quem ela realmente queria. Nenhum deles era o Castle. No quarto ano a relação de amizade estava completamente fortalecida e o amor deles mais forte ainda, no entanto ela continuava lutando contra isto e disfarçava o mais que podia. Ela o queria muito, mas não tinha coragem. Neste quarto ano, nenhum dos dois namorou outras pessoas, pois ambos não queriam ninguém, além do outro.
Nestes quatro primeiros anos, um podia contar 100% com o outro, sim, eles se ajudavam mutuamente e a amizade deles tinha direito a trocar confidência, pedir conselhos e eles se davam muito bem, uma amizade sem igual.
Apesar de toda essa amizade e de todo essa cumplicidade entre eles, foram quatro anos brigando por besteira, pelo simples fato de que havia muita química entre eles, muita paixão reprimida e muito ciúme camuflado.
Durante o namoro e o noivado deles tudo era novidade e o fogo queimava e nem pensavam em brigar e quando isso acontecia, logo reatavam.
Depois que se casaram, como qualquer casal, tiveram outras brigas, mas nunca chegaram a este ponto e sabiam evitar, desviar e também superar qualquer discórdia, principalmente depois que ela ficou grávida da Lily e dos gêmeos. Com o nascimento dos filhos, ela se portou como havia prometido para si própria e para o marido. Ela cuidou pessoalmente de cada momento com os filhos. Ela não desgrudava deles e ela mesma se surpreendeu, pois nunca, com exceção do pequeno Cosmos, que ela e o Rick tomaram conta por uma noite, ela nunca havia cuidado de uma criança. O nascimento dos seus filhos foi algo mágico. Foi aí que ela acreditou naquela máxima de que “Quando nasce um filho, nasce também uma mãe”. Ela amava ser mãe. Ela amava seus filhos e fazia qualquer coisa na vida para vê-los felizes.
Enquanto Kate fazia uma análise do que era a sua vida, a vida do seu marido, a vida dos seus filhos, enfim, o que era a vida deles, as lágrimas rolavam, pois seu coração estava apertado. Seu coração estava sangrando. Suas pernas agora estavam estiradas e seu corpo ainda continuava recostado na porta da rua. Ela se sentia realmente abandonada.
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