Eyes
8 Segundo adeus
Notas iniciais
Aime parecia fora de lugar, enquanto eu e Lucy conversávamos sobre as minhocas e o experimento. Minha quase esposa não se importava em esconder a expressão de descontentamento, o que fez Lucy ficar visivelmente desconfortável. Podia dizer que Aime estava com ciúme, mas não queria acreditar naquilo. Voltei a atenção para as pesquisas, e ouvi Lucy dizer que ia sair para tomar um banho. Imaginei quanto tempo ela esteve presa naquele laboratório enquanto eu brincava de casinha. Um pouco sem jeito, me despedi de Lucy e disse que ela havia sido incrível.
—- É o inicio de uma coisa incrível —- Disse, entre sorrisos amigáveis para mim e para Aime, antes de partir.
Pela primeira vez, penso verdadeiramente sobre minha relação com Lucy.Eu passava mais tempo com ela do que com Aime. Nossas visões do mundo eram exatamente iguais. Ela me admirava, admirava meus ideais e meu trabalho. Sempre trazia café no meio da tarde e sempre saíamos para beber nas sextas feiras. Ela estaria esperando um passo maior vindo de mim? Naquela hora eu percebi, como um estalo. Lucy era tímida. Jamais tomaria o primeiro passo. Estava esperando que eu o fizesse. Nunca perguntou da minha vida pessoal e não fazia ideia da existência de uma Aime. Me sinto culpado e estúpido por isso.
Olho para Aime com o senho franzido, e pergunto o que havia de errado. Sabia que havia algo.
—- Sai de casa todos os dias pra torturar minhoquinhas?
Fico olhando para ela, sem saber se rio ou se continuo em silencio. Percebo que ela quer que eu fale algo. Então explico:
—- Não estamos torturando minhocas, Aime. Estamos modificando organismos. Nesse caso os organismos são minhocas que são cegas. Estamos modificando pra que elas tenham visão...
—- Você acha isso uma boa ideia?
—- Você acha uma má ideia?
—- Eu acho perigoso. Brincar de Deus.
Rolo meus olhos. Ela está arruinando tudo. Porque não pode simplesmente guardar essas coisas para si? Eu estava tão feliz com nosso avanço, o meu e de Lucy. Estive guardando isso por muito tempo. Não encontro mais paciência para ficar calado diante das idiotices de Aime.
—- Aime, eu acredito em provas. Não existem provas de que há um espírito mágico que é invisível vivendo no céu em cima de nós.
Ela suspira e olha para o lado, onde os potes com as minhocas estão expostos no balcão do laboratório.
—- Quantos sentidos as minhocas tem?
—- Dois. Olfato e tato. Por que?
—- Então, elas vivem sem qualquer habilidade de ver, ou sequer saber sobre a luz. Não é? A noção de luz pra elas é inimaginável.
—- Isso.
—- Mas nós, humanos, sabemos que a luz existe. Por todos os lados, bem em cima delas... Elas não podem sentir, mas com uma pequena mutação vão poder. Certo?
—- Correto.
—- Então —- Ela pula do balcão onde antes estava sentada. —- Doutor olho. Talvez alguns humanos. Raros humanos, tenham mudado para ter outro sentido. Um sentido espiritual —- Aime está próxima a mim agora. Como de costume, minha irritação por ela se foi. —- E podem perceber o mundo, que está bem em cima de nós. Em toda parte.
—- Então você é uma mutante? —- Arrumo meus óculos, suspiro nervoso.
—- Sim. Mas eu não sou a única... —- Ela retira meus óculos e me beija. Sussurro que não, mas ela ignora.
Sinto-a me puxar para o outro lado próximo ao balcão, e algo despenca certeiro no meu rosto.
—- Droga! —- Eu grito. —- Caiu formol no meu olho... Pega o kit de limpeza!
—- O que é isso?! —- A voz de Aime sai desesperada.
—- Liga pra Lucy! Liga pra Lucy agora! O número está do lado da porta!
Aime teria de me levar para casa. Minha parceira chegou e conseguiu fazer um curativo descente. Estava sem visão nenhuma, com um esparadrapo cobrindo os dois olhos por baixo dos óculos. Eu não ficaria cego naquela noite. No entanto, diante do terror que eu viveria dali a algumas horas, eu preferia ter acabado cego. Ou morto.
***
Mia começou a demonstrar os primeiros sinais de sono quando finalmente paramos de falar sobre a minha vida e começamos a falar sobre a dela. Contou que gostava do centro comunitário, mas preferia sua antiga casa apesar de ser menos confortável e apesar de não comer tão bem todos os dias. Não se lembrava muito bem da mãe, contou ela. A mulher havia morrido há muitos anos. O pai jamais se casara novamente, e dedicava-se completamente a jovem filha.
—- Uma vez eu perguntei por quê ele nunca tinha se casado de novo —- Tomou uma pausa para um bocejo. —- Não queria que ele se casasse de novo. Só que às vezes papai parecia triste. Pensei que ele quisesse recomeçar. Mas ele me disse que estaria mentindo pra si mesmo e pra qualquer outra pessoa. Porque minha mãe era unica e ele só amaria completamente ela. Acho que eles eram almas gêmeas ou algo assim.
Aquilo me acertou em cheio. Pensei sobre como fazia sentido. Pensei sobre o dia em que Lucy me pegou olhando para as várias fotos que eu ainda tenho de Aime — algumas totalmente inapropriadas para um homem casado. Minha esposa ficou devastada e confessou o que sentia. Apesar de ter sido a responsável por ter telefonado e me feito ir até o laboratório naquela noite, levando Aime comigo, ela não se sentia culpada por tudo aquilo.
—- Se eu não tivesse feito vocês irem até lá, ela ainda estaria aqui —- contou Lucy.
—- Mas nós não estaríamos juntos, de qualquer modo —- confessei eu.
Então contei a Lucy sobre tudo o que pensei depois daqueles acontecimentos no laboratório. A raiva que senti de Aime. O quão covarde eu teria sido. Todas as coisas ruins que deixei entrarem na minha cabeça. Contei a minha esposa sobre como eu me sentia um monstro durante esses dezesseis anos e como não conseguia me perdoar por aquilo.
Olhando para Mia agora, em seus olhos, nos olhos de Aime... Ainda não consigo me perdoar. Se eu não a tivesse conhecido, se eu a tivesse deixado ir...
—- Ele dirigia durante uma hora, cinco dias por semana, pra me levar até a unica escola que tem em Dunbry. Ele voltava e dormia durante seis horas, então voltava para me buscar, e nós voltávamos para casa e ele dormia até as onze da noite quando saia de novo para o trabalho. Naquela noite eu olhei para picape estacionada do outro lado da varanda e senti algo apertar o meu coração, mas fiquei quieta... —- A voz de Mia ia ficando cada vez mais fraca e baixa no decorrer do discurso. —- Ele me beijou nos cabelos e disse pra eu ir pra cama. Eu fui. E a manhã seguinte foi a pior da minha vida...
Não preciso ouvir o resto. Erin me contou exatamente o que aconteceu. Um ataque cardíaco enquanto dirigia. Um breve desmaio e a perca do controle da picape velha e já difícil de ser guiada. Uma ponte no meio do caminho. Parece que a tragédia também é uma coisa em comum na vida de Aime e Mia afinal.
Quando ela decide que é hora de dormir, uma breve olhada no relógio revelam quase três horas da manhã. Mia cai entre os lençóis e não demora até que sua respiração fique pesada e todo seu corpo fique imóvel imerso num sono profundo. Me deito no sofá.
Fico acordando a cada quinze minutos. Toda vez que abro os olhos, um arrepio gelado percorre a minha espinha. Entretanto, não é assustador de forma alguma. Porque há um calor no meu peito, algo confortável que me faz perceber que estou feliz de estar ali. Ainda que tão distante da segurança da minha casa.
Perto do amanhecer, me levanto e caminho até a cama. Me vejo ajoelhando ao lado da cabeceira, onde o rosto de Mia está pousado no travesseiro branco. Sua respiração não é mais pesada. Na verdade, é tão suave que está imperceptível. Mesmo no escuro sei que ela está acordada. E sei que está olhando para mim. Meus olhos demoram a captar uma melhor imagem de seu rosto, que permite perceber que eu estava certo. Ela fica quieta, apenas piscando na minha direção. Então eu ouço uma voz baixa e sonolenta dizer:
—- Você pode me beijar se quiser.
O sussurro é meigo e tímido, porém consigo captar confiança em algum lugar. Eu não acredito verdadeiramente nos meus ouvidos. Até ela continuar:
—- Você quer? Você pode.
Permaneço paralisado durante um tempo em que não consigo distinguir realmente. Só estou observando-a piscar, esperar. Toda aquela situação de repente parece tão estúpida para mim.
—- Não. Não posso.
Me levanto, e volto para o sofá onde meu corpo despenca. Meus batimentos cardíacos se acalmam com o tempo. Estou encarando o acolchoado do meu leito enquanto tento me convencer de que aquilo nunca aconteceu. Já havia amanhecido há um tempo quando enfim me sinto vazio, frio e amargo como deveria mesmo me sentir. Então consigo dormir um pouco novamente.
Fale com o autor