Exônimo

1 Capítulo 1 - Nilo


Notas iniciais
Olá leitores, essa é minha primeira história original, eu revisei uma vez então se houver algum erro, me reportem, por favor. Espero que apreciem, beijos!

Nilo abriu os olhos dentro da água, tudo estava embaçado e um pouco escuro, não conseguia enxergar quase nada. Passou as mãos pelos braços, mas nada estava a segurando, apesar de continuar afundando. Ela já estava ficando sem ar, e lutava para chegar à superfície novamente, mas algo a puxava de volta para o fundo. Já estava exausta quando percebeu que seus esforços foram em vão, parou de se mexer, vencida. Deixou-se afundar para o fim.

Seus pulmões já doíam com a ausência de oxigênio e ela já podia sentir seu coração pulsando lentamente, cada fração de segundo custava a passar... Sentiu algo a puxando para o breu novamente. Ela já não sabia o quão fundo estava, só sabia que em algum momento subiu tão rápido quanto um piscar de olhos e conseguiu colocar a cabeça para fora da água. Abriu escancaradamente a boca puxando todo o ar que podia.

Ficou alguns segundos concentrada em respirar, depois usou toda a força que lhe restava para sair do lago e sentar na grama. Olhou em volta somente para ver inúmeras árvores. Onde eu estou? E porquê? E o mais importante: Porque não consigo lembrar de mais nada de antes de quase afogar? Nilo se perguntava começando a ficar assustada, levantou-se e torceu suas longas tranças escuras e a barra da sua túnica, sentiu um arrepio com o vento que soprou. Percebeu então que estava em uma pequena clareira, sozinha. Um pouco depois do lago, tinha uma pedra enorme, quase do seu tamanho. Pensou que poderia escalar e conseguir ver algo adiante. Mas o que queria ver exatamente? Deu um passo barulhento na grama molhada e viu que algo se escondia atrás da rocha. Mais alguns passos e conseguiu ver o que era.

— O que é você? – o garoto diz rispidamente claramente se preparando para atacar. Ele usava uma faixa sobre os olhos, estava cheio de folhagens pelos braços e em meio aos fios de seu cabelo. Tinha cachos grandes cor de chocolate, mas ficavam bagunçados com todas aquelas folhas no meio. Sua pele era cor de oliva, da cor dos troncos das árvores quando tiradas a casca. Nilo pensou em sua pergunta por um momento.

— Não sei.

O garoto franziu o cenho, mas antes de pensar em algo para responder ouviu vozes ao longe do que pareciam ser muitos homens que aproximavam a cada instante.

— Que ótimo. – ele disse num tom ácido.

— De que forma isso é bom? – Nilo disse confusa com a resposta do garoto, pois não tinha escutado os homens ao Norte da floresta. – Você já me viu antes?

— Não. – disse se preparando para sair da clareira.

Então a menina viu ao longe, mas bem longe, uma montanha tão alta que seu topo era coberto de neve, essa paisagem fez cócegas em seu cérebro. Distraída, não percebeu quando o garoto foi embora, mas já podia ouvir muitos passos se aproximando. Talvez eles possam me ajudar, pensou.

Enquanto isso o garoto estava escondido na borda da clareira dentro da floresta fazendo sons estranhos, num tom que pessoas normais não conseguissem escutar, mesmo assim mantia-se em alerta caso alguém indesejado chegasse.

Assim que os homens chegaram à clareira, concentrou-se totalmente em esconder-se, estava em um bom lugar, e podia ser facilmente confundido com o ambiente em sua volta.

— É uma garota. – um dos homens disse, claramente decepcionado.

Porque ela ainda está lá? Pensou o garoto inclinando a cabeça para o lado tentando ouvir melhor.

Aos poucos chegavam mais e mais homens, como formigas saindo de um formigueiro que acabara de ser cutucado. Todos eles usavam roupas parecidas ainda que diferentes, todas encardidas e suadas com uma espécie de couraça malfeita, observou Nilo, todos também usavam luvas feitas de um tecido grosseiro. Ela logo sentiu que não deveria estar ali.

— Se perdeu de Grabato, garotinha? Sua mãe deve estar preocupada. – disse um dos homens em tom zombeteiro fazendo os demais rirem baixo.

Mãe? pensou ela.

Os risos foram cessados de repente enquanto abriam caminho para outro passar. Esse era diferente, os outros pareciam respeitá-lo ou temê-lo, imaginou a menina, até suas roupas pareciam mais limpas, apesar e serem do mesmo tecido, também possuía um grande casaco que parecia ser pele de urso e caia até a altura de seus joelhos. Surpreso em ver a menina, o líder se aproximou dela.

— Desculpe a má educação dos meus homens. – disse apontando a cabeça para os outros atrás, que encolhiam os ombros e coçavam a nuca. Voltou o olhar para a garota brevemente e então jogou uma besta no chão e tirou sua aljava, Nilo percebeu que também tinha uma bainha pequena na cintura, deu um passo para trás. O homem então tirou seu casaco de pele de urso.

— Use isso. – Aproximou levemente seu rosto dela, fazendo-a notar algumas cicatrizes atravessando sua boca e nariz. Um fio cinza de seu cabelo caiu para frente de seu rosto.

Um momento se passou e então ela pegou o casaco logo recuando e cobriu seus ombros. Deu um suspiro de alívio baixo o suficiente para que ninguém ouvisse.

“Se eu fosse você não ficaria tão à vontade na presença deles...” aspirou o garoto escondido na floresta.

— De onde a senhorita vem?

Nilo nada disse, mas lançou um olhar para o lago.

— Sim, eu percebi, mas onde estava antes do lago? – perguntou educadamente.

— Não sei.

O homem lançou um olhar duvidoso, mas depois suspirou vencido, não iria conseguir tirar nenhuma informação dela, logo fez um sinal para seus homens. Dentre eles surgiu uma criança igualmente vestida, mas sem a couraça.

— Leve ela para casa e depois nos alcance, estaremos na base Oeste. – o líder ordenou lançando um olhar para a criança que andou em direção a Nilo. – A propósito, lindos olhos. – disse voltando-se para a menina por um breve momento.

O garoto escondido na floresta franziu o cenho, interessado na conversa da clareira.

Os homens foram andando seguindo o líder que adentrava a floresta. Em poucos segundos a clareira estava vazia, exceto por Nilo e a criança. Ainda podiam ouvir os homens ao longe murmurando enquanto cortavam folhagens, galhos e cipós do caminho.

O menino tinha o cabelo todo raspado, Nilo duvidava que seus fios chegassem a um centímetro de comprimento.

— Siga-me.

— Não vai perguntar onde eu moro? – indagou Nilo desconfiada.

A criança franziu o cenho, sua cabeça chegava à altura de seus ombros. Ele abriu a boca para dizer algo, mas antes que saísse algum som, ouviu-se um tiro de dentro da floresta espantando alguns pássaros, fazendo os dois voltarem suas cabeças na direção do mesmo, em seguida, risadas masculinas. A criança rolou os olhos e voltou sua atenção para a garota.

— Eu não erraria a essa distância, Mourão. – disse um homem, ao longe, entre risadas, acompanhadas de várias outras.

— Tinha um galho na frente! – ouviu-se um outro homem dizer, um pouco mais distante que o anterior.

Os risos foram ficando mais baixos ao longe até desaparecerem completamente. Só então o menino voltou a falar.

— Você não mora em lugar algum.

— Como sabe?

A criança não respondeu e caminhava em direção à floresta. Nilo ficou estática por alguns segundos decidindo-se se o seguiria ou não, mas quando o menino já estava a uma distância considerável achou melhor não o perder de vista.

— Te levarei para Grabato. – disse ainda de costas.

O menino adentrou na floresta, fazendo-a apertar o passo atrás dele, mas antes de chegar na borda da clareira uma raiz rasgou o chão e enrolou-se a sua volta firmemente, impedindo-a de se soltar.

Nilo gritou por socorro tentando desprender-se das raízes que a apertavam cada vez mais. Ela inspirou profundamente, mas antes que soltasse o grito, uma das raízes enrolou sua cabeça, tapando sua boca.

De repente a criança surge da floresta impulsionando uma foice, que finca e rasga algumas das inúmeras raízes que envolviam a garota como um casulo. Elas pareciam ser vivas e sensitivas, pois uma delas tentou enfiar uma ponta no peito da criança enquanto outra tentava derrubá-lo com uma rasteira. Os olhos de Nilo se arregalaram tanto de medo quanto de surpresa por ver uma criança tão ágil. Porem o ataque só fez com que as raízes a envolvessem ainda mais rápido. Logo seus olhos já estavam cobertos e pôde apenas ouvir os gemidos da criança que lutava contra aquela coisa.

Ela ouvia o ranger dos movimentos das raízes a sua volta. Estava completamente imobilizada. O suor caia frio por suas têmporas enquanto o breu inundava seus olhos, já não podia mais ouvir a criança e imaginava se ela teria morrido ou fugido. Alguns minutos depois sentiu um cheiro muito forte de terra e supôs estar sendo arrastada. De repente tudo parou e ficou silencioso por quase um minuto. Nilo estava deitada no chão e se concentrava para respirar uniformemente o mais baixo possível, quando ouviu um barulho de grama sendo pisada. Nilo foi tomada de um desespero súbito, tentava com todas as forças se soltar enquanto os passos se aproximavam. Inesperadamente as raízes que prendiam seus olhos se soltaram.

Percebeu então que estava dentro da floresta e encarava pés descalços. Um desses pés rolou seu corpo no chão fazendo-a deitar-se de costas. O menino vendado de novo, pensou Nilo arqueando as sobrancelhas.

— Você saiu do lago?

Nilo tentou mexer a cabeça como um “sim”.

— Ah, me desculpe. – ele abaixou-se e arrancou facilmente as raízes de seu rosto.

— Sim.

O garoto levantou-se novamente.

— Caiu nele?

— Não sei dizer, acho que sim.

Ele franziu o cenho.

— Qual a cor dos seus olhos?

Nilo achou estranha sua pergunta, mas se surpreendeu por ela mesmo não saber a resposta.

— Nunca me vi em um espelho...Poderia me sol– Nilo tentou soar o menos desesperada possível, mas o garoto virou as costas e saiu a passos pesados. Sem entender, Nilo ficou em silêncio esperando que ele voltasse.

E ele voltou, mas com algo a mais. Segurava uma tigela de madeira, um pouco maior que sua cabeça, cheia de água. Provavelmente água do lago, pensou, e logo imaginou o que teria acontecido com a criança, mas ao ver a expressão séria do garoto achou melhor não dizer nada por enquanto. Ele deixou a tigela no chão e tirou o resto das raízes da menina abruptamente. Depois de solta, Nilo apoiou suas costas num tronco caído. Ele empurrou a tigela para ela.

— Veja.

Nilo olhou seu reflexo pela primeira vez. Seu rosto era um pouco magro de mais e podia ver alguns ossos querendo escapar de sua pele, ela, por sua vez, tinha um tom que assemelhava a cor da lua, sem cor nas bochechas ou lábios. Seu nariz era fino e reto já seus olhos eram espertos e afiados nas extremidades, suas pálpebras escondidas destacavam ainda mais seus olhos cor de sangue. Estranhamente, Nilo não se assustou ou surpreendeu-se, é como se já esperasse por isso.

— Vermelhos. – disse por fim.

A sombra de um sorriso surgiu no canto do lábio do menino.

— Que sorte a minha.

Ele agachou afastando a tigela, desprendendo a atenção de Nilo em seu reflexo olhando para ele que se aproximava. O garoto levantou a mão direita e arrancou algumas folhas secas, de seu ombro esquerdo, que se quebraram em vários estalos dentro de sua mão fechada num punho. Ele apoiou a mão esquerda em seu ombro e aproximou a mão do nariz dela, abrindo-a soprou o pó em seu rosto. Imediatamente Nilo caiu para o lado em um sono profundo.

Acordou em um amontoado de folhas que faziam muito barulho quando se mexia. Sentou-se tirando alguns fios de suas tranças longas e negras. Olhando em volta percebeu que estava em um lugar fechado, o teto era curvo de madeira e no chão podia ver alguns livros amontoados juntamente com algumas velas de cera, mas algo estava estranho, levantou-se e notou ter perdido um pouco do equilíbrio inicialmente, porém logo conseguiu caminhar até um grande espelho encostado no canto parede.

Nilo foi banhada por um suor frio que percorreu sua espinha abaixo paralisando-a de horror quando viu que um de seus olhos lhe faltava.

Notas finais
O que acharam? Reviews!