Extremos

Sirenes; correria e dor nos pés. Três coisas que representavam o momento agora. Cá estou eu, fugindo dos policiais por um roubo ao caixa eletrônico vinte e quadro horas.

Faço uma, duas, quatro curvas e consigo despistá-los entrando em um beco estreito e sem saída. Respiro fundo, ofegante, fechando os olhos, e penso como vim parar aqui.

Carlos Figueiredo, filho do dono de uma das maiores empresas do Rio de Janeiro. Desde que me conheço por gente tive uma descendência rica, nunca me faltara nada, foi sempre tudo do bom e do melhor. Casas, carros, escola particular e luxo fazem parte do meu dia a dia. Ostentação é meu significado. Bom... Era, ate que em um “belo” dia meu pai sofreu um golpe e acabou perdendo toda sua posse da empresa. Acabamos por ter que vender tudo e ir morar numa casinha pequena no subúrbio do Rio. A partir daí dividas e mais dividas assolaram minha família, e isso era o que eu mais temia.

Lembro-me que comentários sobre a falência da família não paravam de surgir, em todos os lugares que ia, podiam se escutar os murmúrios sobre mim. Na escola eles eram ainda mais notáveis. Vi-me passar de um mauricinho “popular” a um garoto de periferia rejeitado.

Lá em casa as coisas iam de mal a pior, todos estávamos preocupados de como iríamos seguir dali pra frente. Nós tentamos de tudo para nos reerguer. Poupanças, empréstimos, amigos, família... Família, nem sei se posso chamá-los assim. Quando os procuramos, eles, simplesmente, nos trataram como reles por, agora, morar na favela.

Depois de algumas semanas nesse perrengue, decidi que teria de ajudar meus pais. Sai à procura de emprego durante dias, porem nunca era contratado pelo mesmo motivo, minha casa na comunidade, longe de ser um lugar favorecido.

Desesperado em ver minha família passar do esplendor a miséria, resolvi que teria que tomar medidas drásticas. Comecei a praticar assaltos aos pequenos mercadinhos daqui da região. No começo, nunca levara muito, apenas o que precisávamos em casa. Entretanto, a cobiça falava cada vez mais alto e acabei por me afundar na criminalidade.

Assim, voltamos ao inicio, comigo, Carlos Figueiredo, um garoto que foi do luxo ao lixo em questão de meses, e que se distraiu pensando em sua historia infame tempo o suficiente para ser rendido por um fardado.

Vejo as luzes das sirenes agora tão próximas que ofuscam minha visão e os berros dos policiais que me deixam atormentado. Por pura adrenalina, tento, inutilmente, fugir. A única coisa que lembro foi da dor da bala calibre 38 rasgando meu peito do lado esquerdo.

Sou Carlos Figueiredo, filho de um ex grande empresário, que aproveitou os dois extremos da vida; foi do esbanjar ao desejar; e morreu com um tiro que atingiu diretamente no coração. Minhas ultimas lembranças foram apenas o peculiar cheiro de ferrugem de meu próprio sangue e o gelado do cimento de um beco qualquer.

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