Extreme Love
14 Capítulo 14
Notas iniciais

Felicity estava inquieta.
Eu conseguia saber isso apenas por sentir suas coxas esmagando as minhas com mais força do que o habitual, enquanto eu cantava o pneu da Ducati na avenida entre caminhões e carros. Por sorte, tive que parar em um sinal vermelho e eu apertei o joelho dela.
— Quer voltar? — perguntei. Mesmo com a voz abafada pelo capacete, sabia que ela havia me entendido porque estreitou seus braços ao meu redor ainda mais apertado.
— Não. — respondeu com a voz também abafada e eu acelerei assim que o sinal ficou verde.
Rapidamente já estava estacionando a moto em minha vaga pessoal e Felicity estava sorridente e corada assim que tirou o capacete. Ela desmontou da moto e eu também, vi Shado ao longe saindo de uma SUV preta com um copo de café fumegante nas mãos e um sorriso enorme no rosto. Algo me dizia que aquele sorriso tinha nome, sobrenome e um tapa-olho.
Liguei o alarme da Ducati e entramos juntos. Eu não conseguia ver ninguém no andar da recepção, mas ouvia os gritos de guerras e os corpos caindo no chão no andar de cima. O lugar já estava á todo vapor.
— Vamos? Eu quero chutar essa sua bunda linda. — disse Felicity segurando sua bolsa cor-de-rosa com determinação em uma das mãos, enquanto segurava a minha mochila na outra mão livre, quando chegamos na porta do centro.
— Você pode fazer isso quantas vezes quiser. Com uma condição. — eu disse e ela ergueu uma de suas sobrancelhas loiras. Eu sorri. — Desde que sempre acabe debaixo de mim, berrando o meu nome.
— Eu não berro! — ela disse jogando minha mochila em cima de mim e eu ri alto.
— Quer que eu grave? — perguntei e levei mais mochiladas nas costas. — Ai! Eu tenho uma luta semana que vem, mulher!
— Problema seu! — retrucou ela e começou a me dar mais mochiladas. Consegui puxar a minha mochila de suas mãos e depois sua bolsa. Fugi para o centro e ouvi seus passos duros atrás de mim.
Esquadrei o centro inteiro e sorri. Estávamos sozinhos. Bom, eram 11h:00 da manhã de uma segunda feira. Eu estava oficialmente entrando na última semana de férias e depois voltaria á loucura da faculdade novamente. A maioria deveria estar voltando das viagens esta semana.
— Você quer que eu me troque aqui? — perguntou atrás de mim quando colocava as bolsas no ringue.
— Seja minha convidada. — eu disse cruzando os braços e encarando ela.
—-
— Estou começando a achar que você gosta de ficar por baixo. — eu disse assim que derrubei ela novamente. Felicity riu falsamente do duplo sentido da frase, mas percebi que estava ficando irritada. Estendi a mão para ajudar ela a levantar, mas ela não aceitou.
— Estou começando a achar que você está desviando e me fazendo beijar o chão. — ela acusou e eu dei de ombros.
— Este é o propósito, não?
— Você não está atacando! — reclamou e eu revirei os olhos. — Eu pedi para você não me apagar com um soco e não que não lutasse.
— Por que quer lutar? Você não é uma daquelas meninas que são fanáticas por "Cinquenta Tons de Cinza", né? — perguntei e ela revirou olhos desta vez. — Porque está pedindo por uma briga, quer que eu te amarre também?
— Cala boca. — disse e secou o suor que estava caindo em suas pestanas. — No começo, você não tinha dó de mim.
Dei dois passos para frente e ela não recuou. Deveria ter recuado para esquadrinhar o quão de espaço que tinha para me atacar. O único defeito de Felicity era esse, ela se distraía rápido e fácil demais.
— Oliver... — sussurrou e olhou sob o meu ombro.
Me virei um pouco e vi Nicholas e Roy bem no fundo se preparando para o treinamento com nunchakus juntos. Eles estavam mais interessados com o que tinham em mãos do que conosco. E eu tenho certeza que deixei o meu apreço por minha privacidade para Roy bem claro.
O centro estava começando a encher, já estava no meio tarde. Eu poderia escapar para o almoço, mas duvido que a loira que mais parecia uma gatinha raivosa iria concordar comigo.
— Me ensine alguma coisa nova. — ela pediu quando eu olhei-a novamente.
— Você já sabe tudo sobre Krav Magá e em apenas uma semana. Fique orgulhosa de si mesma por não ter saído com hematomas como os das outras meninas. — eu disse sorrindo e ela ergueu uma sobrancelha. — O que?
Ela maneou a cabeça.
— Diga.
— Você fica olhando para as meninas, Oliver? — perguntou e eu ri.
— Não, eu não olho, porque só tem três garotas que lutam isso, tirando você. — eu disse. — Mas na maioria das vezes, sou eu que faço os hematomas e eu já fiz muitos em você.
— Ok. Quero treinar com aqueles bastões de madeiras, me ensina? — perguntou apontando para parede e eu assenti.
Ela saiu do ringue e foi até lá. As gêmeas Marin chegaram e olharam para Felicity com a mais pura malícia. Literalmente comendo minha... Comendo Felicity com o olhar. Depois daquele pequeno surto ninja de Felicity, todos os pupilos de Ra's viam para o centro torcendo para ver a loira treinando. Alannah e Savanah não eram exceções á nova regra. Também saí do ringue e segurei no ar o bastão que Felicity havia jogado para mim com um sorriso, que só conseguiu irritar a loira ainda mais.
— Fique na posição inicial. — eu disse e ela ficou e segurou firme o bastão. — Antes de mais nada, firme o bastão ao lado do corpo bem perto do osso do quadril.
Ela fez como eu disse e me olhou com fúria assassina contida em seus olhos azuis.
Excitante.
— Tente me atacar. — eu disse e ela atacou por cima, eu me defendi. Depois em baixo, eu me defendi e dei apenas um cutucão com o bastão em suas costelas. Ela era orgulhosa demais para demonstrar seu desconforto para mim, mas estava mais do que evidente. — Proteja sua barriga e o peito, é aonde dói mais.
Ela ergueu o bastão e me atacou novamente. Depois de alguns golpes ensinados e ela pegar o molejo do bastão, Felicity já estava pronta para um combate real depois de dez minutos de prática. Ela me atacou sem dó, e por alguns instantes tudo que eu consegui fazer foi me defender. O único barulho que soava pelo centro eram os bastões se chocando um contra o outro.
— Al Sah Him. — chamaram e eu desarmei Felicity rapidamente e prendi seu quadril na lateral do meu próprio com apenas uma braço e encarei Ra's na porta do centro de treinamento. Seus olhos faiscaram da loira até mim e depois de mim para loira.
Ele sorriu levemente. Oh, não.
— Sim?
— Quando terminar com seu treinamento, venha até o meu escritório. — ele disse e eu assenti prontamente, enquanto Felicity tentava se libertar de minhas mãos á todo custo.
Ele olhou para Felicity novamente e deu um sorriso irônico antes de sair do centro com as mãos atrás das costas. Eu não sabia o que fazer ou pensar depois desta reação. Berta sempre dizia que Ra's era a maior fofoqueira da academia. Eu fiquei encarando a saída com receio.
E eu caí. Merda.
Felicity.
— Que inferno... — resmunguei e rolei até ver o sorriso de Felicity na minha frente.
— E aquele papo de distrações? Ou era... "Nunca dê as costas ao seu inimigo, Felicity"? — perguntou com ironia imitando a minha voz e erguendo uma de suas sobrancelhas loiras para mim. Ergui as mãos para cima e ela riu. — Levante-se.
— A vista daqui é maravilhosa. — eu disse desenhando suas curvas no ar e ela fechou a cara. Opa. Pisei em um calo. Sentei no chão e abracei sua barriga.
— Quer que eu pegue a bolsa novamente, Queen? — perguntou quando eu plantei um beijo em sua pele exposta. Eu me levantei rapidamente diante da ameaça e todos nos encaravam. Apenas encarei cada um e eles voltaram á fazer o que tinham que fazer.
Felicity olhou para o relógio e ficou tensa de repente, o que me preocupou.
— O que foi? — perguntei tirando uma mecha de cabelo dela que estava fora de seu rabo de cavalo.
— Dianna conseguiu descobrir o endereço do meu pai aqui em Central City. E ela quer se encontrar comigo... Sabe aquele apoio moral que conversamos? — ela perguntou ao enlaçar meu pescoço com seus braços e com um sorriso levemente forçado, eu assenti. — Vou precisar dele.
— Então eu irei ver o que Ra's quer comigo e depois irei com você ver Dianna. — eu disse e ela assentiu e me deu um selinho rápido demais. — Ou se preferir pode me esperar no vestiário...
— Idiota. — ela disse me dando um tapa e eu ri.
— Já volto.
Caminhei até a escada e depois entrei na recepção. A primeira coisa que vi foi a cara de puro desgosto de Shado enquanto digitava algo no computador. Vi o motivo da carranca de Shado bem na frente do balcão.
Isabel Rochev.
Corri rapidamente até a administração e Berta estava falando ao telefone, apontei para a porta de Ra's e ela assentiu e começou a xingar quem estava do outro lado da linha. Abri a porta do escritório e vi Ra's olhando para o nada.
— Queria falar comigo? — me fiz presente e ele me olhou. Ele ficou me encarando por pelo menos três minutos e depois tirou seus óculos de vovô do rosto e cruzou os braços ao se afastar um pouco de sua mesa.
— Eu queria deixar a minha opinião bem clara para você quanto a sua nova namorada. — ele disse e o meu instinto foi corrigi-lo sobre o meu novo status, mas eu não falei nada. — Eu não quero que seu novo relacionamento afete sua rotina de treinamento e muito menos o resultado de cada luta...
— Com o pouco respeito que eu tenho por você, você sabe que não irá afetar em nada. Me poupe das merdas e fale o que quer logo. — eu disse e cruzei meus braços ao encarar ele. Ra's sorriu um pouco. Isso nunca era bom.
— Não tenho nada contra Felicity, o que eu não quero é uma briga de moças pelo seu coração, garoto. Eu relevei o seu caso com Helena e Shado, mas não quero que uma das novas alunas saiam no tapa por sua causa. — ele disse pausadamente.
— Por que se importa? — perguntei sem resistir.
— Porque Felicity tem bastante potencial, e pelo pouco que vi... Seu temperamento é bem parecido com o seu. O que me fez questionar se ele estaria disposta á entrar no nosso pequeno campeonato... — ele disse e eu revirei os olhos internamente.
— Ela não mora aqui. Está de férias e elas já estão acabando. — eu disse e ele assentiu ligeiramente chateado. Uau. Ra's realmente queria ver Felicity quebrar a cara de alguém.
— Controle ela.
— Controlar?
— Você sabe muito bem o que acontece quando alguém com o seu temperamento chega ao limite e explode. — ele disse e isso foi como um soco na cara. As memórias dos anos passados vieram á minha mente. — E não quero que isso aconteça. Apenas isso.
— Okay. — foi a única coisa que eu disse no meu caminho para fora.
Enfrentar Isabel Rochev parecia ser muito mais atraente do que ficar ouvindo o quanto Ra's estava preocupado com a minha vida amorosa.
— E sua luta foi adiantada. Será amanhã á tarde. — ele disse e quando eu olhei ele novamente, vi que ele começou a ler jornal de Central City com descaso. — Algum problema com isso?
Bati a porta ao sair e Berta me olhou curiosa. Passei pela recepção e vi que Felicity estava conversando com Helena e Shado e as três riam juntas. Mau sinal. Ou talvez nem tanto, porque não havia nenhum sinal de Isabel. Me aproximei delas e Shado me olhou acusadora.
— O que eu fiz? — perguntei e as três me encararam.
— Laurel. Carrie. Makenna. Isabel. Por curiosidade, quantas exs-namoradas você tem? Você parece ser ocupado demais querendo esconder elas. — disse Felicity apoiando seu queixo na mão com um olhar inexpressivo.
— Eu?
Eu não havia feito nada para esconder Isabel de Felicity. Eu apenas fugi dela, como qualquer humano inteligente faria, mas ninguém parecia concordar comigo, o que não era bem novidade. A loira recusou meu convite de um banho conjunto e praticamente trancou a porta do vestiário feminino depois de entrar.
Eu tomei meu banho e depois coloquei a última troca de roupa que tinha dentro do armário. Suspirei. Teria que lavar roupa e isso incluía escutar Tommy resmungar sobre a dele que já devia ter criado traças á esta altura do campeonato.
— Você está pronto? — perguntou Felicity na porta do vestiário quanto eu estava pondo a camiseta.
Estava com um conjunto esportivo que marcava bem as pernas, o cabelo molhado e com as lentes dos óculos embaçados de vapor. A cena me fez sorrir.
Ela era linda de qualquer jeito.
— Sim. — eu disse e juntei minhas roupas e coloquei dentro da mochila. — Já ouviu de Dianna?
— Ela está na Lanchonete dos Allen com Caitlin. — ela disse limpando as lentes. — E onde está Tommy?
Eu olhei para ela seriamente e ela assentiu rapidamente.
— Okay. Sem falar de Tommy. — ela disse e eu ri indo até sua direção.
Nós fomos até o estacionamento á tempo de ver Ra's entrar em seu carro e cantar pneu do estacionamento. Guardei nossas bolsas e entreguei o capacete para Felicity que ainda estava olhando a traseira da SUV de Ra's.
— Isso não foi bem a cara dele... — ela comentou tirando os óculos e colocando o capacete. Eu dei ombros.
Ele sempre foi assim. Sempre se metia na vida dos outros, mas ninguém se metia na dele. Eu até preferia deste jeito, vamos dizer que eu não quero desenterrar corpos no chão da academia ou tirar esqueletos do armário dele. Sem falar que se eu fizesse isso, ouviria mais do que ouvi da minha mãe quando ela descobriu que larguei Harvard. Montei na moto e Felicity subiu atrás de mim. Suas mãos fecharam na frente do meu peito e suas pernas acolchoaram as minhas. Tudo certo.
— Pronta? — perguntei e pelo retrovisor vi que ela assentiu.
O motor da Ducati rugiu e eu fiz meu caminho até a Lanchonete dos Allen sem muita pressa. Felicity estava mais inquieta do que estava de manhã. E eu tinha notado que ela tinha um tique. Se ela ficava nervosa, começava a estalar os dedos como louca. Quando paramos em um farol, apertei sua coxa levemente e ela apertou as mãos em meu peito.
Olhei para um dos prédios comerciais que estava mostrando as horas e a temperatura. Meu tempo com ela estava acabando. Com o que estava acontecendo com seu pai, acho que teria mais alguns dias com ela, uma semana no máximo. E eu não gostava desta ideia.
"Minha vida inteira está em Central City, mas eu nunca vou abrir mão da vida que tenho em Starling."
As palavras delas ainda estavam fixas em minha mente, assim como o fato de não sermos nada além de amigos que fodem ocasionalmente. O sinal abriu e eu voltei a pilotar a moto até chegar no estacionamento apertado da Lanchonete dos Allen.
Felicity desceu e tirou o capacete. Seu cabelo ainda estava molhado, mas estava cacheado. Eu nunca tinha visto ele cacheado. Ela parecia um anjo... E eu realmente preciso de ajuda. Merda, Thomas. Por que você decide transar com metade de Central City justo hoje? Guardei os capacetes e acionei o alarme.
Assim que entramos pela porta, eu vi Dianna em uma roupa de astronauta enorme, bufante e rosa sentada na frente de Caitlin, enquanto conversavam animadamente e dividiam batatas fritas. O movimento estava calmo, já que eram quase 16h da tarde. A coisa pega á partir das 19h aqui.
Nos aproximamos e toda aquela harmonia foi embora. Dianna ficou brutalmente séria, de um jeito que eu nunca havia visto no pouco tempo que a conhecia e tirou uma pasta vermelha de sua bolsa e indicou o assento. Caitlin fez menção de levantar, mas Felicity fechou ela ao sentar ao seu lado e eu sentei ao lado de Dianna.
— Okay... Eu procurei por cada pessoa que se mudou para o suvaco de Deus nos últimos quinze anos. Sabe quantas pessoas se mudaram para lá? — ela perguntou olhando para mim, mas antes que eu pudesse soltar um palpite, ela respondeu. — 3.
— E?
— Duas mulheres e um homem. — respondeu a ruiva e Felicity pareceu surpresa. — É, fácil assim. As digitais batem e o perfil também...
— Dianna? — chamou Felicity depois de alguns minutos em silêncio, esperando.
— Felicity, eu sabia que seu pai morava em Central City, mas não sabia que ele estava tão perto assim de você. — ela disse e abriu a pasta.
— Como assim?
— Ahm. Ele sempre esteve perto de você, e nos últimos dias tem virado seu mestre... Sensei... Treinador... Tanto faz. — Dianna disse e empurrou a pasta aberta até Felicity.
Felicity paralisou ao meu lado. Não foi difícil ligar os pontos. Tudo até fazia um pouco mais de sentido agora, tantas indiretas que me foram lançadas. Ra's era o pai de Felicity. O cara que foi embora quando ela era pequena por causa da mãe. E que durante essas duas semanas esteve tão próximo da filha e não disse nada. Como poderia?
Repassei todos os momentos perto dele e de Felicity. Os sorrisos. Os sermões. Aquelas merdas filosóficas que eles soltava. Eram indiretas. Deus. Ah merda, eu transei com a filha dele.
Enquanto Felicity encarava a pasta aberta, eu troquei um olhar com Caitlin que parecia mais surpresa do que a própria loira e depois com Dianna. Estava bem claro o que ela queria dizer com os olhos. Cuide dela. Eu assenti e ela sorriu levemente.
Cacete.
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