Seus longos e ruivos cabelos soltos deslizaram para dentro da sala com cuidado. Ela levantou a cabeça, apenas para mostrar olhos inchados e vermelhos.

Algo não estava certo, mesmo que eu ainda a repudiasse.

Meu coração voou em fúria, mas o seu semblante triste o jogou em terra e, assim que atingiu o chão, me lembrei de que corríamos perigo.

—Temos de sair daqui, agora! – Bufei.

Não havia nada a se deixar para trás, então, fui em direção a porta. Assim que a mesma se abriu, dei de cara com enfermeiras raivosas. Em um lapso de pensamento virei para a esquerda e entrei nos corredores mais fundos da ala hospitalar.

Não olhei para trás, já que não me importava se eles estavam me seguindo. Eu só queria sair dali e pensar um pouco.

Correndo cegamente por um labirinto de quartos, achei uma pequena entrada escondida. A porta não era automática, como todas as outras, mas sim, de maçaneta. Parei a sua frente.

Uma ponta de curiosidade me tomou o peito. A adrenalina baixou. Podia ouvir a multidão que se seguia atrás de mim, atrás de nós – já que sentia a respiração pesada de Caleb as minhas costas.

—Não o faça. – A suave voz assustada de América permeou minha mente.

—Estou cansada de te ouvir. – Rodei a maçaneta.

Uma escura e pequena sala me aguardava. Entrei com passos cuidadosos.

As luzes se acenderam, era um corredor estreito, cheio de portas como aquela na qual havia entrado.

—Sky. – Caleb respirou fundo – Quarta porta a sua direita. A senha é 9657c.

Segui com cuidado as suas instruções, sem saber exatamente o porquê. Contei as portas a minha direita, parando na frente da exata. Havia uma pequena caixinha com teclas numeradas e com algumas letras, então digitei os números com cautela. A caixinha então, se tornou verde e eu abri a maçaneta.

Ali, começou uma escada espiral para baixo, íngreme e perigosa. Tal qual desci com cuidado. Passamos por mais duas portas, ambas com senhas e separadas por mais escadas para baixo. Chegamos então, a uma última com biometria.

Caleb colocou seu dedo indicador ali, fazendo com a que a porta se abrisse com violência. Então, meu irmão entrou com cuidado e acendeu as luzes em um canto da sala.

Com uma vastidão imensa, cheia de prateleiras de madeira escura, estávamos na biblioteca.

Meu coração congelou por alguns segundos e voltou a bater com toda a intensidade que podia.

Senti–me completa, pela primeira vez em toda a minha vida.

—É isso que venho escondendo. – Ele sorriu, então, em exaustão, seguiu para o meio da biblioteca.

O segui, achando um sofá velho de couro escuro e me sentando ao seu lado.

—Isso é... Não acho que há palavras no mundo para simplificar o que estou sentindo agora. – Sorri, perplexa.

Até os dias de hoje, não há palavras para aquele momento. Eu sabia que todos nós íamos nos colidir com um trágico acontecimento a respeito dos meus superpoderes e da chegada de América, mas aquele lugar fez e ainda faz tudo valer a pena.

América tocou as madeiras com cuidado, usando as pontas dos seus curtos dedos. Ela tocou sua testa nas longas prateleiras e respirou fundo, buscando alcançar aquele ultimo cheiro de casa que ainda poderia ter ali, mas, sem resultado, ela se jogou ao chão, sentada ao lado da última peça de madeira que achava que veria.

—Eu acho que aqui podemos ter algumas respostas. Não consegui ir em todos os livros ainda, sou só um e eles não seguem um padrão de organização. Tem vários outros simplesmente jogados no fundo da sala.

—Você acha que nós três vamos conseguir achar as respostas? – América observava o chão desolada.

—Nós dois, América. Você não está mais inclusa no pacote. – Respirei fundo antes de soltar aquelas palavras, que cortaram a minha garganta.

Caleb se virou bruscamente para mim, com os olhos arregalados e um tremor curto no mindinho.

—O que você quer dizer com isso? – A cabeça da ruiva se voltou para mim, em um movimento curto, mas demorado.

—Eu estava no hospital por sua causa, fiquei apagada por dias e você ainda pergunta? – Minha raiva inebriou as sensações de mundo ao meu redor.

—Eu não fiz nada. – Ela se levantou.

—Eu a vi fazendo. Antes de estar apagada eu era um ser humano relativamente normal e agora eu estou ouvindo os passos de todas as pessoas na nave, eu estou percebendo os sentimentos das pessoas, eu ouvi o que o Caleb estava pensando. Você fez alguma coisa comigo!

Minha voz irritada estava alta, assim como as minhas mãos que gesticulavam em tensão.

—Você ouviu os meus pensamentos quando? – Caleb juntou as sobrancelhas e se virou para mim.

—Eu tentei empurrar uma visão na sua mente e foi só isso. – Ela caminhou até a minha frente, parando com os braços cruzados.

—Não acredito em você, América. Porque iria querer que eu visse aquela cena horrível? Como um acontecimento não é ligado ao outro? – Levantei–me, parando a sua frente.

—Eu não sei! – Ela segurou minhas mãos.

—Você sabe! – A empurrei.

A ruiva caiu ao chão.

Não queria machucá–la, mas não podia fazer nada a respeito agora. Respirei fundo, tentando domar aquela explosão de sentimento que estava em meu peito.

—Você tem razão.

América se sentou ao chão e agarrou suas duas pernas. Prendeu o cabelo em um coque volumoso acima do cabelo e mordeu os lábios.

—O que está acontecendo aqui? – Caleb deu um pulo no mesmo lugar.

—Ela mentiu para nós, para nós dois. É uma rebelde, e nunca passaria disso. Vou reportá–la. Só precisava desta confirmação. – Suspirei, me sentando.

—Essa não é toda a história, Sky, e vendo tudo que já viu eu sei que você sabe disso. Isso não é sobre ser uma rebelde, sobre "superpoderes", é sobre fazer o que é certo. Vocês estão sendo enganados, vocês estão massacrando as pessoas da Terra e nada disso é certo.

—E você teve de nos enganar para isso? Eu me apaixonei por você!

Meus músculos tremiam em ódio.

—E eu por você! Você é tudo que eu desprezo! Eu tinha uma missão simples! Nem tudo é preto e branco como você imagina!

—Eu sei que está irritada, Sky, mas temos que ouvir o que ela tem a dizer. Afinal, não tem como ninguém sair ou entrar daqui sem a minha ajuda. – Caleb segurou minha mão direita, que sobrava ao seu lado.

Odiava ter de assumir isso, mas era a verdade.