Extraterrestre
18 Sentidos.
Rápida e lentamente, o nada começou a ser preenchido.
Mesmo de olhos fechados, eu conseguia perceber, de maneira intensa, toda a sala ao meu redor, usando meus outros sentidos. Além do estranhamento inicial pela aquela habilidade nova, o desconforto de tudo fazia meu corpo doer.
Havia uma luz no quarto, que me parecia um clarão forte e pesava meus olhos.
Havia um chiado que corroía toda a sala, ou todo o espaço dentro da minha cabeça, mesmo que não houvesse barulho algum. Tal som era diferenciado do repetitivo bip ao meu lado esquerdo. Tudo isso, fazia meus ouvidos pesarem.
Havia um cansaço latente que tomava conta de todo o meu corpo, mas pesava, especialmente, meus ombros.
Eu sabia exatamente quantas pessoas estavam no quarto e sua localização, sentia a dimensão do mesmo, o espaço de todas as coisas presentes ali. Tudo era claro em minha mente, fazendo com que tudo fosse absurdamente confuso.
Contraí-me em medo.
A pessoa que estava ao meu lado se moveu, indo em direção a mim. Pelo movimento, seu perfume emanou em toda a sala, era a minha mãe. Ela exclamou:
—Ela se moveu!
Aquela voz era reconhecível em qualquer lugar e, mesmo em uma situação daquelas. Com os últimos acontecimentos, o som não era mais agradável, me causava, na verdade, aversão.
—Ah, meu Deus, pode calar a boca? Minha cabeça está explodindo. — Reclamei, em instinto.
Virei para o lado esquerdo, oposto ao que ela estava e, com cuidado, abri meus olhos. Havia uma grande parede branca a minha frente, com algumas telas de computadores que mostravam sinais vitais encravados nela. Já havia visto aquilo dentro dos quartos da área hospitalar.
Meu coração acelerou, eu não entendia o que estava acontecendo, da mesma forma que tudo fazia um enorme sentido. América me olhando ao canto, a dor de cabeça, o incêndio, o nada. Os intervalos entre os bips ficaram mais curtos.
Virei-me para frente. Caleb e seus olhos apertados me observavam fixamente, o que me assustava ainda mais.
As pessoas ao lado de fora do quarto pisavam forte no chão, e com todos aqueles sentidos aumentados, a minha cabeça não aguentava todos os estrondos. A cada toque no chão, cada respirada, cumprimentada, minha cabeça abaixava, me fazendo balançar na cama ao som da música de cada pessoa na nave. Tudo era tão alto e perturbador.
—O que está acontecendo? — Segurei-me na cama.
Com os olhos, implorava respostas concretas ao meu irmão, que parecia entender muito mais sobre aquilo do que eu mesma.
—Você apagou. Estávamos conversando e você surtou, se descabelou, gritou, seu nariz sangrou muito até que você apagou. — O asiático se aproximou de mim e segurou minha mão, mas, claramente, me ver daquela forma estava o assustando.
Assim que nossa pele se juntou, Caleb ficou parado com os olhos escancarados, fitando o nada. Demorou alguns segundos para que eu notasse que algo estava errado e puxasse a minha mão para mim com violência.
Caindo para trás, ele se sentou em um sofá ao meu lado.
Eu só queria que aquele pesadelo acabasse, mas, a cada segundo, tudo parecia piorar.
O bip continuava mais rápido, meu coração parecia querer pular de dentro do meu peito.
—O que está acontecendo comigo? — Segurei a minha cabeça, que parecia rodar a cada segundo mais.
—Eu vou chamar o médico, Sky. Tudo vai ficar bem. — Os passos apressados da minha mãe a levaram para fora do meu quarto.
Respirei fundo e recuperei meus sentidos, ainda aumentados. Olhei fundo nos olhos do meu irmão assustado ao meu lado. Sabia o que fazer, sabia o que estava acontecendo.
—Caleb, eu preciso ver a América. — Esbravejei.
—Isso não está nos livros Sky. Eu procurei por alguma explicação por horas e ainda não tenho ideia do que está acontecendo conosco. Eu preciso pesquisar mais, depois do que você me mostrou. — Ele fitava o nada, com seus pequenos olhos bem abertos e a cara pálida.
—Caleb! —Gritei, fazendo com que ele se virasse para mim — América fez isso, ela tem as respostas, eu preciso vê-la. — Continuei irritada.
Era tudo tão claro para mim, como poderia não ser para ele?
—Do que você está falando? — Ele se reergueu.
—Quando eu apaguei a América estava em um canto me olhando. É claro que foi ela! Eu preciso vê-la! — Sentei-me na cama.
Queria sair dali, mas ainda estava com as roupas de hospital.
—Sua mãe nunca vai deixar ela entrar aqui, ela já tentou. — Ele suspirou.
—Como ela já tentou? Há quanto tempo eu estou aqui?
—Quatro dias. América já tentou te visitar, mas não passou da porta. Ela está preocupada, mas não tenho falado muito com ela.
—Eu não vou ficar aqui mais nenhum minuto. Preciso de roupas. — Levantei-me, virada para a parede branca com os computadores.
Não havia como continuar com aquilo. Eu precisava tomar algum rumo da minha própria vida, porque tudo sempre parecia ter sido decidido por mim.
—Eu estou vendo sua bunda! — Meu irmão começou a andar pelo quarto, procurando as roupas que sabia que estavam ali. — Você não pode simplesmente sair assim! Bateu a cabeça com força, estava desacordada há dias!
Ele parou no canto extremo do quarto, ao lado da porta. Lá havia um pequeno armário com as roupas que eu usava quando apaguei. Mesmo que repudiasse a ideia de eu sair pelos corredores, me trouxe as roupas.
Não havia como me controlar, e ele sabia disso.
Não havia a menor explicação para como eu sabia que a minha mãe já havia encontrado o médico e estava a voltar, podia ouvir a sua conversa, seus passos, sua respiração, há uma grande distância.
Virei-me para meu irmão, não havia tempo para discrições agora. Comecei a falar enquanto retirava tubos das minhas veias e artifícios colados em meus peito.
—Minha mãe está voltando, se quero sair daqui antes que ela me interrompa, tenho de correr. Eu vou trocar de roupa agora, não há tempo de você sair.
—O que você está dizendo?
Antes que conseguisse terminar completamente a frase, a roupa de hospital estava ao chão. Eu estava completamente nua a sua frente. A cabeça de Caleb gritou, tão alto que eu pude ouvir.
Enquanto deslizava para dentro do solto vestido, a voz dele contornava todo o meu corpo, com palavras sujas que me faziam querer correr dali. Não havia como controlá-lo, da mesma forma que não havia como me controlar.
Em segundos, estava vestida, assustada e enojada, mas tentando manter a forte compostura.
Porém, os gritos da cabeça do meu irmão haviam tirado a minha concentração dos passos ao redor da porta e, assim que ambos os meus pés estavam dentro dos sapatos, ela estava a porta.
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