Notas iniciais
Iniciando essa nova história, espero que gostem.

“E o mundo, recém-criado, perece com uma única criação. Não uma criação de Deus, ou de nada conhecido. Ela simplesmente brotou ali e milênios mais tarde poderia trazer a total extinção da maior raça de todas: a raça humana.”

Outubro, 2004

Era o mês dos ventos frios no Brasil, mas Aiden ainda estava de fora, na rua. Em seus quinze anos de idade, Aiden era um garoto sombrio. Sempre se achou melhor que todos os seus semelhantes, e se não fossem seus amigos, ele já estaria perdido em tantas trevas. Apesar de todo esse sentimento, por fora, ele era um garoto comum, cabelos castanhos e olhos verdes como a relva molhada pela mais fina e delicada garoa. Sentado em uma praça, perto de casa, Aiden podia ver, de um ponto estratégico, o por do sol de uma maneira encantadora. Duas montanhas cortavam o horizonte, deixando nos céus um grande V. E por coincidência, aquele era o exato ponto em que o sol se abaixava todas as tardes, como se estivesse sendo cortado por uma tesoura.

Para Aiden, aquilo era magnífico. Mas infelizmente sua visão maravilhosa é tampada por uma figura baixa, pouco menor que o próprio Aiden, que embora não era baixo, também não era o aluno mais alto da turma. Por ter ficado tanto tempo olhando para o sol, ele demorou um pouco para distinguir do que se tratava aquela sombra infernal que atrapalhara seu grande momento diário. Era Ana, uma amiga da escola. Ele não sabe como demorou tanto para reconhecê-la, afinal, não é qualquer garota que tem longos cabelos negros que alcançavam suas coxas. Mas ela não estava sozinha, ao seu lado, estava Bernardo, outro amigo, mas muito mais impaciente. Ele era um pouco mais robusto e mais nada. Nada característico, somente um garoto comum. E honestamente, Aiden não gostava tanto assim de Bernardo quanto gostava de Ana.

— Aiden, você não vai conosco? Vamos ao cinema, ver um filme que lançaram na última semana. – começava Ana, já um pouco impaciente.

— Eu sei que vocês vão Ana, já me disseram e me convidaram uma semana atrás.

— Então vamos, por favor, não se isole. Isso não é bom pra você, sabe disso.

— Deixa ele aí Ana, ele não quer mesmo.

— Isso Ana, faça como o Bernardo disse. Eu não estou com animo pra cinema. Quem sabe outro dia.

Vagarosamente, Ana se senta no banco do lado de Aiden, dando um sinal com a cabeça para Bernardo que logo entende o recado e deixa os dois a sós. Ana agora fazia perguntas com um ar um pouco mais preocupado, mas apesar disso, Aiden ainda fitava o resto de pôr do sol que ainda lhe sobrara, ignorando a presença de Ana por alguns segundos.

— Qual o problema? Faz dias que não sai de casa.

— Não tem problema nenhum. Eu já disse, eu estou bem.

— NÃO, não está não.

Ao ver o tom de preocupação daquele “não”, Aiden agora desvia seu olhar para Ana, e se assusta ao perceber que lágrimas começam a escorrer por seu rosto.

— Aiden, eu sei o que é isso. Minha mãe passou por isso um tempo atrás. Você se isola, não fala com ninguém, não se importa com ninguém. Eu não sei o que acontece com você quando está sozinho, mas não duvido nada que chore.

Rapidamente, Aiden a interrompe.

— Não, eu não estou depressivo.

E dizendo isso, Aiden volta seu olhar para o pôr do sol, e se sente entristecido por ter perdido a melhor parte, aquela em que a pontinha do sol, acaba de se esconder atrás das montanhas. Ele dá um suspiro decepcionado e se vira pra Ana, passando a mão por seu rosto.

— Olha Ana, eu estou bem. Eu não vou ficar depressivo, não se preocupe. Não sou do tipo que chora e você sabe disso.

Ana abaixa a cabeça, limpando as lágrimas o rosto com a palma das mãos. Ela realmente se importava com Aiden. Ela se lembrava das situações em que Aiden passava. Como na terceira série, onde garotos mais velhos a importunavam e Aiden simplesmente apareceu a ajudando a se livrar deles. Foi a coisa mais bela que alguém já fez por ela, e ela se sentiu grata e depois quis agradecer. Mas ela nunca viu como. Aiden era bom em tudo, nas matérias da escola, nos esportes, tudo que Aiden tentavam fazer, ele conseguia com um êxito inacreditável. Agora, essa era a chance dela de evitar que algo acontecesse com o amigo, mas infelizmente ela ainda não sabia que em alguns dias, não existiria mais Aiden para se ajudar.

O garoto então se levanta, estendendo o braço para Ana que se apoia no mesmo se levantando também.

— Não se preocupe, eu vou ficar bem...

— Nos vemos na escola amanhã pelo menos? – perguntava Ana, agora em um tom mais brando.

— É claro, você já me viu faltar algum dia de aula?

Os dois riem de leve e Ana se despede deixando Aiden sozinho por alguns segundos, mas logo ele se vira para o lado de casa e caminha em passos vagarosos, pensando na “conversa” que acabara de ter.

Deu de ombros, e acelerou o passo.

Os dias seguintes foram nada mais do que monótonos: escola, casa, escola. Aiden realmente não se importava em sair de casa para nada. Mas, assim como Ana, ele não sabia que tudo estava prestes a mudar. E seria naquela manhã de inverno, onde os termômetros marcavam temperaturas baixíssimas, inclusive para aquela época. Alunos e professores se vestiam com três ou quatro camadas de roupas, pois o frio ali era insuportável.

Era aula de matemática, que por sinal, Aiden também dominava perfeitamente, mais do que as outras matérias na verdade, até que o sinal tocou. Dezenas de alunos saíam afobados para a fila do lanche e a única coisa que Aiden conseguia fazer era ficar olhando e tentando descobrir se eles nunca haviam comido nada na vida. Entediado, ele resolve sair da sala e se dirigir até o pátio. Logo é avistado por Ana e por Bernardo, que acenam para ele sentar-se à sua mesa que tinha uma visão direta para o primeiro ginásio da escola, de piso amadeirado, destinado a jogos de basquete.

Embora nem metade de seu espaço fosse liberado no intervalo, a escola era bem grande, e nesse horário, os alunos se dividiam em três lugares: o refeitório, o pátio e as quadras do ginásio. Aiden estava no refeitório conversando com Ana e Bernardo quando de repente avista algo estranho. Olhando para o a primeira quadra do Ginásio, ele observava dois homens. O primeiro, bem alto, negro e algumas rugas no rosto, que, mesmo com a distância, eram perfeitamente visíveis por Aiden. O outro era consideravelmente menor que o primeiro, loiro e com um corte de cabelo bem organizado.

Daquela distância, Isso era tudo o que Aiden conseguia distinguir, embora fosse possível ver claramente que os dois estavam de ternos muito bem feitos e com certeza muito caros, o que dava aos dois estranhos a aparência de dois agentes do FBI de filmes clichês americanos, que por sinal, Aiden odiava. O garoto observava os homens mostrarem uma foto a outro aluno, que assim que observou bem a foto, apontava o dedo para o próprio Aiden. Os homens agradeceram, colocaram a foto no bolso de dentro do blazer e vagarosamente começam a andar rumo a Aiden, que por algum motivo, entrou em pânico. Rapidamente ele tentou se lembrar de tudo que aprontou nas últimas semanas, procurando algo para justificar aquelas presenças, mas não conseguiu encontrar nada. Na verdade, as últimas semanas foram as mais paradas da vida do garoto. Assustado, ele corre.

— Ei, onde você...

Aiden não teve tempo de ouvir o resto do grito de Ana, pois já estava metros de distância dela. Olhou para trás e viu que os homens corriam atrás dele. Com seu corpo magro, mas embora forte, Aiden se esquivava de todos os alunos que estavam na sua frente, mas o frio absurdo daquela manhã debilitava muito sua velocidade. O excesso de roupas pesava seu corpo que rapidamente se sentiu cansado, fazendo Aiden correr cada vez mais devagar. Mas mesmo com essas debilitações, o garoto era rápido e ágil, e não tardou até que chegasse aos fortes, mas trancados, portões da escola. Não viu outra opção: teria que pular. Olhando para trás, percebia que os grandalhões o estavam alcançando e rapidamente ele começa a escalar o muro, apoiando-se no grande portão, mas com a perna enrijecida, ele acaba prendendo a barra da calça em uma ponta de ferro e tentando se soltar, acaba se desequilibrando, caindo de cabeça no chão. Ele não sentia mais nada, suas vistas escureciam, viu dois pares de botas caírem bem ao seu lado, seus perseguidores, mas não suportou e desmaiou.

Notas finais
That's all Folks