Notas iniciais
Espero que gostem!!!

CAPÍTULO UM

As nuvens estão tomando conta de todo o céu, não há sol, está tudo nublado, como se a chuva estivesse prestes a cair. Mas eu sei que ela não vai cair. Não chove há mais de cinco anos e sei que não choveria agora.

Estou caminhando pelas ruas, silenciosa, o queixo erguido, habitual de minha pessoa. As ruas estão desertas e isso me incomodou em certa parte, mais do que o céu. As ruas sempre estavam lotadas de pessoas em buscas de comida e água e agora me pergunto o que aconteceu e o porquê de estarem me observando pelas frestas das janelas de suas casas. Olho para todos os lados, esperando encontrar algum soldado pronto para pular em cima de mim. Mas o toque de recolher ainda não foi soado e não passam das quatro da tarde.

Quando sai de casa, para encontrar algo para comer e beber a minha família, as ruas estavam cheias, cheias de crianças sujas e esqueléticas e de mães correndo atrás deles – sem contar aquelas que seguram seus filhos por seus braços finos firmemente, como se eles estivessem prestes a se quebrar. E quando volto, com dois pedaços de pão e uma pequena jarra de água, que consegui com a senhorinha bondosa mãe de um soldado Superior, as ruas estão desertas e as pessoas fecham suas casas como se o pior estivesse prestes a acontecer. Será que eu fiz algo? Impossível, faz duas semanas que eu não apronto nada. O mesmo número de semanas que os Superiores chegaram ao meu país.

Não consigo parar de pensar que algo vai acontecer e começo a correr em direção a minha casa o mais rápido possível. Enquanto corro passo por milhares casas, todas bem conservadas. São as únicas coisas boas que temos no país. Casas de material, nada desbotadas e todas limpinhas. As ruas também são algo que temos de bom, é de terra, mas quase não causa acidentes.

Quando estou prestes a chegar a minha casa, observo a porta da mesma se abrindo e minha mãe aparecendo. Ela está preocupada, consigo ver por seus olhos. Ela está vestindo um vestido florido e sem graça, já sem aquele toque perfeito que tinha quando era novo. Suas sandálias amarelas também estão velhas e prestes a se desfazerem, preciso encontrar algo melhor para ela logo.

Ela faz um sinal para correr mais rápido e é quando percebo que algo está errado, que algo está acontecendo. Corro mais rápido, “invado” o quintal de minha casa e corro para os braços de minha mãe.

“O que está acontecendo?”, pergunto assustada, olhando-a nos olhos, ela parecia não chorar. “O que está acontecendo?”

Ela apenas abre espaço para que eu entrasse em minha casa. O primeiro cômodo é a sala, não é muito grande, mas o suficiente para suportar um sofá de três lugares laranja, uma estante cheia de livros – que pertencem ao meu pai – e um aparelho de TV não muito atualizado.

Não há ninguém na sala, mas sei que meu pai e meu irmão – o restante de minha família – estão presentes na cozinha, prontos para comer o que eu havia trago. Minha mãe fecha a porta atrás de si e se dirige para a cozinha, a sigo com as coisas em mãos.

“O que está acontecendo?!”, repito, quase implorando por uma resposta. “Por que todos vocês estão assim?”

A cozinha também não é muito grande, mas deixa a mesa de quatro lugares em uma boa posição. Meu irmão está sentado na ponta da mesa, com seus cabelos grandes e lisos na altura do pescoço, ele não passa dos nove anos de idade. Meu pai está do outro lado, pouco gordo e com os cabelos já grisalhos, a pele enrugada. Ele envelheceu bastante desde o último ano.

Coloco as coisas em cima da mesa e minha mãe pega o pão e o divide em quatro pedaços – como faz sempre – e distribui para cada um de nós. Sento em frente a minha mãe.

“É bom quando consegue água fresca”, diz meu pai, tomando um gole da água que minha mãe lhe dera. “Mãe de um soldado Superior tem seus benefícios.”

Concordo com a cabeça.

“O que aconteceu dessa vez?”, repito mais uma vez, agora em um tom mais sério e com raiva. “Vocês todos estão estranhos, algo aconteceu, eu sei e vocês não querem me contar. O que os Superiores fizeram dessa vez?”

Minha mãe olhou séria para mim, mas em algum lugar de seus olhos eu sabia que ela tinha piedade por mim. Ela estava prestes a falar quando a televisão se ligou. A TV se liga sozinha sempre que algo importante é transmitido ou é repetido, para colocar bem em nossas mentes o que eles querem passar. Desde que os Superiores chegaram ao país, eles conseguiram o controle de todos os satélites, todas emissoras, tornando-as apenas em uma. Não há mais diversão, só há jornais atrás de jornais, repetindo as mesmas noticiais, a diferença é a voz que as narra.

Levanto-me do meu lugar e me dirijo para frente da TV, enquanto a mesma transmite imagens de todo o país. A voz ainda não iniciou. Começo a tremer e não sei o motivo, não consigo sentar no sofá, espero a voz começar e isso não demora muito a acontecer. É a primeira transmissão que vejo em três dias.

“Não há jeito...”, a voz me arrepia. “O mundo está um caos, doenças nos afligem... Não há cura. Há apenas uma saída, que pode acabar de vez com nossos problemas.”

Mamãe e papai aparecem na sala, eles me olham como se pedissem que eu saísse da frente da TV, não sei o que vai passar a seguir, mas não é nada bom. A Organização deu um ultimato e irá tirar nossa casa se não pagarmos?

“A Organização, junto com mais de trinta mil colaboradores ao redor do mundo, pedimos, em nome da Terra, que entreguem seus filhos adolescentes acima de quinze anos. Eles são os causadores, planejaram a Destruição...”

Percebo que minha está chorando. Nada é claro em minha mente ainda, não faço noção do que a voz quis dizer sobre “entregar”... Eu ainda tenho quatorze anos. O que está acontecendo?

“A lista de Extermínio está presente em todas as praças, em todo o país. Vocês têm um dia exato para a entrega.”

Minha cabeça parece estar girando. Isso não pode estar acontecendo. Está tudo confuso. O que é a Entrega? Falta um dia para o meu aniversário de quinze anos... Olho para os meus pais, meu pai me abraça sem um motivo aparente, minha mãe apenas chora em frente à porta da cozinha.

“O que significa isso?”, pergunto.

Meu pai funga e minha mãe não responde.

“Você está na lista, querida”, diz meu pai.

Eu olho para ele o interrogando. Ele percebe que eu não estou entendo, segura minhas mãos e me faz sentar no sofá com ele. Minha mãe se aproxima, sentando-se ao meu lado.

“Eu sei que você não entende,”, disse ele. “mas precisa entender que nós estamos com você. Vamos ajuda-la em tudo que puder, para que você fique a salvo e não precise ser... Exterminada.”

Eu solto as mãos dele e olho para minha mãe, ela iria me explicar melhor se não estivesse chorando. Limpo as suas lágrimas.

“O que está realmente acontecendo?”

“A Organização parece ter a resposta para a Destruição”, ela segura minhas mãos dessa vez. “E a culpa caiu sobre algumas pessoas... Jovens. É uma teoria idiota, afinal vocês não teriam idade suficiente para arquitetar um plano destruidor como este no ano da Destruição, mas eles acreditam fielmente nessa teoria.”

“Não estou entendo...”, sibilo.

“Você está na lista”, repete ela. “Você é uma das causadoras da Destruição e precisa ser eliminada. Você será assassinada em praça pública, Meredith, na frente de todos.”

Meu corpo se arrepia mais uma vez e tenho uma vontade estranha de chorar, não por minha morte, mas por minha família. Quem irá lhe dar comida quando eu estiver morta? Quem ajudará minha mãe em suas crises e controlara meu pai quando ele tiver seus ataques? E meu irmão... Quem o ajudara no meio desse mundo em que vivemos... Quem o ensinara a sobreviver?

“Sabemos que isso é complicado e que você não está entendendo,”, diz meu pai. “Não iremos a entregar, Meredith. Você não será assassinada, está entendendo?”

“Os Superiores estão por todos os lados, eles são fortes, irão nos achar no lugar mais remoto possível. Não terão como me esconder.”

“Você tem que fugir”, diz minha mãe, seu cabelo ruivo igual ao meu todo desgrenhado e sujo. “Fugir o quanto antes, antes de amanhã, você ainda não tem quinze anos, você tem apenas essa chance, uma única chance. Você consegue, Meredith. A criamos para ser forte, guerreira. Você consegue.”

Minha mãe pega uma das mãos de meu pai e me faz segurar a outra, eu ainda seguro a dela. Nossas mãos estão ligadas. “Nós conseguimos”, ela diz, uma lágrima escorre por sua bochecha.

Não consigo comer. As lágrimas não me deixam, elas invadem o meu pedaço de pão e o deixam molhado, nojento. Meu irmão me observa como se não entendesse nada, é bom ele não entender. Meus pais também me observam, eles sabem do que está acontecendo e do que vai acontecer comigo. Eu não sei qual é o plano deles, mas sei que não vai dar certo. O meu país é o que abriga o maior número de Superiores, de todos os tipos, sexos, idades, e todos eles são igualmente fortes. Foram treinados para nós barrar e nos executar, agredir. Eles são a força da Organização. Não há como fugir deles, pelo menos não vinte deles. Eles não atacam sozinho, pelo contrário, atacam em grupos de dez. Nessas ultimas duas semanas, quando eles chegaram a minha região, eu já vi coisas horrendas; mulheres sendo espancadas; crianças sendo levadas para longe de suas casas e depois aparecerem mortas; idosos levados para testes nas Centrais, como ratos de laboratório; adolescentes sendo testados por um motivo desconhecido...

Não sei qual a finalidade da Organização em nos matar, não sei o que vai acontecer após a chacina, só sei que muitas famílias iram sofrer muito com as perdas, iram querer ser mortas junto. A Organização é algo perversa que não mede esforços para fazer o mundo pior do que já é na finalidade de transforma-lo no que ele era antes. Eles estão errados no que estão fazendo, eles não estão cumprindo a sua finalidade, o mundo está regredindo, ele não está se transformando naquela maravilha que vejo em fotos de vinte, trinta anos atrás. A Organização não faz nada bem ao mundo.

Desisto de ficar na mesa e me dirijo para o quarto, onde dormimos eu e meu irmão. Há apenas uma cama, onde nós dois nos juntamos à noite e nos esquentamos com o calor corporal. O frio é intenso à noite e se dormíssemos em camas diferentes era capaz de meu irmão congelar a noite, temos que ficar juntos.

O quarto é como os outros cômodos: apertado e pequeno. Existe apenas uma cama e uma pilha de roupas no mesmo, apenas isso e nada mais. As paredes estão descascadas, revelando a verdadeira cor por baixo da tinta branca velha. Fecho a pequena janela de madeira, para que o frio que já se intensifica não entre e me jogo na cama, onde deixo as lágrimas inundarem meu travesseiro a ponto de ter que atira-lo para longe por já me sentir com nojo do mesmo, nojo de mim de fazer isso com minha mãe e meu pai, nojo de não poder fazer nada para me ajudar e ajudar a eles. Eles têm um plano, eu sei. Não poderão me esconder, iram nos achar. Não poderei fugir, irão me capturar. Se me intrigar, serei morta e eles morreram de fome logo depois. Estou em um beco sem saída.

Eu adormeço e acordo horas mais tarde. O céu já está mais escuro do que antes, não existe uma pessoa na rua. Os postes de luzes estão desligados, mas consigo ver soldados Superiores rondando as casas, as barreiras de metal que circundam nossa cidade. Não podemos sair, estamos praticamente trancados. Em volta de toda a cidade há paredes de metais impossíveis de serem derrubadas e os que conseguem chegar até o alto dela – algo impossível em relação aos mais de sessenta metros de altura – é assassinado por tiros, vindo de várias direções, ou é eletrocutado. Em cada canto das paredes existem vigílias de três ou quatro homens, tais vigílias ficam nas mesmas alturas do pico dos muros e são eles quem atiram nos “alpinistas”.

Certamente o toque de recolher já bateu e é impossível sair de casa em uma hora dessas, já passadas das sete da noite. Minha casa está silenciosa e sei que todos já estão na cama, inclusive meu irmão, que acabo de sentir em minhas pernas. Levanto-me no escuro, tateando pelo quarto até achar a maçaneta da porta. A fraca luz do corredor invade meus olhos. O corredor está vazio e a porta do quarto de meus pais está fechada. Os vidros das janelas da sala estão fechados, mas a cortina continua ao lado da mesma, dando a visão da casa ao lado. A porta está fechada com a grande estaca de madeira que se inicia ao lado da porta e acaba do outro lado, presa a dois encaixes de metais, sem contar a grande fechadura que também está trancada. Não é a mais segura das casas, mas eu me sinto bem aqui, me sinto segura.

Estou prestes a desligar a luz da sala, que minha mãe insiste em deixar ligada todas as noites, quando escuto um chiado. Olho direto para a televisão, mas a mesma não havia se ligado sozinha. Dirijo o olhar para todas as direções, tentando encontrar o criador do som. Depois de alguns segundos procurando e revirando a prateleira, estou certa que o som vem do lado de fora. Estou com medo de ligar a luz do pátio e me deparar com vários soldados em minha casa, mas também tenho medo de não ligar e colocar a minha família em risco.

Um estalo em minha cabeça. Lembranças de alguns dias atrás. Meu coração pula dentro de meu peito. Dou dois passos para trás, mas não dá tempo. A esfera prateada invade nossa casa pelo vidro de uma das janelas. Corro em direção ao corredor, rezando para que tenha tempo. Esmurro descontroladamente a porta do quarto de meus pais e adentro o meu. Acordo meu irmão e o levo para um dos cantos do quarto. Ele acorda atordoado.

“O que foi?”, ele pergunta. Consigo ver seus olhos verdes com medo pela luz do corredor que entra no quarto.

“Vai ficar tudo bem”, respondo, o abraçando o mais forte possível, como se ele fosse a última comida que existisse no mundo.

Escuto a porta de meus pais sendo aberta. É quando o chiado fica pior, mais alto, e eu sei o que vai acontecer a seguir. Um clarão invade toda nossa casa e tudo é jogado pelos ares. Meu irmão grita e a única coisa que posso fazer para ajuda-lo e o abraçando. Não escuto as vozes de meus pais, não sei o que está acontecendo.

A parede direita do meu quarto é explodida e me jogo em frente ao meu irmão, protegendo-o e sentindo a dor tomando conta de meu corpo. Escuto um grito. É de minha mãe.

“Fique aqui”, digo. “Eu peço que não saia daqui, Jon.”

Ele concorda com a cabeça, não fazendo ideia do que está acontecendo, como ele nunca está. O beijo das testas, digo que vai ficar tudo bem novamente e saio correndo do quarto.

Não existe mais casa. A mesma está totalmente destruída. Os poucos móveis da sala, cozinha e quarto de meus pais não existem mais. Chamas se alastram pelo que restou da casa. Choro ao perceber que o único lugar não afetado drasticamente fora o meu quarto. Começo a procurar por meus pais no meio dos escombros, enquanto consigo ver a silhueta de vários soldados, segurando armas, em volta da casa. Não consigo ver seus rostos por conta da escuridão e também sei que eles não conseguem ver o meu. Isso é uma boa chance para agir sem que eles saibam quem sou.

A única coisa em minha cabeça é a segurança de meu irmão, mas de repente começo a me perguntar o porquê da bomba. É a terceira vez que uma casa era destruída em minha cidade, todas por motivos desconhecidos. E todas as casas tinham adolescentes de minha idade prestes há completar quinze anos... E uma dessas casas era de meu primo... Ele desapareceu depois da explosão. Grito a plenos pulmões quando penso em nunca mais ver meu irmão. Isso não pode estar acontecendo, isso não pode acontecer.

Algo encosta-se a meu ombro e me afasto rapidamente, achando que seja algum dos soldados, mas é minha mãe toda machucada e com sangue pelas roupas e corpo. Eu a abraço.

“Onde está papai?”, pergunto.

Ela começa a chorar e eu já sei o que aconteceu. Eu olho em todas as direções e percebo que os soldados estão se aproximando pouco a pouco, suas roupas escuras e cheias de proteção.

“Corre, para o meu quarto!”, grito a minha mãe. “Jon precisa de você.”

Ela compreende, mas fica um tempo em minha frente. Não sei o que está acontecendo. Ela não parava de chorar. Quando toco em suas mãos que percebo que ela segura algo. Uma adaga toda arquitetada e com detalhes em ouro. Eu observo-a surpreendida. Era do vovô.

“Mas...”, digo, confusa.

“Pegue”, diz. “Faça o que puder para se proteger, o que tiver que fazer.”

Ela pisca para mim e corre em direção ao meu quarto. Olho em volta mais uma vez. Sei que não dá mais tempo, preciso fazer algo. Os soldados estão se aproximando de mim por um motivo desconhecido, outros se encaminham em direção ao quarto onde está o resto de minha família.

Preciso fazer alguma coisa.

O primeiro soldado a se aproximar parece estar seguro de que conseguirá me pegar. Corro em direção, quase tropeçando nos destroços e ele me segue. Mudo o rumo, me dirijo para a rua. Escuto o som de passos pesados de mais alguns três. Eu estou quase cercada.

Vejo o carro deles, vazio, estilo um furgão, revestido pelo que parece o revestimento de tanques de guerra. Meu pai me ensinou algo sobre dirigir carros. Eu corro mais rápido e consigo alcançar o furgão. Seguro a maçaneta da porta com força, mas a mesma é muita pesada e não consigo a abrir. Os soldados estão se aproximando...

Caio no chão. Algo me atingiu na cabeça. Olho para cima e observo um grande capacete negro. Sei que a pessoa por baixo daquele capacete está me encarando, a encaro também. O soldado me chuta e eu tento me levantar, mas outro chute já suficiente para cair novamente.

Olho para o chão, em busca de minha adaga. Seguro-a com toda a minha força do mundo e me ergo. Quando o soldado está prestes a me jogar ao chão novamente, me afasto. Respiro fundo e com um impulso eu lhe desfiro um golpe com a adaga no braço em que segurava sua arma, não sem antes a mesma disparar. O tiro pega de raspão, mas sinto uma dor em meu ombro. O Soldado cai e eu consigo pegar sua arma. Todos os soldados param onde estão, até mesmos os a cinco passos de mim. Eu os aponto e antes que eles pudessem arquitetar um plano eu dou a volta no furgão e saio correndo em direção ao nada, em direção ao muro mais próximo, os quase duzentos metros de distância nos separando. Escuto-os gritando e tentando vir correndo atrás de mim, mas eu sou rápida, muito rápida. Mais rápida que três deles juntos.

Escuto o som de tiros e me escondo em meio a uma grande quantidade de mato, impossibilitando que eles me vissem. Paro um segundo e respiro fundo, esperando que eles não tenham me seguido. Jogo-me no chão, suspirando e com vontade de esmurrar tudo que estivesse na minha frente; apenas pastagens e mais pastagens.

Não me dei conta em que momento eu adormeci, apenas acordei com um som irritante, de metal contra metal. Abro os olhos, assustada, tentando pegar a arma ao meu lado.

Quando por fim me levanto, tentando segurar a arma firmemente, a pessoa que produzia o som e que certamente me observava já havia se afastado um dez passos. Era um garoto. Alto, forte, os cabelos castanhos escuros, não conseguia ver a cor de seus olhos. Ele usava roupas simples: uma calça jeans velha, camiseta de manga curta cinza e rasgada no ombro e tênis que pareciam ser usados. Apesar de suas roupas simples, em uma de suas mãos carregava uma grande lança com detalhes em prata, que não parece nada simples. Na outra mão, uma grande pedra servia como amolador para a sua lança.

Aponto minha arma bem em seu peito.

Ele parecia preocupado em um momento, quando levantei bruscamente, mas agora ele olhava com um sorriso maroto nos lábios, seus olhos brilhavam. Eu não entendia o motivo do riso.

“Você não pode me matar”, diz ele, ainda sorrindo, dentes perfeitamente cuidados e brancos reluzindo.

Eu reviro os olhos.

“Você não é um super-herói e não está com colete, eu posso lhe matar sim”, retruco pronta para apertar o gatilho em meu dedo.

Ele se aproxima. Tento parecer o mais ameaçadora possível com a arma, mas ele não para de se aproximar, como se não tivesse medo da arma que segurava.

“Está sem balas”, diz, apontando para um pequeno painel na arma que não havia percebido.

A arma era grande. Toda preta e parecia uma versão pequena de um carro. Tinha apenas um gatilho, mas mais de três furos para balas, todas deviam ser acionadas com o aquele único gatilho. Era tinha suporte para segurar com uma ou duas mãos em sua parte inferior. Em cima, uma mira precisa. Logo ao seu lado um painel com algumas informações, uma delas a quantidade de balar; nada.

“O que você pretende fazer?”, pergunto com certo receio na voz.

Era impossível isso estar acontecendo. Estou na presença de um garoto forte, com uma lança afiada capaz de me empalar em poucos segundos e tenho uma arma sem balas. Procuro pela adaga de meu avô com os olhos pelo local, ela não está, nem em meus bolsos – lugar que eu nunca colocaria. Como pude perder...? Ainda tenho essa arma, posso agredi-lo com ela.

“Eu não vou machucar você”, ele diz, me entregando algo de dentro do seu bolso.

Olho para suas mãos e meu coração começa a bater rapidamente quando percebo que é a adaga de meu avô.

“Você perdeu àquela hora”, referia-se ao momento em que eu machuquei o soldado.

“Você está me observando desde aquele momento?”, indago assustada.

“Estou te observando desde o momento em que os Superiores chegaram a sua casa.”

“Então você sabe por que eles quiseram me matar?”

“Infelizmente, não.”

Eu largo a arma no chão e pego adaga de sua mão. Arrepio-me ao tocar em sua mão incrivelmente quente.

“Quem é você?”, pergunto.

“Lin, Meredith.”

Eu o olho, assustado. Não quero perguntar como ele sabe o meu nome, tenho medo do que ele pode dizer. Prendo minha adaga em meu cinto e estou pronta para me distanciar, para ir mais em direção ao muro – lá é um pouco mais seguro – quando ele me segura e me faz ficar.

“O que você quer?”

“Você precisa voltar.”

Ele indica com os olhos a minha casa. Agora com a “luz” da manhã é mais fácil toda a destruição causada pela bomba.

“Mas...”, tento argumentar.

“Que horas são?”, ele pergunta.

“Deve ser seis, mas...” eu percebo o que ele quer com isso.

“Você sabe o que vai acontecer daqui a pouco?”, ele pergunta me olhando com aquele mesmo sorrisinho no rosto.

“Troca de turno.”

Notas finais
!!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.