Extermínio
1 Destruição em massa
Notas iniciais
Chuva.
Medo.
Agouro.
É bem interessante como as pessoas conseguem ficar paranoicas em uma tarde chuvosa, a maneira como tendem a se esconder debaixo das cobertas, fingir que o mundo lá fora não existe e compulsivamente se fechar em seu próprio mundo perfeito.
As pessoas tem medo da chuva.
As pessoas tem medo de mim.
Não de jeito ruim é claro, mas elas me temem, temem a minha inteligência, temem o meu olhar, temem a minha presença.
Novamente não como um todo, ainda existem aqueles que de tanto me temerem me importunam, me xingam, e me odeiam. Esses eu classifico em uma única categoria: Os que me amam.
Aqueles que de alguma maneira conseguem enxergar além da face sem expressão, aqueles que tentam a todo custo trazer o remanescente de humanidade que ainda existe em mim. Aqueles que são tolos e ainda perdem para a suas emoções.
Mas não é como se eu os odiasse, na verdade não há muitas pessoas nessa categoria, para ser sincero há somente dois cujo tempo é gastado com uma falha como eu.
Falha? Vocês devem se perguntar.
Eu não diria falha, mas um ser humano como eu pode ser encarado como uma falha diante a sociedade, uma aberração, algo que novamente deve ser temido.
Mas por incrível que pareça, eles não me odeiam. Me acolhem, me entendem, mesmo que não seja do jeito mais correto.
— Você não vem? – Questiona Matt, as orbes claras em contraste com a pele bronzeada realmente não combina com a paisagem chuvosa de Winchester. As mãos brincam desajeitadamente com o game boy envelhecido, no rosto está estampado um grande sorriso. É, ele realmente não combina com nada aqui. — Roger já nos chamou há cinco minutos.
Balanço a cabeça, os olhos fixos na grande janela de vidro, concentrado nos pingos que iam e vinham sem padrão algum.
— Eu não gosto de filmes. E de pipoca. E de escuro. – Respondo simplesmente, Matt não esperava outra resposta, deu ombros, sendo puxado grotescamente por uma mão impaciente.
— Vamos Matt... – Mello se interpõe entre nós, as íris azul-anil me encarando em total desgosto, não era como se me amasse, mas também não era como se me odiasse. — Ele realmente não sabe o que está perdendo.
É, eu definitivamente não sei. Gostaria de saber, gostaria de querer ir até lá, e me aconchegar ao lado deles, sorrir com as piadas toscas contadas por personagens toscos em filmes toscos, mas não via razão naquilo. Mello também não via, Matt também não, no entanto faziam o máximo para fingir serem normais, porque essa era a graça de viver.
A chuva passou, o céu deu espaço a algo que eu não gosto nem de citar o nome.
Odeio o sol.
Sim, e eu poderia fazer uma longa lista de motivos para eu odiá-lo, todavia só o fato de ele ser o centro de algo me dá náuseas. Eu sou o centro de algo, na verdade sou o primeiro na linha de sucessão ao L, e eu não dou a mínima para isso.
É como bater um recorde só por tentar a maratona sabe? Você só quer se divertir e curtir o momento, mas não sabe como.
Lastimável.
Ouvi a voz de Roger me chamar, eu já deveria estar naquela posição havia um tempo, então fiquei feliz em segui-lo até a sala do diretor.
Mello já estava lá, desta vez os olhos possuíam uma aura diferente, alegria eu diria. Posso jurar que ele acabou de bater em alguém, e ele gostou disso.
Mello é como a lua, não possui brilho próprio, no entanto é mais bela que o sol.
— O que aconteceu, Roger? – Indagou com certa euforia, as mãos impacientes pediam ao lado do corpo, em uma dança descompassada com a melodia de sua voz.
A noticia foi dada, a felicidade desfeita, o choque ganhou a cena. Não era como se eu já não soubesse há muito tempo. L estava morto, Watari também, e agora nós deveríamos trabalhar juntos.
Juro que imaginei que ele diria sim, mesmo que fosse para me aturar, ser o novo L era seu sonho, seu objetivo.
Mas aquele não mordaz despedaçou-me um pouco, senti como se eu tivesse perdido uma peça de meu quebra cabeças pessoal.
Mello não queria ser a Lua, ser o sol era a sua vida, e o Sol não divide espaço com ninguém.
Senti meus pés caminharem por vontade própria, querendo de alguma maneira se agarrar a ele, mantê-lo ali por perto, perto de mim. Desde quando eu precisava tanto dele assim?
— Não vá, por favor... – Minha voz enfim saiu alta o bastante para ser ouvida, mesmo que ele se encontrasse há alguns metros de distancia. Parou, as costas viradas para mim. — Eu não quero que vá.
Eu não queria?
Não, definitivamente não, eu poderia ser a Lua se ele quisesse, poderia ser até mesmo Plutão, se pudesse ficar perto de sua luz.
— Não há nada que você possa fazer a respeito disso. – Soou meio ríspido, mas pude ver que ele também não queria ir. Entretanto seu orgulho mandava isso, ele tinham que ir, ou seria o perdedor.
Seus passos ecoaram cada vez mais próximos, até que parou em minha frente, as mãos em meus ombros pareciam pesadas demais para se aguentar, ainda sim eu queria ser forte o bastante para carrega-lo.
Colou seus lábios nos meus.
A imperfeição.
A lástima.
O medo.
E a estigma.
Eu sabia a verdade, tinha medo de ama-lo e por isso era fraco, ele me odiava e por isso era forte.
— Nunca se esqueça... – Sus voz saiu alguns decibéis mais alto, fazendo-me encara-lo. — Eu te odeio, e sempre vou te odiar, isso não vai mudar, mas eu também te amo. E talvez seja esse o motivo de ter vencido até agora.
— Mas um dia, sim um dia, eu vou te destruir Nate River, e não há nada nem ninguém que irá me impedir.
Saiu em passos lentos.
Acabado.
Então é isso que chamam de amor selvagem?
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