Exspectare
5 CAPITULO 5
A mesa da frente agora é ocupada por Fin e, quando ele não está sentado lá, ela fica olhando, quase conseguindo ver Elliot nela.
Ela está bem. Está ótimo, na verdade. Nem parece que um pedaço dela esteja faltando, como um membro fantasma que fez todos os dias há quatro meses. Ela sabe que ele vai voltar, vai voltar para ela, mas é impossível não sentir medo. Quando pediu espaço, sabia que esse tempo não seria longo e que a troca de parceiro seria temporária. Ela até recebeu uma proposta de Dana Lewis para se infiltrar, mas não conseguiu. Elliot tinha decidido pela transferência, e a delegação necessária dela. Não havia menor possibilidade de sair.
Ela precisa se concentrar nesse caso e parar de pensar em Elliot como se ele ainda estivesse ali, sentado, prestes a perguntar se ela quer mais café.
Ela vai para o quadro de pistas, olha pela milésima vez para fotos, anotações e linhas vermelhas que tentam conectar algo. Ela para o olhar na imagem de Leo, montada pela mãe a partir de duas fotos, uma em que ele usava uma camiseta vermelha do Flash e outra com uma calça jeans simples, comum. Ele fugiu de casa para assistir ao festival de música do bairro e não voltou para casa. Havia cinco mil pessoas e, mesmo assim, ninguém viu nada.
Ninguém nunca vê nada.
Fin surge do corredor, tirando-a dos pensamentos. "Liv, temos que ir. Munch conseguiu identificar um carro nas rodovias do vizinho."
Era o único lugar próximo à casa de Leo onde havia câmeras direcionadas para a rua e que guardavam uma semana de gravação antes de o sistema desligar automaticamente.
Eles nesse caso há duas semanas. Duas semanas andando em círculos, tropeçando em coincidências que não levam a lugar nenhum. Quase todas as câmeras no trajeto de Leo foram quebradas, algumas semanas antes do sequestro e outras três dias antes.
Fin continua,“esse carro passou várias vezes em frente à casa por uma semana.”
“O que você acha?”, pergunta Olivia.
“Se esse carro não nos leva a lugar nenhum, eu não sei mais como encontrar outra saída para esse caso. O garoto sumiu no meio de um festival com mais de cinco mil pessoas e, para ajudar, não havia câmeras. Não é querendo ser pessimista, mas…”
"Ah, qual é? Você quase nunca é pessimista", ela ri, revirando os olhos em seguida.
"Pessimista, não. Realista. Esse caso vai ser difícil", respondeu ele.
Fin é um ótimo parceiro. Ele não pergunta demais e é sempre realista, quase nunca deixando que um caso mexa demais com ele, bem diferente do parceiro dela, que provavelmente estaria mergulhando de cabeça nesse caso. Ela sente falta de trabalho com Elliot o tempo todo, mas, no fundo, se sente aliviada por não tê-lo aqui. Casos com crianças sempre foram muito pessoais para ele.
Em todas as vezes que veio ao bairro de Leo, Olivia sentiu uma sensação estranha. Ruas tranquilas, tudo parece igual, nada chama atenção. Vizinhança totalmente alheia ao que acontece fora de casa, a maioria não sabe se mora alguém na casa ao lado.
Eles começam a bater nas portas.
“Bom dia, eu sou a detetive Benson, este é meu parceiro, Fin Tutuola.”
Um homem com aproximadamente 70 anos abre a porta.
“Vocês de novo?”
Fin suspira, cansado. “Olha a gente aqui outra vez. Queríamos saber se o senhor viu esse carro na vizinhança.” Ele entrega a foto de um fusca azul.
O homem olha a foto rápido e devolve “Não lembro, espero ter ajudado.” Fecha a porta em seguida
“Vizinhança simpática, como sempre”, Fin comentou.
“Além da falta de cooperação, essas pessoas são desconectadas e sem nenhum senso de comunidade.” Olivia comenta olhando ao redor.
“Isso não é fora do comum Liv” ela sabe que ele tem razão.
“Eu sei, onde fui criada não era muito diferente mas esses bairros eles foram projetados pra que exista uma comunidade”
“Talvez coincidentemente um grupo de anti sociais antipáticos resolveram morar nas mesma rua” Fin diz convicto que faz olivia rir
“Vou me convencer com sua teoria”
Vinte casas depois, nada concreto. Só respostas vagas, hesitações, aquela sensação incômoda de quase lembrar.
“Essa é a última da rua”, diz Fin. “E eu me lembro dela… desta vez você conversa com ela.”
“Tá bom”, ela responde com um meio sorriso. Aquela mulher fez Fin ouvir por minutos a fio sobre os adolescentes que arrancaram suas flores.
Antes deles chegarem ao portão uma senhora surge entre os arbustos.
“Olá, detetives. Posso ajudar?”, responde ela em tom seco.
Olivia se aproxima. “Talvez, viu esse carro na semana em que Leo desapareceu ou recentemente?”
A senhora pensa e responde. “Na semana em que o garoto Leo desapareceu, eu quase não saí de casa… mas, nas duas vezes em que fiz caminhada…” as palavras de Elliot no primeiro ano de parceria deles vem a mente de olivia “Idosos, dependendo do estado de saúde, quase sempre são boas testemunhas; o único obstáculo são os devaneios antes de chegar, de fato, ao ponto que queremos”. a senhora continua “…parei para colocar no lixo duas garrafas que esses vândalos jogam na rua…”
Fin e Olivia trocam um olhar rápido. Paciência.
“A senhora viu o carro na volta para casa?”, Olivia direciona, gentil, mas firme, e a senhora confirma com a cabeça.
“Sim. Estava quase em frente à casa dos Ramirez... e tinha um homem dentro, mas não me perguntem como ele se parecia. Não tenho uma boa visão.”
Olivia sente uma pontada de esperança.
“Só um homem?”
“Como eu disse, sobre a minha visão... Olha, eu tenho que cuidar das minhas plantas.” Fin vira de costas e sorri, desgostoso.
“Tudo bem. Este é o meu cartão. Se lembrar de algo, pode me ligar.” Olivia estende a mão para oferecer o cartão, mas a senhora a interrompe.
“Você já me deu dois desses antes. Vocês acham que ele está vivo? Sinceramente, depois de todos esses dias?”
Olivia queria gritar.
“Sim, temos grandes chances de encontrá-lo vivo.” A falta de empatia é muito comum, mesmo quando envolve crianças.
Olivia realmente acredita que Leo pode estar vivo. Não existe um padrão de dias para definir quando uma criança desaparecida pode estar morta. Se não existirem pistas levando para esse caminho, o pensamento tem que ser sempre positivo. Elliot disse isso a ela em seu primeiro caso de desaparecimento.
Eles voltam caminhando para o início da rua, onde estacionaram o carro.
“Isso não é suficiente, Liv”, Fin diz.
“Eu sei”, ela responde, frustrada. “Um carro parado há dias no mesmo lugar e, ainda assim, consegue ficar invisível.” Olivia cruza os braços e olha para a rua. “Se esse Fusca esteve aqui por uma semana, talvez não tenha sido a única vez que ficou parado em algum lugar.”
Fin abre a porta do carro. “Temos que falar com Cragen.”
Cragen tem sido rígido para que a investigação foque no festival.
“Talvez, com essas fotos, a gente consiga mudar mais o foco da investigação”, diz Olivia.
No momento em que estão entrando no carro, uma mulher se aproxima deles.
“Olá, detetives. Vocês devem ter passado em casa. Eu estava fora. Fui buscar algo que pode ajudar.”
Ela entrega um pequeno envelope. “Essas são as fotos que revelei da minha câmera digital da noite do festival.”
“Como é seu nome?”, Fin pergunta, estendendo a mão para cumprimentar a mulher e olhando para Olivia, que abre o envelope com pressa.
“Jane, não tem nada sobre o Leo, contudo, achei que vocês pudessem ver algo que importasse.”
“Você fez bem”, diz Olivia, sorrindo e entregando a Fin uma foto com o Fusca ao fundo.
“Menino Leo é um pestinha. Sempre jogava pedras nas janelas dos vizinhos, mas na minha ele nunca jogou... Acho que porque gostava do meu gato, Torresmo”, disse a mulher, com pesar.
“Você ajudou muito. Você tem nosso contato?”, Olivia pergunta, e Jane acena.
O retorno à delegacia foi esperançoso. Agora que tinham a prova de que aquele carro saiu da rua e foi para o festival, restava Cragen concordar em focar a investigação no veículo, não apenas nas pessoas no festival.
Olivia bate duas vezes na porta do escritório e entra sem esperar resposta.
Cragen levanta os olhos para ela.
“Diga que vocês têm algo.”
Olivia troca um olhar rápido com Fin antes de falar. “Temos um carro.”
Cragen diz, pegando o envelope que Fin entrega a ele:
“Um carro?”
“Um Fusca azul. Ele ficou rondando em frente à casa da vítima por uma semana inteira antes de quebrarem as câmeras e, segundo essas fotos, também estava no festival”, Fin diz.
Cragen recosta na cadeira.
“Um carro não é o suficiente vocês sabem. Vocês precisam confirmar com a vizinhança.”
Olivia dá um passo à frente.
“A maioria não lembra ou nem percebeu, mas uma vizinha lembra de ver o carro perto da casa dos Ramirez. Ele estava lá antes do desaparecimento. Tempo suficiente para observar a rotina.”
Silêncio.
Cragen tamborila os dedos na mesa, olhando as fotos.
“Vocês têm a placa?”
Olivia aperta os lábios e responde:
“Não.”
Cragen levanta as sobrancelhas. “O que vocês querem fazer?”
“Queremos o carro como suspeito”, Olivia diz. “Cruzar estacionamentos, multas, câmeras de trânsito, qualquer registro, e ver onde mais ele apareceu.”
Fin acrescenta.“Se ele ficou uma semana em um lugar... ele pode ter ficado em outro.”
Cragen inclina a cabeça, ainda hesitante. “Isso é muito recurso de tempo para uma aposta.”
Olivia sustenta o olhar. “Não é aposta.”
“É a única coisa consistente nesse caso”, Fin diz.
O silêncio de Cragen se estende. Ele olha para as fotos, depois para o quadro do lado de fora. Em seguida, volta para eles.
“Ok”, ele fala, finalmente. “Mas continuem entrevistando as pessoas no festival.”
Eles começam pelas câmeras de trânsito. Primeiro, os cruzamentos mais próximos da casa de Leo, depois, as avenidas que ligam o bairro ao resto da cidade. Horas de gravação são condensadas em minutos acelerados, e eles identificam o carro, mas a placa é quase impossível de ver.
Três dias antes do desaparecimento, o Fusca passa devagar pela rua da vítima, como se estivesse procurando algo ou observando. O horário é irregular, sem um padrão claro. Depois, de novo, outro trajeto, outro horário.
Eles marcam cada aparição e criam uma linha do tempo. Tentam prever o próximo movimento, mas não há um padrão.
Câmeras comerciais, mercados, farmácias, lojas de conveniência. Pedem acesso a tudo dentro de um raio de vários quarteirões. A qualidade varia. Algumas imagens são nítidas, mostrando a lateral do carro; outras, granuladas, borradas, inúteis. E elas são sempre assim quando a placa deveria estar visível.
O Fusca surge sempre indo para a rua de Leandro e saindo. Passando ao fundo de um estacionamento.
Eles seguem para estacionamentos privados.
Listas de entrada e saída. Registros digitais. Tickets físicos. Horários cruzados com as aparições do carro.
Nada, nenhum Fusca nunca parou lá.
Pedágios, se o carro saísse da área, teria que passar por algum, mas não há correspondência. Ele não passou por lá e, por isso, eles voltam para as ruas, refazendo o caminho a partir das últimas imagens, com o mapa aberto, linhas sendo traçadas e possíveis rotas desenhadas e redesenhadas.
O Fusca aparece com mais clareza em um ponto específico, uma rua lateral próxima ao festival. Depois, dobra à direita e é captado por outra câmera duas quadras depois. Segue em linha reta, passa por mais uma câmera e, então... nada.
O trajeto continua no mapa, mas não nas imagens, pois nenhuma câmera seguinte registra a passagem e nenhum estabelecimento próximo tem gravação útil.
Olivia passa horas demais olhando telas, como se a insistência pudesse criar respostas.
Mas não cria.
Eles voltam à estaca zero, com apenas uma dúzia de pessoas que não sabem de nada.
Dois meses depois
“Seis meses.” Elliot vai para o lado direito da sala de onde acabou de voltar. “Como eu aguentei seis meses?”
“Você pensou nos hobbies que te sugeri?” Elliot tem sido resistente, mas Jeff precisa ser mais paciente.
“Não quero fazer a maioria das coisas que você citou. Metade precisa que eu dirija por pelo menos uma hora.”
“Elliot, mesmo que você não estivesse passando por isso, ainda precisaria de um hobby.” Elliot está impaciente e deprimido, sentindo falta da parceira por quem está angustiantemente apaixonado.
“Jeff, já disse que só faço se for algo que não me tire de casa na folga,” diz Elliot
“Pintura, colorir, jar...”
“Eu não tenho dez anos”, interrompe Elliot, impaciente.
“Jardinagem?”, continua Jeff, com expectativa.
Elliot fica reflexivo. “Minha mãe adora jardinagem.”
Jeff respira aliviado.
“Comece com plantas resistentes e próprias para apartamento. E adicionar sua mãe é perfeito.”
“Acho que ela sabe sobre Olivia.” Elliot esfrega as mão nas pernas
Parece que, finalmente, Elliot vai conseguir falar. “Mães são observadoras, mas por que você diz isso?”
“Ela me liga uma vez por semana e sempre pergunta, ‘Como vai sua parceira?’, mesmo que eu tenha dito a ela que estou em outro departamento há meses.”
“Isso pode ser só a forma dela de puxar assunto”, Jeff responde com calma, cruzando as mãos. “Ou pode ser a forma dela de te dizer que percebeu algo e está esperando você falar.” Jeff continua com cuidado: “Ela saber te assusta ou te alivia?”
Conseguir tirar algo de Elliot é como andar em um campo minado.
Elliot demora para responder. “...Os dois.”
“Por quê?”, Jeff diz suavemente.
Elliot solta um riso curto, sem humor nenhum.
“E a jardinagem vai me ajudar em quê?” Jeff dá um pequeno sorriso. Foi por pouco.
“Não resolve tudo, mas te dá um lugar onde você não precisa fingir, não precisa decidir nada grande, não precisa explicar nada para ninguém.”
“Só... regar plantas?” Elliot precisa aprender a desacelerar, e Jeff tem certeza de que jardinagem pode ser a coisa certa.
“Vai te dar um tempo consigo mesmo.” Ele faz uma pausa. “Você tem tido muito pouco disso.”
Elliot fica quieto, pensando.
“Minha mãe realmente gosta...”, ele murmura. “Ela sempre fala que planta mostra quando algo está errado antes de a gente perceber.”
“Parece que ela te ensinou bem mais do que só jardinagem”, Jeff observa.
“Eu nunca fui esse cara de hobby”, Elliot murmura.
“Você vai gostar”, Jeff diz. “Se plantar não for algo que te agrade, vamos continuar tentando.”
Elliot assentiu, ainda olhando para algum ponto distante.
“Se eu começar com as plantas... talvez eu chame minha mãe para vir. Só espero que ela não transforme tudo numa grande conversa.”
O celular de Elliot toca.
“É minha a sargento. Tenho que atender.”
“Claro. Se precisar, nós agendamos.” Ainda faltavam 20 minutos para o final da sessão.
“Ok, eu ligo para sua secretária”, Elliot diz enquanto aperta a mão de Jeff, despedindo-se e levando o celular ao ouvido.
A voz de Ayanna surge, urgente:
“Stabler, Jet encontrou algo. Precisamos de você.”
Quando ele chegou, havia uma investigação em andamento. O Departamento de Crime Organizado monitorava a situação havia semanas. Não tinham nomes, rostos ou cena do crime, apenas sinais. Fragmentos de conversas interceptadas, padrões de comunicação que surgiam e desapareciam rápido demais para serem coincidência.
As ligações eram curtas. Objetivas. Nunca diziam exatamente o que queriam dizer, nenhum endereço direto, nenhum detalhe específico, mas, ainda assim, havia consistência. Palavras que se repetiam, intervalos que seguiam um padrão disciplinado.
Foi através da triangulação dessas chamadas que o primeiro mapa começou a surgir.
Pontos espalhados pela cidade, aparentemente aleatórios à primeira vista: estacionamentos vazios, ruas residenciais movimentadas, áreas comerciais durante o horário comercial. Lugares onde um carro parado não chamaria atenção. Lugares onde encontros rápidos poderiam acontecer sem deixar rastros.
Dia anterior
“Eles são metódicos”, ele diz, mais como constatação do que hipótese.
Os locais não eram escolhidos ao acaso. Havia distância calculada entre eles, tempo suficiente para deslocamento, curto o bastante para evitar vigilância prolongada. Uma coreografia invisível, repetida com precisão. Cada ligação interceptada adicionava mais um ponto ao mapa e, aos poucos, o que parecia disperso começava a se conectar.
Linhas imaginárias surgiam entre os locais, trajetos possíveis, rotas alternativas, caminhos de entrada e saída. Não era só sobre onde eles se encontravam, mas sobre como chegavam e como desapareciam depois.
“Eles estão evitando um padrão visível”, Meredith comentou.
Elliot nega com a cabeça, os olhos ainda fixos no quadro. “Não. Eles têm um padrão. Só não é óbvio.”
Ayanna diz “Criminosos comuns tentam esconder o que fazem. Essas organizações estruturadas escondem como fazem, porque sabem que o método é o que os denúncia.”
Não havia ainda um crime específico ligado àquelas movimentações, nenhum flagrante, nenhuma apreensão. Apenas coordenadas por ligações descartáveis, em locais cuidadosamente escolhidos.
Mas a sensação era clara. Aquilo era maior do que parecia.
Porque ninguém constrói um sistema assim... sem ter algo importante o suficiente para proteger. O padrão já estava claro. Faltava o erro. E ele veio em uma ligação curta que eles interceptaram.
Jet levanta a cabeça primeiro, franzindo a testa enquanto ajusta o áudio. “Espera... ouçam isso.”
O som chiado preenche a sala.
“Entrega no ponto três... código sete-zero-dois. Mesma janela.”
Clique.
Silêncio.
Ninguém fala por um segundo.
“Isso não é novo”, Reyes diz. “Eles já usaram ‘ponto três’ antes.”
“Mas não com número”, Jet responde, já digitando rápido. “Esse ‘sete-zero-dois’... pode ser coordenadas, pode ser referência interna... ou...”
“Ou endereço codificado”, Elliot completa, já se aproximando da tela.
“Ponto três bate com aquela zona industrial ao sul”, Meredith aponta. “Eles já usaram dois estacionamentos ali.”
“E o ‘sete-zero-dois’?”, Ayanna pergunta.
Jet amplia uma lista de endereços, sobrepondo-a com o mapa já construído.
“Tem um galpão abandonado na Rua 7, número 02, dentro do raio em que eles já operaram.”.
“Pode ser a primeira vez que eles escorregaram”, Meredith diz.
Viaturas sem sirene, luzes apagadas, movimento coordenado. Eles têm que chegar antes que qualquer evidência desapareça, mas o lugar estava vazio antes de eles chegarem.
O local claramente havia sido reformado recentemente.
“Limpo demais”, Meredith sussurra.
Elliot faz um gesto e a equipe avança. A porta cede com facilidade.
“Verifiquem tudo”, Ayanna ordena.
Passos ecoam no espaço vazio. Lanternas cortam a escuridão. Nada à primeira vista, além de espaço vazio.
“Não parece que eles estiveram aqui”, Reyes diz, vindo da lateral do galpão.
“Rastros de carro?”, Ayanna pergunta a Reyes.
“Um rastro de SUV e outro que parece ter sido arrastado.”
Meredith e Elliot seguem para os fundos do galpão.
“Stabler...”, Meredith diz.
Elliot se aproxima.
Um carro.
Parado no canto, parcialmente escondido atrás de pneus velhos. É a primeira vez que eles deixam algo para trás.
Elliot chama discretamente Ayanna e Reyes.
“Abra”, Meredith diz, quase sussurrando.
Elliot puxa a porta com cautela. Um rangido metálico. Interior escuro.
Vazio.
“Porta-malas”, Meredith diz, com a voz mais baixa agora.
O clique irrompe o silêncio, e a tampa sobe devagar.
Ali está um corpo imóvel. Frio. Reduzido a evidência.
Por um segundo, ninguém fala, porque aquele não é mais só um ponto no mapa. É, finalmente, uma evidência, mas veio da pior forma possível. Veio como a morte no porta-malas.
Elliot observa em silêncio, o olhar endurecendo enquanto absorve cada detalhe da posição do corpo, marcas visíveis. Ele conhece o procedimento e sabe o que tem que fazer. Pensou que talvez não precisasse mais passar por isso, mas ali está, mais uma vez.
“Chamem a perícia”, a voz de Ayanna corta o silêncio. “E comuniquem a Unidade de Vítimas Especiais.”
A sala de investigação volta à mente. Os pontos, as ligações, o sistema invisível. Agora não é mais invisível.
“Finalmente eles erraram”, Elliot diz olhando para o corpo
“Nós vamos fazer esse erro custar muito caro”, Meredith diz, segurando o ombro dele.
Meredith chegou oito meses antes dele ao departamento, transferida da Corregedoria, o que causou uma má impressão em Elliot, mas não precisou de muito para que ele deixasse isso de lado. Meredith é esforçada, generosa e astuta. Nas primeiras semanas, ela foi rígida com ele, e ele não foi muito diferente. No entanto, quando Elliot precisou de cobertura em uma batida que saiu do controle, Meredith quase levou um tiro para protegê-lo. Isso fez Elliot perceber que, independentemente das diferenças que eles achavam que tinham, Meredith permaneceu profissional. Depois daquele dia, ele soube que eles ficariam bem.
“Ok, pessoal, temos muito trabalho pela frente e precisamos ser cautelosos com tudo que vamos coletar aqui. Stabler, podemos conversar um minuto?”, diz Ayanna.
“Claro”, Elliot confirma com a cabeça, e eles seguem para fora do galpão.
“Ouça, entendo sua saída da SVU, mas preciso que você acompanhe a perícia para saber as circunstâncias da morte. Nossa investigação seguirá de acordo com o que obtivermos dela.”
“Esse não será um problema, Sargento.” Ele poderia fazer isso, por mais que, nos últimos meses, cada caso envolvendo crianças o fizesse entrar em uma espiral sombria, difícil de sair.
“Ah, sua parceira tem pouca experiência com casos envolvendo crianças. Apoie-a.” Elliot afirma com a cabeça e dá meia-volta para dentro do galpão.
Ayanna chama Elliot antes que ele pudesse entrar.
“Stabler! Sua antiga equipe da SVU estará aqui. Você acha que podemos contar com a colaboração deles ou eles serão um problema?”
“Sargento, eles farão de tudo para trazer justiça à vítima. Nosso caso será plano de fundo para eles.”
Eles nunca foram muito bons em colaborar com outros departamentos, porque a vítima era sempre um detalhe no caminho da investigação. Para eles, tudo era sobre a vítima.
“Certo.”
Ele veria Olivia novamente. Ele não está pronto para voltar a órbita dela sem tentar beijá-la ou se declarar de novo pra ela, mas ele precisa voltar a ser o amigo que ela espera que ele seja.
Atualmente
“Há um pouco mais de uma hora, interceptei duas ligações. Ouçam”, diz Jet para a equipe atenta.
“Atenção! Sete-zero-dois, janela quatro, perdemos o pacote.”
Jet muda para a próxima chamada, com uma voz feminina. “Abortar toda a área, até segunda ordem.”
A chamada interceptada ecoa.
“Eles encerram todos os contatos na área que monitoramos”, diz Jet.
“Então, a única pista que teremos por muito tempo será o carro e a vítima”, diz Ayanna, pensativa.
“Temos muito mais do que tivemos nos últimos meses. Foi muito esforço. Nós podemos conseguir muita informação disso”, diz Reyes.
“Reyes tem razão. Vamos fazer valer a pena”, Ayanna diz. “Elliot e Meredith, preciso de vocês em contato direto com a Unidade de Vítimas Especiais. Não deem informações além do necessário.”
“Entendido”, Meredith responde.
Elliot apenas confirma com a cabeça.
Ayanna se afasta para falar novamente com Jet, enquanto Meredith começa a organizar os arquivos sobre a mesa.
Elliot permanece parado por alguns segundos, olhando para a caneca de café.
“Stabler?”
Ele pisca e olha para Meredith.
“Você está bem?”, ela pergunta, curiosa, olhando para Elliot.
“Estou.” Mentira.
Ele vai ver Olivia depois de meses. Está apavorado. Ela deve odiá-lo, e esse caso talvez a faça odiá-lo ainda mais.
Ela sustenta o olhar por alguns segundos. “Você sempre responde isso rápido demais.”
“Não estou mentindo.” É sempre uma batalha lutar contra a curiosidade de Meredith.
“Não acredito em você.” Ele sente o coração pesar. Sente falta de ouvir essa frase vinda de Olivia quando ela fazia a mesma pergunta.
“Eu também não acredito em você quando me responde, então estamos quites.”
Meredith sorri de canto.
“Estou empolgada para conhecer a famosa Olivia Benson.”
“Hum.”
Ele não conseguiu evitar mencionar Liv, e Meredith praticamente a conhecia de tanto que ele falava dela.
“Eu prometo que não vou te envergonhar.” Ela cruza os dedos nos lábios, fingindo prometer.
“Se você paquerar ela na minha frente, eu te mato.”
Não dava para confiar em Meredith quando o assunto era mulher, principalmente se fosse linda como Liv.
“Ei, eu estou comprometido.”
Elliot uma gargalhada.
“Foi isso que você disse quando traiu o Marcos com Lucy.”
Ela se finge de ofendida.
"Opa, opa. Marcos quem pediu por isso, me treine primeiro, mas não se preocupe, pois eu sou fiel a você." Nisso, ele acredita.
"Ok, chega de besteira. Vamos."
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