Expurgo

2 T01E01 - O estudante


Notas iniciais
Episódio 002 da série "Expurgo", de Jean Pereira Lourenço. Conheça Eric, o estudante frustrado que passa suas tardes tentando encontrar respostas em um cubo mágico.

“Eric!” berrou a mãe, da cozinha. “Eric! Acorda! Vem almoçar!”

O jovem rolou na cama, resistindo, mas os gritos não paravam.

“Eric! Já são duas da tarde! Vem comer!”

“Já vou!” respondeu, gritando. “Merda…” resmungou, em baixo tom, e levantou-se.

Eric aproximou-se do espelho e encarou a imagem refletida por algum tempo. Um rapaz de dezenove anos vestindo meias encardidas e uma bermuda xadrez, de pele branca, cabelo curto e crespo castanho claro, espinhas no rosto, um olho roxo, barriga flácida, pelos crescendo no peito, e braços finos. Deu um bom-dia para si mesmo, mentalmente, e então estralou todos os ossos que pôde. Passou desodorante, vestiu uma camiseta polo vermelha e foi até a cozinha, tirando remelas no caminho.

“Filho, olha só que horas já são!” disse a mãe, de cinquenta e poucos anos, que estava toda arrumada, ao vê-lo. “O almoço está pronto, eu já comi e tenho que sair agora. Você não vai sair de novo, vai?” Aproximou-se e beijou-o na bochecha, deixando uma marca de batom.

“Eu vou dar uma volta, sim. Não tem o que fazer aqui em casa”, respondeu, limpando a marca do rosto com as costas da mão.

“Por que você não faz igual os mocinhos da sua idade? Entra no Facebook, cutuca as mocinhas, chama elas pra sair”, sugeriu a mãe, finalizando alguns ajustes em seus cabelos loiros cacheados.

“Porque eu não me interesso por isso. E ninguém cutuca as pessoas mais, mãe. Isso é do século passado”, afirmou Eric, com desdém.

“Ah, você não se interessa por mocinhas? Então chama os mocinhos! Mamãe vai te amar do mesmo jeito!” brincou ela, rindo, enquanto retocava o batom com o auxílio de um espelho de mão.

“Por favor, mãe…” resmungou ele.

“Mas vê se come, hein! Perigoso desmaiar por aí, e eu não vou atrás de moleque em hospital. E vê se fica longe de encrenca, viu, Eric! Se aparecer aqui com outro olho roxo, vou esquecer de pagar a internet”, resmungou a mãe, enquanto pegava a bolsa e saía pela porta da frente.

“Onde você vai?” perguntou Eric, de longe.

“Fazer as unhas!” respondeu ela, aos berros.

Eric almoçou pensando em onde ela realmente teria ido. Seu pensamento ia longe, e ele acabava culpando seu pai, como sempre, por ter ido embora. “Você é um cuzão”, pensava, enquanto mastigava. O pai, divorciado da mãe, entrava em contato com bastante frequência até pouco tempo atrás. De repente, sumiu, parou de atender o celular e até de responder e-mails. E a mãe, que até então vivia presa à menor chance de que ele voltasse, sentiu-se finalmente livre para viver. Mas isso não agradava Eric. Era mais uma das coisas que não o agradavam.

Ele calçou seus tênis sujos, pegou a mochila e saiu de casa. Era sua rotina, desde que falhou em passar no vestibular, após um ano de cursinho. Eric criou um hábito próprio para ver-se ainda conectado a algo, para não perder-se diante de si mesmo, pois já não tinha mais aquele grande objetivo de construir uma carreira, casar-se e ter filhos. Tudo foi por água abaixo com a notícia de que, se tivesse acertado mais uma questão, teria sido aceito na universidade. Se não tivesse sido por tão por pouco, sentiria mais motivação para continuar tentando.

No caminho, Eric cruzou com um grupo de jovens que ele julgaria “marginais”: rapazes com bandanas e correntes penduradas, moças calçando coturnos e vestindo meias arrastão em plena tarde. E, enquanto os julgava mentalmente, assistiu-os rindo dele. “Vocês são a piada aqui!” pensou, e enfureceu-se. Mas não os encarou, pois sabia que um só olho roxo já era suficiente.

Chegando a seu destino de todas as tardes, a alguns quarteirões de sua casa, Eric notou uma idosa tendo dificuldades em atravessar a movimentada avenida. Ele se aproximou e, com a mesma expressão séria ainda estampada no rosto, ofereceu seu braço para a senhorinha, que aceitou, com um belo sorriso. Ao chegarem ao outro lado da avenida, ela agradeceu.

“É muito difícil ver moços como você, viu? Parabéns! Você só precisa de um sorriso nesse rosto bonito!” afirmou a senhora, apertando suas bochechas.

Eric forçou um sorriso, mas não gostou do que ela disse e nem do que fez. Enquanto despediam-se, ele se sentia observado. Olhou em volta, para todos os cantos, mas não havia ninguém olhando em sua direção. Não que ele tivesse notado.

O jovem entrou no prédio adiante e, enquanto ia em direção ao elevador, esbarrou em uma mulher estranha e pálida que vinha das escadas com um cãozinho poodle no colo.

“Desculpa! Eu estava distraído”, disse Eric.

A mulher apenas olhou com espanto, e saiu ainda mais apressada. Eric não gostava quando as pessoas notavam sua presença ali. Já no elevador, pressionou o botão para ir ao último andar. Olhou-se no enorme espelho, enquanto o elevador subia, e sentiu-se fraco, pequeno, vazio. Porém, encarou com orgulho sua tentativa de superar o desafio atual, que ele mesmo havia criado. Ao abrirem-se as portas, Eric subiu ainda um lance de escadas, até surgir em seu querido terraço.

Parado próximo à porta, ainda, Eric ficou olhando, em silêncio, por mais de um minuto, em direção ao intruso que se apossara de seu lugar especial. Naquele terraço, que havia sido conquistado por Eric, ele jamais havia visto outra pessoa. Mas havia, agora, aquele garoto de cerca de onze anos de idade, pele escura, cabelo Black Power e roupas imundas, fumando um cigarro e encarando os prédios ao redor, sentado na beira do terraço, com os pés balançando. Eric aproximou-se alguns metros, mas parou novamente. Não sabia como lidar com a situação.

“Vem cá. Eu não mordo”, disse o garoto, sem lhe dirigir o olhar, e tragou o cigarro.

Eric foi, porém muito receoso. Parou ao lado do garoto e tirou a mochila das costas, ajeitando-se para sentar onde estava, mas o menino afastou-se um pouco para o lado, dando espaço para o jovem, como se soubesse que aquele exato lugar era justamente onde Eric passava suas tardes. O jovem sentou-se com a mochila no colo e pôs-se a olhar para o horizonte, assim como o garoto fazia. O céu estava nublado.

“Quer um cigarro?” ofereceu o garoto, ainda olhando para frente.

“Nah.”

“E se eu te dissesse que vai encontrar nesse cigarro tudo que você procura?” insinuou o moleque, e tragou.

“Não vou não”, disse Eric, rindo. “Mas imagina só que legal seria se todos meus problemas fossem resolvidos assim, fumando um cigarro.”

“Você tem razão, Eric”, afirmou o garoto, e ficou em silêncio por alguns segundos, apenas fumando. “Eu vi você ajudando aquela senhora a atravessar a rua. Por que você fez aquilo?”

“Porque ela precisava de ajuda”, respondeu o rapaz, rapidamente. “E porque eu podia ajudar. Eu estava ali… por que eu não ajudaria?”

“Ninguém, além de mim, viu o que você fez”, disse o garoto, com tom de provocação, e brincou soltando pequenas argolas de fumaça.

“Ela viu”, respondeu Eric, seco.

“Então você realmente acredita na bondade pura? Se sim, por que existem garotos de rua, como eu? Como você explica a miséria? Como explica a injustiça de alguns nascerem ricos, e outros pobres?”

“Eu assisto Animal Planet, e vejo como uma zebra inocente tem sua vida tirada pra alimentar um leão faminto. Então, eu percebo que isso é natural. Eu faço minha parte tentando camuflar essa natureza perversa, mas é artificial. A bondade é artificial.”

“Mas você também não acha natural que o leão não tente comer uma rã venenosa, por exemplo? Daquelas com cores vibrantes e bolinhas pelo corpo? Ele não pode ser sempre o predador.”

“É mesmo.” Eric permaneceu em silêncio por alguns segundos, processando o que acabara de ser dito, e logo se deu conta da conversa que estava tendo com um moleque de rua. “O que você está fazendo aqui?” perguntou, virando-se para ele.

“Eu estava esperando por você, Eric”, revelou, e deu um trago.

“Ah… ok”, respondeu Eric, conformando-se com aquilo e abrindo o zíper de sua mochila.

“Você não vai perguntar quem eu sou, o que quero de você, como sei seu nome? Você é o primeiro que não quer saber”, disse o garoto, aparentando estar surpreso, e finalmente virando-se para Eric.

“Bom, eu respeito seu silêncio”, explicou o jovem, retirando da mochila um cubo mágico todo desordenado. “Ninguém respeita o meu silêncio, e eu sei como isso é chato. Então, se você não quiser dizer nada, não vou perguntar, não vou te pressionar a dizer alguma coisa.”

O garoto apenas olhou-o com espanto, a boca entreaberta com um sorriso de canto, concordando levemente com a cabeça. Eric, então, começou a tentar resolver o cubo, como vinha fazendo todas as tardes, desde que soube o resultado do vestibular que prestou.

“Por que você tenta tanto? O que esse cubo significa pra você?” quis saber o garoto, soltando fumaça em seguida.

“Quando eu fiquei sabendo que teria que passar mais um ano fazendo cursinho,” começou a explicar Eric, ajustando as primeiras fileiras do cubo, “resolvi criar algum tipo de religião, algo em que me apoiar para não ficar me culpando tanto. E eu precisava de um símbolo, de um objeto mágico que pudesse me conceder um milagre, algum dia.”

“E você prefere crer no milagre do cubo, em vez de acreditar no poder do cigarro?” ironizou o moleque, sorrindo.

“Eu decidi que, assim que conseguisse montar o cubo,” continuou explicando, sem responder à pergunta do garoto, “algo aconteceria. Algo que mudaria tudo, e que me fizesse importante, de algum modo.” Havia apenas dois quadrados de cor errada no cubo, a esse ponto.

“Você quer se tornar alguém importante, Eric?” perguntou o garoto, apoiando a mão no ombro do jovem.

“Eu quero”, respondeu, olhando-o com uma expressão de agonia. “Mas não vou conseguir enquanto não resolver este cubo”, disse, voltando o olhar para o objeto. “Essa é minha religião. Entende? E é uma religião que não causa câncer.”

“Bom…” disse o garoto, levantando-se, “se você quer mesmo acreditar nisso, Eric, então esse é seu teste. Você não tem muito tempo. Eu espero muito que você consiga.” Ele sorriu para o jovem, tragou uma última vez e jogou a bituca no chão.

“Não faz isso!” disse Eric, guardando o cubo na mochila, fechando o zíper e ficando em pé, logo em seguida. “Por que jogar a bituca no chão?” Eric encarou o garoto com as mãos na cintura, como se desse uma bronca.

“Quê?” indagou o garoto, soltando fumaça pelos cantos da boca, desacreditando na bronca que acabara de levar, e quase rindo daquilo.

“Nós temos que cuidar do mundo em que vivemos, cara”, resmungou Eric, apagando a bituca e guardando-a no bolso.

“Muito legal sua atitude, Eric”, disse o garoto, com um sorriso sincero e as mãos nos bolsos. “Mas imagina só que legal seria se o maior mal do mundo fosse as bitucas. Tem muitos outros jeitos de salvar nosso planeta. Você vai ver!” Ele deu um sorriso aberto e saiu andando em direção às escadas, ainda com as mãos nos bolsos.

“Como assim? Onde você vai?” perguntou Eric, com os braços soltos ao lado do corpo, confuso.

“Eu vou embora, Eric, porque já encontrei minhas respostas”, disse, já chegando à porta, e parou. “Se eu fosse você, ficaria aí até encontrar as suas.” Então partiu.

Eric abaixou-se perto da mochila, abriu-a e tirou de dentro o cubo mágico. Ficou de pé, passando o objeto de uma mão para a outra e encarando o horizonte, por algum tempo.

“Talvez esse menino tenha razão”, refletiu Eric. “Talvez eu deva procurar uma outra religião, alguma outra coisa em que me apoiar. Talvez eu deva criar um personagem novo naquele jogo e me tornar o melhor, pelo menos lá. Enquanto que, com esse cubo, assim como nos estudos, nunca serei bom o bastante, jamais serei o melhor. Não consigo montá-lo, dia após dia tentando, enquanto crianças coreanas tentam bater os próprios recordes de menos de dez segundos.”

De repente, decidido a enfrentar seus problemas de uma maneira que julgou mais objetiva, arremessou o cubo mágico longe, sorrindo. “Estou livre!” pensou. “Só um idiota luta em uma guerra perdida!”

Notas finais
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