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2 Capítulo 2 Primeiro contato
Notas iniciais
Bem, não poderia dizer que estava com má sorte, afinal ter que pegar um trem mágico, ao invés de aparatar e se estrunchar com sua perna machucada, não podia ser considerado algo totalmente ruim. Porém, acabou tendo que fazer uma caminhada de um par de quilômetros pela erma zona rural de Gales e isso sim não era algo muito interessante.
Na verdade, em outros tempos, Eva adoraria cruzar o prado verde com um passo vigoroso, sentindo os músculos da perna se esticarem, porque fazia parte da sua natureza inquieta ser fisicamente ativa, mas agora não estava no auge da sua forma, infelizmente.
Enxugou, com o dorso da mão, o suor da testa, se arrependendo um pouco de ter escolhido um casaco de lã tão pesado, mas o que poderia fazer? Havia dito a sua mãe que iria tomar um chá com as amigas, então aceitou a sugestão de usar o presente que havia ganhado da avó por sua formatura.
A senhorinha havia tricotado tudo pessoalmente e adorava presentear os netos com presentes artesanais, o que sempre fazia Eva sorrir, afinal, não importava o quanto seu pai tentasse fazer sua família parecer sofisticada, os Parkin sempre seriam um bando de açougueiros de coração grande e pouco interesse em coisas chiques.
Tirou o casaco do corpo, porque não queria arriscar atear fogo na peça ao lhe lançar um feitiço de resfriamento mal-feito. Se preparou para amarrar as mangas da roupa ao redor da cintura, rindo de si mesma por ser uma corvinal com tão pouco talento para feitiços domésticos.
Era de se esperar que fosse boa em todos os tipos de feitiços, dado o tanto de tempo que gastava na torre da Corvinal estudando para os testes, mas ainda era um desastre nesses encantamentos quase domésticos.
E nos de outros tipos também, se fosse ser inteiramente sincera.
Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, parou de caminhar com dificuldade sob o sol quente do verão galês, ao ter seu casaco roubado de seu corpo antes de dar o segundo e definitivo nó ao redor da cintura.
Poderia ter ficado completamente confusa, mas seus olhos de apanhadora identificaram o acontecido: um molequinho loiro, montado em uma vassoura, havia lhe roubado o casaco!
Fez menção de lhe acertar um feitiço qualquer pelas costas, mas tinha que admitir, o pestinha era rápido, porque se afastava de seu alcance com uma velocidade alarmante. Eva decidiu continuar a caminhada, porque, se as instruções de Raph estavam certas, sabia exatamente para onde o menino tinha ido.
Mais algumas centenas de metros e teve o primeiro vislumbre do “Lobo solitário”, a escola de Quadribol excêntrica, sem nenhum critério de admissão lógico, que produzia uns jogadores bastante decentes, segundo os principais especialistas do Norte da Europa.
Agora estava mais do que claro para Eva o porquê do velho russo e seu pai não se darem bem: enquanto Leroy Parkin era um empresário de sucesso, sempre fazendo questão de tomar as decisões mais racionais em seu negócio, Wulfric Volkov era um homem doido, que não escolhia os alunos mais ricos ou os mais talentosos ou ainda os mais espertos...
Ele tinha um critério secreto que não fazia sentido nenhum, mas dava muito certo. Até mesmo Viktor Krum havia perguntado seu segredo, a garota leu em uma revista, mas o búlgaro ganhou a mesma resposta que aparentemente todo mundo ganhava: um enorme e retumbante silêncio desdenhoso.
Eva suspirou determinada, porque talvez o seu otimismo de convencer a esse ermitão russo de lhe aceitar como uma aluna podia não passar disso: uma esperança tola, de uma garota desesperada!
Analisou a grande construção de pedra escura que se erguia de frente para o mar com mais cuidado. Olhou para um lado e outro, antes de continuar o leve declive para a ponta da falésia onde o lar e trabalho do preparador físico russo estava.
Não podia dizer que não entendia o cara: a propriedade, que com certeza estava enfeitiçada contra a intrusão de trouxas curiosos, se erguia orgulhosa na falésia e parecia ser um velho castelo normando adaptado, com o cheiro de mar e do feno recém-colhido circulando ao seu redor.
Era encantadora!
Eva conseguiu divisar mais algumas crianças rodeando o castelo agora, voavam como pequenas mariposas hipnotizadas pela luz. O ladrãozinho loiro finalmente se juntou ao grupo, causando uma desordem na formação.
Ele deve ter dito alguma coisa para as outras crianças, porque as mariposinhas desceram em ordem até um lado do castelo que a garota não conseguia ver de onde estava, provavelmente desceram para recepcioná-la com a mesma “educação” dispensada pelo garoto veloz.
Eva tomou o seu tempo, continuou caminhando sem pressa para não forçar o joelho, agradecida que o pirralho havia lhe poupado o trabalho de ter que diminuir seu casaco para caber na bolsa que levava à tiracolo, para não parecer uma adolescente desmantelada com o objeto amarrado na cintura.
Suspirou aliviada ao chegar na sombra da construção, mas teve que admitir que era um absurdo que a forçassem a bater na aldrava da porta medieval de madeira, já que dava para assistir sua chegada de muito longe.
Esperou para ser atendida, então depois de dois minutos completos, uma jovem bonita, com sardas espalhadas por todo o rosto redondo, lhe atendeu com um sorriso animado.
— Boa tarde, em que podemos ajudá-la? — Simpática ou não, não passou despercebido para Eva o fato de que a moça não abriu a porta completamente, colocando apenas meio corpo para fora do castelo.
— Boa tarde, estou à procura de Wulfric Volkov, ele se encontra? — A corvinal perguntou com educação, torcendo para não parecer tão deslocada na paisagem bucólica quanto se sentia, com seu vestido de verão e óculos escuros trouxas. O joelho machucado, a essa altura, já latejava pelo esforço de se manter parado na mesma posição, depois da caminhada que havia feito.
— Hum... Ele se encontra, mas... — A moça olhou nervosa para dentro, depois encarou a visitante a sua frente com timidez. — Ele está te esperando?
Eva sorriu com cuidado, porque se tinha lido certo as menções feitas ao velho “lobo solitário” na imprensa, se não se impusesse o mínimo que fosse, não conseguiria falar com o homem nem agora, nem nunca. Respirou fundo e se empertigou com uma confiança que não sentia.
— Sim, o senhor Volkov e meu pai, Leroy Parkin, estão no meio de uma negociação acirrada, fui enviada para mediar o diálogo. — Eva vasculhou rapidamente sua bolsa, então entregou o seu cartão de visitas novinho em folha, presente de formatura do tio Gavin, para a moça. — Evangeline Parkin, ao seu dispor.
A bruxa, que não devia ter saído há muito tempo da adolescência, olhou impressionada para o cartão, depois para a garota a sua frente, então fez um gesto para que Eva esperasse um pouco. Voltou a fechar a porta de madeira.
A corvinal deixou o peso do corpo cair na perna sã, olhando impaciente para as emendas entre as pedras escuras, com todos os efeitos do tempo bem gravados na estrutura imponente. Chegou a começar a repensar a sua estratégia, quando a porta foi aberta novamente, dessa vez pela jovem loira com um grande toque de animação na voz.
— Venha comigo, senhorita Parkin. Wulfric vai te receber agora. — A moça falou quase como se pudesse dar saltinhos de alegria com a notícia e a corvinal não deixou de notar que a garota de tranças embutidas havia se referido ao senhor pelo primeiro nome.
Talvez ele não fosse um cara tão rígido assim...
Entraram por um pátio nos moldes medievais, dava para ver o que antes deveria ter sido um estábulo, agora transformado em uma estação de tratamento de vassouras, com todas as ceras, lixas e cerdas de reposição expostas na parede à esquerda. Do outro lado, uma grande mesa de madeira, com um vasinho de flores minúsculo dava um toque familiar ao local.
O piso de pedra tinha um encaixe rústico, porém haviam raias desenhadas com giz branco no chão, logo deveria acontecer algum tipo de treinamento físico na área. Ouviu alguns risinhos vindos de cima, então quando olhou para o alto, Eva pôde ter um vislumbre de duas cabeças se escondendo em uma das janelas do castelo.
— As crianças estão curiosas com a visita, geralmente a escola só tem gente da idade deles, qualquer adulto que chega é motivo de alvoroço. — A garota loira informou solicita, sorrindo com carinho em direção às janelas. — A propósito, meu nome é Lupe Volkov, prazer em conhecê-la, senhorita Parkin.
Eva disfarçou sua surpresa, porque essa moça simpática era, nada mais, nada menos, do que a filha do velho ermitão russo! A corvinal abriu um sorriso igualmente gentil, porque talvez não conseguisse se entender hoje com o homem, mas a filha poderia encontrar um caminho para amolecer a fortaleza de gelo que parecia cercar o pai!
Manteve-se calada ao adentrar as paredes de pedra da escola, que ostentava alguns troféus aqui e acolá, a cada virada de esquina nos corredores sem janelas. O lugar não era frio, mas tão pouco era convidativo, tinha uma aura séria, que afastava qualquer semelhança que tivesse com Hogwarts, por exemplo.
Era uma escola para crianças que mais se assemelhava com uma prisão!
Chegaram em frente a uma porta de madeira simples, onde a senhorita Lupe Volkov fez sinal para que a visitante entrasse na frente. Ela parecia sorrir com uma espécie de torcida brilhando nos olhos verdes.
— Wulfric vai te receber agora, ele parece muito curioso com o que quer que você tenha a dizer pra ele. — A garota, que devia ter quase a sua idade, falou com animação passando ao seu lado, depois voltou, como se tivesse lembrado de uma última coisa. — Ah! Boa sorte, senhorita Parkin.
Bem, aquilo sim era um mau sinal.
Eva aceitou o desejo dado de bom grado, mas depois se virou para frente, se preparando mentalmente para encarar o senhor que poderia ajudá-la a conseguir alcançar o seu sonho de ser uma jogadora profissional de Quadribol.
Deu dois toques leves na madeira bem polida a sua frente, mas como não obteve nenhuma resposta imediata, deu de ombros, afinal o velho já a esperava, certo? Empurrou a porta com leveza, porque não queria parecer uma intrometida e bem, a visão de Wulfric Volkov a deixou paralisada no lugar.
Porque, para começar, o homem não era velho.
Ok, com certeza devia ser considerado velho se visto sob a ótica de uma garota de 18 anos, afinal ele tinha uma filha mais velha do que ela, mas não era um maldito ancião, como Ralph dera a entender!
Até mesmo os estúpidos periódicos esportivos sempre mencionavam o russo como “o velho lobo", então, qual era o problema dos jornalistas? Estavam chamando um homem que nem deveria ter chegado aos 40 anos de velho, pelo amor de Merlin!
Mas ok, certo, a idade um pouco menor do que esperava não era um fator tão preocupante assim, Eva pensou sorrindo falsamente, adentrando a sala com sua recém vestida aura de confiança forçada. O homem não fez menção alguma de que iria se levantar cortesmente para recebê-la.
Outro mau sinal.
— Então Parkin cansou de me mandar cartas e resolveu enviar uma de suas crias saídas diretamente do berçário para me atazanar? — O inglês de Volkov era impecável, mas o sotaque russo dava um tom rascante e intimidante para sua voz. — Estratégia interessante...
Tinha discutido com Ralph o plano em seu apartamento de solteiro e embora o amigo tivesse odiado a ideia, Eva resolveu que o melhor caminho era ser completamente honesta com o arqui-inimigo de seu pai e torcer para que o homem tivesse algum senso de humor retorcido, pronto para uma vingança inofensiva.
Iria manter o plano, mas tinha que ser sincera: nada nesse homem parecia inofensivo agora.
— Senhor Volkov, na verdade o meu pai nem sequer sabe que estou aqui, mas nós desejamos sinceramente que o senhor faça parte da família dos Vagamundos, por isso tomei a iniciativa de vir lhe fazer uma proposta. — Eva manteve o seu tom firme, enquanto se sentava na cadeira em frente a mesa de madeira escura que a separava do bruxo russo.
Wulfric Volkov analisava seus movimentos de uma maneira calculada, o que a fez sentir que, talvez, só talvez, a alcunha de lobo não fosse completamente injustificada, porque havia algo meio selvagem por trás daqueles olhos verdes.
Ralph teria classificado o homem como sexy, mas seu amigo sonserino não era parâmetro para nada, tinha um mau gosto de dar dó!
— Os Vagamundos já sabem exatamente quantos galeões precisam transferir para a minha conta no Gringotes, qualquer outra proposta, a senhorita irá perceber, não me interessa o mínimo. — Ele respondeu com um esgar que poderia ter sido considerado um sorriso cínico, em um rosto menos severo.
Mas Eva fez questão de sorrir com tranquilidade, porque já era esperado que ele fosse resistente, até mesmo mal-educado nesse primeiro contato.
— Bem, essa é a segunda parte do meu plano, a primeira consiste no senhor demonstrar o quão bom é no seu ofício, angariando não só a minha eterna gratidão, como a de toda a minha família. — A garota explicou com otimismo, fazendo as sobrancelhas grossas do homem levantarem com uma leve surpresa divertida.
— Demonstrar o quão bom eu sou no meu ofício? — Ele repetiu a informação, dessa vez com um sorriso no rosto de traços sérios e uma barba cerrada de final de dia. — A sua proposta é que eu prove que estou apto para um cargo para o qual eu nem sequer desejo me candidatar?
— Senhor Volkov, nós dois sabemos que um cargo de chefia da divisão de preparo físico de um dos 13 times da Liga não precisa de candidatura e sim de indicação, com um aceite automático de qualquer um com dois dedos de testa. — Eva falou com seu tom de negociadora, que tinha lhe tirado de algumas detenções dadas por Lupin e seus amigos monitores, nos tempos de Hogwarts. — Agora deixe-me ser completamente clara: meu pai toma as decisões finais, mas se convencer meus avós e tios de que o cargo é perfeito para o senhor, a opinião dele vai importar muito pouco.
Volkov se encostou em sua cadeira forrada com o que deveria ser a pele de algum pobre animal, a encarando com uma expressão inescrutável. Sua prima Grace estaria horrorizada com a decoração do homem, Eva pensou levemente distraída. Aguardou a réplica do bruxo com uma paciência respeitosa.
— Como exatamente eu provo que sou apto para o trabalho? — O brilho de diversão cínica ainda não tinha deixado os olhos verdes do russo, então Eva não considerou o interesse como uma vitória. Não ainda.
— Bem, senhor Volkov, acontece que eu sou uma jogadora de Quadribol quase profissional, mas sofri uma lesão a apenas dois dias da final do campeonato de Hogwarts, então o seu trabalho seria me ajudar a me recuperar da lesão sofrida. — A corvinal resumiu sua história, ignorando a frustração que sentia com seu destino interrompido.
A Lufa-lufa havia ganhado o jogo contra sua casa, além do campeonato e da Taça das Casas, tudo isso no seu último ano na escola, então tinha todos os motivos para se sentir frustrada e injustiçada pelo destino! Mas agora não era hora para deixar transparecer o que poderia ser considerado uma birra infantil.
— Ok, senhorita Parkin, vou te parar exatamente aí, repita comigo: “eu me contundi faltando dois dias para a final do campeonato de Hogwarts”. — O sotaque russo parecia deixar o deboche implícito do homem ainda mais cruel.
Por que ele queria que ela repetisse isso?
— Acontece que, na verdade...
— “Eu me contundi faltando dois dias para o jogo mais importante da minha vida e não vou culpar ninguém, além de mim mesma, pelo meu fracasso". — Ele falou pausadamente, como um professor que está ensinado ao seu aluno estúpido a pronúncia correta do alohomora.
A precisão na escolha de palavras era assombrosa, parecia que o russo sabia exatamente quais palavras ácidas fariam Eva sentir como se estivesse assumindo uma culpa que não lhe pertencia, por um fracasso que não queria admitir que era real!
— Minha contusão foi... — A garota tentou justificar mais uma vez, porque era óbvio que ele estava achando que ela havia usado o corrimão da grande escadaria como escorregador ou lutado contra o Salgueiro Lutador depois de uma bebedeira épica ou algo tão irresponsável quanto! Se forçou a não deixar sua raiva com o sorrisinho cínico do russo transparecer nas suas feições. — Minha contusão foi culpa minha e de mais ninguém, satisfeito?
Adoraria esfregar na cara dele, em um futuro bem próximo, a informação de que ela havia sido atacada por um ex-comensal da morte que invadira a sua, teoricamente, muito segura escola! Era uma situação pouco provável e por isso mesmo seria ainda mais divertido ver ele se sentir culpado por lhe forçar uma confissão sem abrir precedentes para o improvável.
— A gente vai ter que melhorar sua obediência, mas por hora basta. Aceito a nobre missão de transformar você em uma jogadora decente. — O bruxo falou bem-humorado, como se a malcriação tivesse sido o critério usado para aceitá-la em sua escola.
— Você não vai querer ver o meu histórico de partidas, me testar em uma vassoura ou em algum exercício prático antes de me aceitar? — Eva perguntou confusa, porque embora já soubesse que o homem era louco, ainda tinha esperanças que fosse um louco com um mínimo de... Lógica!
— Com esse seu joelho podre? Não, obrigado, eu tenho coisa melhor para fazer com o meu dia, agora, se não se importa, feche a porta quando sair. — Ele falou enquanto pegava uma varinha de madeira escura em uma das gavetas e com ela convocava um livro de jogadas em um dos armários. — E esteja aqui amanhã às 9 horas da manhã, com uma bagagem para pelo menos dois meses de estadia.
— Dois meses? — A garota perguntou estupefata, porque não podia arrumar um malão para uma viagem de dois meses em algumas horas, isso sem falar na mentira que teria que inventar para os pais para justificar sua ausência por tanto tempo!
— O prazo curto é todo seu, Parkin. Você que quer estar pronta para as primeiras seletivas da Liga no início do outono, afinal, não é esse o objetivo implícito nessa oferta? Eu sei que tenho todo o tempo do mundo. — Ele a olhou como se realmente não tivesse nenhuma preocupação na cabeça, o que não deveria ser de todo mentira, afinal o homem dirigia uma escolinha de Quadribol para crianças, pelo amor de Merlin! — E não se atreva a trazer esses seus vestidinhos de verão para o castelo, nós somos uma escola séria.
A garota se levantou, ainda em dúvida se iria comparecer ao suposto início do seu treino de recuperação com esse lunático ou não, mas de uma coisa estava certa: homem nenhum mandava no seu vestuário!
— Trarei quantos vestidos de verão eu quiser trazer na minha bagagem, isso se eu vier amanhã. — A garota blefou de pé, arrancando um sorriso sarcástico do seu futuro treinador.
— Até amanhã, Parkin.
— É senhorita Parkin pra você! — Ela retrucou irritada, depois saiu pela porta sem dizer mais nada, fazendo questão de deixá-la aberta.
Estava sendo dramática, como todo mundo a acusava de ser, mas pelo menos tinha tido a última palavra na discussão e isso deveria contar para alguma coisa, certo?
Atravessou o corredor de pedra por onde havia vindo menos de meia hora antes, com o joelho queimando como se tivesse sido atingido por um fogomaldito. Na saída encontrou a filha do homem com um olhar triste, segurando seu casaco de lã roubado.
— Acho que isso pertence a você, senhorita Parkin. — A garota entregou a peça de roupa com cuidado, sem deixar seus olhos se encontrarem.
— Obrigada, senhorita Volkov. — Agradeceu com sinceridade, porque a garota não tinha culpa de ser filha de quem era. — Até amanhã!
A moça a olhou com surpresa, então Eva lhe sorriu com uma expressão travessa, de quem compartilhava um segredo divertido. A quem estava tentando enganar? Iria estar na frente desse castelo absurdo às 9 horas da manhã, iria se submeter aos desmandos de Wulfric Volkov por dois meses e iria se tornar a próxima Parkin a jogar pelos Vagamundos de Wigtown!
Evangeline Parkin não desistia dos seus sonhos no primeiro obstáculo!
Nem no segundo ou terceiro, para ser completamente honesta.
***
Enrolar os pais nem de longe havia sido tão difícil quanto Eva estava esperando, foi só dizer que iria passar alguns dias na casa de uma amiga e pronto. Depois iria ampliando a estada por meio de cartas, inventando novas viagens e paradas culturais interessantes em sua vida de recém-formada tentando se encontrar.
Fez sua elfa doméstica particular arrumar todos os seus conjuntos de treinos, equipamentos de Quadribol, vestidos de verão, calças confortáveis e casacos mais levinhos, sob a desculpa de que talvez fosse ampliar a viagem à casa da amiga indo visitar o avô dela em Gales, o que acrescentava uma verdade a toda a sua mentira.
“ Ao menos vocês sabiam que eu estava no País de Gales!”
Sob a promessa de manter Ralph bem informado de tudo que estivesse acontecendo nos treinos e também de enviar uma ou outra carta para Teddy Lupin, em seu treinamento de auror – vai que precisa de um resgate profissional às pressas? – Eva chegou no horário combinado à porta do castelo praiano do velho russo.
Continuaria chamando Volkov de velho, porque era isso que ele era mesmo.
A porta foi aberta por uma Lupe animada, que insistiu para que ela a chamasse pelo primeiro nome e lhe informou que iriam dividir o quarto, coisa que parecia o céu para a menina, embora Eva não se importasse de ter um aposento só para ela depois de dividir o dormitório com tantas colegas por 7 anos.
Assim que flutuou as próprias malas para o primeiro andar e conheceu rapidamente as principais dependências da casa – o banheiro parecia que poderia ter um fantasma malvado morando dentro, mas a cozinha era saída de um conto de fadas – fez a pergunta principal do dia.
— E então, Lupe, onde o seu pai se enfiou, que não veio me recepcionar? — Eva perguntou enquanto aceitava um chá de laranja e cardamomo, que deixou a casa com um cheirinho fresco de verão e especiarias exóticas.
A garota empalideceu de leve ao som da palavra pai, mas logo percebeu que aquilo só poderia se tratar de um engano da sua convidada. Riu, desconcertada, enquanto se servia de bebida e sentava em cima de uma das pernas, na cadeira da cabeceira da longa mesa de madeira rústica da cozinha.
— Está falando de Wulf? Ele não é meu pai, é o meu meio-irmão. — A moça sardenta respondeu risonha, feliz de ter uma companhia feminina com quem conversar. Os dias podiam ser bem solitários no castelo. — Ele levou os meninos em um bosque a alguns quilômetros daqui, para ver algumas madeiras boas para fazer vassouras.
— Espera, ele não é seu pai? — Eva perguntou atônita, sendo respondida com um menear de cabeça divertido de Lupe. Sacudiu a própria cabeça rápido, porque essa informação não era lá tão relevante. Voltou a focar no que realmente importava. — Como assim ele foi buscar madeira com as crianças? Ele me pediu para chegar às 9h! Por que ele me pediu para chegar nesse horário, se ele nem estaria aqui para me receber?
— Ele sabia que eu estaria aqui e bem, precisava estabelecer algum horário para você, não é? Ele me avisou que você está com o prazo bem curto e que precisa evoluir muito nesse pouco tempo, então talvez não quisesse te distrair com as atividades da escola. — Lupe ofereceu uma explicação plausível, que só não fazia sentido por um detalhe:
— Lupe, se ele não queria que eu perdesse o meu tempo, porque estou aqui tomando chá com você? — Eva falou sem paciência e a moça a olhou levemente magoada. — Não que eu considere nossa conversa uma perda de tempo, mas... Você sabe, não vai me ajudar especificamente com o meu problema.
— Hum... Talvez tenha algo a ver com a lista. — A garota loira, hoje com os cabelos bonitos soltos tomou um gole de sua xícara distraidamente, fazendo Eva a encarar exasperada. — Ah! Você quer ver a lista?
— Sim, por favor, Lupe! — Respondeu com impaciência, fazendo a garota galesa levantar de seu lugar confortável para pegar a tal lista.
Capaz de Volkov lhe questionar o porquê da madame estar sentada tomando chá com biscoitos – sim, porque haviam biscoitos, deliciosos, por sinal – sem ter feito absolutamente nenhuma das atividades que ele tinha deixado para ela fazer e isso sim teria sido uma maravilha! Pensou com sarcasmo.
A moça voltou do corredor com um pequeno pedaço de pergaminho onde se via escrito apenas 3 coisas:
— Jogue fora todos os doces que trouxe consigo;
— Responda o questionário de Leopold Draxe;
— Faça duas séries de alongamento Moroi & Clark;
A corvinal olhou para a sua anfitriã, que havia voltado a sentar e soprava o açúcar polvilhado em seu biscoito com um biquinho charmoso. Lupe, agora que estava vendo de perto, parecia uma pessoa altamente distraída e sonhadora.
O oposto de seu irmão, estava bem certa.
— Lupe, quem são Draxe e Moroi e Clark? — Perguntou franzido o cenho para a lista, cuja única ordem que compreendeu foi a de jogar os doces foras, coisa que não estava disposta a fazer sem uma boa briga.
Precisava dos seus chocolates quando estava naqueles dias.
— São preparadores físicos da liga. — A moça respondeu solicita, depois apontou com o nariz para uma pequena coluna perto do varal de ervas secas da cozinha. — Ali tem um diagrama com as posições dos alongamentos de Moroi & Clark, se você não quiser perder seu tempo lendo diretamente do livro deles. Stanislaw Petrovsk deixou de presente aqui em sua última estadia, ele desenha muito bem.
— Petrovsk como em, Law asa de dragão, o batedor dos Vratsa Vulture? — Evangeline voltou a se sentar impressionada, quando a galesa fez uma confirmação de leve com a cabeça. — Caramba, então foi aqui que ele veio parar quando sumiu na temporada 2015-2016?
— Pois é, as pessoas não sabem, mas ser atingido por um balaço acaba se caracterizando como acidente mágico. A recuperação é sempre demorada e não tem feitiço que ajude nisso. — Lupe falou com compaixão dos pobres atletas que sofriam com esse mal. Eva sabia bem do que ela estava falando.
— Bem, vamos dar uma olhada nesses desenhos. — A garota caminhou até a coluna de sustentação do telhado da cozinha, cujo quadro com os diagramas se destacava. Eram todos uns bonequinhos que se pareciam muito com Law Petrovsk, executando os movimentos em um looping divertido.
Eva analisou cada um dos movimentos, estudando a postura das pernas, dos troncos, braços, pescoço e cabeça e também percebendo que cada desenho se repetia por tempos diferentes, alguns por 30 segundos, outros por 20 segundos em cada perna... Sorriu para isso, porque ao menos tinha por onde começar a sua recuperação.
Subiu de volta para o aposento que dividia com Lupe, trocou de roupa – um conjunto esportivo da Corvinal deveria ser o suficiente – então desceu de novo as escadas, animada. Tudo sob o olhar atento da garota loira.
— Se importa se eu tirá-lo daqui? Não? Obrigada! — Eva falou enquanto retirava o quadro de seu lugar na coluna da cozinha e o levava para baixo da marquise do lado de fora do aposento, onde ficava uma pequena granja e a horta que abastecia o castelo.
Lupe fez menção de alertar a garota nova que ela deveria executar as tarefas de Wulfric na exata ordem em que ele as listara, de preferência sob a supervisão dele, mas lembrou-se que o irmão havia lhe dito para apenas responder o que lhe fosse perguntado sobre os exercícios e nada mais.
Era uma regra estúpida, mas não podia dizer que não dava certo, porque só assim para alguns de seus alunos lhe prestarem algum respeito e a ouvirem futuramente. Eva era simpática, mas obviamente teimosa e impaciente, então um pouco de fracasso iria lhe cair bem. A moça bebericou o chá, já se divertindo de antemão com a nova aquisição da família para o verão.
Do lado de fora da cozinha, Eva preferiu fazer os exercícios ali, onde tinha o barulho agradável das ondas se quebrando mais a frente, depois da amurada, com direito a uma brisa marítima gostosa e uma sombra fresca. Se era para fazer alongamentos, ao menos que fossem relaxantes.
O quadro com as posições era grande e alguns exercícios exigiam um bom tempo para serem executados ou para sequer chegar na posição adequada, então Eva levou mais tempo para executá-los do que esperava. Os últimos deles finalmente a relembraram o porquê de estar ali no castelo.
Já na primeira série, seu joelho latejou como se pequenas agulhas estivessem sendo enfiadas sob a carne e quando estava prestes a acabar a segunda, ouviu a chegada do grupo animado de crianças no pátio da frente.
Ficou em dúvida se continuava os exercícios ou se iria cumprimentar seu preparador físico, mas a dor na perna acabou vencendo, lhe informando que já tinha feito o suficiente por hoje, sozinha. O melhor era perguntá-lo se estava fazendo tudo certo, não é? Afinal, para isso estava ali!
Pegou o quadro de onde havia grudado com um feitiço colante e o colocou ao seu lado, ao invés de flutuá-lo pelo caminho, como mandava a lógica. Estava cansada e dolorida, que se ferrasse a lógica.
Apoiou o objeto na mesa da cozinha, que havia se transformado completamente naquela meia hora em que esteve ausente: haviam bolinhos, pães e biscoitos servidos em bandejas forradas com toalhas delicadas e duas grandes jarras de refresco gelado sendo segurados por um Volkov de cenho franzido.
— Por que você está mancando mais do que estava ontem? — Ele perguntou com sua voz rude aos ouvidos, fazendo uma careta automática surgir no rosto de Eva.
— Olá, senhor Volkov, como está? Como foi de passeio? Eu vou bem, obrigada por perguntar. Na verdade, tive uma ótima manhã aqui com Lupe, ela... — Eva começou a tagarelar com sarcasmo, mas revirou os olhos ao ver o homem lhe dar as costas.
A única satisfação que teve foi vê-lo ter que se abaixar para passar no pequeno vão da porta. Ai, ai, as pequenas satisfações da vida... Continuou o seguindo até chegar no pátio, onde Lupe espanava as vestes de voo de um garotinho loiro, que narrava sua aventura para os outros amigos, com um sotaque carregado. Tinha quase certeza que era o mesmo meliante que havia roubado o seu casaco.
— As mãos de Clarrice se encherram de farrpas e toudos tinhamós certeza que ela chorraria, Lupe, mas ela foi bem parra uma menina, não é Clarrice? — O garoto deveria ser alguma espécie de líder dos outros meninos, porque todos o esperaram terminar de falar, para só então abusar a pobre garotinha, que deveria ser a protagonista do conto.
Lupe repreendeu o loirinho no que deveria ser russo, mas os outros moleques continuaram a mexer nas chiquinhas da menina, que estava com a expressão cada vez mais chateada. Volkov fez um som do fundo da garganta, que chamou a atenção de todos para ele.
— Chega disso! Você lavaram as mãos como eu mandei? — Ele perguntou severo e todas as crianças o olharam como se aquela tarefa fosse a mais sagrada de todas. Fizeram que sim com a cabeça. — Deixem eu ver.
Todas, sincronizadamente, mostraram as palmas para o senhor, que as vistoriou criticamente, antes de assentir sua aprovação. Colocou as jarras de refresco na mesa do pátio, então acenou para três meninos ruivos, muito parecidos para não serem irmãos ou ao menos parentes próximos, se aproximarem.
— McTominay um, dois e três, vão buscar o restante do lanche, sem bagunça e sem confusão, estamos entendidos? — O comando do homem havia sido claro e os três acenaram com sorrisos idênticos ante a honra de serem escolhidos para ajudar ao treinador. As outras crianças, treze no total, se sentaram ao redor da mesa.
Evangeline observou tudo com curiosidade, inclusive viu o momento em que o homem sussurrou algo discretamente para sua irmã mais nova, que logo foi até uma prateleira do galpão de vassouras. A moça voltou com um unguento, que passou na mão da garotinha que havia se machucado com as farpas.
A corvinal sorriu, porque ele provavelmente havia vistoriado as mãos das crianças daquela forma só para checar as de Clarice sem constrangê-la na frente dos meninos. Aparentemente o lobo tinha um coração.
— Posso me juntar à vocês para o lanche? — A apanhadora perguntou com simpatia às crianças, assim que os três ruivinhos chegaram com as grandes bandejas de comida, se sentando na mesa logo em seguida.
— Não, nós temos que falar, senhorita Parkin. — Volkov anunciou com seriedade. A moça conteve um suspiro de frustração, porque teria gostado de sentar com as crianças para comer um daqueles pãezinhos parecendo recém-saídos do forno. Se perguntou porque Lupe não havia lhe oferecido alguns quando estavam tomando chá na cozinha.
Seguiu o homem taciturno escada acima e não pôde deixar de reparar que ao menos ele tinha uma bunda bonita e costas largas, o que nem de longe compensava a sua personalidade de cão, mas ao menos era um bom começo.
Entrou no escritório de Wulfric Volkov com o espírito lá embaixo, porque seu joelho havia voltado a doer quase como doera no dia seguinte a lesão. Maldito homem e seu alongamento estúpido!
Ele se sentou na cadeira e fez um gesto para que ela fizesse o mesmo, no exato lugar onde tinham ocupado ontem. As circunstâncias também pareciam as mesmas: ela dolorida e ele a analisando, como se fosse um trabalho tolo, que tinha que terminar.
— Por que está mancando mais do que ontem, senhorita Parkin? O que andou aprontando? — Volkov a olhou sentado em uma posição desleixada, mas que ao mesmo tempo denotava uma aura de poder.
Um rei confortável em seus domínios.
— Não aprontei nada, só obedeci o que você disse na sua lista! Lá tinha escrito: fazer duas séries de alongamento, eu fiz as duas séries, ou quase, porque meu joelho começou a doer e piorou, como pode ver, então acho que a gente vai ter que mudar o curso de atuação. — Eva finalizou um pouco menos ofendida, à medida que ele foi deixando ela explicar toda a situação.
Aquilo era novo, não só na sua relação com ele, que a havia interrompido na última vez que quis se explicar, mas com todos os caras com quem já tinha tido o desprazer de conversar sobre Quadribol e/ou sua saúde. A enfermeira de Hogwarts, por exemplo, por mais simpática que fosse, também não lhe deu muita atenção, quando quis discutir os detalhes de sua lesão.
O homem se levantou da mesa e avançou até onde a garota estava, o que a fez ficar sem saber se devia levantar também ou não. Continuou sentada, o que não era uma posição muito agradável, porque, infelizmente, só dava para usar verbos agressivos para descrever as ações daquele homem: agora ele a estava acuando em seu lugar.
Volkov se abaixou na sua frente, o que lhe deu uma espécie de alívio, até ele a olhar nos olhos e deixar claro a sua próxima atitude, com um simples gesto de cabeça em direção a sua perna e uma palavra dia em tom de pergunta.
— Posso?
Podia o que? Eva não era nada econômica nas palavras, gostava de saber exatamente o que estava acontecendo e por isso mesmo fazia questão de ser detalhista em suas observações, então agora estava vivendo um conflito dentro de sua mente, porque queria perguntar exatamente o que ele queria fazer, ao mesmo tempo que não queria soar como uma garotinha assustada provinciana!
Atletas tinham seus corpos tocados a todo momento por preparadores físicos, não era grande coisa e tudo era muito profissional, Eva sabia, porque havia crescido no meio esportivo. O problema real é que ela, enquanto atleta, nunca havia sido tocada desse jeito, porque em Hogwarts não havia equipe técnica alguma, então não se sentia plenamente confortável com a ação.
Devia dizer isso a ele?
— Pode.
Não disse, porque era uma maldita covarde e porque realmente não tinha nada demais! Respirou fundo e ficou feliz de que ele tinha ignorado o lapso de tempo antes de sua resposta e agora não estava olhando para seu rosto, que ela sabia que estava vermelho, e sim para sua perna machucada.
Volkov começou a dobrar a calça de moletom da garota cuidadosamente, com uma habilidade tão boa, que o tecido macio conseguiu ser enrolado até suas coxas, sem estrangular sua circulação. Eva se perguntou onde exatamente ele tinha aprendido a fazer isso, será que era uma das habilidades exigidas para ser preparador físico?
Não perguntou nada e só observou o estudo atento que ele estava fazendo de sua lesão. Eva não fazia ideia do que ele estava vendo de tão interessante, mas ele tomou seu tempo, um longo tempo, antes de finalmente tocá-la.
Volkov pressionou com cuidado as laterais inchadas de seu joelho, aplicando uma pressão leve, mas constante. Retirou a mão, observou mais um pouco, então esticou a perna delicadamente para frente, em sua direção.
Ele era muito cuidadoso, para um cara tão grande.
— Sente doer na parte da frente ou atrás, quando faço esse movimento? — Ele flexionou a perna da garota de leve, uma, duas, três vezes, atento às expressões de leve desconforto que ela fazia.
— Na frente, principalmente quando dobro o joelho. — Eva explicou, também atenta às expressões dele. Pena que ele era um cara ilegível.
— Foi atingida por uma maldição de contato? — Ele perguntou sério e ela fez que sim com a cabeça. — Como?
Bem, Evangeline, esse era seu momento de brilhar! Conte a história do seu acidente e faça ele se desculpar por ter feito você assumir uma culpa que não era sua! Sua vozinha mental cobrou, mas o que a jovem fez foi o completo oposto.
— Recebi um feitiço que não era para mim. A pessoa que era o alvo real se abaixou e como eu não sabia direito o que estava acontecendo, não pude fazer o mesmo. — Ela falou com simplicidade, soando triste até mesmo para si. Volkov a olhou com atenção.
— Foi pega no meio de um duelo? — O homem estava lhe dando mais uma chance de se sair como uma vítima injustiçada da vida e dele também, mas de novo Eva escolheu outro caminho.
Por que estava escolhendo o outro caminho?
— Não era um duelo. Não chegou a ser, de todo modo. Um criminoso invadiu a escola e atacou nosso monitor, eu estava fora da cama depois do horário e não o ouvi quando ele pediu para eu não o seguir. Enfim, o feitiço não era para mim, mas eu deveria ter me abaixado também, afinal... Reflexos de atleta, né? — Riu, nervosa, mas Volkov a continuou encarando daquele jeito inexpressivo dele.
— Se você tivesse se abaixado, teria te atingindo provavelmente na cabeça, tinha que ter desviado para a lateral, é um movimento básico de duelo. — O homem explicou, enquanto devolvia sua calça para o lugar.
— Não sou boa com duelos e não sabia que estava participando de um, de qualquer forma. — A corvinal deu de ombros, porque era a mais pura verdade. Seus feitiços de defesa eram só um pouco melhores do que os domésticos, mas ainda assim poderiam ser considerados medíocres.
— Por que não é boa em duelos?
— Por que não sou boa em feitiços! — Eva explicou divertida e aliviada, porque sua perna estava coberta novamente e Volkov agora se apoiava informalmente na mesa a sua frente, de braços cruzados. Ainda intimidante, mas nem tanto. — Meus feitiços são todos medíocres, meu pai chegou até a pensar que eu pudesse ter algum problema na magia, quando minhas notas do primeiro ano chegaram, porque eu era boa em tudo, menos nessa matéria! Acho que ele pensou que eu era uma aborto.
A garota riu da idiotice de seu pai, mas então olhou constrangida para Volkov, porque mesmo sua expressão continuando impassível, de alguma forma ele pareceu mais sério, talvez tivesse sido alguma leve tensão em sua postura informal, que o denunciou.
— Não há nada de errado em ser um aborto. — Ele falou em um tom simples, o que poderia ser um comentário completamente casual, mas de alguma forma Eva soube que não era.
— Claro que não! Eu só... Os pais às vezes ficam preocupados com essas coisas, porque a vida sem magia deve ser muito difícil, mas não tem nada de errado em nascer sem magia, porque não foi culpa da pessoa, não é? Só... Aconteceu. — Ela finalizou sua justificativa, um pouco constrangida, com medo de tê-lo ofendido, porque era ridículo, estava mais do que claro que ele, Wulfric Volkov, não era um aborto!
— A vida sem magia não é difícil, os trouxas a vivem o tempo inteiro. — O homem falou com um sorriso mínimo, antes de se levantar e oferecer a mão para ajudá-la a se levantar também. Eva aceitou, mas para não parecer tão surpresa com o gesto, emendou uma resposta assim que pôde.
— Sim, claro, os trouxas vivem sem magia o tempo todo. Mas eles não sabem da sua existência, então acabaram improvisando milhares de coisas para suprir essa falta. Já um aborto sabe exatamente o que está perdendo e a nossa sociedade pode ser tão estúpida e cruel com o que é diferente, então eu imagino que seja apenas um tipo de vida que nenhum pai iria querer para seu filho, por isso que eu usei como exemplo. — Eva respirou apenas quando terminou de dizer tudo.
Podia uma explicação ser mais idiota do que uma gafe? Óbvio que sim, porque agora a corvinal estava se sentindo a mais tola das criaturas. Por que não deixou a conversa morrer com o comentário dele?
— Você estava certa, iremos mudar a forma de atuação ou melhor, segui-la da maneira correta. — Ele a olhou com diversão, ignorando seu balbuciar desnecessário. A bruxa o encarou de cenho franzido. — Você se livrou dos seus doces?
— Eu não e nem vou, por que faria? Eu estou dentro do meu peso ideal. — Eva respondeu teimosa, porque nessa frente ela estava bem disposta a lutar.
— Vamos tirar da sua dieta doces, leite e frituras, porque essas três coisas intensificam o processo inflamatório. — Ele citou e explicou didaticamente e a garota soube que ele fez isso de propósito, porque ela soaria infantil se insistisse no assunto. — Será temporário, só enquanto não nos livramos dessa inflamação no seu joelho.
— Ok, eu acho. Então vamos fazer assim: eu não como nenhum dos meus chocolates, os deixo guardados e pronto, ninguém precisa jogar nada fora, que tal? — Eva falou esperançosa, terminando sua proposta com um sorriso simpático.
— Eu não iria jogar fora, iria dar a Lupe, ela adora doces. — Volkov explicou bem-humorado, a fazendo encará-lo brava. — Não praticamos o desperdício nessa casa.
— Ótimo, porque vou manter meus chocolates! — Agora a corvinal se sentiu no direito de ser teimosa, que disparate, o homem iria entregar seus doces para a irmã comer na cama ao lado da sua?
— Você quem sabe, mas lembre-se, se cair em tentação, você é a que mais tem a perder. — Ele alertou sem piedade, o que a fez revirar os olhos. Comeria tudo certo e mesmo que “caísse em tentação”, não iria por todo seu esforço a perder, aquilo era um exagero sem tamanho. — E o questionário, você preencheu ou ao menos leu a bibliografia?
— Eu não, eu pulei logo para o alongamento, que tinha um quadro ilustrado. — A garota falou sem culpa alguma, porque não tinha ordem nenhuma para a execução das tarefas. — Você não colocou número para estabelecer uma sequência para eu fazer as coisas!
— Você come a sobremesa antes do jantar? — O russo questionou impaciente, então Eva deu um sorriso travesso.
— Só no meu aniversário! — Respondeu feliz, porque era uma tradição de todos os Parkin: no dia do aniversário, a sobremesa vinha primeiro!
Não porque quisessem saborear o melhor no início e sim justo o contrário, todos queriam encerrar a noite com um belo filé mal passado ou algum assado do avô feito durante horas em um braseiro.
— Ao menos sabe ler? Por que ser medíocre nisso também seria a única explicação para você ter pulado o item, indo direto para o texto ilustrado. — O bruxo falou com sarcasmo, fazendo a garota diminuir o sorriso, até se transformar em uma máscara de desprezo calculado.
— Eu sei ler, obrigada pela preocupação, mas não posso ser culpada por não entender as orientações de quem não se faz claro em sua escrita. Se queria que eu seguisse uma certa ordem, tinha que ter me dito isso. — Eva o acusou e ele apenas a olhou fazendo pouco caso de sua crítica.
— Disse a Lupe, você perguntou a ela? — Volkov respondeu sonso, fazendo a corvinal revirar os olhos.
— Lupe não me disse nada, se dependesse dela, eu nem saberia da lista, quanto mais dos detalhes! — Se sentiu mal por dedurar a pobre garota, mas não ficaria aqui sendo recriminada por erros que não cometeu!
— Mas... Você perguntou a ela? — O homem havia prolongado as notas com um sorriso debochado, então Eva soube que tinha algo ali. O encarou por alguns segundos, antes de chegar a conclusão óbvia.
— Vocês fizeram de propósito! Você disse a ela para não me contar nada, caso eu não perguntasse! Como pôde? Eu podia ter me machucado, podia ter perdido meu joelho para a inflamação e então? Teria válido a pena? — A bruxa perguntou gesticulando irritada, mas o russo permaneceu impassível, ainda com seu sorrisinho de deboche no rosto.
— Sim.
— Seu... — A vontade de xingá-lo era grande, mas a sorte dele é que sua necessidade de ajuda era maior, Eva pensou irritada. — Você é um homem absurdo, porém necessário, então tenho que te dar um voto de confiança, mas por Morgana, se você não me der os resultados de que preciso, juro que vou esquartejá-lo!
— Com as próprias mãos, imagino, já que não é muito boa com a varinha. — Ele completou a ameaça dela com uma expressão que demonstrava o exato grau de medo que estava sentindo no momento: zero.
— Tenho um ótimo feitiço esquartejador, se quer saber, mas mesmo que este não funcione, lembre-se de uma coisa: eu sou neta de açougueiro! — Ela falou no seu melhor tom intimidador. Saiu do escritório, mancando, mas ao menos não viu nenhuma sombra de riso no rosto do seu rival.
Assim que a garota fechou a porta, Volkov voltou para seu lugar, convocando com a varinha o livro sobre maldições de contato e suas sequelas, com um sorriso no rosto, porque a garota era teimosa e não conhecia o próprio corpo, mas ao menos tinha espírito.
Adorava quando seus jogadores tinham espírito.
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